NAMORADAS

 

 

 Pedro hoje vota no Partido dos Trabalhadores, apóia o movimento feminista, o movimento negro, o movimento gay e tantos outros movimentos importantes para a redenção definitiva da humanidade. Mas já foi, um dia, um simples ser humano, sujeito às incorreções e abismos que compõem a alma dos adultos e das crianças, sobretudo dos adolescentes. O que estaria na base, acredito, de seu atual socialismo reparador e cheio de culpas.

O primeiro desastre amoroso do Pedro aconteceu aos catorze anos, quando ainda não era super-homem e passava as férias numa pequena cidade aqui perto de Batatais, na casa da tia Dorinha. O tio Ado, marido da tia Dorinha, era professor de matemática no ginásio de estado, numa época em que o magistério ainda era uma profissão respeitável e, embora não deixasse ninguém rico, permitia à família desfrutar da amizade do médico, do dentista, do padre, do delegado, do gerente do banco, de um e outro fazendeiro. Enfim, o tio, a tia e as primas do Pedro pertenciam àquilo que poderíamos, grosso modo, chamar de elite local.

Foi uma dessas primas, a Lucinha, que trouxe um dia a boa nova ao Pedro:

— A Sofia falou que gosta muito de você...

 Sofia, uma menina magrinha, de cabelos compridos e olhos espertos, era sobretudo a filha do doutor Camilo, o dentista da cidade. O Pedro folgou em sabê-lo, como se dizia antigamente. Mas o diabo era que ele andava enrabichado pela Marinês, que não era magrinha nem tão esperta. Via-a sempre na praça, onde trocavam alguns olhares e sorrisos.

Como a Marinês não era do círculo de amizades da prima — era uma simples filha de pedreiro —, teve que se virar sozinho para vencer a timidez e falar com a menina. O que o desejo não faz? Por fim, aproximou-se e foi bem aceito, marcando já um encontro para o dia seguinte, em frente à igreja (que tinha a pintura muito gasta e um alto-falante no alto da torre).

A Marinês, que era bem mais bonita que a Sofia, estava esperando-o com uma amiga, a Leni, uma pretinha que nunca falava nada e só sabia rir, com a mão sempre reprimindo a boca. Depois de umas voltas na praça, comeram pipoca e combinaram ver um filme na matinê do domingo (depois da Marinês jurar que não traria a Leni).

As primas, quando souberam da nova namorada, caíram em cima do infeliz:

— Credo, Pedro! Você tem coragem de se meter com essa gentinha?

Desprezar a filha do dentista e sair com filha do pedreiro (que, ainda por cima, era amiga de uma pretinha tão feia e tão boba como aquela...), era mesmo imperdoável. Tanto disseram e caçoaram — e a própria tia Dorinha entrou no coro —, que ele decidiu que não devia aparecer no encontro combinado. Embora a Marinês o agradasse, não houve matinê no dia seguinte, nem nunca mais falou com a filha do pedreiro.

Mas — que diacho! — não podia ficar sem namorada. Depois de muito pensar e hesitar, concluiu que a Sofia não era tão feia assim e, após intermináveis negociações consigo próprio, decidiu aceitá-la, incumbindo a prima de fazer a intermediação. Lucinha, que gostava particularmente dessas coisas, foi e voltou sorrindo:

— Pode tirar a cavalinho da chuva, Pedro. A Sofia não quer saber de você nem vestido de ouro e prata. Ela te viu andando na praça com aquelas duas putinhas.

O ANJO ATRASADOJosé Carlos Zamboni                                              Contos
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