CIVILIZAÇÃO DO UAI
José Carlos Zamboni
Minha visão de Minas
não é a do mineiro, nem do especialista em literatura ou arte mineira. É de
alguém que nasceu e viveu boa parte da vida na beiradinha
de Minas, do lado paulista da Mogiana.
Do ponto mais alto da
minha cidade, a
Em nada influiu nessa
atração uma certa birra dos meus conterrâneos contra
os mineiros, pois ainda era muito viva na memória local a guerra civil com os
mineiros, em 1932, os quais, quando entraram em Batatais, deixou todo mundo assustado.
A fazenda do bisavô, que tinha uma casa grande, construída pelo antepassado
mineiro que ali chegou por volta de 1850, recebeu todos os parentes da cidade, espavoridos com os inimigos que estavam chegando de fuzil na
mão.
Tenho uma cópia do
inventário desse tetravô mineiro, onde estão relacionados, com a mesma indiferença,
enxadas e escravos. Quando era criança, a fazenda já estava divida em vários
sítios que pertenciam ao bisavô e aos tios-bisavôs empobrecidos. Por sorte, meu
bisavô era o primogênito e herdou o pedaço da fazenda com a casa e a senzala,
que todo mês eu visitava.
Eu não sabia que
estava tendo aulas de uma parte importante da história do Brasil, ao vivo e
Havia um misterioso
cômodo, sempre trancado, o único em que não consegui entrar; e que depois, bem
mais tarde, fiquei sabendo o que era: era a sala dos livros e da papelada da
antiga fazenda. Que livros e que papéis eram esses, jamais vou saber, pois o
tio que ficou com a casa e o sítio, mais preocupado com os pés de café ao
redor, um belo dia recebeu o espírito do barbeiro ou do vigário do Dom Quixote
e botou fogo em tudo.
Mas Minas, que para
mim sempre foi mais mítica que real, é na verdade o maior estado do Sudeste, 7%
do país, e tem hoje dezoito milhões de habitantes, mais ou menos a população da
Grande São Paulo. Depois dos quatro milhões que Belo Horizonte retém em si e à
sua volta, o resto está esparsamente distribuído por mais de oitocentas cidades.
É o estado que mais cidades tem, algumas olhando para
picos ambiciosos e cheias de cavernas profundas. Escondem-se entre montanhas,
nos vales dos rios, ou se exibem tranqüilas nos campos ondulados, cortadas por
rios de águas límpidas, com milhares de cachoeiras. Há muito mato e represas
imensas, como a de Furnas, que são o mar de Minas, com praias que enganam bem
os praiano-maníacos.
Quatorze milhões de
pessoas espalhadas por 7% do Brasil: ainda há muitos milhares de quilômetros quadrados
de vazio separando os mineiros, uma boa parte deles com montanhas. Viria daí o
caráter arredio e desconfiado do mineiro?
Minas
está mais ou
menos o centro do país: é uma espécie de resumo do Brasil. Pelo oeste, faz fronteira
com Mato-Grosso e com este se parece. A norte, com
Goiás e Bahia — a Minas nordestina. Ao sul, encosta no país do progresso: é a Minas desenvolvida, ligando Belo Horizonte a São Paulo e ao Rio
que, junto com o Espírito Santo, a impedem de ver o Atlântico e ter sua própria
orla marítima. Contentou-se por muito tempo com Mar de Espanha, cidadezinha
da Zona da Mata, antes da construção das grandes represas de Furnas e Três Marias.
Caminhoneiros que vão
de norte a sul e de leste a oeste passam obrigatoriamente por Minas. Mas longe
das grandes estradas que ligam Belo Horizonte ao Rio, a São Paulo, a Vitória e
ao Centro-Oeste — e longe dos vários aeroportos espalhados pelo interior e
capital —, ainda há muitas cidades mineiras solitárias, de algum modo longe do
“barulho contemporâneo”, pra roubar uma expressão de Saul Bellow.
A Minas que mais aprecio é a das montanhas, sobretudo
das pequenas cidades perdidas nas montanhas, de algum modo ainda defendidas
daquele Barulho Contemporâneo.
Minas será mesmo um
estado? Ou está mais pra país, reunindo regiões tão diferentes como o Triângulo
Mineiro e o Vale do Jequitinhonha, o sul apaulistado
e o norte bem baiano? Eu até arriscaria a falar em cidades-estados, orgulhosas
de sua solidão, defendidas pela muralha das montanhas ou pelas distâncias
inabitadas. Talvez viesse daí o espírito municipalista
do mineiro, quase sempre muito apegado à sua região.
