|
INFELIZMENTE NÃO ERA NADA GRAVE Naquela noite, sentado na Rodoviária de Ribeirão, abri o romance de Alfredo Panzini e fiquei lendo até a hora de subir no ônibus, às nove e meia. O trecho era interessante, distraía-me do espetáculo cada vez mais deprimente em que vai se transformando aquele lugar, com mendigos insolentes, viajantes sonolentos e sujos, desocupados de toda espécie. O escritor italiano, depois de afogar um personagem na página vinte e seis, cercava-o de pessoas curiosas na vinte e sete, num canto de praia do Adriático. Deliciavam-se estranhamente diante daquele corpo sem vida, agora estirado na areia. Depois da cena, Panzini tirou dois ou três personagens daquele grupo de pessoas compungidamente felizes e os fez subir uma pequena ribanceira, conversando sobre aquele estranho prazer, aquela curiosidade doentia que as mulheres e os homens costumam sentir diante da catástrofe que é a morte de um ser humano, como se vissem no espelho o que eles próprios seriam amanhã. — Viu os pés daquele infeliz? Pareciam de cera — perguntou um deles. — Mal a morte nos toca com as mãos, a gente já vai se tingindo com a cor dela — observou o segundo. O terceiro levantou uma espinhosa questão: — Por que será que as pessoas gostam tanto de ver os mortos antes do almoço ou da janta? Fechei o livro, coloquei-o na maleta. Lembrei-me do velório municipal em minha pequena cidade, dos sequilhos e pães de queijo que ali se comiam com esquisito prazer, enquanto na funérea sala do lado os parentes mais próximos do morto ou da morta choravam em torno do lustroso pijama de madeira. Descasquei uma otimista bala de maçã verde e comecei a subir as escadas para a plataforma de embarque, julgando conveniente expulsar aqueles pensamentos da cabeça, sobretudo na hora em que entraria num ônibus para a arriscada aventura por rodovias brasileiras, cheias de buracos imprevistos e caminhoneiros sedados. Foi o que fiz: acomodei-me logo na poltrona, tratei de botar uma fita calmante no walkman (uma seqüência de largos e adágios de Mozart que gravei com essa finalidade) e logo já estava dormindo. Felizmente, os trezentos e cinquenta quilômetros passaram depressa. Às três da manhã desci na rodoviária de Assis, também com mendigos insolentes, viajantes sonolentos e sujos, desocupados de todo tipo. Em vez do cafezinho, fui rápido para o taxi, acordei o motorista que cochilava de boca aberta. Coincidências acontecem mesmo, dentro ou fora da literatura. Não me espanto mais com elas. O carro mal andou um quarteirão, e o motorista viu pelo retrovisor alguém caindo de uma moto — na certa, um motoboy. Brecou súbito. O rosto do cidadão iluminou-se, como se somente então tivesse despertado para valer: — Vamos lá ver, chefe? — me propôs. Os deuses tem lá seus caprichos. A leitura do Panzini, na Rodoviária de Ribeirão, tinha sido a teoria. Agora era a vez da prática. Eu disse que não podia, que dali a algumas horas deveria estar de pé para uma reunião enfadonha e inútil (como de regra são as reuniões para quem não acredita muito nos homens). Ele não me ouviu, tão necessitado estava do espetáculo da dor e da morte. Parou o carro, fez meia-volta: lá fomos para mais um repasto de sangue e carne rasgada. O que eu podia fazer? Abrir a porta e saltar do Gol? Ameaçá-lo com prováveis leis de proteção ao passageiro? Que pobre lei humana poderia aplacar sua fome de desastre, catástrofe, desgraça? Nalguns segundos, já estávamos diante da vítima, que era mesmo motoboy e estava otimamente de pé. Rindo sem graça, batia o pó da roupa, com cara de quem pedia sentidas desculpas por estar bem. Pois infelizmente, para meu motorista e a reduzida platéia que se formara ali, nada de mais grave tinha acontecido ao motoboy. |