AMOR E PSICANÁLISE (Transferência amorosa, transferência analítica)
João Carlos de
Araujo
Pré-texto
O que é o amor na
psicanálise? A demanda amorosa adquire uma importância fundamental na
relação analítica. Ela é material básico para o tratamento, ao mesmo tempo
que é resistência, obstáculo à análise. Aparece com essa “dupla função”,
ao mesmo tempo, antagônica e complementar. Afinal, que amor é esse? É o
mesmo amor dos enamorados? É justa a distinção entre amor na transferência
e amor fora da análise?
O amor genuíno do
paciente
No texto
“Observações sobre o amor transferencial” (1915), Freud, escreve sobre a
situação específica em que uma paciente se enamora do médico que a está
analisando. Freud alerta sobre a constância desse fenômeno na clínica e
das dificuldades que isso pode significar: “Todo principiante em
psicanálise, quando chega a ocasião, fica convencido de que as únicas
dificuldades realmente sérias que tem de enfrentar residem no manejo da
transferência.”
Do ponto de vista
da paciente, segundo Freud, são duas as alternativas diante desse fato:
abandonar o tratamento psicanalítico ou aceitar enamorar-se do médico como
um destino inelutável.
A situação parece
se complicar quando esse enamoramento se torna inoportuno e passa a
atrapalhar o trabalho analítico, ou seja, passa a agir como resistência à
análise.
Escreve Freud
sobre a paciente, que por causa da “irrupção de uma apaixonada exigência
de amor” fica sem possibilidade de compreensão interna (insight) e se
mostra absorvida pelo seu amor. Depois adverte que esta mudança ocorre
muito regularmente quando se está aproximando de uma recordação aflitiva
ou de algum fragmento reprimido da história da sua vida. A resistência
começa a se utilizar do amor, que já estava colocado na situação
analítica, a fim de atrapalhar a continuação do tratamento, desviando o
interesse da paciente pelo trabalho e colocando o analista “em posição
canhestra.”
O papel
desempenhado pela resistência no amor transferencial é inquestionável e
muito considerável, entretanto, não é a resistência que provoca esse amor;
encontra-o pronto e faz uso dele e agrava suas manifestações, escreve
Freud.
Não há dúvidas que
o amor que o paciente dedica ao analista seja amor ‘genuíno’; embora ele
seja característico na transferência, pois é intensificado, provocado pela
situação analítica e não leva tanto em conta a realidade.
No entanto, estas
características podem ser pensadas como próprias do apaixonamento.
Sentimentos muito poderosos porque derivam do reprimido, de fantasias
inconscientes, próprias da sexualidade infantil. Freud, então aponta que
não é isso o mais importante na transferência analítica.
“É verdade que o
amor consiste em novas adições de antigas características e que ele repete
reações infantis. Mas este é o caráter essencial de todo estado amoroso.
Não existe estado deste tipo que não reproduza protótipos infantis. É
precisamente desta determinação infantil que ele recebe seu caráter
compulsivo, beirando, como o faz, o patológico. O amor transferencial
possui talvez um grau menor de liberdade do que o amor que aparece na vida
comum e é chamado normal; ele exibe sua dependência do padrão infantil
mais claramente e é menos adaptável e capaz de modificação; mas isso é
tudo, e não o que é essencial.” (5)
O amor e a paixão em
Gradiva
Ora é exatamente o
estado descrito anteriormente que é atribuído a Norbert, o arqueólogo em
Gradiva de Jensen. Freud em “Delírios e Sonhos na Gradiva de Jensen”
(1907) compara o delírio do personagem ao estado apaixonado e faz uma
analogia entre o método empregado nessa obra fictícia e o método
analítico. Chamou o tratamento empreendido por Zoé-Gradiva de “a cura pelo
amor”. Norbert está apaixonado, louco de amor, transfere, atualizado,
intensificado e deslocado para a figura do baixo-relevo, um amor infantil.
Não se sabe por que, mas Norbert não pode se lembrar de Zoé, o amor
infantil está reprimido: quando se aproxima dessas lembranças infantis,
através dos sonhos, ele então começa a delirar. Zoé através de seu método
“ambíguo” - considera tanto na atualidade como na inatualidade o amor de
Norbert - “maneja” esse apaixonamento e desposa seu “paciente”.
