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OITAVA PARTE Vou te contar tudo o que aconteceu depois desses dias fora, Leo. Sem papai saber — acho que não teria aprovado — levei meu ácido escriba para o sítio de Delfinópolis. O tempo estava legal, a previsão era de pouca chuva e fazia quase um ano que eu não aparecia por lá. Hildo disse que andava mesmo com vontade de conhecer o Odradek Jr.... — Tem bons pesqueiros por lá, além do barco. Gosta de pescar? — perguntei. — Cansei. Foi assíduo freqüentador dos barrancos do rio Sapucaí, antes de ir para São Paulo. Mas agora não pode nem pensar na hipótese de voltar a segurar uma varinha de pesca. — Mas ando fascinado pela caça — me contou —, com vontade de dar uns tiros na bunda de meia dúzia de filhos da puta. Um Raskolnikov de meia tigela, à brasileira... Até pendurei uma espingarda na sala da Casa dos Leprosos. — Eu vi mesmo... — Se os filhos da puta escaparem, resta o dono da espingarda. Sou sempre tentado a repetir a proeza do Hemingway. Bem que merecia... As casas do povoado não me causaram boa impressão na hora do crepúsculo em que chegamos. — Lugarzinho horroroso esse, não acha? — perguntei. — Só gosto de passar por aqui de manhã. — Acho simpático, sobretudo nessa hora. O céu escurecia devagar. A grande represa parecia muito longe, mas era para perto dela, de uma parte dela escondida entre morros, que iríamos antes do amanhecer depois de quase uma hora contornando a serra. Por enquanto só restava procurar o endereço de uma hospedaria e dormir até às cinco da manhã. Insisti que ficássemos em quartos separados. Mais tarde Hildo bateu na minha porta (não esperava por essa) e inventei rapidinho uma dor de cabeça chatérrima, disse que tinha acabado de tomar sessenta gotas de dipirona... Ele fez de conta que estava tudo bem, foi muito atencioso e logo voltou para o seu quarto. Não que a primeira vez não tenha sido legal, mas temo que a repetição quebre o encanto e por isso até desejaria que nunca mais houvesse nada de íntimo. Além disso ele me lembra papai, e aí acabo esfriando, perdendo toda a voglia. Por que sou tão complicadinha, Leo? Chegamos no sítio antes das dez. Levei-o ao Odradek Jr. só depois de apresentá-lo ao novo caseiro, um seu Antônio de cara permanentemente espantada, com o sorriso que nunca se abre de todo, falando de soquinho. Hildo ficou espantado com a arquitetura de papai, gastando uns bons minutos para compreender a lógica do grande galpão de duas águas, com divisões nas duas laterais menores — cozinha, três quartos, banheiros, e um cômodo de despejo, as pranchas de esquiar, galões de óleo e gasolina, guarda-sóis, cadeiras de praia, o banco do barco —, reservando-se o grande centro coberto para garagem ou sala. Chegou perto do barco, ainda sobre o rabicho: — Então é este? Leu em voz alta o nome escrito em vermelho, Odradek Jr., estalou dois tapinhas no motor. — Não é “extraordinariamente móvel”, como o outro, e é mais fácil de controlar... — disse enquanto olhava-o. — O pobre Odradek Jr.? — quis saber. — Esperava um barco menos lógico, como o barco da vida. Você guia esse troço? — abriu um luminoso sorriso de criança, uma espécie de clareira no mato fechado da barba. — Divinamente — falei. Ele observou que, além do meu carro e do barco, ainda sobravam lugares para mais dois no rancho. — Aliás, isso não é um rancho. É um estacionamento. — Tudo com a cara atual de papai — falei. — O João continua involuntariamente kafkiano — me disse enquanto abria uma das geladeiras. — O aumento da conta bancária não limpa as manchas do leopardo. Tinha ainda lugar para outra geladeira, a mesa comprida com dois bancos de fora a fora, a talha d’água enorme num canto. — Tudo rústico e simples, feito com material sucateado — expliquei. Hildo gostou mais da cozinha, com o fogão a lenha que escurece lentamente uma das paredes e uma parte do telhado. Em vez de armário fechado, há uma estante enorme e aberta, com tudo para fazer uma comida razoável e depois servi-la. Os ingredientes estão cuidadosamente guardados em potes fechados de plástico, com identificação do conteúdo na fita crepe: café, açúcar, arroz, feijão, farinha etc. — Isso já é neurose da mamãe— expliquei. — Para que tudo isso? — apontou os talheres. Há talheres, pratos, panelas, copos, xícaras suficientes para quase duas dúzias de pessoas. Expliquei que nos dois quartos da ala direita de quem chega, com quatro beliches cada, cabem dezesseis seres humanos, e o quarto da ala esquerda com a enorme cama de casal suporta um papai e uma mamãe bem gordos. — Já teve tanta gente assim? — Nunca. E nunca terá, posso garantir. Mas o cenário já está montado. Como ele não quis passear na represa com o Odradek Jr., fomos mais tarde caminhar e conversar à toa. Pelo resto da tarde ele foi de uma delicadeza que até me constrangia, desajeitadamente suave, o companheiro perfeito em todas as coisas, anjo de solicitude sempre pronto a fazer alguma coisa por mim. Até continuei a chamá-lo pelo apelido familiar: Dim... Eu já nem Carol era mais, mas Carolzinha... Quando chegamos de volta no rancho e fechamos a porta do quarto, foi a maior loucura da minha vida. Sem culpas, sem interferências de papai por controle remoto... Fazia tempo que não era tão feliz. Mas agora escuta só, Leo, o outro lado do vinil. Nos dois sentidos, real e figurado, de noite o tempo fechou, desabando uma chuva grossa. Visivelmente alterado pelo uísque de papai, Dim recuperava a condição de Hildo enquanto Carolzinha perdia seu trono dourado. Depois de me provocar bastante, sobretudo em relação ao PT e ao meu “socialismo sindicalista”, veio com aquela história ridícula: — Quem entende mais de amor, Carolina? — perguntou enquanto, vindo do banheiro, fechava a braguilha. — O homem ou a mulher? De início pensei que fosse mais uma brincadeira. — Hildo ou Carolina? — insistiu com os olhos vermelhos do Cão. Era uma competição que sinceramente não me interessava. Olhei-o espantada enquanto enrolava meu baseadinho: — Onde você quer