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NUNCA FOMOS TÃO UNIDOS — Então, reatou o namoro por telefone? — Mais ou menos — disse-me o colega do Departamento de Literatura. — Você aqui e ela lá em Friburgo? — Pois é. — São os mistérios do deus Eros — observei. — Não há só Eros no amor, Rielli — disse com desolado desprezo pela minha ingenuidade. — Há Tânatos, por exemplo, o deus da morte. Ou Marte, deus da guerra. Sobretudo esse. — É verdade — fui obrigado a concordar. — E principalmente o deus Sísifo, aquele que rolava... Rolava não: ainda rola. Está rolando até hoje uma pedra até o alto da montanha, e depois a pedra cai morro abaixo, e ele torna a levá-la pro alto. É a mais perfeita descrição do amor entre homens e mulheres. — Você não está exagerando? — Infelizmente, não. Foi aliás por isso que a gente brigou, antes dela viajar pra pesquisa da tese: o relacionamento tinha virado uma trágica mesmice. Quando pensava que a pedra ia parar lá em cima, vinha um vendaval violento e jogava de novo pra baixo. E começávamos outra vez a empurrá-la para cima. Ufa! — Foi então que saiu a bolsa dela pra Alemanha? — Quando ela embarcou, não havia mais nada entre nós. — E eis que um telefonema, vindo de lá do velho continente... — Pois é, Rielli. Começamos a falar por telefone toda semana. Depois, duas vezes por semana, revezando. Com a internet, era e-mail a toda hora. Tenho um disquete cheio deles, daria um livro. E não fica mais caro do que quando éramos namorados aqui no Brasil, lado a lado: a despesa com a telefônica substituiu os gastos com restaurante, motel, presentes, viagens à praia, etc. Com uma vantagem: acabou o tédio, voltaram os ciúmes, as brigas ferozes, um batendo o fone na cara do outro, depois vinham as reconciliações. Era uma tortura reconciliar sem a presença do outro corpo por perto... — Enfim, vocês descobriram a forma ideal de namoro, o telenamoro, o namoro virtual. — Não tenho mais dúvida. Uma nuvem de tristeza atravessou de repente os olhos do amigo: — Mas daqui a uma semana ela volta, depois de um ano... A tese de doutorado está prontinha. — E como vai ser agora? — perguntei-lhe, sem conseguir disfarçar a aflição. — Há dois meses, mandei um pedido de bolsa pós-doutorado pra mim. Deve estar saindo o resultado. O futuro do nosso namoro depende de um parecerista frio e anônimo do CNPq, em Brasília: se eu for pra França, é quase certo que continuaremos “juntos”. Se a gente voltar a viver lado a lado aqui no Brasil, vai ser o fim. |