|
LIVINHA CONTRA DEUS Livinha abriu os olhos. Viu, pela fresta da janela, o risco de sol entrando macio e dourado, desenhando na parede uma mensagem muito importante para ela: — É dia de brincar! Então ela se levantou depressa, calçou o chinelinho e foi correndo receber o Irmão Sol. Quando chegou na varanda, ele já não estava mais alto: um bando de nuvens sem graça passavam na sua frente e fechavam a cortinona do céu. Que tristeza! Por que Deus fez essas nuvens escuras e gordas — arrogantes, dominadoras, monstruosas — abafando o belo grito matinal do sol? Duas coisas ela achava que não devia existir: castigo de pai e dia nublado. O que dava na mesma. Ambos abrigavam-na ao retiro, ao recolhimento, torturas máximas da criançada. — Deus é chato — pensava Livinha na sua mansa indignação. — Deus também põe a gente de castigo. Logo a garoinha fina começou a dançar no quintal, caindo tão de leve que quase não tocava o chão. Na sua frente tudo ficou cinzento: a grama raleando o canteirinho...o pé de figo sem nenhuma folha...o maracujá estendendo os braços magros e secos do estaleiros... Sempre Elzinha diz: — Santa Chuva! Porque a chuva — explicava a mãe — era uma das comidinhas das plantas. Sem ela, morreriam ou ficariam feias como estavam feios o figo, a grama e o maracujá. E não teria tanta coisa na feira para a gente comprar e comer: maçã, pera, pêssego, banana, laranja, uva. Como seria sem graça a vida! Começou a concordar, então, que a chuva era também de muita importância. Importante porém chata. Igual fazer tarefa de escola. E se perguntava: — Por que há coisas importantes que não são gostosas? Achava que toda coisa importante deveria ser agradável. As coisas não podem ser realmente úteis. As pessoas não nascem para sofrer. Sofrimento é invenção de gente crescida. Então Livinha, olhando o quintal, a garoa, o figo, a grama, chegou a uma conclusão líquida e luminosa: se a chuva e o sol são fundamentais para tanta coisa, por que vivem separados e não se casam? Chuva com sol, Sol com chuva, Casamento de espanhol, Casamento de viúva... Junto com o sol muito brabo, Deus mandaria uma chuvinha mansa. E nas grandes invernadas haveria sempre um buraquinho no céu para o sol. — Deus não pensou nisso. Além de chato, ele é bobo — disse a menininha para o seu coração. “Se a gente não ajudar a Deus, o mundo fica imcompleto”, era o que ela possivelmente diria se fosse uma filósofa chata como Deus. Mas Elzinha, incompreensivelmente, sempre fala que Deus é bom. Então vai ver que ele é bom mesmo, mas não dá conta sozinho do mundo. Deus é só um pouquinho mais forte do que a gente. Livinha olhou mais uma vez para a garoa triste que dançava e entrou em casa. Voltou para o quarto. Enovelou-se de novo nas cobertas, extremamente apiedada de Deus. |