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SÉTIMA PARTE Sexta-feira. Quatro da tarde. Acabo de receber um fax: “Depois de muito tempo sem conseguir fazer um poema, copiei uma parte daquelas coisas que você me disse ontem, quando apareceu a estrela cadente. O poema é todo teu: emissora e agora destinatária... Só não consegui dispor em forma de verso, pois alguma coisa ainda me trava.” O texto falava de uma estrela cadente, pura como um “pensamento orvalhado”, bela como “certos olhares distraídos”, que tinha passado numa noite branca, mas tão branca que até tinha sombra no quintal. Giz quase invisível passando um traço no horizonte? Anjo entediado fugindo do céu? Muito rápido passou e nem deu para saber direito, tão depressa sumiu no luar. Mas “andorinha azul capturada em pleno vôo”, alguma coisa teria permanecido: “esse brilho de luz que nunca morre, dessas que iluminam o último cômodo da alma e ali ficam acesas como uma idéia eterna.” Como pós-escrito vinha isso: “Apesar de eu ser um poeta demitido da eternidade, só consigo pensar em coisas duráveis depois de uma noite como ontem...” Na verdade tem mais coisas dele que minhas no “texto” (Hildo implica com essa palavra...) Mas o que quis dizer com o último parágrafo do poema? Referência àquele barato que a gente sentiu, ajudados pelo uísque, depois que a estrelinha passou no céu? E o que desejou insinuar com “depois de uma noite como a de ontem”? Não quero nem pensar nisso, Leo. Vou parar de escrever, fumar um “baseado” no quarto, com cuidado para o cheiro não chegar até o nariz do James ou da Assunção, e ficar lembrando daquele momento bobo, a estrela surgindo, ele gritando para mim: — Olha lá, Carolina! As palavras ao acaso tentando entender o milagre pela comparação, as palavras soltas e quase murmuradas fazendo tudo aquilo virar qualquer coisa parecida com música... pensamentos orvalhados... certos olhares distraídos... noite branca cheia de sombras... giz quase invisível riscando o céu... andorinha azul... anjo com tédio fugindo de Deus... o último cômodo da alma... idéia eterna... Sábado. Dez da noite. Tinha combinado com o Dri e o restante do pessoal uma idazinha noturna a Ribeirão, depois do telefonema ridículo da Cê me cobrando o que não devo. Antes de sair de casa entro no programa de operador telefônico e ligo para o Hildo. Agradeci o poema da véspera. Ele é que realmente agradeceu e aproveitou para dizer que tinha saído outra “coisa” (evita falar poema) sobre a mesma estrela. — Estou curiosa — disse procurando evitar ênfase, temendo que o telefonema se esticasse indefinidamente. — Posso ler? — Claro... Leu devagar, com a voz diferente, na certa um pouquinho alterada pelo uísque, longe daquela dicção fria com que disfarça a emoção e se fingir de mau. Pena que não tenha pensado em registrar no teu gravador, Leo. A “coisa”, “Biografia da estrela cadente”, dizia mais ou menos que o destino da estrela cadente era nunca só um: passar, depois passar e ainda outra vez passar, ir embora sem deixar nenhuma marca (marca ou rastro?) na estrada do céu. Uma estrela mendiga que nem nome tem, indo tão rápido que nem dá para nomear a apressada... Ela talvez nem quisesse ser mais nada além disso: brilho errante, anônimo e sem dono, sumindo para sempre, mas encantador na sua triste brevidade. Os dois versos finais falam de qualquer coisa como viajante sem pousada, rio de Heráclito sem foz... — Quero ver o poema — falei. — Bobagem... O ritmo está emperrado, as imagens cheias de clichês. — Eu não achei. — Está sozinha aí na fortaleza? — perguntou. — Não. Estão aqui o Leo, o Frozen. O James e a Assunção já estão dormindo, Sísifo e Tântalo desceram para a ronda no fundo do quintal... — Pensei em te convidar para mais uma sessão de estrela cadente... Você... — Seria legal, Hildo. Legal mesmo... — cortei a frase dele. — Mas já marquei com um pessoalzinho aí. A gente vai até Ribeirão. Ficou meio sem graça: — Fica para outro dia, então. Afinal, sempre tem