A COISA MAIS TRISTE DO MUNDO

 

 

Na festa de despedida do Gomes, que se aposentava depois de toda uma vida dedicada à pesquisa e ao ensino, O professor de literatura conversava com a antipática Iélda, professora de língua e literatura inglesa. Geralmente muito técnica e pedante, parecia ter ido um pouco além da conta na bebida.

Primeiro o professor de literatura perguntou pelo marido, o Gerson de lingüística.

  Está enfiado num congresso por aí — ela respondeu e virou mais um pouco de uísque. — Depois que passou dos cinqüenta não perde uma oportunidade pra sair de casa e ficar perto das menininhas.

— Vocês parecem o casal mais regular da universidade paulista — disse-lhe o professor de literatura. — Quase trinta anos juntos, enquanto a maioria de nós já levou duas ou três esfregas conjugais. Provam que ainda é possível fazer bodas de prata e até de ouro na universidade...

Ela deu uma longa e sonora risada que ele atribuiu ao pilequinho.

— Você acha mesmo? — perguntou Iélda, apoiando-se no braço do professor de literatura para recuperar o equilíbrio.

Como ele insistiu em achar, a professora jurou que podia fazê-lo mudar de idéia. Ela ficou em silêncio, olhando para o fundo do copo — ou para o fundo da própria alma.

— Vou te contar um segredinho, desses impublicáveis. E olha que só vou mexer nisso porque você é meio poeta. Os poetas entendem melhor o coração das mulheres...

Como se fossem velhos amigos, aos quais tudo pode ser dito, começou a falar.

— Você deve se lembrar do Bastos da história da arte...

O professor de literatura primeiro fez que sim com a cabeça, e depois disse:

— Claro que me lembro.

— Não tem quem não se lembre do Bastos aqui... Foi um dos nossos mais brilhantes professores, antes que o nível começasse a baixar, depois dessas aposentadorias todas...

Nova pausa, outro gole de uísque.

— E foi também o único homem da minha vida... — disse-lhe com um sorriso medroso, girando o resto de uísque no copo, o gelo tilintando no cristal.

O professor de literatura arregalou os olhos, incrédulo, embora se julgasse preparado para tudo nesse mundo.

— Você é o único pra quem eu diria essas coisas idiotas... Jura que não vai me dedar ao Gerson? — deu outra risada e continuou falando: — A gente ia mesmo jogar tudo pro ar, sabia? Ele ia separar da mulher e eu deixaria meu namorado, que era o próprio Gerson, coitado. Ainda éramos alunos e o Bastos já era professor das Artes Plásticas, quase terminando o doutorado sobre as influências de Cézanne em Pancetti. Na hora H me deu aquele puto remorso. Sabe como é... Coisa de moça católica, educada em colégio de freira. Acabei ficando mesmo com o Gerson, viramos professores do IACANP, fizemos três lindos filhos e duas teses aprovadas com louvor e distinção. O casal mais invejável e regular da universidade paulista.

Depois dessa confissão a queima-roupa, o professor de literatura tinha o direito de ficar calado.

— O Gerson gostava muito de mim e eu não tinha nojo dele. Aliás, confiei nisso quando parei de vez de dormir com o Bastos. Acreditava que o amor do Gerson seria suficiente pra provocar o meu... Nos primeiros tempos, até acreditei que estava gostando do meu marido, mas senti logo que sempre faltaria alguma coisa. Com o tempo, ele percebeu que eu não o amaria nunca e se cansou. Nada como um beijo frio pra revelar o que as palavras não conseguem... Concordamos, tacitamente, em cuidar mais da vida acadêmica que da afetiva, e o tempo foi passando, criamos nossos filhos, publicamos importantes artigos em boas revistas indexadas...

Virou o resto de uísque e fez uma careta de dor.

— Devia existir uma lei proibindo viver junto sem paixão. E outra lei obrigando o casal a se separar quando ela acabasse. Num dia, você me falou uma coisa que ficou remoendo aqui — Iélda parafusava a cabeça com o indicador —, sobre quem não gosta de poesia e insiste em falar ou escrever sobre ela. A gente percebe que falta alguma coisa, mesmo quando tá bem escritinho o texto... Pois é igual, depois de tantos anos vivendo com uma pessoa só porque a razão mandou. Falta alguma coisa, e quando essa coisa se chama paixão, então a gente sente que falta tudo. Acho que me entende, não é? Você deve estar achando estranho eu te dizer tudo isso, afinal nem somos amigos. Mas acho que você era a única pessoa aqui pra quem eu poderia contar isso: que sou a professora mais burra e infeliz da universidade paulista, e que provavelmente vai morrer sem saber o que é amor. Tem coisa mais triste no mundo?

Iélda deixou o copo vazio na mão do colega.

— Só um poeta tem o direito de saber isso... — disse-lhe e, sem falar mais nada, saiu.

Em seguida, o professor de literatura não a viu mais na festa de despedida do Gomes (que se aposentava depois de toda uma vida dedicada à pesquisa e ao ensino).

 

O ANJO ATRASADOJosé Carlos Zamboni                                              Contos
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