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NOTAS SOBRE O QUIXOTE

 

 

Os romances de cavalaria, lidos pelo mau fazendeiro Quixote, já eram o que hoje chamamos de literatura fantástica, como sempre foi a maior parte da velha literatura, desde os mitos primitivos à Divina Comédia. Cervantes, ao zombar das façanhas sobrenaturais de Amadis de Gaula, não assassinou o gênero medieval, mas foi sem dúvida o criador do romance realista, conseqüência inevitável da cabeça moderna, para a qual a representação literária devia chegar bem perto do mundo natural.

O realismo, em vez de dar cabo do fantástico, que poderia até ser visto como uma dimensão da arte e da própria alma humana, apareceu como segunda alternativa, mais adequada talvez aos novos tempos. Aliás, as duas principais matrizes do romance moderno, Dom Quixote de la Mancha, de Cervantes, e Gargântua e Pantagruel, de Rabelais, representam essa dupla tendência, como puxadores de fila do realismo, no primeiro caso, e do fantástico reciclado pelo humor, no segundo caso.

De Cervantes para cá, é fácil reconhecer a supremacia quantitativa do realismo, pois a mentalidade pós-renascentista era e, sob muitos aspectos, ainda é por demais confiante na aproximação empírica da realidade, influenciada pela visão cientificista, apesar de não serem poucas, antes de Kafka, as obras significativas da outra tendência.

Kafka é considerado o marco do ressurgimento “sério” do fantástico, que se espalharia século XX afora e provocaria uma enxurrada de teorias e teóricos tentando botar ordem no caos dessa categoria literária, em geral professores de literatura enfeitiçados pelos gênios malignos da semiótica, que substituiriam, se deixássemos, a leitura prazerosa de contos e romances pela decodificação classificatória de sua aparência.

O homem da “metamorfose” teve contudo precedentes ilustres, fantásticos em todos os sentidos da palavra: Hamlet, Macbeth e A tempestade, para só citar três peças de Shakespeare; Viagens de Gulliver, de Swift; Fausto, de Goethe; os contos de Poe, Hawthorne e E. T. A. Hoffmann; Aurélia, de Gérard de Nerval; Dr. Jekill e Mr. Hyde, de R. L. Stevenson; A volta do parafuso, de Henry James, mestre do realismo psicológico.

Outros autores tidos como realistas, como Balzac, Dickens, Thomas Hardy e Maupassant, também visitaram ocasionalmente o fantástico, sem esquecer o nosso Machado. Para um público menos exigente — que nunca se esqueceu do sobrenatural e do maravilhoso —, houve o romance gótico pré-romântico e, a partir de Jules Verne e W. G. Wells, a ficção científica, que, sem abandonar o livro, prefeririam depois o cinema e a história em quadrinhos.

Cervantes, escarnecendo do fantástico e abrindo a porteira para a grande tradição realista, incorpora-o no entanto através das alucinações do Quixote, num verdadeiro contraponto com o “mundo real” que o cerca. A respeito de Sancho, nem é possível classificar como realistas as suas falas, muitas vezes até filosóficas e bem arranjadas silogisticamente, saindo magicamente da boca de um lavrador com “muito pouco sal na moleira”.

 

 

Para Sancho, porta-voz do cético Cervantes, Quixote era o homem absurdo: o que rolava a pedra de Sísifo até o alto da montanha e, depois que a pedra voltava ao ponto de partida, recomeçava a tarefa, como se nada tivesse ocorrido. Não entrava na sua cabeça aquela lógica de abandonar o sossego da fazenda para levar “palos y más palos, puñadas y más puñadas”, sem provar jamais “el gusto del vencimiento”. Pior: sem que aprendesse nada com os desastres aquele obstinado Cavaleiro da Triste Figura, apelido dado, aliás, pelo próprio escudeiro, no capítulo XIX, em seguida a uma peleja em que o magricela tinha ficado com alguns dentes a menos, depois da meia orelha já perdida anteriormente:

— “Le he estado mirando un rato a la luz de aquella hacha, y verdaderamente tiene vuestra merced la más mala figura de poco acá que jamás he visto.”