chegar? — Longe... Troppo lontano.... Na verdade do amor e da morte. — Com essa pergunta brilhante? Sentou no banco do galpão, cruzou as pernas, os botões de cima da camisa abertos: — O destino da humanidade depende dessa resposta... — Então convém responder logo — respondi já com má vontade, ainda sem entender onde ele queria chegar. — ...o destino dessa fodida espécie que Deus criou e esqueceu... — Que pessimismo mais fora de hora — falei, acrescentando que ele estava ficando chato e grosseiro. Hildo não podia me ouvir, continuava naquele monólogo surdo de bêbado: — ...e que por isso devia ser conduzida por quem a amasse com mais competência — virou mais um gole. Olhei-o pela primeira vez com desprezo. — Quem tem amado mais? Hildo, que arranca o filho de Carolina para levá-lo ao campo de batalha? Ou Carolina, que chora ao ver partir sua cria com uma arma na mão e um cantil na cintura? — Jamais você faria isso com um filho meu — entrei no jogo. — Eu não permitiria. — Esse é o grande problema da nossa época. Carolina ficou forte demais e por isso retarda a solução final. — Qual é a solução final? — O grande objetivo da história! Por isso posso jurar que Hildo ama melhor do que Carolina a espécie humana. — Que sujeito mais modesto... — Modesto é o Diabo — sorriu com cinismo. — Meu avô contava uma velha história em que o Diabo usava o pseudônimo de “primo Modesto”. Cuidado com os modestos... Não sei por que não mudei logo de assunto ou fui dormir. Tem momentos em que pareço gostar de sofrer. — Quer que eu prove? — me olhou desafiante, os lábios trêmulos. — Provar o quê, homem? — A superioridade do amor de Hildo. — Não quero prova de nada. Sorriu malévolo e olhou para o litro de Cavalo Branco do lado da talha. Era como se visse pela primeira vez aquele homem à minha frente, a coluna torta de velho, a camisa meio fora das calças: decadente demais para o meu gosto. — Daqui a pouco eu provo. E foi outra vez, com a solenidade ridícula dos bêbados, na direção do líquido sagrado. Levou o litro para a cozinha, abriu o congelador: — Preparo um para você? Em vez de responder, mostrei com impaciência o cigarrinho. — Bela coisa! Você está precisando de um torpedo desses. Um, não: dois, três, dez. — Não sou tão automática. Acha que sempre vou querer beber quando você bebe? — Não foi isso que quis dizer. — Foi isso que entendi. Voltou com dois copos. — Se decidir, está aqui — disse molemente. — Já falei que não quero. Despejou então o conteúdo de um copo no outro e deixou o vazio na mesa, ainda orvalhado de gelo. Sentou de novo no banco comprido e virou um gole: — Então vamos ao amor do Hildo. — Roseira com mais espinhos que rosa... — Rosa sem espinho tem graça? — Amor tem que ser só delicadeza, no meu ponto de vista. E educação também... — Delicadeza, o amor?! Kazantzakis, que era de esquerda mas tinha o espírito muito atilado, disse que o ódio não passa de um servo que vai abrindo caminho para o senhor. — Que é o amor, sem dúvida. — Biduzinha. Lênin, Stalin, Hitler, Fidel, esses caras todos concordariam com essa verdade. — Você quis dizer mentira... Quando é que a guerra teve alguma coisa a ver com amor? — Sempre, querida. Os primeiros homens inteligentes já viram que a guerra era uma forma disfarçada e indireta de amor. E vice-versa. Um poeta comparou com luta-livre aquilo que a gente faz juntinho na cama... Foi a guerra, não sei se feliz ou infelizmente, que criou a civilização que conhecemos, com toda a sua beleza e mediocridade. Depois, foi a própria guerra que a manteve de pé, com a mediocridade superando a beleza. Agora, é chegado o momento de outras armas, mais sofisticadas que as antigas, realizarem a mudança mais radical do mundo: exigir o máximo de mediocridade da civilização que elas próprias criaram. A caminho da completa organização cartesiana do mundo! — Você está com febre, Hildo? — Viva a civilização ocidental cartesiana, hegeliana, positivista, marxista, freudiana, estruturalista! Salve as guerras e os quartéis que a conduzirão ao topo vazio de si mesma! O objetivo será atingido. — Que horror!... — Viva o sargento Ruffo! Viva Hitler, Stalin e todos os que procuraram empurrar essa civilização inútil no rumo do seu objetivo... Um mundo governado por verdadeiros Odradeks... — Que horror, que horror!... Stalin pelo menos tinha boas intenções. Mas o Hitler... E quem é esse sargento Ruffo, que ainda não vi em nenhum manual de história? — Nosso ex-instrutor de tiro de guerra, meu e do teu pai. Gente finíssima. Até hoje tenho pesadelos com ele. Hildo tirou um cigarro do meu maço e acendeu, soltou duas longas baforadas: — Boas intenções no Stalin? Ótimas intenções. Mas devido à eterna incompetência do seu povo em tudo o que não seja música ou literatura, não conseguiu fazer o que queria: transformar os soviéticos em peças da máquina mais perfeita do planeta, a Nomenklatura, capaz de controlar até os peidos dos russos. Quanto ao Hitler... — Você já esqueceu o que foi o nazismo, Hildo? — Foi uma cândida tentativa alemã de chegar ao mesmo boteco, por outros caminhos. Na verdade, o Führer só tentou botar em prática o que alguns gênios anteriores já tinham percebido bem, que era preciso arrancar as ervas daninhas e desagregadoras da nossa civilização racional: cigano, preto, judeu, pobre, artista... Se ele tivesse vencido a guerra, Hildo e Carolina já seriam, hoje, aquilo que ainda vai custar um pouco para acontecer de uma vez: máquinas impecáveis teleguiadas pela tecnocracia. Os métodos antigos não funcionaram: Sibéria, campos de concentração, forno, paredón. — Você é um louco. — Imagina o mundo um grande shopping, com todos comprando com liberdade aquilo que manda o comando central... Minha fé é que o capitalismo dê conta do recado “democraticamente”, fazendo o que Stalin e Hitler não conseguiram no tapa. Esse é o destino do mundo, garota. Hoje temos ferramentas mais sofisticadas para isso: informática, publicidade, televisão planetária, internet, cartão de crédito, poesia concreta etc. Um mundo