estrela caindo no céu. E na vida... — Se tem... “No dia que você quiser vir...”, ia dizendo, mas me contive, falei só aquilo e mais nada. Podia ter dito “amanhã”, “depois de amanhã”, mas fiquei quieta e medrosa. — Até qualquer dia, então — me disse. — Até. A gente se despede e eu registro isso no word antes de sair. Segunda-feira. Tocou o telefone, atendi. — Carolina? — era uma voz desconhecida do outro lado. — Ela mesma. — É Hildo. Eu não tinha ouvido direito: — Quem? — Hildo! — Oi, Hildo. Tudo bem? Juro que não tinha reconhecido sua voz. — Te vi hoje no restaurante do lago... — me disse. — Você também estava lá? — estranhei. — Então não me viu? — Não, não vi... — Você estava sozinha. E muito bonita, aliás. Aquele vestido cinza te caiu muito bem. Ri: — Obrigada, Hildo — e ralhei com ele: — Mas por que você não me chamou? — Eu estava do outro lado, perto dos vitrôs. — Também sozinho? — Não, com um corretor de imóveis. Teu vestido combinava com o cabelo comprido e cacheado... — Obrigada, Hildo... — Quando você virou a esquina do balcão, a caminho do caixa, não limpou os óculos de sol na barra do vestido? Eu ri, espantada com a observação: — Acho que sim... — Parece que o movimento do restaurante está caindo um pouco — mudou de assunto. — Naquela hora sempre foi mais cheio. — Não é mais tarde que costuma encher? — Há umas duas semanas atrás, já no meio-dia estava cheio. Por isso que gosto de ir mais cedo, menos gente, fila menor. — Eu vou nessa hora porque é a hora em que me levanto quando não vou na Piscina... E quando não tenho Ribeirão na agenda, é claro. — De qualquer modo, fico preocupado. É o único lugar decente em que se pode comer na cidade. Se fechar, só me casando de novo. — Também gosto muito de lá — disse. — Você vai para Ribeirão hoje? — Vou... E você, fazendo o quê? — Por enquanto não tenho o que fazer. Enquanto isso, vou dando umas aulas para o pão e o vinho. — Você podia ter me ligado mais cedo, a gente teria ido almoçar junto... — falei sem ter desejado falar. — Quem sabe amanhã, ou depois? — fez uma pausa. — Você vai viajar no feriado da quinta? — Acho que não. Talvez dê um pulo no sítio em Delfinópolis... Sei lá... — Eu te ligo no feriado. Se você estiver em casa, a gente vai almoçar. — Liga sim. Acho que não vou para lado nenhum. — Então tchau, Carolina. Até talvez na quinta... — Até talvez na quinta... — eu ri. — Um beijo... — Tchau, tchau. Se Hildo me viu e não me chamou, eu vi muito bem a Cê, a alta e elegante Cecília, e a alta e elegante Cecília também me viu e fingiu que não viu... Estou nem aí. Aqueles traços finos de inglesa nobre, o perfume discreto... O mesmo gesto medido de sempre, a fala sem paixão, o olhar doce escondendo as neuroses. Tenho certeza que sentou numa mesa perto da minha só por provocação, por isso apressei a comida e saí, não sem antes limpar os óculos na barra do vestido: para fazer uma coisa que ela solenemente condenaria. Desculpa a ausência, Leo, mas esse dentinho bandido quase me matou. Não sabia se procurava o Rô ou outro dentista qualquer. Acho que não seria bom rever o Rô tão cedo e acabei optando pela segunda saída, marcando um horário com o José Eduardo mesmo, que está com boa fama e não é amigo do Rô, portanto não vai correndo denunciar minha infidelidade. A desvantagem de morar em cidade pequena é que a gente se encontra muito com as pessoas. Vi o Hildo de novo quando ia para o dentista e ele descia a marechal Deodoro debaixo do sol forte. Eu não o tinha visto, ele é que me acenou no sinaleiro e então parei para lhe dar carona. — Desculpa, Hildo. Ando tão distraída — ofereci o rosto para o beijo. — Você está linda, como sempre — olhou-me com ternura. — Obrigada... — estremeci. Desceu o olhar para minha camisa: — Virou surfista? Dei uma fraca risada de disfarce, difícil por causa do dente: — Compro roupa sem reparar nisso! Um dia acabo vestindo algo comprometedor... Percebeu minha boca inchada do lado esquerdo. Expliquei: — Fui tirar os dois dentes do