O cavaleiro gostou da pecha, pois os antigos cavaleiros eram conhecidos mundo afora por um apelido: Cavaleiro da Espada Ardente, Cavaleiro das Donzelas, Cavaleiro da Morte. Deduziu que seu biógrafo, aquele que uma dia contaria ao mundo suas façanhas, é quem teria inspirado o escudeiro aquela fórmula perfeita, imediatamente adotada:

— “Y para que mejor me cuadre tal nombre, determino de hacer pintar, cuando haya lugar, en mi escudo, una muy triste figura.”

Sancho disse-lhe:

— “No hay para qué gastar tiempo y dineros en hacer esa figura, sino lo que se ha de hacer es que vuestra merced descubra la suya y dé rostro a los que le miraren, que sin más ni más, y sin otra imagen ni escudo le llamarán ‘el de la Triste Figura’”.

 

 

Diz o sábio Sancho ao teimoso Quixote, no começo do capítulo XVIII:

Lo que sería mejor y más acertado, según mi poco entendimiento, fuera el volvernos a nuestro lugar ahora que es tiempo de la siega y de entender en la hacienda, dejándonos de andar de ceca en meca y de zoca en colodra, como dicen.

Evidente que Dom Quixote não concordou: mandou-o calar a boca.

Que significa isso de “andar de ceca en meca y de zoca en colodra”? Entre as 5.554 notas que Diego Clemencín (1785-1834), o famoso comentador do Quixote, escreveu sobre o romance de Cervantes, há uma que explica o aforismo. No sossego de uma fazenda perto de Madrid, onde passou os últimos anos de vida explicando o Quixote e, de vez em quando, puxando a orelha da prosa cervantina, Clemencín escreveu o seguinte:

“Ceca es palabra arábiga que significa casa de moneda. Los moros Ias tuvieron en varias partes de Espana, y senaladamente en Córdoba y sus inmediaciones. Los cristianos de Ia Peninsula dieron, no se sabe por qué, este mismo nombre a Ia mezquita grande de Córdoba, que era uno de los lugares de más devoción para los mahometanos, los cuales Ia frecuentaban con sus romerias y peregrinaciones. Y como hacian lo mismo con Ia Meca, de esto, de Ia casual consonancia entre Ceca y Meca, y de lo distante que están entre si Meca y Córdoba, de todo eIlo, combinado confusamente, hubo de resultar en el uso común Ia expresión proverbial de “andar de Ceca en Meca” para denotar Ia vagancia de los que se andan de una parte a otra sin objeto preciso y determinado. De ceca era fácil el paso a zoca, y de zoca a colodra, siendo nombres ambos de instrumentos o utensilios pastoriles. Zoca o zoco es lo mismo que zueco, calzado de madera, como también lo es colodro. Según el Comendador Griego, citado por Covarrubias en su Tesoro de Ia lengua castellana, andar de zocos en colodros significa salir de un peligro y entrar en otro mayor, que es lo de Escila y Caribdis puesto en rústico. Actualmente se lIama colodra el vaso o vasija que forman los pastores de un cuerno de buey despuntado, y les suele servir para ordenar en el campo.”

Clemencín estava se referindo a Caribde, sorvedouro no estreito de Messina, cidade da Sicília; e a Escila, ou Cila,  nome de um rochedo que há em frente ao sorvedouro. O navio que escapava de um perigo podia cair no outro. Daí o ditado: ir de Cila a Caribde, mais ou menos como ir de Ceca a Meca.

Um dia, folheando um dicionário de italiano, encontrei uma máxima que também integra o mesmo time: “Cadere dalla padella alla brace”: escapar da frigideira e cair nas brasas, que também é ir do mesmo à mesma coisa.