odradekiano. Os neo-Hitler e os neo-Stalin serão mais simpáticos e suaves, mestres da indução cada vez mais parecidos com executivos, e não precisarão exterminar cigano, preto, judeu, pobre, poeta, Cristo... Basta domesticá-los no grande shopping do mundo, arrancando de todos até o último fio de liberdade. Ótimo! O único problema é que vai demorar um pouco, pois há alguns obstáculos a ser removidos do caminho, fatores que dificultam o perfeito funcionamento da máquina universal, coisas como a miséria do terceiro mundo, tráfico de drogas, criminalidade. Por mim, preferia o método hitleriano-stalinista: era mais rápido. Mas o espírito da época parece mais favorável à farsa da democracia. — Você está bêbado, Hildo. — Quero ir pra Pasárgada, Carolina. Você iria comigo? Já que era difícil, ou quase impossível, continuar conversando sobre coisa séria com um homem naquele estado, pensei na única saída possível para o impasse: ir dormir bem longe daquele escroto. Aquilo era coisa para brincar? Será que já estava esquecido das atrocidades nazistas? Fiquei muito furiosa mesmo. Na cama, depois da porta prudente e raivosamente trancada — cheguei até a ficar com medo dele, chorei um pouquinho —, é que pensei mais serenamente na possibilidade de tudo aquilo ser delírios do uísque, ou até zombaria dele. Me lembrei do que papai tinha dito, sobre a revolta do Hildo depois de perder mulher. Só podia ser aquilo: raiva da vida injusta. Por que eu era assim tão tolinha? Por outro lado já me arrependia amargamente de estar ali com ele, naquele passeio prematuro demais para tão pouco tempo juntos. Já podia chamar aquilo de namoro? É a palavra mais próxima que encontro para definir o que está rolando entre a gente. Não faz nem três semanas depois do episódio da Delegacia, embora fossem semanas que mais pareciam um ano, tantas foram as coisas que aconteceram, os encontros diários, os poemas, aquela loucura toda. Começo até a duvidar se foram mesmo escritos para mim, e em tão pouco tempo... Pode ser que até já estivessem prontos antes de me conhecer. Na tarde do dia seguinte, suplicou perdão de joelhos pelas besteiras provocadas pelo Cavalo Branco: — Imagina eu querendo um mundo sem judeu, preto, índio, cigano, artista. De judeu e preto, eu mesmo tenho alguma coisa. O planeta perderia completamente a graça sem eles. No quarto com pouca luz, depois de resignadamente desvestida por ele, me fez sentar como Buda na cama gigantesca de mamãe e se ajoelhou no chão diante de mim: — Uma deusa siciliana num pedestal da roça... Você está linda. Depois de alguns minutos em silêncio, percebendo que eu estava mais distante que uma estrela de Andrômeda, me pegou delicadamente a mão. — O poeta Carducci escreveu certa vez que a vida é uma sombra atravessando um sonho... Dura muito pouco. Ainda não acredito que estou aqui com você. Com Carolina, filha do João Lucas... Além de não saber quem era o tal poeta, disse que aquela não era a melhor hora para poetar ou filosofar, e então me deitei de lado na cama, nua e triste como uma viúva. Passei a mão de levinho nos cabelos do homem ajoelhado, mas com aquele misto de repugnância medo atração que eram meus sentimentos mais freqüentes naqueles dias. — Essa beleza não devia ter fim, Carolina. Se eu fosse Deus, ela seria eterna como a lua cheia. O filósofo pessimista de ontem agora se esforçava por ser poeta romântico... Temerosa de cair noutra armadilha, como na noite anterior, comecei a jogar na defensiva, preferindo a ironia ao êxtase: — A lua cheia é eterna até a próxima minguante. E não acredito que seja a hora mais adequada para falar em lua, Hildo. São quatro da tarde. — A lua cheia retorna eternamente. É a melhor forma de eternidade. E você podia pelo menos não atrapalhar minha poesia... Quem garante que não esteja falando desta lua cheia aqui? — deslizou a mão até minha bunda, contornou-a de leve. — A suprema beleza, a beleza das belezas. Só um geômetra divino poderia desenhá-la. Fez depois o nome-do-Pai diante da minha bunda. Não agüentei e soltei uma risada de puta: — Um gastroenterólogo não diria a mesma coisa... — Você é uma herege — ele me disse com aquele rosto de beatitude safada. — As mulheres são vulgares demais para perceber o quanto de sublime transportam no corpo. Nossa obrigação é ajoelhar e rezar, como estou fazendo aqui. Quem inventou essa prática foi um poeta, o Murilo Mendes, quando certo dia viu a moça mais linda do mundo numa praia carioca. Ele se ajoelhou na areia e fez o nome-do-Pai. Eu não sabia do fato, mas achei muito exibicionismo. Continuei olhando para aquele homem barbudo, com cara de tonto diante do meu corpo indefeso, mais desejoso de um anjo da guarda que de um tagarela cínico. — Era assim que o poeta se aproximava do Criador, Carolina: através da sua mais perfeita criatura. Sinto o mesmo diante de você. — De mim?! — debochei de novo. — Pobrezinha da Carolina... — Não aprecio muito a poesia do Murilo Mendes, mas aquele poema de fato, acontecido com o próprio poeta, ajoelhado na praia e orando diante de uma deusinha carioca estendida na areia... Se a cópia terrena já é tão bonita, imagine o arquétipo platônico de Carolina! — beijou-me o ombro. Como um fotógrafo preparando a modelo, fez meus cabelos saírem das costas e cobrirem os seios. Curvou-se, compôs de leve minhas pernas: — E pensar que essa bela estrada de mármore vai ficar cheia de varizes... Subiu com os dedos, beijando de leve cada parte minha que incluía no catálogo: — Sombras fugazes atravessando um sonho... — Tira a fuça nojenta daí! Puxei-o com raiva pelos cabelos quando ameaçou mergulhar, suficientemente chateada com aquelas ironias que destruíam completamente o clima. Nunca tinha visto uma coisa daquelas: o jogador comentando a própria partida de futebol de que participava. Pulei da cama, me embrulhei na toalha e dei as costas para ele: — Agora vai tomar banho, vai. Você está fedendo. Ele me obedeceu. Banho tomado, veio ficar outra vez perto de mim: ele no chão e eu sentada no sofá. Dim