Pode-se pensar
neste ponto, após a analogia entre o método curativo do personagem do
texto e o do analista, em transferência amorosa na transferência
analítica. A transferência (enquanto transporte de sentimentos) do amor
infantil (deslocado) para a figura do analista é o material do trabalho
que opera a partir do amor na transferência. Dentro desta perspectiva o
amor [passa a ter, uma importância fundamental para o trabalho analítico
pois] não é só material de trabalho seja para o analista como para o
paciente, mas também é a base da relação entre o analista e o paciente,
que garante a análise.
Freud aconselha o
analista a não Instigar a paciente a suprimir, renunciar ou sublimar seus
instintos, no momento em que ela admite a transferência erótica, pois não
seria uma maneira analítica de lidar com os mesmos. Propõe uma curiosa
analogia: “Seria exatamente como se, após invocar um espírito dos
infernos, devêssemos mandá-lo de volta para baixo, sem lhe fazer uma única
pergunta. Ter-se-ia trazido o reprimido à consciência, apenas para
reprimi-lo mais uma vez, um susto.” (5)
Como princípio
fundamental o analista deve permitir que a necessidade e o anseio da
paciente persistam, de modo a poderem servir de forças para o trabalho e
para efetuar mudanças, propõe Freud no texto.
Entretanto, o
analista não deve responder aos avanços da paciente, retribuindo-os: “ela
teria alcançado sucesso naquilo por que todos os pacientes lutam na
análise - teria tido êxito em atuar (acting out), em repetir na vida real
o que deveria apenas ter lembrado, reproduzido como material psíquico e
mantido dentro da esfera dos eventos psíquicos.” (5)
Não se trata de
recusar a demanda de amor do paciente, não é isso que está mais em
questão. Por outro lado, o analista não deve responder a essa demanda de
amor. O que quer dizer com isso?
O próprio Freud
mostra o caminho: “O analista deve seguir um caminho para o qual não
existe modelo na vida real”. Não se trata exatamente de receber o amor do
paciente na análise como algo irreal, mas de remetê-lo às suas origens
inconscientes. Assim, a “sinceridade do analista”, é condição para
possibilitar ao paciente “sentir-se seguro o bastante para permitir que
todas as suas precondições para amar, todas as fantasias que surgem de
seus desejos sexuais, todas as características pormenorizadas de seu
estado amoroso venham à luz. Ela própria abrirá caminho para as raízes
infantis do seu amor.” (5)
Resistência, sedução
e neutralidade do analista
A questão se
volta, então, para o analista. Cabe ao analista reconhecer e considerar a
demanda que está em jogo numa psicanálise. Para além da questão ética que
implica em não responder eroticamente ao paciente, está presente também a
questão do método (técnica), já que não se trata numa psicanálise adotar a
mesma solução que a encontrada pela Gradiva, ou seja, conquistar o
paciente. Não é esse o prêmio que o paciente recebe no final da análise, o
analista.
Segundo Silvestre,
no texto organizado por Gérard Miller, a demanda do paciente é de saber.
Ele quer que o analista o ajude no saber sobre si mesmo, naquilo que
desconhece sobre si mesmo e que está relacionado com seu sofrimento.
Os autores propõe
a distinção entre a noção de [amor de] transferência como sentimento em
questão na relação analítica, do conjunto dos afetos que surgem no
tratamento. Trata-se de diferenciar a vertente passional da vertente
dirigida para o saber inconsciente.
O analista provoca
inevitavelmente no analisando emoções e sentimentos, e todos os
sentimentos são possíveis. O analista não está numa posição neutra. Essas
emoções pertencem à repetição que é uma conduta do neurótico e talvez do
ser humano em geral.
No entanto, o amor
que está em jogo na transferência analítica é outra coisa: está ligado à
presença do analista e à função que ele ocupa no tratamento.
O analisando ama
seu analista por causa do que ele lhe confiou quando decidiu começar sua
análise e o que ele confia ao analista é, antes de tudo e principalmente,
o que ele não sabe de si. Assim, o analista deve responder ao amor do
paciente em termos de saber. Ele responde - interpreta - para fazer desse
saber uma verdade tal que mude o sujeito.
É nesse sentido
que os autores vão apontar que Lacan vai inverter a questão ao dizer que a
resistência é obra do próprio analista e não do paciente.