siso, e sabe o que o José Eduardo encontrou? Um tumor cristalizado debaixo de um deles. Só tirando também. Mudei de marcha e diminuí para esperar o sinaleiro da Monsenhor Alves abrir: — Estou com doze pontos na boca, Hildo. Você pode imaginar o que é isso? Falei do meu pavor de dentista e de outros pavores maiores e menores (exceto a Cê). Incrível como me pego falando numa boa e quase sem restrições com esse cara quase desconhecido, como se o conhecesse há centenas de anos. Por ser uma pessoa avalizada por papai? Deve ser. Desceu na praça, na esquina do “prédio”, e me deu uma vontade totalmente descabida de perguntar aonde iria, mas me contive, me beijou de levinho no outro lado do rosto, os dedos tocando meu queixo com delicadeza. Estremeci de novo... Depois me falou: — Estou preparando uma surpresa para você. Uns troços que você me obrigou a escrever... Fiquei alguns minutos meio passada depois que ele se foi, pensando se podia ser aquilo mesmo que eu estava pensando. Distraidíssima, quase atravessei no vermelho o semáforo da DPaschoal. Pensei certo. Mais tarde me ligou: — Posso ler outra vez por telefone? — Claro — e aí pedi um tempo porque decidi, sem que ele soubesse, gravar tudo no computador. — Espera só um pouquinho, vou tirar o Frozen do colo. Entrei no programa de gravação: — Estou ouvindo. Pode falar, Hildo. E então o novamente poeta Hildo Rieli me dizia que, sozinho no bar América, diante da folhinha rasgada de calendário mostrando trigais ondulando ao crepúsculo, ainda me esperava. No meio de risos estalando do outro lado do tempo e do relógio (e comparou os minutos com velhas pálidas, de velas entre os dedos, numa procissão de Senhor Morto), insistia que ainda me esperava, a mim, tadinha de mim, que seria uma sombra silenciosa caminhando sobre as águas, um pássaro silencioso chegando da face ardente da lua ou ainda uma nuvem silenciosa perdida na calçada... E o poeta teimoso em três vezes aflitas me esperava: no vento que dobrava a esquina suja, na espuma depositada no fundo do copo e até no olhar terrivelmente tranqüilo do último bêbado... Equivocado poeta. Como seu eu fosse digna de ser esperada com palavras tão bonitas e mentirosas... Terminava com nosso mote atual, me esperando como a última estrela cadente antes da aurora. Meu Deus, virei musa. Estou trêmula de susto! Estou sendo literalmente cantada em prosa e verso pelo amigo que papai endossou. Sexta-feira. Sou mesmo uma garota de sorte apesar do medo que ando sentindo. Hildo me ligou de novo, pela terceira vez, depois que recebi pelo correio seu livrinho com os Poemas da estrela cadente, produção doméstica made Casa dos Leprosos (dedicado a Carolina & Frozen, com epígrafes de dois poetas ingleses: uma de Donne, “Go and catch a falling star”, e outra de Yeats, “She looked in my heart one day And saw your image was there”). Chique, não? Eu estava de saída para Ribeirão e olhava toda hora para o relógio. Ele falou falou falou, mas não foi direto ao assunto, à carta de intenções eróticas que tinha sido o livrinho, visível recaída romântica em alguém que dizia ter quase vergonha de “sentir em versos”. Como também é medroso esse solitário senhor de barbas! Custava dizer “Eu quero te levar para a cama, Carolina. Foi para isso que fingi de romântico e fiz o livrinho piegas”? — Como você caprichou, Hildo. Ficou tão cuidadinho... — O computador e a impressora fizeram tudo. — Imagina... E em pouco mais de uma semana... — Tempo insuficiente para escrever um único verso. Sempre se auto-humilhando esse solitário senhor de barbas. — E desculpa pelas duas epígrafes em inglês que botei ali... Quase não sei inglês. Falei que isso não tinha importância e que o Frozen também tinha ficado supercontente com a dedicatória: — Ensinei inglês para o bichano, sabia? Ele mia mais em inglês que em português... Mew... — Gosto do Frozen — me disse. — Não parece um analista? Fica olhando a gente com aquele jeito desconfiado, como quem sabe muito bem com quem está