aos pés de Carolina, foi o nome do quadro que ele faria se fosse pintor. — Dim aos pés de Carol soaria melhor... — propus. — Um Vermeer meio sacana. Beijou meus pés como um lacaio e depois enfiou neles vagarosamente a meia branca de lã. Perguntei com estranha vontade de ser cruel, fingindo não saber a verdade: — Por que você não teve filhos, Hildo? “Dim” não se deu por achado: — Deus não permitiu. — Mas você queria? — Família e filhos sempre vão ser um problema para mim. — Por quê? — Acabaria virando um novo Hitler. — Lá vem de novo esse monstro... — ...Stalin, Fidel... Decidi jogar: — Hildo, se eu te pedisse uma coisa você faria? — Beber veneno? — Ainda não. Deixa para o final do filme. É outra coisa. — Diga lá. — Se eu pedisse para você me fazer um filho, você faria? — sorri com cinismo enquanto mordia o lábio inferior. — Não — e não disse mais nada. O jeito como ele pronunciou esse Não, seco e gélido, sem ênfase, como se dito por um cadáver, era para eu nunca mais tocar no assunto, arquivando-o no mais morto dos arquivos. — Então vou pedir uma coisa mais banal: corta essa barba — disse outra vez olímpica e distante. — Quero ver você sem essa máscara. “Dim” levantou os olhos, porém nada disse. Encostou a cabeça em minhas pernas e ficou de repente mudo, meio triste, com uma fragilidade quase infantil, mergulhado em distantes e misteriosos pensamentos. Senti vontade de acariciá-lo, trazê-lo para perto de mim, mas dessa vez consegui ser mais forte que meu desejo e minha compaixão. Crueldade também faz parte do namoro. De tarde, recostado na espreguiçadeira ao lado da minha, o copo de uísque na mão, recomeçou a provocar. Fechei o romance que tentava ler e suspirei, pressentindo o que já estaria a caminho. Hildo continuou falando aquelas coisas amargas, algumas até bonitas, mas de um jeito propositalmente pedante. Daria até um bom artigo: — Quer que eu grave e depois transcreva? — perguntei. — Sem escárnio, Carolina. Estou falando sério... A metáfora é a nossa salvação. Ver com o que as coisas se parecem ou podem parecer é um bom exercício para esquecer as coisas que existem, num mundo que está cada dia mais abominável. Senti logo vontade de estar bem longe dele. Por que continuava ali ouvindo-o, quando bastava dar no pé e deixá-lo falando sozinho? — Evasionismo romântico — disse só para chateá-lo. — Ou covardia. Ele não me ouviu. Bêbado não escuta. — Pensando bem, namoro de poeta com poeta tem lá suas vantagens. Além de falar coisas bonitas, o homem também poderá ouvi-las da mulher. Quem não gostaria de ser comparado com um jequitibá gigante, um búfalo-iaque do Tibete, um mar revolto nos lençóis? — apontou sorrindo o próprio corpo. — Seria uma festa da linguagem, um encontro maravilhoso de eros e logos. Botei o livro na mesinha, fui à geladeira e abri uma cerveja para ouvir o grande homem. — O poeta-macho e a poeta-fêmea poderiam caminhar juntos por aí, descobrindo metáforas nas paisagens bonitas ou nas ruas imundas. Hildo e Carolina falariam poemas próprios ou alheios, um Bandeira depois de um Drummond, um Pound depois de um Yaets, um Petrarca depois de um Leopardi. — Quem disse que sou uma fêmea-poeta? Não passo de uma aprendiz de publicitária que adora ler poesia. É diferente. — Você é uma poeta, Carolina. Está escrito nesses olhos tristes. — Pobre de mim... — Quero um dia ver teus “poemas publicitários”. — Jamais! — Por que não? — Por que não sou poeta, já disse. Ainda mais depois daquilo que você disse, outro dia, da poesia concreta... — Está vendo? Namoro de poetas também tem desvantagens. Além da disputa normal de homem com mulher, haveria a velha rivalidade literária. Nem no amor há sossego. — Não seja tonto, Hildo. Quem sou eu para competir com você em literatura?... — Um relacionamento desses não teria muita chance de durar. Seria competição demais. Não basta aquela da cama, os dois lutadores engalfinhados... — Você é um paranóico. Por que não vai atrás de uma mulher-só-mulher, bem menos complicadinha? Aqui em Minas tem às pencas. Se fosse você, tirava a barba e ia logo procurar uma idiotinha para namorar. — Minha experiência com uma delas também foi difícil — virou o copo. Podia tê-lo machucado um pouquinho mais. Senti outra vez cócegas de perguntar pela finada esposa Raquel, mandá-lo a um centro espírita se reencontrar com ela, mas achei que seria muita maldade. Não consegui, Leo, sou muito boba mesmo. Devo gostar de sofrer. Pensei também em mandá-lo à merda, mas logo desisti do projeto. É melhor deixar em paz os mortos e as substâncias fecais, me defendendo dos vivos com armas mais limpas. — Mas vou pensar se tiro a barba, como você sugeriu — falou. — Estou ficando velho e gordo, o que é uma dupla catástrofe. A pata do tempo já começa a apertar a cabeça do inseto. Tinha dúvida se era só a barba que o envelhecia, mas nada falei. — Imagina se eu fosse ga-ga-gago, Carol... Ou sem a ponta da orelha direita... Eu ri. Mas afastei-o com nojo e um tiquinho de piedade quando tentou me abraçar com aquele bafo asqueroso de uísque. Hildo deve ter ficado meio louco mesmo, Leo. Papai tinha razão. Depois do clima chato entre nós, sabe o que ele me disse durante o único passeio que fizemos na represa com o Odradek Jr., quando eu ainda pensava ingenuamente que tudo fosse voltar àquele início delicado e lírico? Que ele parecia estar namorando uma sobrinha... O barco estava bem longe da terra quando desliguei o motor. Era água por todo lado e lá bem longe estava o muro negro da serra da Canastra. Primeiro ele falou um pouco do romance que está escrevendo: — O diário do padre José Carlos era meu próprio diário, quando voltei para Canaviais. Devagar a linha da confissão ia desviando da realidade para a fantasia, depois voltava para a realidade, em seguida descarrilhava de novo. Quando o releio para tentar rescrever, agora que já assumi sua condição de coisa ficcional, quase não sei dizer o que foi de fato vivido por mim e o que inventei, baseado em experiências pessoais ou de