A resistência por
parte do analista, “resulta da interposição de sua subjetividade entre o
sujeito que fala e o retorno dessa palavra a partir do lugar onde ele a
envia.” (7)
Na situação
analítica o amor que está presente deve permitir ao paciente obter
respostas às suas perguntas, porém na condição de que o analista não se
inclua como o outro sujeito.
Responder à
demanda amorosa do paciente, como se fosse o analista, ele mesmo o objeto
desse amor é o mesmo que não escutar o paciente; é o Fédida chama de
delírio no tratamento. (2) Do mesmo modo, recusar essa demanda amorosa
como genuína é o mesmo que seduzir e trabalhar a serviço da resistência do
próprio analista.
Fédida em “Amor e
Morte na Transferência” escreve, que a ambigüidade diz respeito à posição
do analista, pois diz respeito ao sentido inconsciente, ao desejo
inconsciente que concerne ao inatual, ao infantil. Essa relação entre o
inatual e o atual define a temporalidade ambígua de todo tratamento
analítico.
Quando o paciente
fala de seu amor pelo analista é na inatualidade do infantil que ele deve
ser ouvido.
O importante desse
duplo sentido é que as duas verdades coexistem. Há sempre uma verdade no
inatual e uma verdade no atual. Entretanto, a fala do analista possui essa
peculiaridade de ser ambígua, e quando ele não pode sê-lo, então, cai no
equívoco, porque faz parecer que responde atualmente. O paciente acredita,
então que o analista responde àquilo que ele pede. Ao mesmo tempo o
analista se retira. Nessa situação o analista representa o papel do
sedutor sem saber que o faz.
A criança
experimenta excitações em seu corpo e quer comunicar-se com o pai e a mãe
aquilo que experimenta. É o adulto que provoca tais excitações, mas diz à
criança: “É você que experimenta isso, eu não provoco nada.” (2)
O paciente
confessa que se enamorou do analista e este para se defender,
imediatamente interpreta o paciente: “Eu represento o seu pai ou a sua
mãe” (2) - é exatamente essa a atitude do sedutor.
Segundo o autor,
trata-se de uma situação angustiante para o paciente, pois ele passa a
duvidar das excitações que sente em seu corpo. Nesse sentido a sedução
provoca uma ruptura da circulação do afeto.
O tratamento
analítico busca precisamente restabelecer a circulação de afeto, sendo que
o analista não pode agir concretamente, corporalmente. O afeto deve entrar
em jogo na análise e através da palavra. É este o lugar do amor na relação
analítica.
O que o paciente
comunica ao analista obviamente pode também se dirigir ao próprio sujeito
do analista, e o analista deve não recusá-lo. Mas não é isso que é o mais
importante na análise e para o paciente; o importante é o fragmento do
passado que ele repete na atualidade, na medida que isso significa o
desconhecido sobre si mesmo, e que deve ser inserido na linguagem.
E então penso que
não nos afastamos de Freud, pois segundo Laplanche e Pontalis (6), “mesmo
quando Freud vai mais longe no reconhecimento do caráter da repetição na
transferência, pois o paciente não pode recordar tudo o que está recalcado
e é obrigado a repetir o recalcado como vivência no presente”, ele orienta
o psicanalista a levar o máximo de conteúdo possível para o campo da
rememoração. De modo que Freud sustentou como ideal a rememoração completa
e quando esta é impossível, pode o analista se valer das “construções”,
tudo como esforço para “preencher as lacunas” do passado infantil. Freud
aposta no valor das palavras.
Esse esforço
justifica-se, ainda segundo os autores, porque tudo que é essencial na
transferência não é tanto a repetição do vivido na infância, quanto a
realidade psíquica: ou seja, mais profundamente, o desejo inconsciente e
as fantasias conexas do sujeito.
É através desse
saber que se pode pensar em resultados na análise (e em tratamento); e é
em nome desse saber - ou desse suposto saber - que se dá o amor pelo
analista.
O discurso amoroso,
afinal
Em relação à
questão colocada no início do trabalho: quanto a ser justo ou não
diferenciar o amor que surge na situação analítica daquele dos enamorados,
posso repetir que não me coloquei na intenção de respondê-la. Mas gostaria
de arriscar-me a dizer que ela pode ser enganosa se formulada desta
maneira.
