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DEPOIS DO SONO PROFUNDO Como Antônio não sabia o que fazer da vida, depois que separou-se de Cleo — após dez anos de muita briga e não menos amor —, começou a freqüentar à noite os bares de Canaviais e Ribeirão. Reviu os antigos amigos, botou em dia a conversa. Foi como se tivesse acordado de um longo sono, os olhos agredidos pela luz do sol — no caso, a luz mortiça dos bares, entre a neblina de cigarro e o perfume de cerveja. Percebeu, de repente, que a longa noite da paixão o distanciara do mundo. Não lia mais jornal, não via televisão. Só tinha feito duas coisas naqueles quase três mil e setecentos dias: amar e brigar. Espantou-se portanto quando um amigo falou em conflito no Oriente Médio. — Tem certeza que os judeus e palestinos ainda estão brigando? — perguntou-lhe. — Como sempre... E a África continua daquele jeito, agora cheia de bebês aidéticos. A coisa nunca esteve tão preta por ali. — Não acredito. — E Fidel ainda é ditador em Cuba. — Falando sério? — Seríssimo. — E andam até dizendo que já estamos no século XXI. É verdade? — Pura verdade. Entramos no novo milênio e você nem reparou. Mas não mudou nada, é a mesma coisa. Aliás, piorou. Como diz o ditado, de hora em hora a coisa piora. — Não vi nada disso acontecer nem piorar, cara. Foi um sono profundo... Antônio tinha razão: o amor é um sono profundo, cheio de sonhos divertidos e pesadelos cruéis. Agora, na condição de homem desperto, cada pessoa com quem falava trazia uma novidade, quase sempre para pior. Foi então que, sem mais paciência para tantas notícias ruins, decidiu aproveitar aquelas saídas noturnas sob luz mortiça dos bares, entre fumaça de cigarro e bafo de cerveja, para falar menos e agir mais. Passou a procurar uma nova parceira de sono, de sonhos e de pesadelos — queria "dormir" mais dez anos. Só mais dez anos com uma nova mulher, com muita briga e amor, o livrariam do Oriente Médio, dos judeus e dos palestinos, da África miserável e suas crianças aidéticas, do eterno Fidel em Cuba e do imperialismo light norte-americano, do século XXI e do novo milênio, dos bandidos gritando por direitos humanos, do meio ambiente degradado, dos canaviais alastrando-se por São Paulo (sob o pretexto de garantir o funcionamento futuro dessas belas máquinas de poluir e matar que compramos em duras prestações mensais). Mais dez anos de sono profundo para o Antônio: ele merece. |