amigos, ex-amigos, inimigos, reminiscências de leituras... É uma salada mista, mal cozida e mal temperada, feita por um homem que já não sabe mais quem é, que já não consegue ser somente si-mesmo. — Um homem de duas palavras — eu lhe disse. — Quem escreve literatura é sempre um homem de duas palavras, no sentido estético e existencial. Pensei na delicadeza dos poemas e na acidez dos romances. Pessoalmente tem essas duas coisas de mistura, com sensível predomínio desse último elemento. É extraordinariamente móvel, não se deixa prender... Prometeu que me leria alguns trechos da obra que, segundo acha, tem muita chance de ser deixada de lado, exceto se... — A menos que você queira acabar por mim, retomando onde deixei a história — me disse. — Você insiste em achar que a filha do João Lucas é uma intelectual, Hildo. Como você se engana! — A filha do João Lucas é um anjo. Aliás, quando descobri que você era filha do meu amigo João Lucas, juro que fiquei mais interessado em você... Olhei-o com espanto, mas logo recobrei a pose. — Como seria me apaixonar pela filha de um amigo, de um quase irmão? Parecia um tanto obsceno, um negócio meio incestuoso. Tão incomodada fiquei com aquilo que a vontade era desviar os olhos e dar um jeito de me livrar logo de suas mãos, mas me mantive serena e imperturbável. Vesti a máscara do cinismo e encarei-o bem nos olhos, ouvindo-o desafinar aquela canção: — “Te carreguei no colo, menina, cantei pra te dormir...” — Como você é porco, “Dim” — e impedi-lhe de continuar cantando com um beijo bem sacana na boca, quando minha vontade mais íntima era lhe cuspir no olho, derrubá-lo na represa, sumir com o Odradek Jr.. Liguei o motor. Meu Deus! Por que sempre faço exatamente o contrário do que pretendo? Por que meu desejo é tão cheio de caprichos “ignóbeis”, para usar um adjetivo que ele vive repetindo? Até depois de saber que aquilo que mais o aproximava de mim era o que mais me separava dele, deixei que me despisse e “comesse” (como ele adora dizer) logo que descemos do Odradek Jr., ali mesmo no chão áspero e sujo do mato, como se eu fosse uma puta qualquer. Eu estava deitada no sofá lendo uma Veja surrada, quando um velho-bêbado-barrigudo entrou e repetiu a palhaçada da genuflexão: se ajoelhou, de mãos postas, com olhar pio e sangüíneo. — De novo esse negócio, Hildo? Depois, quase caindo, se levantou indignado, limpou os joelhos com dois fortes tapas: — Você não merece um poeta de joelhos. É igual às outras. Foi em seguida subir a vidraça. Com as narinas ainda mais abertas que as folhas da janela, aspirou teatralmente o ar limpo que vinha da represa do Peixoto. Um verdadeiro bufão. O palhaço “Dim” no Circo Odradek. Não posso levá-lo a sério, Leo. Voltei do rancho piradinha, Leo, cada vez mais “estupefata” com esse homem esquisito — ele é quem devia se chamar Odradek Jr., não o barco de papai — e decepcionadíssima com a moça vil que estou tentando ser. O balanço do passeio não é nada otimista. No início o máximo que ousou foram discretos beijos na boca (pobre de mim...) e toques muito educados no meu corpo. Era de uma delicadeza quase insuportável, exageradamente poética. O que queria de mim afinal? Namorar como antigamente, em crescendo? Infelizmente no início eu estava achando bom aquilo, tinha caído em sua armadilha. Na última noite confesso que fiquei com mais medo do que quando fez o elogio do monstro Hitler. Exigiu tudo, bem mais do que eu saberia ou poderia dar. Evidente que não passou dos limites que impus, mas se ele quisesse transpor eu saberia fazer alguma coisa para impedir? Na verdade me deixou moída como carne de açougue, parecendo mais um trator em cima de mim do que propriamente um pastor de estrelas cadentes. Ufa, Leozinho! Já que falei de novo no monstro Hitler, escuta só o que vou te dizer, Leo, e me diz se não estou urgentemente necessitada de um analista. Hildo acabou conhecendo Dri, que como você sabe é um dos meus melhores amigos. Papai, que quando quer também sabe ser bastante grosso, só se refere a ele como “aquela bichinha”, “aquele viado teu amigo”. Hildo é a mesma coisa, sobretudo depois de cinco uísques na Casa dos Leprosos: — Veja só, Carolina. Aquele viadinho é filho do Zé Arnaldo, um notório “cabra macho”... — ria. — Imagina o desgosto que esse pai não deve sentir! — Ainda bem que você não teve filho nem filha, Hildo. Imagino como teria sido... — Ter filha ainda é menos ruim. No máximo ela poderia ser puta ou sapatão, que não é tão vergonhoso como ser viado. — Fico imaginando você conversando com papai... A mesma língua de trapo... — Mas não é certo? Homem tem obrigação de gostar mesmo é de buceta. Buceta com u, que é mais gostosa! — ria como os porcos ririam se acaso os porcos rissem. — Aliás, viado também tem que ser escrito do jeito que está nos banheiros públicos: com i. Um sujeito ordinário esse meu namorado, Leo. Um completo e arrematado escroto! Para terminar, como a conversa tinha girado em torno dos principais preconceitos do homem brasileiro — que eu dizia ter nele, Hildo Rielli, um representante exemplar —, pediu que o ajudasse a escalar um time de futebol só com escritores e poetas brasileiros negros (“pretos”, como ele insiste em dizer). Como eu recusei, ele próprio escalava e ria: — Cruz e Souza no gol. Carlos Gama e José do Patrocínio nas duas laterais. Mário de Andrade na armação. Machado de centro-avante... Nem Machado, a quem tanto admira, escapava do escárnio. Faltavam nomes que a bebida deixava ainda mais distantes: — Ajuda aí, Carolina. Quem você botaria como zagueiro de área? — Papai deve voltar por esses dias de Goiás. Ele te ajuda. — Tem que ser hoje, porra. E depois a gente podia escalar um time para enfrentar esse dos pretos: só com escritor viado. O que um cara desses tem na cabeça além de matéria fecal, Leo? Gosto tanto de conversar com bêbado que peguei a chave do carro e o deixei falando sozinho. Não seio onde fico com a cabeça que não fujo logo que ele pega o litro de uísque. — Vem aqui, Carolina... — ele veio quase cambaleando