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SINFONIA INACABADA Fazia quase meia hora que Júlia, a dona do maior supermercado de Canaviais, estava diante do espelho: com a paciência de sempre, o rosto sereno de quem cumpria uma tarefa obrigatória, ela secava e penteava o cabelo, depois do banho demorado. Manipulava o secador e a prancha, os cremes e a escova, com aquela familiaridade que só o tempo permite. Não era mais jovem. Entretanto, depois de uma certa época, com o sucesso que vinha tendo com o supermercado e sua solidão relativamente bem administrada, sempre cercada pelo carinho da filha, a vida possibilitou-lhe cuidar melhor daquilo que sempre considerou a parte fundamental de si mesma: o corpo. Mais que o corpo, a aparência do corpo. E então vieram a ginástica, a natação, as cirurgias plásticas que a deixaram com rosto de vinte anos, as visitas mais freqüentes e sem remorsos aos melhores salões de beleza em Ribeirão — coisas que, inicialmente, não passaram de expedientes para preencher o vazio de mulher separada, como um ritual religioso. Com o tempo, porém, começaram a dar resultados inesperados: rejuvenesceu, ficou mais bonita e bem humorada. Nunca, como antes, a urgência de viver foi tão imperativa. Por que só o ex-marido tinha o direito de recomeçar? Tão bem estava, por dentro e por fora, que o inevitável acabou acontecendo: arranjou um namorado, um pouco mais novo que ela, mas devidamente aprovado pelas filhas. Seria ele que, dali a pouco, faria soar o interfone e entraria na ampla sala do sobrado, prosearia animado com as meninas, esperando-a para o jantar em Ribeirão, no Montebello, onde se comia a lasanha mais apetitosa do mundo. Mas, sem que ela desconfiasse, um inimigo manhoso e traiçoeiro também a esperava naquela noite. Quando estava perto de botar um ponto final no cabelo, interrompeu o trabalho, os olhos muito arregalados, como se tivesse visto o próprio diabo. — Meu Deus, o que é isto? Aproximou o rosto do espelho e, abrindo delicadamente caminho com os próprios dedos, conferiu com tristeza o pequeno e quase imperceptível sulco, à semelhança de um sinal deitado de parênteses, de mais ou menos um centímetro, rasgando-lhe impiedosamente a carne, ali bem perto da sobrancelha direita. Uma meia-lua deitada. Uma pequena canoa. Ou uma risadinha sarcástica — o riso do próprio tempo que passava, mesmo para as mulheres mais cuidadosas. Um riso do ex-marido, quem sabe. Suspirou profundamente, com a sensação dolorosa de trabalho perdido, de ter passado meia hora absolutamente inútil diante do espelho e de si mesma. De que servia aquele belo penteado? E as cirurgias plásticas, o salão de beleza, a ginástica, a natação, o próprio namorado? Foi ao criado-mudo e chegou a tirar o fone do gancho para desmarcar o passeio, alegando uma enxaqueca súbita, mas logo acabou desistindo e resignando-se, ao perceber o ridículo da situação. Voltou à penteadeira e até chegou a sorrir — mas era um sorriso um pouco triste, de quem foi atingido de súbito por um raio de lucidez. Como bem conhecia os truques para impedir que essa percepção fugaz se transformasse em pensamento claro e ordenado, logo pode concluir o trabalho. No entanto ficou, pelo resto da noite, com aquela sensação de trabalho perdido, de obra para sempre inacabada — lembrou-se do título de uma música chata que o ex-marido gostava muito de ouvir, a Sinfonia Inacabada. Assim era a vida... Como se todos os truques que praticasse fossem resultar sempre, no fim de tudo, em uma nova e sarcástica ruguinha zombeteira. |