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SAI DESSA E CAI FORA O poeta pessimista tinha uma Variant 72 caindo aos pedaços e um sítio de três alqueires no Tomba-Carro, onde vivia com seus livros, discos, cavalos, depois da viuvez e trinta anos ensinando português nas escolas mais sórdidas da cidade. Foi quando o amigo Zequinha, eleito prefeito municipal, convocou-o para a pasta do Meio-Ambiente: — Precisamos de um poeta. Ninguém na cidade gosta mais de mato e natureza que você. Ele ficou contente pela lembrança, num momento da vida em que já se achava carta fora do baralho. Por dentro, sem que ninguém visse, sorriu emocionado, mas proibiu o rosto de mostrar o que trazia na alma. Agradeceu e disse que ia pensar. Afinal, não era uma decisão fácil para quem, como ele, optara por nunca mais viver na cidade, desiludido com a educação, a política e as pessoas desse país. Só desse país, não: do mundo. O mundo estava perdido. O prefeito-eleito insistiu mais uma vez na tese de que ele era "uma peça fundamental no seu esquema de governo". — Volta pro sítio e pensa. Dou prazo até amanhã. Naquele fim de tarde, voltou para o sítio com a mesma angústia de Cristo ao pé do monte das Oliveiras, no vale de Cedron, antes de ser beijado por Judas e levado preso até Caifás. Guardou o carro na garagem e, em vez de rezar três vezes, pegou o litro de cachaça, sentou-se na varanda e viu o dia virar noite, viu as estrelas aparecerem, ouviu os primeiros açoites dos curiangos. O litro ficara quase vazio, mas não chegou a nenhuma decisão importante. Só lhe restava dormir. E dormiu como uma pacífica pedra da montanha. Na manhã seguinte, foi consultar os habitantes do sítio, que eram atualmente os seus conselheiros espirituais: as árvores, os bichos, o córrego, o vento. Começou com o Jequitibá-Rosa, atual chefe das árvores: — Irmão, aceito ou não o convite do Zequinha? O Jequitibá abanou um galho alto e rosnou com a voz grave, vinda do próprio cerne: — Não caia nessa besteira, amigo — e nada mais lhe disse. Procurou o mangalarga Joaquim, o mais velho dos seus cavalos: — O que fazer, velho Quincas? O Zequinha me quer na administração dele. — Não confunda o Zequinha amigo-de-escola com o Zequinha-prefeito: são coisas de natureza diferente, muito diferente. Alega uma úlcera qualquer, ou pressão alta. Sai dessa... O poeta sentou-se à beira do Corguinho, de água fresca e cristalina. Perguntou-lhe: — Serei ou não serei o novo secretário do Meio-Ambiente? Eis minha questão... — Teu meio ambiente está aqui, rapaz. E secretário você já é, além de vereador e prefeito. No sítio, você é tudo isso ao mesmo tempo, e ninguém vai te forçar a enfiar a mão na merda. Não foi assim assim que aquele filósofo francês definiu a política? Cai fora, poeta. O poeta pessimista, que prezava muito a palavra desses amigos do sítio, saiu mesmo dessa e caiu fora. |