falando. Ao contrário do Sísifo e do Tântalo, que nem bem me conheceram e já me tomaram por amigo. — Cachorro é o melhor amigo da mulher. — Da mulher que lhe dá de comer. — Com cachorro há uma relação de troca muito maior, mas eu gosto mais é de gato. Só não gosto mesmo de passarinho. — Por quê? — se espantou. — Sei lá, Hildo. Acho que é porque vem de muito longe, do alto... Me dá um pouco de medo. Ele riu, ficou em silêncio e em seguida falou: — Vou desentranhar mais esse poema: a moça misteriosa tem medo de passarinho porque ele vem de muito longe, de muito alto... Ele se despediu depois de quinze minutos falando: — Então até qualquer dia, Carolina. — Então té. — Quem sabe dá certo a gente se ver num dia desses — jogou a bola para eu pegar. Mas fiquei quietinha e desviei a mão, deixei a bola cair bem longe: — Então... Quem sabe. — “Até um dia, até talvez, até quem sabe...” — cantarolou a canção que não conheço. — Pois é... — eu ri. E o medroso senhor de barbas felizmente acabou não propondo dia nenhum e eu achei bem melhor assim, medrosa também eu. Queria pensar mais um pouco naquela coisa, naquela possibilidade que estava aparecendo. Se ele tivesse sugerido um dia, eu não saberia dizer não. Como são ridículos os homens, Leo, sobretudo os homens que tem medo de mulher medrosa. Leo do céu! Nesses dias ando lendo-relendo os poemas que Hildo me mandou, feitos em tão pouco tempo. Estou evidentemente emocionada e também um pouco... desculpa a repetição... um pouco medrosa... Esta é a palavra que você mais vai ouvir de mim daqui para a frente. Para me certificar de que sou eu mesma que estou ali na origem, no centro e no fim deles, fico o dia inteiro olhando-os. Decido por fim parafraseá-los, reduzi-los a breves comentários, única forma que encontrei para me defender um pouco deles (decido até chamá-los de “textos”, palavra que Hildo detesta). Não foi ele próprio que disse que a crítica é o principal remédio contra o defluxo da poesia? Em guarda, Carolzinha. No “Madrigalzinho”, me manda de presente algumas luzes do dia e da noite, luar, vagalume, sol, pedindo para eu botar tudo dentro do coração se me agradasse, ou então jogasse fora... “A estrela sentada” é um soneto narrativo reconstituindo um encontro que nunca tivemos, ou não tivemos desse jeito. “Poema azul” também fala de algo que não aconteceu, uma viagem de ônibus, enquanto um relâmpago azul “me acendia o rosto anil.” “A estrela cai” é uma brincadeira com um título famoso de romance ou filme nacional, “A estrela sobe” (acho que é um filme mesmo). “O tripulante da chama” é sobre uma estrela fujona que atravessou inesperadamente o céu antes de desaparecer no Nada. Em “Anacreôntica”, garante ter um “terrível motivo” para amar tão rápido e urgente a Estrela: a fugacidade das coisas, a morte etc. “O tempo da estrela” fala do tempo do amor, que “Pára e dispara /Ao mesmo tempo”, com a imobilidade da pedra e a rapidez do pássaro. “Presente de Deus” é sobre certo “poeta cinzento, sozinho e vazio” que um dia viu uma estrela cadente aparecer no horizonte e ficou de novo cheio de azul (e de Maria Carolina Dessotti, ai de mim...). “Prelúdio e fuga” é o maior de todos: um sub-Vinícius que no entanto me levou direto para as nuvens. Em “Parmênides versus Heráclito”, pede que a estrela cadente pare e detenha seu curso louco, deixe sua luz imóvel no céu por algum tempo. “O que fica da estrela” é o texto mais mentiroso do conjunto. Será mesmo que eu, Maria Carolina Dessotti, brasileira, sexo feminino, cabelos crespos e castanhos, 1, 64 de altura, 50 quilos e bundudinha demais para o meu gosto, nascida em 28/07/1975, RG 19.325.882, CPF 676. 932. 