O SANGUE DO MUNDO

 

 

Depois que fui demitido da Cozinha Modelo, os colegas perguntaram:

— E agora, poeta? O que vai ser de você?

— Vou continuar vivendo — dizia-lhes. — E vou ver coisas que vocês nem imaginam.

Vi de fato muitas coisas. Por exemplo, quando eu entregava cartas em Ribeirão, para os Correios. Do setor de baixo, via lá em cima, além da avenida larga e movimentada, aquele enorme caixote plantado na colina seca. Como eu passava na avenida sempre com pressa, não tinha muito tempo a perder nem com o caixote nem com a colina. Ficava um pouco curioso, pensava que o caixote era um presídio ou uma febém, e continuava entregando cartas lá embaixo, debaixo de sol, frio ou chuva.

Um dia, sem mais nem menos, fui promovido para o setor de cima da avenida, com dois bairros populosos. Logo de manhã olhei para o caixote no alto: era, sem dúvida, uma casa de correção. Como seria entregar cartas num presídio? O que elas revelariam sobre os detentos e seus familiares? Planos de fuga criptografados, más ou boas novas, vinganças, saudades, remorsos...

Era um mundo diferente do meu, que borbulharia daí em diante sob minhas mãos curiosas, porém atadas, sem o poder divino de violá-las. Essa é a maior tortura de um carteiro curioso: saber que o sangue do mundo correrá sempre escondido naquelas veias de papel.

No fim do primeiro dia em minha nova área, depois de livrar-me de centenas de envelopes por ruas desconhecidas, cheguei finalmente ao endereço do presídio, no topo daquela rua tranqüila e quase sem casas. Ia saber, enfim, o que havia dentro do caixote: bandidos meia-solas, bandidinhos em flor.

Subi devagar a singela curva de asfalto que cortava a terra crestada e sem plantas, parei a moto um pouco antes do grande portão. Feliz por estar do lado de fora, espiei a muralha compacta e sem janelas que se erguia da comprida rampa. De perto, não era tão cinzenta como a dos presídios comuns. Tinha uma coisa além, uma ameaça de leveza entre os traços rudes da arquitetura. Cadeia de rico talvez, esses criminosos de colarinho branco e curso superior.

Li o destinatário da carta: sr. Fulano de Tal. O remetente era uma empresa de cartão de crédito, tinha de entregar em mãos, com assinatura e CPF do cidadão. Não era correspondência para sentenciado, mesmo de colarinho branco. Algum funcionário do presídio? Cheguei perto da portaria, e pelo interfone avisei quem era, apesar do uniforme já revelar minha procedência.

Depois de mostrar os documentos e esperar uns dez minutos — soube, depois, que o vigia ligava para o meu chefe —, o grande portão eletrônico se abriu e fui engolido pelas sombras. Era um pequeno estacionamento interno, coberto e pouco iluminado. Fui obrigado a deixar a moto ali mesmo, num retângulo próprio para isso. Acompanhado de outro vigia — um nordestino carrancudo —, passei por outro portão eletrônico e fui parar num grande pátio, aberto para o céu limpíssimo de junho.

Não era presídio nem febém nem coisa nenhuma. Pelo contrário. Aliás, muito pelo contrário. Ou seja, era um presídio. Ou melhor, ali nunca poderiam viver bandidos, mesmo de colarinho branco. Eu estava espantado. Não sabia o que estava mais escancarado no meu rosto: a boca ou os olhos. 

Parecia certos conventos espanhóis que certa vez vi num livro de arte, na biblioteca da escola. A primeira coisa que enxerguei, ao pisar no pátio, foram aqueles prédios de quatro andares, lado a lado, sobre o térreo que servia de estacionamento. Eram eles que formavam, com uma graça inimaginável lá fora, a muralha compacta e sem janelas que, inacreditavelmente, sobravam ali dentro. Nunca vi tantas janelas em minha vida.

No meio, entre as quatro muralhas de predinhos, havia uma imensa praça de grama moldurada pela rua que a contornava. Tinha árvores, arbustos e passeios, uma quadra de jogo, uma bela piscina, alguns quiosques de churrasco. E sobretudo aquele cheiro, um cheiro que podia ser, ao mesmo tempo, de mato novo ou de tinta fresca.

Enfim, para encurtar a conversa, era um condomínio fechado, o mais fechado que eu já vira naqueles anos de rua — e jovens mamães bem defendidas do mundo exterior, sentadas sob as árvores, brincavam com os pequenos filhos, conversavam entre si, riam. Aquele riso cristalino que eu já não escutava fazia tempo, o próprio riso da vida, embora cada vez mais dependente de estufas para florescer, absolutamente impensável num presídio, mesmo num presídio de colarinho branco.

O ANJO ATRASADOJosé Carlos Zamboni                                              Contos
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