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ABAIXO WILLIAM SHAKESPEARE!

 

 

Para o crítico Harold Bloom, é Deus no céu e Shakespeare na terra. Mas eu aviso: é sempre um risco mexer com esse cidadão de Stratford-on-Avon, cujo pessimismo negativista pode contaminar. “E aquela profusão de vida que, ‘apesar’ de Shakespeare, também existe nas suas obras?”, você poderia me perguntar. “Tudo bem”, eu diria, “mas é melhor não arriscar. Pode sobrar para você a parte podre da fruta.”

Para ficar no mesmo nível, antes mergulhar na Divina Comédia. Dante é fogo mais brando, seu poema tem a vocação da luz, começa no inferno e termina no céu, lugar certo para fechar uma obra destinada ao mais perecível dos animais, junto do sol, das outras estrelas, guiado pelo seio platônico de Beatriz.

Provoca-nos ilusoriamente para o bem-longe, para aquele lugar onde a vida, segundo escreveu outro Poeta, é ordem, calma, beleza, e tudo nos falaria à alma na sua doce língua natal. E ficamos depois sonhando com a liberdade: despojarmo-nos das idéias de papel, do emprego-prisão, da carne opressora, do vento feroz da vida, escondendo-nos num humilde e telúrico ofício cotidiano — arar a terra, semear, colher. Fazer brancas canções de queijo. Fornicar rápido e casto como um relâmpago, de preferência com uma caipira casta e funcional da terra. E sobretudo rezar. Vamos ler Dante, amigo.

Para o fogo voraz esses livros de Shakespeare! De preferência, na mesma fogueira que acenderam o barbeiro e o vigário do Quixote. Todos eles tem a vocação da sombra, condenados e condenando ao inferno. Começam no paraíso ingênuo das primeiras obras e acabam no caldeirão ardente das últimas. Repito: é um perigoso negativista. Você nunca devia ter fuçado naquelas falas contorcidas — são formigueiros de lava-pés chamuscando a alma a cada parágrafo. Paulo Coelho faz mais bem ao espírito. Sério.

Como é que um músico, mais acostumado com sons sem significado imediato, poderia resistir à torrente incontrolavelmente destruidora de Shakespeare? E então você, amigo, que não tinha nada a ver com o peixe, acabou arrastado pela torrente. Você não agüentou o “sentido”. Músico não tolera o “sentido”.

Ao contrário da literatura que, antes de chegar ao cume, vem passo a passo pela planície da linguagem e do mundo, cheia desses Macbeth, Calibã, Iago, a música lida diretamente com as situações ditas universais da vida, com as alturas mais altas, as emoções puras antes do gelo da nomeação. Música não tem rosto — é alma suspensa no vazio. Um personagem de Marques Rebelo, inspirado em Cornélio Pena, desaconselhava um amigo de ler Dostoiévski:

— Você é prato raso demais para a sopa dostoievskiana.

Confesso-me prato muito raso para a sopa de Shakespeare. Sou da superfície e da terra firme, pescando bem seguro num barquinho preso à margem e tremendo de medo só em pensar de descer rio abaixo, sobretudo mergulhar na água, correr os riscos da profundeza, experimentar outras coisas além do que favorece o olhar animal.             

É certo que, do barco preso à margem, também vejo “outras coisas”. Talvez de viés, um tanto distantes, obliquamente, indiretamente, imprecisamente, como refletidas em pequenos cacos de vidro. Mas vejo, afinal. Coisas que seria melhor se não existissem.

Se a gente for relacionar tudo o que Deus não devia ter inventado, seria preciso um rolo de papel higiênico que desse volta ao planeta. Tem hora em que fico em dúvida: Deus faz bem ou não quando inventa coisa ruim? Parece que a vida tem que ser assim mesmo, com tudo o que tem: coisa boa, coisa ruim, coisa mais ou menos. E essa terrível consciência cristã, lembrando que o homem sempre terá culpa de alguma coisa.

Um filósofo maluco falou, há muito tempo, que só pode existir harmonia entre coisas diferentes. E a vida tem confirmado isso, nos séculos seguintes. O duro é que essa harmonia só é vista por Deus — ou por Shakespeare. Nós não: nós somos os ingredientes que vão morrer no bolo. Larga mão de Shakespeare, amigo! Vamos ler Jorge Amado e torcer para o Corínthias.

Ainda vivemos num mundo inventado  e mantido pelo Deus shakespeariano. O universo é mesmo um “causo”, contado pelo mais lombriguento dos jecas, sem nenhuma lógica, cheio de fanho e gagueira, luxúria e rinha, vingança e crueldade, ciúme e inveja, hipocrisia e ingratidão. Sem a menor sombra de sentido.

As explicações não convencem, venham de Marx, Freud, Einstein, Heidegger, etc. É o caos, enfim, sempre se reinstalando nas coisas e nos seres, uma tempestade furiosa vergastando o lombo da humana tapera. O que é a alma senão uma velho ensandecido esbravejando contra relâmpagos implacáveis? Continuar ou não continuar num mundo desses, em que a deslealdade é o princípio básico da mudança e da transformação? Eis a questão, a única dúvida concreta, resistente a todas as metodologias e ideologias afirmativas.

Nossa vida deve ser continuamente reconstruída a partir desse paradoxo: como permanecer vivos no mais inviável dos mundos? Continuar ou não continuar exercendo nossa vã filosofia entre o céu e a terra? É aí mesmo — no cruzamento dessas duas vias alternativas — que entra o chipanzé do escárnio, recebido com honras de chefe-de-estado em todos os teatros sérios do mundo.

Shakespeare é um palhaço do caos: solta escárnio pela língua, pelo rabo, pelo frasco de sêmen, ensinando ao público do Globe Theater ou da espreguiçadeira da nossa casa a lição urgente de zombar de tudo — para sentir-se superior à confusão do palco, permanecer respirando na platéia, navegando, até o último dia, no velho barco de casco furado.

Enquanto ninguém regresse do outro lado, trazendo notícias do imperscrutável além, é preciso ficar aqui ainda um pouco mais. O show é divertido: temos Othello e o ciúme, Hamlet e a vingança, Marco Antônio e o sexo, Ricardo III e a cobiça, etc. O homem shakesperiano é um lacaio das paixões, e nós, leitores de Shakespeare, eternos lacaios da melhor literatura jamais escrita no planeta.

O preço pago? Passamos a ver o mundo por um pedaço da janela de Hamlet, no castelo de Elsenor, ao mesmo tempo em que vivia na podre Dinamarca por mim vista: ao mesmo tempo somos sujeito e objeto, eis a questão.

Contudo, passamos a transportar, desde o momento em que abrimos o primeiro livro de Shakespeare ou entramos pela primeira vez num teatro com suas peças, um estranho e reconfortante habitante em nossa alma, pesado e altamente inflamável, sempre recém-nascido de si mesmo e sempre soprando ao nosso ouvido que “a vida, apesar do horror, ainda é bela.”

 

 

 

 

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