478 - 22, bem mais que moderna serei eterna, como diria Drummond? No comment. “Infinitamente agora” são três estrofes em redondilha com duas rimas se repetindo sempre: mais um poema sobre o Tempo “que ao mundo veio /Na caixinha de Pandora” para tudo corromper e piorar, transformando tudo em passado. O “Bilhete a uma estrela cadente” é meio repetitivo, o mais chato de todos. Também foram incluídos aqueles três textos anteriores que eu já conhecia por telefone: “Biografia da estrela cadente”, aquele outro sem título em que dizia estar no bar América me esperando esperando esperando (transformado em introdução do livrinho), e o primeiro de todos, também sem nome, do qual fui co-autora sem saber. Por essa e por outras, descontando o evidente assédio sentimentalóide e as imagens um tanto rançosas, sou obrigada a me considerar uma garota de sorte. Quem é que nessa época tão pobre de poesia e nesse mundo tão bobinho ainda recebe uma cantada dessas? Cantada não, uma verdadeira cantata lírica no sentido mais tolo e mais maravilhoso da palavra. Pois eu já tenho meu seresteiro, meu jogral, meu cantador privativo. Posso morrer amanhã de manhã, Leo. Eu estava em Ribeirão, no apartamento da Bel, e esperava a hora de descer para me encontrar com o persistente Hildo, que pode virar meu “carrapatinho de luxo”, segundo o Dri. Insistiu em vir me buscar e eu não achei ruim. Cheguei no vitrô, ele já estava lá embaixo: — Vem cá, Bel. Olha para baixo. Ela veio, olhou. — Está vendo aquele rio de gente passando na calçada? — Estou, e daí? — Tem de tudo: vendedor, dona de casa, office-boy, executivo com pressa, freira. — An-han... — Pessoas que vão atrás de alguma coisa, que tem algum objetivo. — Deve ter algum mendigo também, é só olhar direito. Atualmente, é o que mais tem em Ribeirão. — Mendigo e bandido pelo menos têm objetivo: vão atrás de dinheiro ou comida. — Mas não é “aquele” objetivo... É e não é. — Agora está vendo aquele cara de barba lá no canto, perto da banca de revista, olhando as manchetes? — Estou. Parece da polícia, um detetive talvez, qualquer coisa assim. Veja como de vez em quando olha disfarçado pros lados... — Detetive nada, sua tonta. É só um escritor, um poeta, bem disfarçado de gente séria. É a única pessoa dali que não tem objetivo nenhum. Ela me olhou: — Como você sabe que é um poeta? Saí do vitrô, fui pegar minha bolsa na mesa: — Porque tenho um encontrozinho marcado com esse poeta, Bel. Tchau — beijei-a e fui para a porta. Ela se virou: — Quero ouvir essa história! — Depois te ligo. — Me liga mesmo. Tenho uma coisa da Cecília para te contar... — Então não vou ligar mesmo! — Não quer nem saber o que é? Jurei que não. Desci. Cecília que vá para o inferno! A Bel sabe que não quero mais ouvir aquelas histórias. Na calçada, numa daquelas olhadas disfarçadas para a portaria do prédio, Hildo me viu e logo veio me encontrar. Por minha sugestão fomos comer alguma coisa no Gigio’s, um restaurante limpinho e gostoso da Barão do Amazonas, quase em frente a uma livraria de ponta de estoque que está liquidando o que sobrou dos livros da velha livraria Acadêmica. Hildo cruzou as pernas, acendeu um cigarro e perguntou depois que comemos: — Gostei daqui. Pela comida e porque não tem garçom. Nunca gostei muito de garçom. Você já viu algum garçom que não tivesse cara de garçom, Carolina? — E bancário sem cara de bancário? — Difícil. A profissão acaba modelando o perfil do profissional. — Mas você não tem cara de escritor nem de professor. Parece mais um sindicalista... Riu: — Filiado à Cut e ao PT? — De preferência — sorri. — O que tem de errado em estar do lado certo? — Nada, depois do conselheiro Acácio. Mas quando alguém me fala que tenho cara de comunista, tenho ímpeto de ir correndo para o banheiro e rapar a barba — experimentou o chope, estalou a boca. — Está ótimo esse chope. — Divino — levantei meu copo para um brinde. Nossos copos se tocaram no ar, saiu um tintim choco e pouco musical. — Mas garanto que esta barba não é política. Talvez uma barba metafísica, para eu me sentir mais velho do que sou e experimentar por antecipação minha decrepitude. É bom treino para a morte. Quem acaba ganhando com isso é a vida: meu rejuvenescimento não custa mais do que uma gilete de barbear. E aí o Hildo vira não-Hildo por alguns dias. — Interessante... — eu