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LORD BOB Robertão, professor de teoria literária — Lord Bob para alunos aprovados e Lord Bobo para reprovados —, acabava de botar em ordem a correspondência naquela brodosquiana manhã de sol, esplendidamente azul. Era a vez daquela última carta, com destinatário impresso em computador e sem indicação de remetente. Abriu devagar o envelope, tirou e desdobrou a folha de sulfite que só continha uma frase. Leu-a: “É um inequívoco sinal de mediocridade elogiar sempre moderadamente.” Abaixo, alinhado à direita da frase, vinha o autor: Leibnitz. Virou a folha. Nada mais estava escrito além daquelas duas linhas impressas em laser, das quais reconheceu sem dificuldade a fonte arial black e o tamanho catorze. Uma carta anônima! Levantou-se irritado da mesa de trabalho e foi olhar o pátio quieto do condomínio. Quem o visse agora, serenamente imóvel por trás da grande janela aberta, jamais imaginaria as ondas que se agitavam dentro daquele professor aparentemente tranqüilo, de gestos pausados e medidos. As ondas iam e vinham, chocando-se contra a implacável muralha de pedra. Quem seria o ignóbil colega (ou aluno) que sofria com a sua imparcialidade? Passou em revista, um a um, os companheiros de departamento, os orientandos de pós-graduação, os próprios alunos da graduação. Não parecia obra de aluno. Aluno era um animal negligente por natureza, incapaz de boas maneiras e boa diagramação. Apesar de só conter duas linhas, sua cuidadosa distribuição na página revelava um espírito lógico e calculista, que sabia manejar com finura a esgrima. Era algum colega. Mas quem? O Barbosinha, para quem perdeu a coordenação do curso de Pós? A venal Jandira? O Rubinho? Não. Esses pensavam como ele. Só podia ser coisa do diabinho Rielli, com quem jamais esteve de acordo nesse mundo (nem no outro mundo, se outro mundo houve ou houver). Apesar de regularmente esconder-se sob a moita do anonimato para emitir os copiosos pareceres sobre relatórios de pesquisas dos colegas, considerava no entanto a carta anônima a mais abjeta das manifestações do pensamento, produto de mentes pequenas e sórdidas. Nas bancas de tese de que participava, por pior que estivesse o trabalho apresentado, Lord Bob era sempre justo e criterioso no julgamento: — Tem problemas, é óbvio. Mas nada que não se remedie numa eventual revisão, caso o autor venha a publicá-lo. E aprovava o lixo com britânica gravidade, como se estivesse abrindo o sinal verde para um novo Saussurre ou Foucault (segundo ele, os dois cumes das ciências humanas no século XX). Se o trabalho fosse bom, o que era cada vez mais raro na universidade, esforçava-se para nivelá-lo por baixo, após larga e minuciosa análise. Quem visse o seu exemplar da tese julgada, ficaria encantado com a diversidade de cores nos sublinhados e anotações. Trazer os de baixo para o meio e descer os melhores até a vala comum da mediocridade — eis a tarefa a que se dedicava com afinco o nosso Lord, amparado no inquestionável princípio de que todos devem ser obrigatoriamente iguais, nivelados por saudável média. E era exatamente com sua teimosa racionalidade que implicava aquela carta malévola, vinda dos ínferos do ressentimento. Conhecia a frase de Leibnitz, embora nunca tivesse perdido tempo em ler Leibnitz (“mais um idealista sem importância”, pensou ele). Mas como desconfiava de que não estivesse copiada corretamente, passou toda a manhã procurando-a em sua biblioteca. Encontrou-a por fim citada numa obra francesa de sentenças célebres. Lord Bob voltou à sua mesa, pegou a sumaríssima carta e pela primeira vez releu-a sorrindo, não porque ainda esperasse surgir entre as duas únicas linhas alguma mensagem súbita, uma marca d’água iluminadora, mas por ter finalmente encontrado uma falha — Deus é justo — naquela arma aparentemente lógica e precisa que o correio depositara em sua caixa de correspondência. Agora eram ondas de júbilo que se agitavam na muralha, quase indiscerníveis sob o sorriso maldoso. Com a calma usual, pegou a caneta-tinteiro e riscou o adjetivo “inequívoco” da tola frase leibnitziana. Com a convicção de que não devia respeitar um inimigo que, além de anônimo, errava torpemente uma citação, amassou o papel com equânime e lenta raiva, como se amassasse o próprio cérebro do missivista — ninguém o convenceria de que não fosse o Rielli —, e no cesto de lixo arremessou a pequena bola de basquete. Não marcou dois pontos: a bolinha caiu fora, ao pé do computador. Não tinha importância. Levantou-se sem nenhuma irritação e pegou-a, jogando-a com segurança e desprezo no meio dos outros papéis amassados. Voltou à sua mesa de trabalho, onde o esperava justamente um parecer (anônimo, como mandavam as normas, para maior objetividade da análise e do julgamento) sobre o relatório de pesquisa trienal do Nunes. Pena que não fosse do Rielli. |