DIVERTIMENTO EM SOL MENOR

 

 

Seis e meia da tarde. Dona Veva apareceu na janela do sobrado. A casa é imponente, um neo-clássico do início do século, daquela arquitetura sólida dos velhos fazendeiros. A velha olha para o poente, sem nada compreender do poente. Anda ventando muito por esses dias: sempre faz muito frio na pele das velhas, sobretudo as solitárias. Olha o céu, a praça, os carros que passam.

Os cabelos grisalhos estão armados num penteado antigo, sem naturalidade. Vejo-a inquieta no parapeito, como que esforçando-se por, altivamente, não ligar para um lojista tão insignificante como eu. Sabe que sou o Dim, filho da Augusta — minha mãe conhecia todas as velhas de Canaviais, ricas ou pobres. Mas nunca me perdoou por abrir uma casa barulhenta de discos bem em frente ao sobrado quase centenário, numa rua que levava o nome do coronel seu avô.

Já que não entende o mundo aqui fora, fecha outra vez a janela — livro de leitura aborrecida. Pressinto o seu arrastar de chinelos pela sala, pelo corredor e, finalmente, fechando a porta do banheiro. Nem ali a deixo livre de minha curiosidade dedutiva: imagino-a expondo, com toda a minúcia da carne, o espetáculo tragicômico de sua decrepitude, seja na evacuação difícil, no banho lento, no enxugar tiritante.

Dona Veva é o passatempo melhor que arranjei para minha maldade. Como quase não entra cliente em minha loja, pois todos preferem desgraçadamente comprar discos em Ribeirão Preto, tenho tempo de sobra para ela (todo o tempo, aliás, que me sobrar antes de ser obrigado a dar baixa nessa loja sem nenhum futuro, condenada ao fracasso absoluto). E ela sabe que a observo...

Para minha infelicidade, porém, ela nem sempre está à janela, disponível ao olho sádico do vizinho frontal. Algumas vezes, resmunga e bate a janela em minha cara. A essa hora do dia, anda pela casa como uma sombra, arrastando os chinelos vagarosamente. Nem todas as luzes estão acesas — só as da cozinha e do banheiro. Deve ter muita vontade de ir à cozinha e repreender a empregada por um motivo qualquer. Ela aprendeu, pela vida afora, que os empregados quase sempre estão errados. Entra no quarto, de luz apagada e janela semi-aberta. Abrirá a porta do guarda-roupa, mexerá por mexer nas peças do vestuário, mudará alguma coisa de lugar. E depois sairá por onde entrou. Não saber fazer outra coisa a minha pobre velha.

Hora de fechar a loja e voltar à minha casa da periferia, às crianças barulhentas, à esposa implicante. Pego a chave na gaveta, o maço de cigarros amarrotado. Ainda quero ver a velha mais uma vez. Sei que sairá à janela de novo. Ela não se contenta se não assistir à loja fechando-se: faz parte de seu fim de dia. Se ela soubesse de meu aluguel atrasado, as duplicatas vencidas, o feijão carunchado, o olhar de escárnio desceria do sobrado, em vez de subir da loja.

Se ainda estiver nesse lugar quando ela morrer, prometo visitá-la no caixão. Não falei? Ei-la de novo no parapeito, os olhinhos miúdos encarando-me. Desvia-os em seguida, já sem muito cuidado em disfarçar. Olha para cima, para baixo, para o lado. Apoio o cotovelo no balcão, o queixo na palma e fito-a ostensivamente. Ela desaparece súbito, com raiva, agitando a cortina.

Consegui! Que sentido teria minha vida sem uma velha solitária para enfernizar?

 

 

 

O ANJO ATRASADOJosé Carlos Zamboni                                              Contos
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