sorri. Ele voltou àquela história dos biótipos: — Como toda regra tem suas falhas, seria interessante encontrar o garçom atípico. Até hoje confesso que não encontrei. Imagina um garçom com cara de gigolô, o bancário com cara de frentista, um médico com cara de... — De açougueiro, por exemplo... — Isso é fichinha: médico com cara de açougueiro e professor com cara de bobo. Veja o doutor Macedo, aquela roupa branca em que ficariam bem algumas manchas vermelhas, as mãos enormes de desossador, as mandíbulas grossas... — Que horror! E eu, Hildo? Tenho cara de quê, hem? — De anjo — sua mão veio de encontro à minha, pressionou-a de leve. — Belo anjo! — eu disse, libertando logo a mão prisioneira, ainda constrangida, para roubar-lhe o cigarro já pela metade. — Um anjo obrigado a suportar esse mundo cada vez mais bestial — sorriu-me com ternura. É bom e ao mesmo tempo muito estranho ser desejada por um homem como Hildo, que apesar das neuroses me trata como se eu fosse a coisa mais pura e sagrada do mundo. Isso nunca me aconteceu antes, pode ser que nunca mais ocorra nessa vida tão chata. Também não sei quanto vai durar, se vou aprender a gostar mais dele ou se tudo vai acabar amanhã mesmo depois de ter começado apenas ontem. Sei que agora estou voando leve como pluma e só quero ficar com pensamentos de pluma. Tenho um dado novo e importante, Leo! Hildo contou antes de me deixar aqui em casa que já conhecia “meus olhos tristes” da Piscina. Imagina só: ele era aquele sujeito de óculos e touca que ia lá toda manhã, indo e vindo devagarinho na água. Juro que jamais ligaria uma coisa com a outra, se não tivesse falado. Um dia me seguiu, descobriu onde eu morava, gostou da casa e por isso decidiu passar sempre por aqui. — Não sei se foi só pela casa — corrigiu. — Acho que eu já andava gostando de você... — Não acredito... — Não posso jurar. Ainda tenho minhas dúvidas. Mas devo confessar que alguns poemas da estrela cadente são dessa época, embora ainda sem a imagem da estrela. Quando descobriu, e não demorou muito, ser ali que morava o velho amigo de adolescência, e que ainda por cima eu era filha dele, quase caiu das pernas, ficando alguns dias tentando entender aquela armação do Acaso. Pernas reaprumadas, continuou porém passando aqui em frente até o episódio ao mesmo tempo desastroso e afortunado da Delegacia. Depois que ele saiu, fui ao espelho e fiquei me olhando por um bom tempo. O Hildo deve ter razão... Sou mesmo uma garota triste, Leo, uma fazendeirinha de olhos tristes e sem brilho, sem irmãos com quem repartir o vazio dessa casa enorme. Hildo detesta São Paulo, não consegue mais suportar Ribeirão e até Canaviais. — Por que voltei para cá? Sinceramente, não sei. Eu tinha de voltar para algum lugar. No fim das contas, aqui ainda dá para agüentar, apesar do que andam fazendo com a cidade. Há motoristas idiotas por todo lado. Cercaram tudo de cana. Derrubaram muitas daquelas casas e prédios simpáticos da minha infância. A Matriz ficou feia. Mas para quem viveu mais de quinze anos em São Paulo... — me disse ontem à tarde na Casa dos Leprosos, que finalmente conheci, enquanto voltava da velha cristaleira com a garrafa de bardolino e as duas taças. — Canaviais ainda é menos desgraçada que esses monstros urbanos superpovados. Aristóteles dizia que uma cidade normal não poderia ter mais de cem mil habitantes. Você já imaginou cem mil almas junto? Duas já dão pano para tanta manga... — Uma alma sozinha não é pior? — perguntei. — Antes mal acompanhado que sozinho, dizia um amigo que tinha pavor de solidão. — Não exagera. — Quando ando a pé pela cidade, é difícil não topar com um desses manos. Eles me olham com ódio. Discretamente, retribuo com o mesmo carinho... Nunca exercitei tanto minha impiedade. A igreja ensina que é preciso amar o próximo como a si mesmo. Mas eles são nossos próximos? Me recuso a aceitar isso, Carol. Mas não é só a eles que odeio, não. Ódio maior sinto de quem podia ter impedido o