atrás. — Não me abandone... em tão negro e delicado impaaasse... Saí sem nem tchau da Casa dos Leprosos, achando cada vez mais justificável esse nome horroroso da chácara. Chega um e-mail com um pedido de desculpas e um longo poema, todinho old-fashion, que ganha disparado de todos os outros em exagero. Um verdadeiro derrame. As imagens são bem surradas, mas acabo me emocionando, é incontrolável, afinal sou o pivot de tudo isso. Não sabia durante a leitura se achava graça ou se acreditava, me deixando levar por aquela enxurrada piegas. Não desconfiava que uma pobre mortal como eu tivesse tantas coisas mágicas no corpo e na alma... Hildo começava bem por baixo: falando da impotência da poesia diante da “beleza radiosa” de certa moça batataense... Jura que nenhum poema poderia substituir: 1. minha voz cheia de noite, com direito a todos os componentes da noite: estrelas, luar, fantasmas etc.; 2. meus cabelos de pétalas negras que retinham um pouco o vento antes que fosse soprar no seu rosto; 3. meus olhos que abrem duas janelas para o Enigma, olhos de líquido e crispado olhar; 4. minha ternura de feltro, lã, veludo, enfim, de todos os tecidos macios; 5. minha respiração quase cântico, com ritmo, melodia, harmonia (quem sabe a Deutsche Grammophon queira gravar); 7. minha nudez de linho cor de rosa recém passado; 8. minha entrega humilde como a luz do sol num caco de vidro... Poema nenhum — santo Deus! — poderia substituir minha alma e o jeito curvilíneo com que Deus a foi enchendo de argila... Por isso jurava de pés juntos que não me traria mais poemas. De que serviam palavras diante de minha luz urgente? Nem viria com jóias, mirra ou incenso, apesar de assegurar minha ascendência divina e incluir-me na árvore genealógica dalguma deusa silenciosa das águas. Putz! Depois dessa... Depois dessa vinha uma falsa auto-humilhação (quem era Hildo Rielli além de um poeta vazio que morava numa esquina sórdida do Tempo?), logo invalidada pelos superpoderes superlíricos do Super-Hildo a seguir. Saberia (veja só, Leo) chegar de manso como um regato sem acordar o pássaro medroso do meu sono, ou então me despertando sem sustos nem sombras... Um perfeito gentleman. Dispõe também de uma frota de barcos para passear nas águas claras do meu rosto: são afagos lentos e sinuosos que me conduziriam (um modelo de humildade o meu poeta) às mais altas montanhas onde nascem os rios mais límpidos ou às nuvens distantes de onde chegam as chuvas mais tranqüilas, dessas que eu gostaria de sentir no rosto enquanto caminhasse pelo campo dalgum cartão postal... Na inocência das manhãs me deixaria sorrindo, na angústia das tardes me faria cantar. Eu estaria repleta, completa! Preciso de mais? Pois tinha mais: suas mãos saberiam acordar meus vulcões submersos e as marés cheias aprisionadas no alto mar de Maria Carolina Dessotti. Como decorrência das mágicas do Super-Hildo eu falaria mais que os ventos que arrepiam os rios e anunciam as chuvas, mais que uma cachoeira despencando de pedra em pedra. Seus dentes morderiam devagar, uma a uma, a polpa das minhas palavras ao mesmo tempo em que os inumeráveis dedos de sua fome abririam os segredos das minhas conchas (segundo imagina, estariam ligadas por controle remoto ao infinito...). Garante também que conhece algumas palavras que ferem, perturbam, inquietam — disso eu sei bem! —, mas essas ficarão de agora em diante para os loucos, os místicos, os poetas que atuam da meia-noite às três da madrugada. Para mim, para sua esquiva estrela cadente, para o grande amor da sua vida, deseja só o lado luminoso do Tempo. Onde fica isso? Em Pasárgada? Fico de qualquer modo sem saber se ele está gozando ou falando sério... Será que vou ser tonta de continuar namorando um centauro desses? A Bel prefere não acreditar nessa hipótese, que classifica como catastrófica, e me aconselhou rindo a cair fora enquanto é tempo: — O perigo é você se acostumar com os tapas. Já pensou? Carol, mulher de malandro... Não achei nenhuma graça. Depois de perguntar por mamãe, que anda tendo umas fortes dores nas costas lá em Goiás, quis saber o porquê de haver um Hildo na minha vida, o que eu via “nesse sujeito”, como tudo tinha começado. — Só ando pensando nisso. Sei lá, Bel. Sei lá mesmo! Começou começando... Parece que foi ontem, parece que faz cem anos. — Vindo de você, isso não me assusta. — Acho que a chantagem poética do livrinho contou muito, mas não foi só isso. Entrou muito do homem também, um homem estranho, meio anjo e meio monstro. — Você ainda está vendo muito filme de suspense e terror, Carol? — Acho que é isso mesmo: meu gosto pelo teratológico explica tudo. Tem hora que é só abraço, beijo, carinho. Chega a ser até pegajoso, sobretudo quando me beija... No dia seguinte vem aquele monstro peludo querendo me arrebentar. — Tão complicadinho assim o “monstro”? — Aqueles poemas delicados, o homem carinhoso... E depois... — Você gosta dele ou não, Carol? — Até que estaria gostando mais, se a relação não tivesse ido tão depressa para a cama... Foi uma loucura minha. Seríamos bons, até grandes amigos. — Gosta ou não? — Ele mais de mim do que eu dele. Só que ele gosta de um jeito esquisito, em que entra uma certa dose de sadismo que me assusta muito... — E então, querida? — Então não sei, sinceramente não sei... — Que coisa complicada! — Pois é, Bel. Como sempre, foi bonito nos primeiros dias, aquelas cenas de suspense que todo início acaba tendo, aquele livrinho só para mim. Uma condensação de desvelos que nunca tinha sentido antes. Daí o filme começou a mudar de gênero, numa mistura de terror e comédia. Porque o Hildo é tudo isso ao mesmo tempo: palhaço, monstro, anjo... — É o próprio Hildo de Sade... — Ontem mesmo me mandou um poema enorme, fiquei toda derretida. — E você é a Carolina Masoc... — Bel não podia deixar de rir. — Pois é. Como pode isso, Bel? Aquelas poesias bonitas saírem de um cachorro desses... — Eu ficaria muito preocupada... — Imagina se eu começo a gostar de fato de uma pessoa cheia de