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FANTÁSTICO SHOW DA VIDA Naquela noite, o psiquiatra sonhou que estavam batendo em sua porta. Foi abrir e deu de frente com uma pessoa que, remotamente, lembrava-lhe o irmão Juninho, que o público em geral chamava de Cebola. Morava em São Paulo há mais de vinte anos. Era gordo, meio careca, melancólico, alcoólatra, sempre mal vestido. E funcionário público — um medíocre escriturário sem ambição num posto de saúde em Santo Amaro. No sonho, o irmão havia encolhido na altura e na gordura, cabelos bem penteados no lugar da calva, bem vestido e apresentável, com jeito de quem houvesse saído de um banho recente. Mesmo assim, não tinha o rosto saudável, mais parecendo um doente em convalescença. Doutor Rossi espantou-se sobretudo com os olhos: uns olhos perdidos de quem desconhecesse a própria identidade. Perguntou-se se seria mesmo o irmão. Não teria graça se perguntasse: — Você é mesmo o Juninho? Meu irmão, irmão da Judite, filho do Nego e da Páscoa? Havia, contudo, uma inegável essência de Juninho, um verdadeiro ar de Armando Rossi Júnior por trás daquele sujeito diferente que lhe batera à porta. Suplicou que ele entrasse, mas o novo Juninho alegou pressa: ficaria para a próxima vez. Despediram-se sem falar mais nada, nem houve aperto de mãos, e o médico fechou de novo a porta da sala. Acordou do sonho e não conseguiu mais dormir. Como o sol não fosse demorar, aproveitou para já ficar de pé. Fez uma xícara de café solúvel e acendeu o cigarro, sentou-se na sala. Pensou até em ligar para o irmão, ver se estava tudo bem com ele. Como não acreditava que sonhos fossem veículos de comunicação telepática, desistiu logo da idéia. Contentou-se só em pensar no Juninho, o que aliás quase não se dava ao trabalho de fazer, tão distantes tinham ficado um do outro. Não que fossem inimigos. Mas amigos é que nunca foram, como se não passasse de mera coincidência haverem nascido dos mesmos pais, um fato biológico sem nenhuma repercussão em suas almas. Pensou até em escrever um conto sobre aquilo: alguém, parecido consigo próprio, sonharia com o irmão metamorfoseado e em seguida, por via das dúvidas, lhe telefonaria. E aí vinha a surpresa: o irmão acabara de morrer, ou tinha sofrido um grave acidente, ou tinha acertado na loteria... Um conto fantástico, à Edgar Allan Poe. Desistiu depressa do conto fantástico. Sua vida estava mais para conto de Tchekhov (em que quase nada acontece) que de Poe (onde tudo pode ocorrer). Tinha certeza que, se ligasse para o irmão, ele estaria bem — “bem” pelo menos à sua maneira, com a voz um pouco irritada por ter sido despertado àquela hora, sete horas depois de enxugada a meia garrafa de uísque paraguaio. Não podia ser que, daquela vez, desse Poe em vez de Tchekhov? Havia sempre uma chance de ser verdade aquilo que a Judite vivia dizendo, sobre os sonhos serem mais mensageiros do além que do insconsciente do dr. Freud. Por que não dar uma pequena colher de chá ao seu lado gnóstico, ao menino que ainda vivia nalgum canto de sua alma e sempre fazia o nome-do-pai antes de pegar a estrada com carro? Por que ser sempre cético e racional, prudentemente de pés no chão? Depois de muito hesitar, o médico pegou o fone e discou o número paulistano do irmão. Como esperava, deu felizmente enredo de Tchekhov, Juninho estava bem irritado, etc., mas pela primeira vez na vida sentiu que valia a pena, de vez em quando, apostar no gênero fantástico. |