progresso dessa praga abominável e nada fez. Você sabe que estou me referindo aos ricos... Que aliás também são responsáveis pelo progresso cada vez maior de outras pragas nacionais, como a pobreza secular e a intelectualidade de esquerda. Estamos cercados de inimigos perigosos, querida: os pobres, os ricos, os comunistas... Ai de nós! Olhou para o céu. — Que cidade tinha um azul como esse? Só Pasárgada. Espia só o que fizeram dele. Olha a neve preta que cai sem parar... Olhei para o alto, “espiei” a neve preta. O chão da varanda estava mesmo forrado com o produto das queimadas de cana. — Era com aquele azul que esperava equilibrar minha dieta, depois que reduzi ao mínimo a carne e o arroz — abriu a garrafa, ouvi o poc da rolha arrancada do gargalo. — De azul também se vive. “L’azur, l’azur, l’azur, l’azur, l’azur”... A cachoeirinha vermelha caiu em minha taça. — Azul como aquele tem por todo lado — falei enquanto provava o vinho. — Basta procurar. — Não dependia só da cor, mas também do olho — fez o vinho encher metade da sua taça, girou-a de leve, cheirou. — Eu trazia esse azul de longe... Quando o olfato já estava satisfeito veio até minha espreguiçadeira, sentou-se no chão : — Um brinde funerário para o azul defunto, Carolina — me disse. — Que horror, Hildo! Insiste em me chamar de Carolina, jamais de Carol. Ergui meu copo, ouvi o ruído breve de cristal chocando-se com cristal. — Ao azul do passado e a nós dois! — provou um primeiro e vagaroso gole. Olhei o grande terreno da chácara. Vi o ladrilho quebrado encostado na parede da garagem, a mangueira de borracha sem dobrar, a enxada encostada na goiabeira. Será que um dia vai conseguir botar ordem nessa chácara? No tempo que lhe sobra depois do Colégio lê os livros que se espalham pela casa toda, tenta desencravar o romance do padre José e vai cuidando das plantas. Plantou muita coisa depois que comprou isso aqui. Diz que deixou o jornal em São Paulo para de certo modo também virar padre em seu quintal, saída que encontrou para melhor tolerar a solidão em que vivia e esquecer a mulher morta há alguns anos (sobre quem evita de falar). Por sugestão telefônica de papai fiz uma entrevista com o romancista Hildo Rielli pr’A Voz da Mogiana, avisando que entre nós vive um escritor, ex-jornalista com alguns livros publicados etc. Relutou, mas acabou aceitando, me respondendo por escrito as perguntas que eu lhe fazia oralmente após ler com dificuldade o que ele tinha acabado de rabiscar. Ficou um diálogo insólito, como se eu estivesse conversando com um mudo que de vez em quando sorrisse. — O que é literatura para você, Hildo? — O mesmo que para Ibsen: autojulgamento. — Lê jornal? — Já se disse que é possível medir a estupidez do indivíduo pelo tempo que gasta lendo jornal. Leio o suficiente para continuar dentro de uma média razoável de estupidez. — E o seu futuro literário? — Não terei isso. De qualquer modo, deixo o acaso fazer as suas, ele que talvez seja o melhor parceiro da criação literária. Uma vez, antes do computador, mandei um conto datilografado a um digitador que cortou, por descuido, boa parte. Na hora em que li, fiquei irritado. No dia seguinte, relendo o texto, achei que o corte tinha melhorado o conto. O rapaz, que não entende de literatura, acertou na mosca sem querer. — E o próximo romance? — Vai indo mal, obrigado. — Aparece o mesmo personagem de sempre, aquele José Carlos que muda de destino a cada romance? — De destino e de erro. Infelizmente, não consigo me livrar desse companheiro de viagem. E, agora, deixando a batina para assumir o século: será um ex-padre. — Você se sente um pouco monge? — Em certo sentido, sim. Não tenho filhos, perdi a esposa... Nos quinze anos de São Paulo, saía da redação do jornal e escondia-me em meu escritório, onde passava boa parte da noite bordando com palavras, como dizia Tchekhov. No jornal, era o dia inteiro também escrevendo. Era homem casado nos domingos e nas férias, quando vinha com minha mulher para