JÁ ERA NOITE AVANÇADA

 

 

Já era noite avançada, quase uma da madrugada, quando o velho fazendeiro voltava da casa do amigo Juca. Trocar o carro pelos pés era um velho hábito, difícil de abandonar. Tinha acabado de sair da Padre Claret, tomara a Nove de Julho, e já caminhava sob as árvores da velha fábrica de chapéu, quando viu aquele sujeito enorme e curvo vindo em sua direção.

Alguns metros antes de se cruzarem na calçada, o outro diminuiu a marcha, insinuando que ia parar, o que provocou no fazendeiro uma reação semelhante. Agora, pouco mais de um passo os separava, os dois parados e fitando-se. Apesar de alto, notou que ele tinha aquela idade indefinida dos miseráveis, numa escala que podia ir dos trinta aos cinqüenta anos.

O homem podia ser várias coisas. Tinha ao mesmo tempo o ar cansado de um “chapa”, a disponibilidade vadia do mendigo, o rosto duro e impiedoso dos assaltantes. Ou talvez não passasse de um pobre bêbado noturno, à procura de moedas por derreter no bar mais próximo.

No entanto, naquele minuto rápido em que devia decidir-se por uma dessas alternativas para melhor se defender — se fosse o caso —, o fazendeiro preferiu a pior hipótese, atitude de profissional um tanto fatalista, mais ou menos condicionado na prática diária da natureza imprevisível, sempre esperando pelo pior.

As evidências decidiram que ele estava diante de um perigoso bandido. O que se podia esperar, no Brasil, de um sujeito mal vestido, mais preto que branco, àquela hora da noite? Quem mais andaria daquele jeito, ou traria aquele brilho fosco no olhar se não fosse um fora-da-lei? Só lhe competia, então, agir com inteligência e cautela, tentando botar em prática aquilo que as pessoas sensatas viviam recomendando para situações como essa.

Bem que a mulher vivia dizendo para não andar mais à noite, como ainda teimava irracionalmente em fazer, sobretudo agora que chegava aos setenta anos.

— Você já não é mais moço, Tonho. O mundo está diferente.

Aliás, não foram poucas as vezes em que, nos últimos tempos, viu-se diante de alguma situação insólita no meio da noite. Quase foi atropelado por um carro, certa madrugada, no cruzamento da Marechal com a Catorze de Março, e era alvo freqüente de provocações das gangues que voltavam das festas. 

Canaviais — sabia bem — há muito deixara de ser uma cidade plácida, cada vez mais ameaçada por Ribeirão, que em nada diferia das metrópoles idiotas, com o trânsito nervoso, o tráfico de drogas, a crescente e ingovernável periferia, aprendendo diariamente com os filmes americanos que uma cidade moderna deve ser impassível e cruel.

O homem, já parado à sua frente, nada dizia. Não tinha arma na mão, nem parecia esboçar algum gesto agressivo (só os olhos eram duros, como se entalhados em pedra). O fazendeiro sabia que a única solução era seguir em frente, passando ao largo daquele bloco de carne humana que lhe barrava o caminho. E foi o que começou a fazer, quando um braço comprido se deslocou em sua direção:

— Amigo, onde fica a rua São Paulo? — perguntou-lhe uma voz grave e seca.

Desviou-se bruscamente do estranho e recomeçou a andar. Olhando para trás, sem parar, ia dizendo enquanto distanciava-se:

— É só seguir em frente... Três quadras acima.

Repetiu mais de uma vez, usando os gestos o melhor que pode, de modo que o sujeito não tinha mesmo como não encontrar a rua São Paulo. Vinte ou trinta metros depois, perto do hotel, voltou-se outra vez e viu-o subindo a avenida na mesma marcha cansada, sempre curvo. Ao mesmo tempo em que se envergonhava da atitude medrosa, sabia não haver outra saída nesse mundo louco senão continuar aperfeiçoando, cada vez mais, a capacidade de desconfiar do próximo.

O ANJO ATRASADOJosé Carlos Zamboni                                              Contos
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