TURÍSTICA DEMAIS

 

 

A tagarela Sônia era professora da escola pública e já não agüentava mais ficar em casa, nas férias ou nos feriados compridos. Convocava o marido Nelson, que era chefe do departamento de água e esgoto da prefeitura. Nelson sempre a enrolava, dizendo que ia pensar. Que talvez. Que no próximo fim de semana...

— Chega! — disse-lhe. — Vou com minhas amigas e você cuida das crianças.

As amigas também eram professoras da escola pública. Sônia começou a viajar sem o Nelson em excursões para Caldas Nova, Guarujá, Parati. Até em Aparecida do Norte ela foi, onde aproveitou e fez uma promessa à Virgem Santíssima:

— Senhora, fazei com que aquele preguiçoso tire a bunda da poltrona e da rede! É tão chato viajar sem marido...

Mas a vontade do marido parecia mais forte que a da Santa: permanecia grudado à rede e à poltrona nos finais de semana. Só restava à professora continuar viajando, com cada vez mais ódio daquele marido de poucas palavras (que não demonstrava nenhum ciúme dela e de suas viagens).

A julgar pelo amor que o Nelson devotava à poltrona e à rede, em breve Sônia teria percorrido o país do Oiapoque ao Chuí, se o salário não fosse tão curto. Contentou-se com roteiros de pobre, dos quais eliminava cuidadosamente todos os lugares que tivessem a ver com cultura (como professora da escola pública, tinha esse direito).

Foi em Santos, numa tórrida noite de sábado — depois de passar a noite com as amigas num barzinho —, que pela primeira vez ousou substituir o Nelson na cama. Com um misto de carne satisfeita e consciência pesada, repetiu a operação mais duas ou três vezes. Depois da última delas, teve uma forte depressão. Não: não era certo o que estava fazendo — e jurou a si mesma que nunca mais repetiria aquilo.

Parou de viajar. Depois de algum tempo, no entanto, como já suspeitava, voltou a sentir o comichão de sair e passear. Antes de retornar aos ônibus de turismo e às amigas sem culpas, tentou outra vez arrancar o Nelson da poltrona e da rede. Falou até em separação... E o marido nada: nem se movia.

— Eu gosto de você, Soninha, apesar de você ser turística demais pro meu gosto... Detesto sair de casa. Vai com tuas amigas.

Com o ódio que sentia dele nessas horas, era capaz de voltar soropositiva da primeira viagem que fizesse, tanta era a vontade de morrer e matar... Mas uma fresta de lucidez se abriu em sua cabeça e concluiu que o marido, com aquela teimosia em ficar em casa, só podia ser mesmo doente. Nelson sorria, complacente: "Não tenho nada, benzinho. Tira isso da cabeça".

Depois de muito insistir, e antes da viagem a Caraguatatuba que faria com as amigas no próximo fim de semana, Sônia conseguiu levá-lo ao neurologista. Nelson, sempre tranqüilo, sentou-se com a esposa diante do médico, mas quem falava era só ela: fez uma descrição minuciosa da inércia do marido e da sua infelicidade de mulher sem companhia.

O médico ouviu-a com paciência e mandou fazer um mapeamento do cérebro do Nelson. Para profunda decepção da Sônia, tudo ia bem na cabeça do marido. "Sem anormalidades", estava escrito na folha de rosto do exame, um pouco acima da assinatura do médico. Ela folheou as outras folhas, cheias de linhas sinuosas: aquilo mais parecia um livro de geografia, com cadeias e cadeias de montanhas, do que um mapa cerebral. Impossível que em nenhum daqueles "morrinhos" estivesse a raiz da apatia do marido!

— Parabéns! O senhor tem uma facilidade invejável de produzir ondas-alfas — disse-lhe o neurologista.

— O senehor pode me explicar o que significa isso, doutor? — quase berrou a professora.

— Quer dizer que ele tem uma capacidade ótima de relaxamento. Seu marido não apresenta nenhuma anomalia neurológica.

Só faltava aquela! Enquanto o Nelson voltava feliz para casa, Sônia via o mundo desabar à frente do carro. Mas não foi difícil admitir que quem tinha "poblemas" (como costumava dizer) só podia ser ela. No dia seguinte, logo cedo, ligou envergonhada para a agência de turismo e cancelou a viagem a Caraguatatuba. Aproveitando o fone na mão, digitou o número do neurologista e marcou uma consulta para si mesma — torcendo, evidentemente, para o exame dar positivo.

 

 

 

O ANJO ATRASADOJosé Carlos Zamboni                                              Contos
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