Botei na vitrola Lobo
de Mesquita, Antífona de Nossa Senhora
(Salve Rainha), com coro e orquestra barroca Armonico Tributo (instrumentos de época), com direção de Edmundo Hora. Prefiro
uma gravação dos anos 60 com a maestra Cléophe Person de Matos, com coro
e orquestra sinfônica convencional.
Faz tempo que não
volto a Ouro Preto. Não esqueço a primeira viagem, em 1974: sobretudo os sinos
que vi e ouvi do adro da São Francisco de Assis, no fim da tarde, numa outra
igreja mais abaixo e da qual só via o telhado. O sineiro ia de uma torre a
outra, pelo próprio telhado. Um som impressionante, que me deixou numa profunda
desolação, com uma puta vontade de dar o fora dali: o
rapazinho paulista de dezoito anos ainda não estava preparado para os fantasmas
de Ouro Preto.
Tiro da estante o Guia de Ouro Preto, do poeta Bandeira. Folheio
aqui e ali. A prosa de Bandeira é uma delícia, os bicos-de-pena
de Luís Jardim revelam a cidade melhor que qualquer fotografia digital. Paro no
capítulo sobre os viajantes estrangeiros. “Só mesmo o amor do ouro poderia ter
levantado uma cidade em tal lugar”, notou John Luccock,
viajante inglês, quando por ali passou no começo do século XIX e se espantou
com aquelas casas, edifícios públicos, pontes, chafarizes, pinturas, esculturas
e igrejas. Otto Maria Carpeaux, fã incondicional da
cidade, jura que nunca viu integração maior de arquitetura e natureza.
A inauguração de Belo
Horizonte, em 1897, substituindo Ouro Preto, foi até
providencial: de algum modo preservou a velha Vila Rica que, mesmo saqueada por
gerações sucessivas em seus tesouros artísticos, continuou sendo a cidade
simpática de sempre, milagrosamente encravada nas montanhas.
Ouro Preto está no
começo da literatura brasileira, a primeira vez em que apareceram, ao mesmo
tempo, no mesmo lugar, escritores e leitores para as suas obras. É o início da
nossa civilização urbana, se é que temos isso. José Basílio da Gama, Frei Santa
Rita Durão, Tomás A. Gonzaga e Cláudio M. da Costa vêm das minas ouropretenses e cercanias, das quais também saem as artes
plásticas barrocas e rococós do Aleijadinho e do Mestre Athaíde, a música de Lobo de Mesquita. O maior de todos
eles, sem dúvida, é o Aleijadinho.
A exploração do ouro
superficial, sem tecnologia para buscar o mais profundo (Portugal queria só o
enriquecimento rápido), fez o ciclo da mineração não passar de um século. E
Ouro Preto, na decadência, não deu mais que um Bernardo Guimarães (que no romance
O seminarista, de 1972, fala dos profetas
de Aleijadinho com mais incompreensão que interesse). Alguns intelectuais que
fugiram da ditadura de Floriano Peixoto, em 1893, e se esconderam
O realista Júlio
Ribeiro, autor do romance A carne, nasceu
ali perto, em Sabará, mas mudou-se para São Paulo. Por falar em realismo, tenho
uma tese muito particular: defendo que Machado de Assis, apesar de nascido no
Rio, é muito mais mineiro que carioca. Não foram poucas as
vezes em que ambientou histórias ou cenas nalgum lugar de Minas. Como exemplo,
o pungente final do Quincas Borba em
Barbacena.
O poeta parnasiano
Augusto de Lima e o cronista Antonio Torres são mineiros do mesmo período, mas
o fato mais importante da decadência mineira foi Alphonsus de Guimarães, “Pobre
Alphonsus, pobre Alphonsus!”, um dos maiores poetas do Brasil, aquela da Ismália que, quando enlouqueceu, pôs-se na torre a sonhar:
“Viu uma lua no céu/, Viu outra lua no mar.” Era sobrinho-neto de Bernardo Guimarães,
por cuja filha, Constanza, se apaixonou.
Quando os modernistas
paulistas estiveram
Falar do século XX
literário, em Minas, é quase falar da literatura brasileira contemporânea. É
preciso iniciar com dois pré-modernistas mineiros, de tendências diferentes,
mas ambos valorizando o ambiente provinciano: Afonso Arinos, autor dos contos regionalistas
de Pelo sertão, e Godofredo Rangel,
cuja Vida ociosa tem algo de Machado
no estilo e na visão de mundo. Rangel, juiz enfiado numa pequena cidade
mineira, se correspondeu a vida toda com o amigo
Monteiro Lobato, que publicou sua parte da correspondência no volume A barca de Gleyre,
um dos livros preferidos de Guimarães Roas. Por outro lado, infelizmente, os herdeiros
do juiz não autorizam a publicação de suas cartas.
