UM LEITOR BRASILEIRO DE BORGES

 

 

José Carlos Zamboni

 

O poeta Luiz Antônio de Figueiredo é paulista, da pequena cidade de Presidente Alves, entre Bauru e Marília. Em Marília estudou Letras, e ali foi aluno do poeta concretista Décio Pignatari. Atraído inicialmente pelo concretismo, mudou-se para São Paulo, onde escreveu e traduziu poemas nesse estilo vanguardista.

Nos anos oitenta, desilude-se com esse tipo de poesia e volta-se para a grande literatura ocidental. Autor fundamental nessa transição foi o argentino Jorge Luis Borges, (“o maior escritor vivo”, escreveria Figueiredo pouco antes de Borges morrer em Genebra), e que foi para o poeta brasileiro mais ou menos o que Virgílio foi para Dante: “dolcissimo padre” que o ajudou a atravessar a selva selvaggia da vida.

No livro Dublagem, de 1986 (que também pode ter, como espécie de subtítulo, “duplagem”, como está discretamente sugerido na diagramação da capa), o poeta misturou vários gêneros: poema, conto, ensaio, colagem, tradução. Na nota explicatória, em defesa de uma visão mais universal da literatura, além das seitas e dos determinismos, já surge a presença virgiliana de Borges:

 

Diferentes entre si, as peças de Dublagem reverberam no título — e no esforço para a recriação do tempo simultâneo e universal em que se move a poesia.

Para justificar esse conjunto heterogêneo, reescrevo as palavras de Jorge Luis Borges em “El escritor argentino y la tradición" (Discusión, 1932); o leitor poderá ler "brasileiro" onde Borges escreveu "argentino":

Por eso repito que no debemos temer y que debemos pensar que nuestro patrimonio es el universo; ensayar todos los temas, y no podemos concretarnos a lo argentino para ser argentinos: porque o ser argentino es una fatalidad y en ese caso lo seremos de cualquier modo, o ser argentino es una mera afectación, una máscara.

 

A tradução nunca foi praticada, por Luiz Antônio de Figueiredo, como uma atividade a mais entre outras ocupações humanas. Não poderia agir assim quem a concebia como “recriação do tempo simultâneo e universal em que se move a poesia”, e a própria vida como “ato voluntário de fé na poesia”. No pequeno mas substancioso ensaio “Borges e Dante”, diz do seu mestre argentino que era dos “raros poetas que conseguem mesclar a própria voz à voz dos poetas que ama”. É uma boa definição do grande tradutor, que recria para não trair.

E foi assim que Figueiredo traduziu o belo poema “El sentinela”, do livro El oro de los tigres: cedendo sua voz brasileira ao logos borgeano, num procedimento parecido ao do médium que empresta seu timbre à voz já sem corpo da alma desencarnada; uma espécie de dublagem metempsicótica. Muitas são as traduções do mundo, mas não é sempre que o espírito do autor consegue baixar na obra traduzida, como no exemplo que segue:

 

Entra a luz e me lembro; aí está.

Começa por dizer-me seu nome, que é (já se sabe) o meu.

Volto à escravidão que durou mais de sete vezes dez anos.

Me impõe sua memória.

Me impõe as misérias de cada dia, a condição humana.

Sou seu velho enfermeiro; me obriga a lavar-lhe os pés.

Me espreita nos espelhos, no mogno, nos cristais das lojas.

Uma ou outra mulher o repudiou e devo compartir sua angústia.

Me dita agora este poema, que não me agrada.

Me exige a nebulosa aprendizagem do férreo anglo-saxão.

Me converteu ao culto idolátrico dos militares mortos, com quem talvez não poderia trocar uma só palavra.

No último lance da escada sinto que está a meu lado.

Está em meus passos, em minha voz.

Minuciosamente o odeio.

Noto com prazer que ele quase não vê.

Estou numa cela circular e o infinito muro se estreita.

Nenhum dos dois engana o outro, mas os dois mentimos.

Nos conhecemos muito, irmão inseparável.

Bebes a água de meu copo e devoras meu pão.

A porta do suicida está aberta, mas os teólogos afirmam que na sombra ulterior do outro reino estarei eu, esperando-me.