Outra versão da idéia aparece numa das traduções para o português do romance de Cervantes, a de Almir de Andrade, em que há a seguinte solução para a segunda parte da sentença de Sancho. O intransponível “De zoca en colodra” virou, num passe de mágica tradutória, “ir de Herodes a Pilatos”.

 

 

As razões de Sancho:

— “Lo que sería mejor y más acertado, según mi poco entendimiento, fuera el volvernos a nuestro lugar ahora que es tiempo de la siega y de entender en la hacienda, dejándonos de andar de ceca en meca y de zoca en colodra, como dicen”.

As razões de Dom Quixote:

— “Qué mayor contento puede haber en el mundo, o qué gusto puede igualarse al de vencer una batalla, y al de triunfar de su enemigo? Ninguno sin duda alguna”.

 

 

Uma certa inquietação consigo e com o mundo faz parte do jogo. Melhora o ritmo do poema da vida, quase sempre de pés quebrados. Além da medida, é o caminho mais curto pro absurdo. Kafka condenou Dom Quixote pela mania redencionista, e absolveu Sancho Pança, que não se deixou embrulhar pelas miragens do Cavaleiro da Triste Figura — só não conseguiu evitar o próprio salto no abismo do autodescontentamento. Queimou-se por excesso de voltagem.

 

 

Dom Quixote não admite que no mundo haja trigo e joio, e quer eliminar o segundo. Esta é a sua loucura. Melhor dizendo: a nossa loucura.

 

 

A ficção está dentro de mim — e eu dentro da ficção. Dom Quixote ainda é a obra mais moderna do ocidente.

 

 

Quem devia mandar mais no mundo? A inteligência ou a imaginação? A melhor porta de entrada ao assunto ainda é o Dom Quixote, de Cervantes.

 

 

Além das novelas de cavalaria, a sobrinha do Quixote, entrando numa fila milenar que começa em Platão, passa pelos Santos Inquisidores, por Stalin, por Hitler, também defende a queimada das novelas pastoris:

— “Não me surpreenderia se ao meu tio, uma vez curado da enfermidade cavaleiresca e lendo esses livros, lhe desse na telha fazer-se pastor e meter-se pelos bosques e prados, cantando e tocando, ou (o que seria pior) fazer-se poeta, o que, segundo dizem, é doença incurável e contagiosa.”

Cervantes parece não discordar completamente desse pessoal. E insere na história maior um “conto pastoril”, o episódio da pastora Marcela, para mostrar o que acontece com quem deseja “fazer-se pastor e meter-se pelos bosques e prados, cantando e tocando.”

 

 

Sancho e Quixote são as duas faces do espanhol que os criou. Sem qualquer uma delas, o rosto de Cervantes estaria mutilado. Aqueles muitos diálogos entre cavaleiro e escudeiro são, na verdade, uma interminável conversa do escritor consigo mesmo, um monólogo dialético...

 

 

Na época de Cervantes, o romance de cavalaria ainda era muito lido, mesmo com a figura do cavaleiro andante já não significando mais nada.

 

 

A melhor, a mais límpida, a mais profunda definição de vanguarda literária que já vi neste mundo veio de Ariano Suassuna, numa entrevista à televisão. Segundo o escritor, a verdadeira obra de vanguarda é aquela que consegue interessar a sucessivas gerações de leitores; e deu como exemplo Dom Quixote, de Cervantes.

Quem se atreveria a discordar?

 

 

O esquizofrênico tanto leu romances de cavalaria, que um dia decidiu armar-se cavaleiro e sair pelo mundo corrigindo as maldades humanas. Tratou logo de procurar um escudeiro para acompanhá-lo, mas não demorou a perceber que tinha mesmo era arranjado um psiquiatra, que o analisou implacavelmente durante toda a aventura, sem no entanto conseguir trazê-lo de volta à realidade. Foi o primeiro psiquiatra do ocidente: Sancho Pança.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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