O modernismo mineiro
surge em torno de A revista (1925),
com o puxador de fila Drummond: Pedro Nava que,
depois de velho, abafaria com suas memórias; o bom poeta intimista Emílio
Moura, que ainda espera por uma merecida veiculação nacional; Abgar Renault, cujas poesias completas, no fim da vida,
surpreenderiam os leitores já céticos da poesia brasileira; os belos contos de
Aníbal Machado, e de Rodrigo Melo Franco de Andrade, que publicaria um único livros de contos em toda a vida, Velórios, e depois iria cuidar do patrimônio
histórico mineiro; João Alphonsus, filho do “pobre Alphonsus”, que tanto no romance,
Totônio Pacheco, Rola-moça, como no conto, Eis
a noite, Pesca da baleia, não
envergonha sua ascendência; e Henriqueta Lisboa,
outra boa poeta que não é lida como merece.
Ainda na mesma época,
aparece um grupo em torno da revista Verde,
de Cataguases, com o curioso Rosário Fusco, que
começa a ser redescoberto; Guilhermino César, que
depois se mudaria para o sul, ajudaria na divulgação de Qorpo
Santo e escreveria uma história da literatura riograndense;
Ascânio Lopes, morto prematuramente; e Francisco
Inácio Peixoto, homem de letras que também era rico e contratou serviços de
Oscar Niemeyer e Portinari, publicando algumas obras, entre as quais um relato
de viagem à antiga URSS e um volume de contos no fim da vida, Chamada geral, pela Civilização
Brasileira.
Outros nomes, a partir
dos anos Trinta: Lúcio Cardoso e Ciro dos Anjos, na prosa de ficção; o ferino
Eduardo Frieiro que, na verdade, começaria antes, se
destacando sobretudo no ensaio, apesar de ter praticado
romances; os dois Murilos da poesia, o Murilo Araújo,
meio modernista, meio simbolista, e o Murilo Mendes; Cristiano Martins no
ensaio e na tradução (traduziu toda a Divina
comédia; seus decassílabos e terzas rimas abrasileiraram
definitivamente Dante), depois de um livro de poemas na juventude bastante elogiado
por Mário de Andrade.
Depois de Trinta, Minas ainda não estava contente e deu Guimarães Rosa, Murilo
Rubião, Mário Palmério e Campos de Carvalho na prosa;
Alphonsus de Guimarães Filho, Bueno de Rivera e
Dantas Mota, na poesia. E, de lambujem, o famoso “quarteto mineiro”: Fernando
Sabino e Otto Lara Resende na ficção e na crônica; Paulo Mendes Campos na
poesia e na crônica, e Hélio Pellegrino na poesia. Autran
Dourado também é contemporâneo deles e não é de se jogar fora.
Poetas e prosadores
mineiros se afirmariam nacionalmente depois de 60: Rubem Fonseca, Luiz Vilela,
Sérgio Santana, Afonso de Romano Santana, Afonso Ávila, Roberto Drummond, Oswaldo
França Junior, Adélia Prado e, na literatura infantil, Lúcia Machado de Almeida,
Ziraldo. Isso, sem esquecer os críticos mineiros: o também filólogo Aires da
Mata Machado, o já mencionado Eduardo Frieiro, Fábio
Lucas, Sabato Magaldi, Leo Gilson Ribeiro, Antonio Candido (que por acidente
nasceu no Rio, mas é de família mineira, cresceu em Minas e mineiro é), Valtensir Dutra (que em 1956 publicou com o pernambucano
Fausto Cunha uma Biografia crítica das
letras mineiras) e Lúcia Miguel Pereira, que fez romances,
mas é lembrada sobretudo pela biografia de Machado, a história literária do
período realista e pelo acidente aéreo que a matou, em 1959, junto com o marido
Octávio Tarquínio de Souza.
Minas,
com tanta história para contar, sempre atraiu forasteiros. Dos estrangeiros, é
preciso mencionar o francês Georges Bernanos, o romancista cristão do Diário de um pároco de aldeia e Sob
o sol de Satã, que durante a segunda guerra morou em Barbacena, na fazenda
Santa Cruz das Almas. De volta à França, morreria alguns anos depois, em 1948.
Otto Maria Carpeaux, que veio e não saiu mais do Brasil, também foi
fisgado por Minas, sobretudo Ouro Preto, que lembrava-lhe
outras de seu país, nos Alpes austríacos, com passado idêntico na economia e
nas artes. Escreveu vários ensaios sobre Ouro Preto em particular e os mineiros
em geral.
