ÀS ONZE NA PRACINHA

 

 

Duas da madrugada na pracinha deserta. Hildo está sozinho no banco frio, os braços cruzados, ainda esperando por aquela que ficou de aparecer às onze da noite. Há três horas, portanto, que espera. Quem ama espera uma eternidade. O que representam essas míseras três horas no grande seio da eternidade?

Vai continuar esperando, sempre olhando para o telefone da esquina. O relógio da Matriz, do outro lado da cidade, baterá mais quatro vezes antes do sol surgir. E só então, convencido mesmo de que ela não virá, voltará para sua casa, cruzando um pouco envergonhado com os trabalhadores a caminho do serviço.

Fazia tempo que não ouvia o urutau. Pois acabou de ouvi-lo agora, sempre gargalhando, como se estivesse rindo dele e de sua espera indefinida, tolo e ridículo amante que ainda acredita na vinda da amada, esgueirando-se entre as sombras da noite. E ele acredita mesmo: tem fé em que ela ainda virá. Sua voz ao telefone, ontem à tarde, foi enfática:

— Às onze, na pracinha... Naquele nosso banco, Dim.

Às dez e meia ele já estava na pracinha, no banco que era só dos dois. Às onze ela chegaria, começariam a caminhar lentamente pelas ruas desertas e escuras, sem medo nem destino. Quem ama não precisa de destino. O amor opera uma milagrosa imobilidade no tempo e no espaço, escarnecendo dos relógios, das fitas métricas, do Código Civil.

Começa a ventar. A blusa de lã já não o defende da solidão e do frio. Se ela estivesse aqui, ele poderia jogar essa blusa para o alto, rindo do vento e do frio. Por que ela não veio? Várias coisas passam pela sua cabeça, desordenadamente. O marido teria voltado inesperadamente? O filho mais novo adoeceu outra vez? Ou ela teve medo de continuar arriscando?

O pecado... O crime.... Nada disso lhe interessa agora. Quem ama não pensa nessas coisas demasiado humanas. Está solto no tempo e no espaço — rei absoluto de si mesmo. O guardinha da moto já passou várias vezes por ele e deve estar desconfiado. Mas o homem que está esperando a mulher da sua vida, aquela que prometeu deixar tudo por ele, não pode ligar para o guardinha da moto, os soldados da PM, o delegado de polícia. Está disposto a qualquer loucura pela mulher da sua vida.

Duas vezes foi ao orelhão da esquina, enfiou o cartão e digitou o número proibido. Recuou em tempo, com medo de que sua mãe atendesse. O que iria dizer à velha? Olhando para o telefone, no entanto, sente-a de algum modo próxima, pois sabe que bastaria um pouco mais de coragem para ouvir novamente a sua voz. É só arriscar. Quem ama não tem direito a essas loucuras?

Levanta. Vai devagar ao orelhão, o mais devagar que pode, o cartão gelado entre os dedos, repetindo mentalmente o número da mulher amada (número mágico, seu código de acesso ao paraíso perdido). Digita-o: três, sete, meia, um... Trêmulo, aperta as teclas restantes. O telefone começa a chamar. Seja o que Deus quiser.

 O telefone chama, chama. E nada. Ninguém na casa da mulher que prometeu chegar às onze. Alguma coisa aconteceu. Morte... Doença... Ou ela tirou o fio da tomada, sabendo que ele ligaria? Duas e meia da madrugada na pracinha deserta. Hildo volta ao banco frio, os braços sempre cruzados, ainda esperando por aquela que ficou de aparecer às onze. Há três horas e meia que espera. Quem ama não sente o tempo. O que representam, afinal, essas míseras três horas e meia no grande seio da eternidade?

 

 

 

O ANJO ATRASADOJosé Carlos Zamboni                                              Contos
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