O OUTRO LADO
Sinto uma pontada na virilha quando estico a perna para atravessar a cerca do pomar. Entro na sala: Cidinha dormiu no sofá enquanto lia O vale do terror, de Conan Doyle. Pego o livro do chão, fecho-o, ponho na mesinha e entro no quarto escuro. Do toca-fitas, vem o quarteto de cordas de Mozart, para sempre ligado ao azul do sítio e da serra. Não posso voltar aqui sem trazê-lo. Abaixo o volume do toca-fitas, puxo o ar, encho o abdômem, solto devagar. Alternadamente, aspiro e sopro monossílabos ótimos, como ensinou Juliana naquela noite em Ribeirão, num bar da Nove de Julho. (“Bar pode, Ju?” “Pode não senhor...”, me deu o tapinha na mão. “Só luz, sol, mar, Deus, fé, bem...”). Aspiro luz... Expiro sol... Aspiro céu... Expiro mar... Engulo, solto... Ser... Fé... Bem... Deus... Só palavras ótimas, que saem com gás carbônico e entram com oxigênio. É o que ela chamava, muito seriamente, de “faxina da alma”. Cochilo. Converso com alguém sobre a cura da dor de cabeça sem aspirina — talvez porque tenha me deitado com o incômodo na virilha. Meu interlocutor sem rosto afirma convictamente que, de acordo com Husserl... (ou Rousseau, não distingo direito...) A voz some, depois volta. Será Rousseau, o bom selvagem? Evidente que quem comigo conversa é minha sombra, tentando esconder o rosto, expondo com entonação de sábio oriental a sua terapia salvadora: deitar, relaxar... luz... sol... mar... bem... qin... Ju... Caio em parafuso num fosso sem volta. Tonteira de pileque. Buraco negro cheio de pequenas escamas brilhantes. Luto por acordar, como se tentasse sair da areia movediça. Grito. O grito não sai da garganta, boca permanece fechada. Nesse instante, entra no bar Azul-Marinho a onça silenciosa, unhas vermelhas e reluzentes. Levanto as mãos para apoiar-me em Ju, sentada a uma mesa que nunca existiu no fundo do quarto, sobretudo com essas garrafas vazias de cerveja. As mãos estão duras, não se movem. Juliana não é mais Juliana. Agora é Cidinha e se põe a rir, riso de cristal falso, com um copo de cerveja na mão esquerda e o cigarro na direita. Antes de ser tragado pelo outro lado — tenho certeza de que era a a morte —, desperto com os braços doloridos, a garganta seca como se viesse de subir e descer cem vezes a serra, num meio-dia de verão. Levanto sem a dor na virilha, e entro na cozinha semiescura, de onde vejo Cidinha dormindo na sala — cabeleira esparramada nas costas e caindo pela beira do sofá, bunda arrebitada saindo do xorte apertado. Bebo três copos de água. Abro a torneira da pia, boto o rosto debaixo do jato fraco, esfrego os olhos, molho a nuca. Estou vivo, como poderia estar morto. Na sala, as pernas e a bunda de Cidinha me excitam. Com a casa toda apagada, volto ao quarto, pego da gaveta da cômoda o envelope plástico que aperto na mão e emite aquele barulhinho estalado. Volto à sala, aproximo-me do sofá, a mão avança para o primeiro carinho: o outro lado da morte. |