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A MULHER QUE FOI MORAR NAS NUVENS Vi a Lucinha, pela última vez, no Aeroporto de Ribeirão Preto. Fazia frio naquele começo de noite e de julho. Ela estava muito elegante, sentada de pernas cruzadas na sala de embarque e olhando para um ponto indefinido no horizonte, à espera do jato da Tam que, logo mais, a levaria para junto das nuvens: as nuvens que sempre foram o seu ambiente preferido. Os cabelos loiros, e agora bem tratados, caíam suavemente sobre o blazer cor de conhaque (que, diga-se, combinava bem com a calça preta e as botas marrons). A seu lado, o velho professor cachimbava e lia imperturbavelmente o seu jornal. Para ele, o único horizonte digno de atenção eram as notícias do dia, o rolar insípido da política, os vaivéns da economia. Deslizei rápido para fora, à procura de um táxi: não queria que ela me visse. E dali até a Rodoviária, fui pensando no pobre Claudinei, o Dinei, filho do meu velho amigo Tião e sempre sujo da oficina de pintura — exceto no dia em que tomou o mais completo dos banhos e vestiu o único terno de sua vida, para subir o altar da Matriz junto com aquela mesma Lucinha, muito bela no vestido branco, aliás bela com qualquer cor e qualquer roupa. Parecia pisando em nuvens... Esquecido da minha condição de padrinho e amigo da família, durante toda a cerimônia fiquei desejando a iminente mulher do Dinei. No começo do casamento, chegasse ele da oficina com a bicicleta ou no Fiat velho, ela sempre o esperava no alpendre da rua Duque de Caxias. Até que nasceu o primeiro filho, e depois o segundo — uma menina bonitinha como a mãe. Lucinha engordou um pouco, talvez mais de um pouco. O Fiat velho foi, enfim, substituído por um Gol quase do ano. Lucinha e Dinei eram o casal mais regular e simpático do Castelo. Quando vinha de férias a Canaviais, livre da universidade e dos congressos aborrecidos, eu ia sempre visitá-los. O Dinei, então, já era sócio do pai na pintura dos carros. A situação ficou tão boa que a Lucinha desenterrou de seus guardados um velho sonho: continuar os estudos. Ligou-me perguntando: — O que você acha, Dim? Achei ótimo. O marido engoliu em seco a proposta da esposa, falou das crianças ainda pequenas, etc., mas a ciência acabou vencendo o preconceito: ela fez o vestibular e entrou para a Faculdade, no curso de pedagogia (seu sonho só estaria completo quando virasse diretora de escola). Lucinha dividia o tempo cuidando das crianças e da casa, lendo os infindáveis xerox dos livros, e ainda achando alguns minutos para caminhar na Gordovia — que o Dinei, mais amigo do prato e do copo do que das dietas, insistia em chamar de Rodobanha. Assim foram-se os dias, as semanas, os meses... Os três anos do curso passaram depressa. Quem poderia imaginar que, enquanto isso, aquela plácida e recém formada família do Castelo estivesse somente se preparando para a tempestade? Lucinha, com a franqueza de sempre, num belo dia olhou nos olhos do marido e avisou-lhe que estava de partida: — É sério, Dinei... Cuida direito das crianças. No dia em que você não quiser mais elas, me chama que venho na hora buscar meus dois filhos. Ela chorou, ele chorou. Dinei sentiu o vazio sob os pés. Mas, apesar de todo esforço do meu afilhado — incluindo uma tênue tentativa de suicídio —, Lucinha mudou-se para as nuvens: foi viver com o velho e risonho professor de sociologia, que fumava cachimbo e andava com a Folha de São de Paulo debaixo do braço. Quando Dinei abriu outra vez os olhos para o mundo, viu que estava sozinho nos cômodos da Duque de Caxias, com as duas crianças que a mulher lhe deixou de presente — sobretudo a filha mais nova, que era a cara da mãe e também ia ser uma moça muito bonita, dessas que só nas nuvens se sentem em casa. |