idéias furadas, com quase o dobro da minha idade, e que ainda por cima vive me dizendo que nunca deu certo com mulher nenhuma, mãe, avó, irmã, prima, puta, esposa... É como entrar num negócio já sabendo que vai perder todo o investimento. Penso sobretudo nessa diferença de idade, eu com vinte e sete e ele com quarenta e quatro. Hildo não vai ter saco para agüentar meus amigos e minhas idéias e nem eu as esquisitices dele. Leo, querido Leo! Apesar de tudo, sou obrigada a concluir que apesar de tudo e incompreensivelmente gosto de estar com esse misto de porco e anjo, acho até que toparia morar com o monstro da Casa dos Leprosos por uns tempos se o monstro da Casa dos Leprosos insistisse. O tempo suficiente para ele me deixar grávida de um monstrozinho Rielli... Percebo hoje que não se tratava de brincadeira aquela pergunta que lhe fiz no sítio sobre se me deixaria ou não um filho de lembrança, caso eu pedisse. Só não suporto mesmo quando vem me beijar. Tenho vontade de suplicar: — Hildo, faz tudo o que você quiser. Até aquilo de que você gosta tanto... Se você insistir muito, acabo até fazendo. Mas beijo de língua, não... Por favor... Noutras vezes fico pensando se, como a Ulrica de Goethe, deveria recusá-lo para tudo fazer sentido, para que a vida imitasse cem por cento a arte, para que enfim seus desejos negativos contra si mesmo se realizassem. Mas como o aceitei indefinidamente, por essas quatro semanas ou para não sei quanto tempo, tudo vai depender do rolar do próprio tempo, ele parece se espantar, não acredita. No fundo acha estranho que o enredo da sua vida possa não combinar com o texto da conferência “Eu sou aquele que muda”, que me deu para ler (fez há alguns anos no IACANP, em Brodósqui, quando eu nem imaginava que esse homem existia). Do futuro não sei nada, pode ser que a gente saia da cama numa noite dessas e eu milagrosamente comece a gostar dele mais do que gosto, que até aceite sem desconforto sua língua suja na minha boca. E agora que papai deve ficar mais em Goiás por causa das dores nas costas de mamãe, vou ter a oportunidade de permanecer mais junto dele, talvez chegar mais perto de descobrir se meu gênero de filme preferido é mesmo a comédia de terror. Ontem à noite, como a gente tinha combinado, não fui me encontrar com Hildo pois o Rô apareceu em casa para tirar satisfações — absurdas satisfações! —, saber quem era o “velho” com quem eu estava saindo, se eu tinha virado assistente social da terceira idade etc. No fundo só estava despeitado porque não o procurei na última dor de dente (deve ter ficado sabendo que fui no Zé Eduardo). Claro que não gostei de me sentir vigiada por um ex-namorado, como se não pudesse fazer o que quero da vida que ainda é minha. Por desaforo, para humilhá-lo bem, fiz uma falsa lista das virtudes do Hildo, as que ele possuía de fato e as que ele não tinha, jamais teria. Rô saiu de bico caído com aquela moto superbrilhante, o ridículo uniforme branco de dentista. Quem ele pensa que é? Fiquei com tanta raiva que fumei um baseado e me esqueci de ligar para o Hildo. Hoje cedo me encontrei na Piscina com ele. E não é que tirou mesmo a barba, Leo? A cara ficou um pouco lambida, mas remoçou dez anos, ficou mais bonita, apesar da barriguinha continuar atrapalhando o conjunto... Me beijou friamente no rosto, evitou falar no encontro que não houve, conversando comigo como se eu fosse uma moça estranha, com uma distância irritante que francamente não conhecia nele. Como se não bastasse o problema de mamãe, agora aparece mais esse. Fiz minha parte explicando que havia, ou melhor, que tinha havido um Rô na minha vida (claro que sobre Cecília não falei nada, pois ele poderia adorar...), com uma moto super brilhante e o uniforme branco de dentista, e que justo naquela noite apareceu em casa e ficou enrolando enrolando e queria um revival. Quando Rô saiu já era tarde, até que pensei em ir à Casa dos Leprosos, mas era muito tarde para esse tipo de coisa. Hildo ouvia em silêncio, pontuando minha explicação com nojentos “tudo bem”, “você não precisa ficar se justificando” etc. — Acho que é necessário falar, sim. A gente tem que se falar sempre: faz parte do jogo. Já estávamos com roupa de banho, mas nenhum dos dois se levantava dos degraus, embora aquele céu sem uma nuvem e a água muito cristalina fossem uma ordem para mergulhar logo. — Hoje à noite viajo para Goiás — falei. Me deu uma puta raiva e não disse que queria que fosse comigo, nem que papai tinha insistido por telefone: “Traz esse cara com você!” Enfim reagiu, me olhou surpreso: — Algum problema? — Mamãe anda com umas dores estranhas nas costas, fiquei preocupada. Papai vai levar ela num ortopedista de Goiânia. Foi a pessoa mais gentil e mais reconfortante que poderia existir no mundo: — Você faz bem em ir — disse compungido, olhando para baixo. — Quanto antes cuidar dessas coisas, melhor. — Não deve ser nada grave, mas fiquei preocupada. — O câncer da minha mulher se manifestou assim: umas dores nas costas. Como ela não ligava, foi deixando deixando... Deu no que deu. Gelei! Era a primeira vez que o “monstro” me falava naquilo. Então foi disso que ela morreu? Não agüentei: — Nossa, Hildo! É assim que você me consola? Ele continuava olhando sempre para baixo. É bem possível que eu tenha exagerado, pode ser que sim, já que estou realmente preocupada com mamãe, mas vir falar em câncer nessa hora não é uma imperdoável gafe, Leo? — Desculpa, Carolina, eu não quis... — Como você é grosso em certas horas... Francamente! Ele não contava com aquela reação minha. Mas como você queria que eu reagisse, Leo? Falo que mamãe sente dores nas costas e me vem com esse negócio do câncer da Raquel... Belo namorado que eu arranjei. Pediu insistentemente desculpas, só faltou se arrastar a meus pés. Era tarde, porém. Eu estava com medo, ódio, vontade de esganá-lo, de sair dali correndo, precisava de tudo naquela hora menos ficar perto dele. Fiquei pensando o pior dele, que teria usado a poesia só para depois usar meu