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MÁRIO QUINTANA COMPLETO José Carlos Zamboni Sempre me perguntava quando é que o Brasil ia ter as Poesias completas de Mário Quintana. Sem falar em sua Prosa completa, no mesmo nível das poesias, reunindo seus vários livros de aforismos (que tem um pouco de tudo, das reflexões morais às estéticas, sempre com muita inteligência e humor). Enfim, chegou a hora da Aguillar se lembrar do grande poeta e, aproveitando o centenário do autor, nascido em 1906, juntou tudo que ele fez num calhamaço de 1000 páginas, com cronologia de vida e obra, iconografia, fortuna crítica — a cargo de gente como Paulo Rónai, Gustavo Corção, Augusto Meyer, Fausto Cunha, Paulo Mendes Campos —, homenagens poéticas de Drummond, Bandeira, Cecília Meirelles, e um prefácio legível da professora gaúcha Tânia Franco Carvalhal, que também organizou a edição. Se tem um público fiel junto às professoras, Mário Quintana ainda é vergonhosamente desprezado pela universidade como autor de uma poesia fácil e sentimental. Talvez por ter ousado dizer: “Eu nada entendo da questão social; faço parte dela, simplesmente”. O que esperar de uma época já não admite leitores livres, poetas livres? Aliás, os dois maiores poetas brasileiros do século, Bandeira e Drummond, foram leitores da poesia de Quintana, sobretudo Drummond, cuja grande poesia andava, paradoxalmente, a um passo da antipoesia. Afirmo, sem temor, que o autor gaúcho foi o último grande lírico da poesia brasileira (e, se não fossem os limites da língua portuguesa, da própria literatura universal no século XX). A biografia de Quintana pode ser resumida num parágrafo, pois quase nada aconteceu a esse homem simples, além do milagre da poesia. Nasceu em 30 de julho de 1906, em Alegrete, interior do Rio Grande do Sul (“nasci prematuramente”, disse o poeta, “o que me deixava meio complexado, pois achava que não estava pronto”) e morreu na última década do século—competindo deslealmente com um defunto mais famoso, o piloto Airton Sena—, em cinco de maio de 1994. E só podia ser mesmo em Porto Alegre, cidade de onde nunca saiu, morando em hotéis e pensões. Certa vez, perguntado sobre sua idade, saiu-se com esta: “Estou com 78 anos, mas sem idade. Idades só há duas: ou se está vivo ou morto. Neste último caso é idade demais, pois foi-nos prometida a Eternidade.” Suas entrevistas são sempre muito boas. Tinha gravada uma delas, exibida pela TV Educativa do Rio. Um dia, o ladrão entrou em casa e a levou, junto com outras fitas, cedês, computador etc. Sempre que podia, eu a mostrava aos alunos de Letras, que nela aprendiam mais sobre poesia do que nos maçantes e inúteis manuais de teoria da literatura, embora Quintana, em vez de dar entrevistas, preferisse ser lido: “Sempre achei que toda confissão não transfigurada pela arte é indecente. Minha vida está nos meus poemas, meus poemas são eu mesmo, nunca escrevi uma vírgula que não fosse uma confissão”. Como Brás Cubas, não se casou nem teve filhos, eximindo-se de transmitir a descendentes a herança da miséria humana, preferindo legar-nos livros de poemas. Viveu perto de noventa anos, boa parte dos quais lendo, trabalhando em jornal e criando poesia, além de traduzir Proust, Conrad, Voltaire, Virgínia Woolf. “Dizem que sou modesto. Pelo contrário, sou tão orgulhoso que acho que nunca escrevi algo à minha altura. Porque poesia é insatisfação, um anseio de auto-superação. Um poeta satisfeito não satisfaz a ninguém.” Sabia do próprio valor, apesar de recusar-se a escolher um verso seu para gravar em bronze, na praça de Alegrete: “Aqueles que agora estão/ atravancando o meu caminho,/ eles passarão,/ eu passarinho.” * Wilson Martins, bom de bola na crítica literária, errou o chute, ao meu ver, ao implicar com a edição póstuma de Água, de Mário Quintana (Porto Alegre, Artes e Ofícios, 2001), um livro cuja “suntuosidade tipográfica excede a importância dos poemas coligidos.” São os últimos poemas do autor gaúcho, publicado anteriormente no Relatório Anual 1993 do Banco do Brasil. Trata-se de uma edição trilíngüe, em português, inglês e espanhol, “repetindo em três línguas doze pequenos poemas de circunstância”, conferindo-lhe “uma dimensão internacional que não é a sua e à qual, de resto, jamais pretendeu.” Só porque não cortejou o eixo Rio-São Paulo (exceto nas duas tentativas frustradas de entrar na Academia Brasileira de Letras), nem ligou muito para a publicação de seus livros, devemos levar tão a sério o auto-desprendimento do autor e ver em Quintana um poeta sem ambição literária? Ao contrário, os temas de que tratou e a sofisticada expressão literária que foi elaborando com o passar do tempo são suficientes para o leitor perceber que o vôo do poeta não era desses de começar em sua Alegrete natal, para logo tombar cansado no rio Uruguai. Difícil ver nesse sofisticado escafandrista da linguagem e da alma humana um simples “uomo qualunque” da poesia, categoria na qual ficariam bem os outros poetas — Adélia Prado, Manoel de Barros, Paulo Leminski, Orides Fontela, Cora Coralina, Ana Cristina César —, em cujo time de menores incluiu Quintana. O fato de serem celebrados por “aclamação popular” não diminuiram a estatura de um Cervantes, Dante, Homero, Shakespeare, para só ficar nos maiores, cuja simplicidade temática, sintática e léxica é óbvia, explicando por isso o vasto público que conquistou e continua a conquistar. Se poesia menor é aquela sem alusões literárias, sem jogos esotéricos de técnica, como disse o crítico, poderíamos classificar como maior aquela cheia de alusões literárias e de jogos esotéricos de técnica... Diz que, dentre todos os daquele time menor, “Quintana foi e é o de maior finura intelectual, o maior dos menores, o de leitura mais atraente, para o que concorre, sem dúvida, o espírito irônico sempre alerta.” Ora, o “maior dos menores”, pela lógica, teria direito a aspirar a uma vaga no time dos grandes, onde se habilitaria, no mínimo, à condição de o menor dos maiores (que seriam, presumo, no julgamento do crítico, Drummond, Bandeira, Jorge de Lima, Murilo Mendes, Cecília Meirelles). “Podemos vê-lo como o uomo qualunque da poesia, com quem os leitores se identificam espontaneamente por “compreendê-lo” à primeira leitura sem complicados exercícios interpretativos.” Não só os leitores comuns se “identificam espontaneamente” com a poesia de Quintana. Pelo menos três daqueles grandes foram admiradores do poeta gaúcho: Drummond, Bandeira e Cecília Meirelles, sem contar outros poetas que sempre o leram, como Paulo Mendes Campos e Ledo Ivo. Não é preciso multiplicar exemplos. É suficiente para a conclusão que se impõe: Quintana conseguiu o feito invejável, que só a poucos poetas foi dado, de agradar aos gregos que praticam o ofício poético e aos troianos que dispensam “complicados exercícios interpretativos” para gostar ou desgostar de alguma coisa. |