O PROFESSOR QUE PERDEU A PACIÊNCIA

 

 

O guarda da escola: "O professor era magro, tinha cara de padre e era meio complexado com aquela acne no rosto. Tinha um fígado excelente: conseguia beber cerveja a noite inteira sem cair. Tomei algumas com ele."

 

A velha professora de geografia:  "Apesar de biólogo, tinha temperamento de artista, era muito sensível, e isso não é recomendável para quem deseja ser professor hoje em dia. O magistério é um exercício de tolerância e de compreensão do próximo, sobretudo tolerância para com o governo, que faz o possível para fazer de conta que não existimos. Magistério é coisa de padre ou freira. Quem não leva jeito para isso, fique longe das nossas escolas públicas."

 

O eletricista, vizinho de baixo: "Era uma cara antipático: nunca me cumprimentou."

 

O bancário aposentado, vizinho de cima: "Parecia ser boa pessoa: nunca deixava de cumprimentar a gente."

 

A escriturária da escola: "De vez em quando ele parava aqui no guichê da secretaria e ficava conversando comigo. Como também detesto ambiente de escola, tínhamos essa cruz em comum. E ele reclamava sempre da imundície das salas, da pintura super-gasta das paredes, dos vidros quebrados, das lousas trincadas, das goteiras, da falta de ventilação dos corredores e banheiros."  

 

O farmacêutico da esquina: "Sempre levava putas pra casa. Tudo o que ganhava, perdia com as vagabundas. Numa noite, escutei choro de mulher vindo da casa dele. Eram duas ou três da madrugada. Francamente..."

 

O diretor da escola: "O que eu podia fazer? O infeliz achava que o interior ainda era um mar de rosas. Me disse uma vez que tinha vindo de São Paulo pra fugir dos bandidos e levar uma vida mais tranqüila. E estava muito decepcionado por encontrar aqui, numa cidade pequena como Canaviais, o mesmo tipo de aluno insolente e baderneiro que tinha em São Paulo."

 

O delegado de polícia: "Quando ele me procurou pra falar da indisciplina das classes (depois de esgotadas todas as tentativas com o outro delegado, o de ensino), eu disse que aquilo fugia da minha alçada. Fui até duro com ele, sugerindo-lhe que largasse a profissão, se não conseguia impor ordem na sala de aula. Professor de ginásio, hoje, não precisa mais saber a matéria: tem de ser bom ator ou bom assistente social. De preferência, analfabeto."

 

Hildo Rielli, professor de português: "Ficamos amigos logo. Ele era boa gente. Mas logo percebi que não era feito pro magistério: tinha o espírito independente, não tirava o chapéu pra idiotice que reina hoje em dia nas escolas. Eu mesmo disse a ele: larga a mão disso, cara, você não nasceu pra escravo como eu."

 

O vereador petista na última sessão da Câmara: "Um aluno morto com as ferramentas criadas para libertá-lo das trevas da ignorância e do submundo. Isso é altamente simbólico!"

 

O representante do sindicato dos professores: "O colega, infelizmente, direcionou de forma equivocada a sua luta, quando os verdadeiros culpados estão lá em cima: são os homens do dinheiro fácil e da política irresponsável."

 

A merendeira: "Gente! Quanta crueldade! O capetinha, ainda de boné na cabeça, tinha aquele compasso enfiado no peito, uma lapiseira encravada na barriga e um apagador entalado na garganta. Por que não matou logo com um tiro? Pra que tanta maldade junta?"

 

A inspetora de alunos: "Achei até bom: é um peste a menos pra olhar durante o recreio."

 

O ANJO ATRASADOJosé Carlos Zamboni                                              Contos
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