Não há problemas
em dizer que o amor é sempre aquele velho conhecido, afinal ele tem mesmo
origem nas primeiras relações infantis de todos nós. Ele pode aparecer na
situação analítica como em qualquer outra relação. O campo é sempre o
mesmo: a relação.
Na análise, quando
não bem manejado, ele impossibilita a interpretação. A sensação é de não
haver diferença entre as duas partes em jogo, a função analítica fica
perturbada e o sentimento é de limite e fragilidade. É o contato com a
própria resistência, que vem atrapalhar e, às vezes, inviabilizar o
trabalho.
Talvez a questão
anterior seja melhor colocada, ao considerar não a diferença de qualidade
do sentimento, mas com que propósito, ou a que função o amor vem se
prestar nas diferentes relações - na amorosa e na analítica.
A transferência
amorosa é observada na transferência analítica, mas não se confunde com
ela. A primeira é material de trabalho, de análise, seja a paixão
desenfreada que beira o ódio, seja o amor mais sublime (idealizado ou
sensual). A segunda é por onde se sustenta a relação analítica, a
confiança do paciente no analista que outorga a sua função, a do suposto
saber.
Assim, na verdade,
o amor ocupa um lugar importante na análise, podendo-se dizer que esta se
estabelece naquele.
Mais do que
atualizar um passado esquecido, a transferência amorosa na análise permite
ao analisando enunciar sobre si mesmo: o que tem de mais valioso - porque
carrega a consistência dos sentimentos - e o que tem de mais profundo -
porque nunca lhe tinha sido permitido sonhar, pensar ou falar. É a sua
verdade.
Mas afinal, quanto
ao amor dos apaixonados, o amor “fora da análise”, o que há para ser dito?
Do ponto de vista
psicanalítico, certamente o amante é quem acolhe o desejo do parceiro, e
leva “grátis” tudo o mais: suas confidências, ódios e amores, seus gostos
e aversões, seu passado e seus projetos.
Porém o discurso
amoroso tem sua especificidade e não deve ser reduzido aos sintomas,
segundo Barthes (1). Neste sentido, ele é e sempre será inatual e
intratável.
Assim, o discurso
amoroso, não vai muito além de seu próprio enunciado. Ele tem na sua
relação peculiar com os signos o caráter de ser sempre uma declaração, uma
declaração de amor.
Aos olhos e
ouvidos daquele que não ama, é pieguice, vazio. E talvez o discurso
amoroso seja mesmo sempre vazio, e o enamorado sempre fadado a sofrer no
silêncio, já que o que fala não dá conta dos seus sentimentos.
Certamente o lugar
do amor para o enamorado, diferente do analisando, está mais próximo do
silêncio do que das palavras.
Como, então, não
compartilhar com Barthes quando ele escreve em seu livro?
“Freud à sua
noiva: ‘A única coisa que me faz sofrer, é estar impossibilitado de te
provar o meu amor.’ E Gide: ‘No comportamento dela tudo parecia dizer: já
que ele não me ama, nada me importa. Ora, eu a amava ainda e até mais do
que nunca; mas não me era mais possível prová-lo. E isso era o mais
terrível de tudo.’” (1)
Bibliografia
1-
Barthes, Roland. Fragmentos de um
discurso amoroso; vocábulo: “Gradiva”; “Signos”; Ed. Francisco Alves; RJ,
1989. 2- Fédida, Pierre.
‘Amor e Morte na Transferência’; Clínica
Psicanalítica; Ed. Escuta; SP, 1988. Freud, Sigmund.
Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas
Completas; RJ, Imago, 1996: 3-
“Delírios e sonhos na Gradiva de Jensen” (1907); 4-
“A dinâmica da transferência” (1912); 5-
“Observação sobre o amor transferencial” (1915); 6- Laplanche, Jean.
Vocabulário da Psicanálise/ Laplanche e Pontalis; Verbete:
“Transferência”. SP, Martins Fontes; 1992. 7- Silvestre, Danielle e Michel.
“A transferência é amor que se dirige ao saber” in: Lacan; org. Gérard
Miller; Zahar Editor, RJ; 1989.
(Monografia
apresentada para o seminário: 'Da Terapia Catártica ao Método
Psicanalítico' no Sedes Sapientiae)