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A VERDADE POR DOIS REAIS Roland Barthes, meu aluno no curso de letras, é muito distraído, coisa que a maconha só tem piorado, ultimamente. Num dia desses, ao tomar o ônibus circular para o campus, deixou cair do bolso a carteira, só se dando conta do fato quando, na faculdade, já subia a rampa para a sala de aula. Apavorou-se. Sem cartão de telefone, correu ao departamento de literatura e pediu à secretária que ligasse para o banco: tinha de sustar o talão de cheques. Depois, precisava correr atrás do ônibus, para ver se ainda achava a carteira. Como eu era o único professor por perto, tocou-me ajudá-lo (“Pelo amor de Deus, professor! Dinheiro não tem nada, dois ou três reais, mas todos os meus documentos estão lá”). Entramos depressa no carro e partimos em busca do ônibus, que já estava do outro lado da cidade. Roland Barthes parou-o e subiu correndo. Voltou desolado ao carro: — Nada. Alguém achou e levou. Tô literalmente ferrado, professor Rielli! Voltamos à faculdade, Roland Barthes sempre em silêncio. Imaginei a quantidade de cannabis sativa que consumiria, nos próximos dias, para suportar sua pequena tragédia pessoal. Pensei no calvário de repartições que enfrentaria para tirar os novos documentos. Só interrompeu o mutismo quando passamos pelo portão da universidade: — E se os documentos caírem na mão dos terroristas árabes, professor? Eles podem destruir a Casa Branca e botar a culpa em mim. — Calma, rapaz... Depois da aula a gente vai até a polícia. Com o boletim de ocorrência, ninguém vai poder usar o teu nome em vão. — Sei não, professor... — disse com a cabeça baixa. — Depois que li aquele romance chato que você pediu para a prova, O processo, do Kafka, fico esperando de tudo nesse mundo. Juro que quis concordar de pronto com ele. Mas tinha o direito de apavorá-lo mais que já estava? — Também não é assim, Barthes. Ainda deve haver alguma lógica nas coisas... — disse-lhe pouco animado. — Tomara... — gemeu ele, sempre recurvo e cabisbaixo. Para o meu próprio espanto, eu tinha razão. Mal entramos no departamento para as providências seguintes, a secretária deu-nos a boa notícia: — Alguém da rádio acabou de ligar. Uma senhora velhinha deixou tua carteira lá, Barthes... Roland Barthes quase piruetou de alegria. A caminho da rádio, concordamos que ainda havia um resto de lógica no mundo, para o nosso bem e o bem do mundo: nem todos os homens estavam endurecidos pela indiferença e pelo egoísmo, etc, etc, etc. — Depois de Kafka, convém sempre ler um pouco de Paulo Coelho, professor... Pra uma coisa contrabalançar a outra — disse-me rindo, sem esperar obviamente a minha concordância. Mas até que pensei em concordar. Parei o carro em frente à rádio, Roland Barthes desceu. Em poucos minutos estava de volta, sempre com o mesmo sorriso. — Tudo em ordem? — perguntei-lhe. — Tudo! Ou melhor, quase tudo... A velhinha levou os dois reais que tinha na carteira, acredita? Mas o resto está aqui: o cheque, os documentos, o retrato da minha mãe. A pessoa merecia bem mais que dois reais, você não acha? Concordei. A velhinha merecia mais, muito mais. No entanto, sua decisão de ficar com aquelas duas míseras notas verdes de um real, extraídas sorrateiramente do próprio coração da caridade — o pequeno crime no interior da boa ação —, equivalia ao mais profundo tratado sobre a natureza humana que pudéssemos ler ou ter lido. Não é que faltem pessoas íntegras no mundo, mas essa pequena história terminaria de maneira pouco convincente se aquele dinheiro, insignificante que fosse, não tivesse sumido da carteira do Roland Barthes. |