Emeric Marcier,
pintor romeno também fugido da guerra, também veio parar em Minas. “Veder Minas e poi morire”, deve ter pensado Marcier,
pois ali permaneceu para sempre, com ocasionais viagens à Europa.
Dos brasileiros que
gostaram de Minas, é preciso começar com Manuel Bandeira, que escreveu vários
poemas e crônicas de assunto mineiro, mas sobretudo um
belo Guia de Ouro Preto, ilustrado
com bonitos bicos-de-pena de Luís Jardim. Anda esgotado
há muito tempo; merece reedição de luxo.
Marques Rebelo
publicou um livro sobre Minas, no início dos anos quarenta: Cenas da vida brasileira. São pequenas
notas de viagem — bem humoradas ou líricas — sobre as cidades que visitava pelo
interior mineiro, em férias ou como inspetor do ensino público. Tem contos de
ambientação mineira. O protagonista de seu romance-diário, à clef, O espelho partido, faz todo ano uma viagem de férias a pequena cidade da Zona da Mata, presumivelmente Cataguases, hospedado pelo amigo Francisco Amaro (pseudônimo
de Francisco Inácio Peixoto, poeta e contista do Grupo Verde).
Cornélio Pena, com
três romances ambientados nas cidades mortas de Minas (Fronteira, Dois romances de Nico Horta e Repouso).
Cornélio Pena, embora fluminense, ambientou boa parte
de sua ficção nas cidades mortas de Minas e pode ser considerado meio mineiro.
Outro grande amigo de
Minas foi Alceu de Amoroso Lima, que publicou dois livros sobre a condição
mineira: Voz de Minas e Manhãs de São Lourenço. Mário de Andrade
escreveu ensaio pioneiro sobre Aleijadinho, em 1928. De Cecília Meirelles é o
poema Romanceiro da Inconfidência.
Ribeiro Couto, que foi promotor no interior de Minas, tem romances e vários
contos com ambientação mineira (O largo
da matriz, Cabocla, Prima Belinha). Antônio Callado ambientou
em Congonhas do Campo o romance A madona
de cedro, que seria depois filmado.
Em 1944, o então
prefeito de Belo Horizonte, Juscelino Kubitschek, convidou um pintor carioca
para criar a Escola Municipal de Belas Artes, mais conhecida por Escola do
Parque. O carioca era por Alberto da Veiga Guignard, carioca de tal modo radicado
em Minas, e com Minas identificado, que acabou passando por
mineiro. O mesmo Juscelino traria dois forasteiros modernosos
para cuidar da cenografia do parque da Pampulha: Oscar Niemeyer e Cândido Portinari.
Minas, boa de bola na
canção popular — Joubert de Carvalho, Ari Barroso,
Ataulfo Alves, Hervê Cordovil,
Geraldo Pereira, Lúcio Alves, Renato Andrade, Luís Cláudio —, não tem um compositor
erudito de projeção nacional, embora o mais famoso pianista brasileiro da
atualidade seja um mineiro, Nelson Freire, famoso no mundo todo. Mas um
compositor paulista, Camargo Guarnieri, compôs uma bela peça orquestral para e
sobre Minas: Suíte Vila Rica, baseada
em boa parte no som folclórico mineiro, originalmente escrita
para um filme e depois desenvolvida com autonomia. Foi dedicada a um mineiro, o médico Clóvis Salgado, que foi
ministro da educação de Juscelino Kubitschek e empregou Guarnieri como assessor
cultural.
Boas frases sobre
Minas e mineiros foram cunhadas por forasteiros. Millor
Fernandes, sobre a famosa reserva dos mineiros: “Mineiro nunca é o que parece,
sobretudo quando parece o que é.” E Nelson Rodrigues, sobre o individualismo do
montanhês: “Mineiro só é solidário no câncer”.
Tempos atrás, o tio
Paulinho, que também era meu primo e também ele descendente de mineiros, me
contou uma boa piada contra Minas. O sujeito chegou na
banca de revistas e pediu um “Estadão atrasado” (o jornal O Estado de São Paulo). O dono da banca trouxe-lhe um mapa de Minas.
É uma pena que Minas esteja se desenvolvendo da pior maneira, como parece ser
destino da espécie. A poesia mais autêntica é incompatível com esse progresso
tecnológico, que é um fim em si mesmo e, provavelmente, o fim de si mesmo e de
todos nós. Um moderno que não respeita o “eterno”, eterno no sentido daquelas
coisas mais duráveis do mundo, que existiram na época das cavernas e vão continuar
existindo na época dos robôs. Uma dessas verdades “eternas”, que os homens mais
sábios nunca contestaram, é a que bota o homem no seu devido lugar: “bicho da
terra tão pequeno”, na fórmula perfeita de Camões.