Canaviais. — Literatura pode ser ensinada? — Pode ser aprendida, mas não no colégio, como dizia o Noel: é uma escola que dura toda a vida e depende, mais que qualquer coisa, de uma disposição interior, de uma fome secreta que o camarada satisfaz porque quer. Minhas experiências escolares, aprendendo ou ensinando, nunca foram boas. Acho escola o lugar mais cacete do mundo. Ando, aliás, querendo mudar de arte e profissão, deixando o colégio junto com a literatura... Penso, com insistência, numa fábrica de caixões de defunto. Não esses caixões horríveis e envernizados que a gente vê nas funerárias, com cara de morte. Seria uma empresa com uma nova proposta para o setor, com modelos modernos, pós-modernos etc. Caixões surrealistas, psicodélicos, pop, op. Caixão com tampa de acrílico fumê. Essas coisas. — E os seus próximos projetos literários, caso você desista dos caixões? — Traduzi num dia desses, de brincadeira, uma quadrinha de Voltaire, que não era bom poeta. Dizia mais ou menos assim: “Somos pobres arquitetos/ De loucuras e sandices./ De manhã faço projetos,/ Durante o dia tolices.” Sempre dou um tempo entre o despertador e levantar, geralmente com rádio ligado, e é nesse momento, que pode variar de dez minutos a uma hora, que altero substancialmente o curso da minha vida. Penso em fazer isso, aquilo... Quando me deito, dezoito horas mais tarde e depois de um rápido balanço, sou forçado sempre a concluir que não fiz nada do que planejei, exceto as tolices a que se referia Voltaire. E la nave va... — E a política? Como você vê o aumento de vereadores petistas na câmara municipal? — Aumentou, é? Não sabia. Aliás, nunca sei nada de política, que me aborrece profundamente. Da esquerda à direita, passando por todas as combinações entre uma e outra. — A esquerda no poder não teria mais chances de promover as reformas sociais de que o país tanto precisa? — O marxismo é o mais recente objeto de estudo da paleontologia. Acha que pode servir para os dias de hoje? — Você se considera então um neoliberal? — Deus me livre disso, nem neo nem arquiliberal. Não torço para nenhum time. Não acredito no futuro da espécie, só no presente do indivíduo. Presente sempre sujeito a chuvas e trovoadas, como dizia um amigo. — O artista não tem obrigação de conhecer as correntes de idéias do seu tempo, comprometer-se com aquelas que julgar mais adequadas para as mudanças sociais? — Idéias são gaiolas com uma idéia fixa: prender o vento. O vento é a realidade. — Não é uma posição ingênua demais, muito confiante no poder da intuição, numa época de técnicas tão desenvolvidas como a nossa? — O artista mais ingênuo, quando verdadeiramente criador, sempre acrescentará alguma coisa nova ao mundo... Não estou falando de mim, obviamente. O mesmo não se dá com o cientista, o filósofo e o político que, mesmo com a cabeça cheia de conceitos, não conseguem usar a “imaginação”. Segundo Unamuno, a falta de imaginação é a verdadeira responsável pela nossa pobreza moral e econômica. — Por falar em imaginação, quais os poetas brasileiros que você mais lê? — Que li, pois ando atualmente sem merecer a graça da poesia. De Drummond já gostei mais, tive minha fase Vinícius e depois, para enterrá-la, minha fase Cabral (também devidamente enterrada: Cabral é técnico demais para o meu gosto de hoje). Sobraram Bandeira, Mário Quintana e Dante Milano. Dos antigos, o pobre Alphonsus. — E os romancistas? — Como você pode ver na estante, há romances de todo lado e de todas as épocas. Daria uma extensa lista de simpatias... Dos brasileiros, Machado ficou como marco decisivo, ponto de referência a que volto sempre, obrigatoriamente, para me livrar de sua sombra. — Em que atividades, além da literatura, você anda “usando a imaginação”, contribuindo para diminuir a pobreza moral e econômica do mundo? — Ouço música inglesa, cuido da minha chácara... E faço o possível para não decepcionar certa estrela cadente, que está atravessando a noite escura da minha alma. |