 

Mais ou menos na mesma época em que publicou Dublagem, o poeta brasileiro traduziu outras peças — poemas, contos, ensaios — do autor portenho, que reuniu no trabalho acadêmico de livre-docência Edgar Allan Poe e Jorge Luis Borges: o outro e o mesmo, uma antologia sui generis de textos dos autores mencionados, completamente inovadora nos meios universitários, e que tem como centro temático a idéia do duplo, abordada nos dois ensaios que abrem e fecham o trabalho, “As faces do duplo” e “O outro, o mesmo”.

De Poe,  Luiz Antônio de Figueiredo traduziu o conto “William Wilson” e dele desentranhou um poema, mais ou menos como fazia o poeta Manuel Bandeira. De Borges traduziu quinze escritos, incluindo “El centinela”: “El doble”, “El sur”, “El otro”, “Borges y yo”, “Un sueño”, “El despertar”, “Correr o ser”, “Eclesiastés, 1-9”, “Límites”, “Poema conjetural”, “Arte poética”, “Cambridge”, “El cómplice”, “Edgar Allan Poe”, “Alone” e “Los enigmas”.

Assim ficou recriado em português o soneto “El despertar”:

 

Entra a luz e me elevo torpemente

Dos sonhos para o sonho compartido,

E as coisas recuperam seu devido

E esperado lugar, e no presente

Converge abrumador e vasto o vago

Ontem: as seculares migrações

Do pássaro e do homem, legiões

Que o ferro destroçou, Roma e Cartago.

Volve também a cotidiana história:

Meu rosto, a voz, meu temor, minha sorte.

Ah quem me dera se a manhã da morte

Me deparasse um tempo sem memória

De meu nome e de todo meu momento!

Ah, poder despertar no esquecimento!

 

O último e poderoso verso do tradutor — Ah, poder despertar no esquecimento! — não é o verso final do soneto de Borges — Ah, si em esa mañana hubiera olvido! —, mas, para usar uma palavra cara ao poeta brasileiro, com ele “dialoga”.

Um cotejo dos últimos quatro versos, no original e na tradução, evidencia a dublagem-duplagem do poeta brasileiro, que jamais perde o timbre ao emprestá-lo:

 

Ah, si aquel otro despertar, la muerte

(Ah quem me dera se a manhã da morte)

Me deparara un tiempo sin memória

(Me deparasse um tempo sem memória)

De mi nombre y de todo lo que he sido!

(De meu nome e de todo meu momento!)

Ah, si em esa mañana hubiera olvido!

(Ah, poder despertar no esquecimento!)

 

Em 1995, Luiz Antônio de Figueiredo publicou o livro Poemas do tempo (Editora Arte & Cultura, 75 p.). É um conjunto de poemas interligados, de um modo ou de outro, pela sombra ou pela luz do tempo. Poderia, acredito eu, chamar-se Poema do tempo, tão evidente é a unidade por trás da variedade dos poemas.

Nesse novo trabalho, o “dolcissimo padre” argentino continua ao lado do poeta brasileiro, “sombra à sombra de Borges”. A epígrafe é deste, “Todo poema, con el tiempo, es una elegía”, e, como Borges, também Figueiredo se impôs “como todos, la secreta/ Obligación de definir la luna”, também epígrafe de um soneto sobre a lua “indiferente” que, apesar do homem e suas pegadas de astronauta, permanecerá “livre  para caber em qualquer verso.”

O substantivo próprio Borges — e tudo o que ele pode significar para um poeta brasileiro interessado nas armadilhas do tempo— é o que mais aparece no livro de Luiz Antônio de Figueiredo, ao lado de outros companheiros de viagem, também homenageados: Heráclito, Homero, Dante, Schopenhauer, Fernando Pessoa, Cesário Verde, Drummond, Manuel Bandeira, Poe, frei Luis de León, Flaubert, Kafka, Proust, Omar Khayyam, e, além da literatura, Hitchcock, Orlando Silva, Jards Macalé.

Num dos três poemas dedicados a Jorge Luis Borges, sobre a perda da visão do poeta, termina com belo paradoxo:

 

Os grandes perdem, nós ganhamos: cego

para as páginas alheias,

tua noite, Borges,

ilumina.

 

É com essa luz que o poeta Luiz Antônio de Figueiredo tem atravessado a selva escura dos caminhos desta vida, não se furtando a compartilhá-la com quem dela precise. Foi o que fez em muitos anos de ensino superior (e aqui o adjetivo não mente), na universidade paulista. Não hesitou em beber na luminosa fonte borgeana — era o mesmo que beber na fonte da eterna juventude literária —, quando o primeiro caminho que escolheu, o concretismo, já não podia levá-lo a parte alguma.

 

 

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