corpo, que o escritor e poeta Hildo Rieli é um rabugento um cínico um reacionário um ciumento um preconceituoso um filho da puta! Como a delicadeza daqueles versos da estrela cadente podem ter saído de um bosta desses? Será a mesma relação do esterco com a flor? Sinceramente não estou preparada para essa dissociação tão radical entre o homem e sua obra. Devia enquanto era tempo, a Bel tem toda razão, banir esse cara da minha vida, ele que no entanto e muito estranhamente ainda me atrai. Não queria mais olhar para os seus livros que no entanto ainda me interessavam. — Você não entendeu... — me suplicou arrependido. — Minha intenção era outra, Carolina. Pode acreditar. Sou meio hipocondríaco, qualquer bobagem para mim é sinal de coisa séria! Não tinha mais jeito, queria ficar sozinha e ainda bem que ele percebeu logo: — Quer que eu vá embora? — Ã-hã... — fiz sem levantar a cabeça. Levantou, foi para o vestiário, trocou-se. Vi quando passava de cabeça baixa pelo passeio, sem me olhar, todo recortado em pedacinhos pela grade, os pedacinhos que eu mesma queria picotar e jogar para os seus irmãos os porcos e os monstros. Eu estava fervendo de ódio, muito ódio, e nadei a manhã inteira, mesmo quando o sol de dezembro já ardia como fogo nas minhas costas. Que foi sadismo não tenho dúvida, motivado por ciúmes do Rô, vaidade ferida de pavão. Se soubesse mais da minha vida teria mais motivos para ter ciúmes da Cecília... Só porque não pude ir ao encontro combinado, Hildo agora deseja a morte da minha mãe e por tabela a minha? Mas foi bom que isso tenha acontecido agora, foram só três ou quatro semanas de namoro, apesar de tão intensas que ainda estou meio zonza. Que belo Natal e Ano Novo vamos passar, hem, Leo? Antes cedo que tarde, quando a ligação estivesse mais enraizada. Também não sei se o que sinto por ele é suficiente para encarar uma relação mais séria, pode não passar de admiração intelectual ou uma espécie de projeção de papai nele... Sei lá. Como Rô não existe mais para mim, Hildo também vai passar... Uma coisa que evaporará para sempre a partir das palavras inconvenientes da Piscina, já iniciadas no sítio. Acho que acabou e acaba de um modo meio triste, como se faltasse completar um ciclo. É mais fácil aceitar o fim quando as coisas terminam depois de cumpridas todas as etapas previstas, quando nos consolamos da derrota com a explicação de que tudo é mesmo passageiro e tem de acabar um dia, como acontece com os velhinhos, cuja morte é bem mais aceitável que a de uma pessoa nova. Quem até hoje acredita que aquele moço bonito, filho do seu Lauro, morreu de desastre em pleno centro da “tranqüila” Canaviais? É uma velha filosofia sempre nova, como vive dizendo o próprio Hildo, e por isso não devo ter vergonha de repeti-la aqui, não quero ser original, só quero sobrar viva depois disso tudo. Aquela história de estrela cadente não te parece meio profética, Leo? Como se entre nós tudo tivesse de ser mesmo rápido, sem nem tempo para Hildo e papai se encontrarem como sogro e genro virtuais. Aliás papai e mamãe nem de longe imaginam que em sua ausência virei uma estrela cadente riscando o céu do escritor e depois desaparecendo. Só ficarão sabendo se o caseiro do sítio contar e aí não vou mentir, admitirei tudo com franqueza. Foi legal sim receber de presente um livrinho daqueles, feito especialmente para mim em tão pouco tempo, como que escrito em transe, legal saber que ele tinha se queimado definitivamente com minha luz, a luz da Feiticeira Blau que apareceu luminosa no horizonte e fez o poeta levantar os olhos, sorrir de novo como uma criança, estrela cadente que tinha virado estrela-guia, possuída “com irrevelável ternura, como se prendesse um fio de luar entre os dedos.” Mas isso não basta, não é suficiente para justificar uma relação. Concorda, Leo? Mais tarde, durante a chuva forte que caiu por quase uma hora, Hildo me ligou de sua casa: — Me desculpa... Você sabe que eu não queria ser grosseiro. Desculpei, mas ainda não queria falar com ele, nem hoje nem amanhã nem nunca, e ele percebeu. — Boa viagem — falou por fim, antes do trovão sacudir minha casa. — Obrigada. Mas agora preciso desligar, Hildo, tenho medo de relâmpago. — Não quero ser teu inimigo, Carolina... Foi a última coisa que disse antes de desligar. Arranquei da boca um tchau duro como gelo e devolvi o fone ao gancho, fui correndo para a cozinha junto do James e da Assunção, fiquei quietinha ao lado deles sem soltar um pio. Você já sentiu ódio alguma vez, Leo? Ontem à noite ele apareceu de repente aqui em casa com uma cópia da história do padre José para eu ler na viagem e uma caixinha com balas Halter, da Suíça. Vi no meio da página o título: O harém de Platão. Insistiu em levar meus “poemas publicitários” para conhecer. Deixei... Quando o acompanhei até a porta aconteceu o inevitável, aquilo que eu mais temia e no entanto secretamente desejava: reatei furiosamente com meu inimigo. Acabei de ler agorinha o romance do Dim, do qual virei personagem. Hildo é um machista, um racista, um elitista. Doublé de fera e anjo. Mas tem momentos tão angélicos que me fazem acreditar que o monstro é só para inglês ver, fachada maldita para uma alma bondosa mas envergonhada da bondade num mundo que só pensa em ganhar dinheiro. Penso também que ele pratica todas aquelas aberrações como uma forma de exorcizar o diabo que mora nele, como se o vôo para os céus mais altos somente fosse possível depois de um mergulho no fundo do poço. Como se precisasse “gastar” pelo uso o seu lado sórdido. É um homem cheio de defeitos em busca da perfeição. Sinto isso. Mas como ele caçoaria de mim se lesse essa página! As balas são deliciosas: música na boca, como está escrito nos pequenos envelopes. Estou aliás de saída para apanhá-lo na Casa dos Leprosos, ele que já entrou em férias e vai comigo para Goiás (embora ele preferisse Pasárgada). Mentiria se dissesse que sou de novo uma garota feliz, Leo? Quando eu voltar para o Natal a gente conversa mais. Tchauzinho. |