SEXTA PARTE

 

 

Terça-feira.

— James, corre aqui!

— Que foi, dona Carolina?

— Aquele cara que vai indo lá.

— O barbudo?

— Só tem ele na rua, James.

— Sujeito estranho, dona Carolina. Tem cara de bandido.

— Faz o seguinte: vai disfarçado atrás dele. Mas não deixa ele perceber.

— Quem é o cara?

— Não sei. Passa todo dia aqui em frente, nessa hora. Fica olhando a casa, as árvores... Anda logo! Quero saber onde ele mora.

— Pode deixar comigo.

James saiu na mesma hora. Falei bem claro:

— Cuidado para ele não perceber, viu?

— Sei como fazer isso. Já vi nos filmes.

— Então vai. Igual detetive.

E lá se foi meu Sherlock particular começando um pequeno filme de suspense. Pobre James. Foi assobiando qualquer coisa com as mãos no bolso da calça, até exagerando um pouquinho na displicência.

Me sentei de novo diante de você, Leo, tentei digitar alguma coisa e parei logo. Fiquei olhando lá fora o meio-dia ensolarado, que perde um pouco a violência por causa das muitas árvores do nosso quarteirão e pelo grande vidro fumê da minha sala. Não passava ninguém na rua.

Peguei um cigarro e acendi, os dois dedos da mão esquerda em forquilha, o cigarro preso longe do corpo. Fiquei olhando para  tua cara de vidro, com algumas palavras espremidas na tela do monitor. Depois peguei o mouse com a mão direita e cliquei para salvar as poucas linhas digitadas. Passou uma carroça de aluguel na rua, o carroceiro de pé gritando com o pobre animal, chicote em punho subindo e descendo. Quanta maldade!

Traguei forte e soltei a fumaça com aquela afetação típica da Cecília, como se estivesse mesmo sendo filmada. Não sei por que pratico essas coisas quando estou sozinha, coisas aliás que sempre critiquei na Cê... Na verdade nunca ia ser vista de fora, sempre defendida pelo fumê que faz da minha rua uma coisa meio irreal, uma tela de cinema ou tevê, um outro mundo. E o pior é que assisto a esse filminho monótono todas as tardes, a total falta de assunto da minha rua passando por mim minuto a minuto através do vidro escuro. Talvez seja por isso que resolvi botar um pouco de suspense na obra, mandando James atrás do “bandido”.

Espremi o cigarro no cinzeiro e abri um novo arquivo no teu editor de textos, Leo, e sem ter o que fazer comecei a digitar isto, que digitado e gravado ficou.

 

 

Tocou o interfone, girei a cabeça e notei o sujeito de mãos no bolso olhando para a roda do fusca que nem vi estacionar. A voz estranha e forte encheu minha sala:

— Boa tarde. É o investigador Jonas, da Segunda Seccional.

Assunção foi recebê-lo, trouxe-o até onde eu estava.

— Boa tarde, senhorita.

O cara estendeu a mão, peguei com susto e nojo:

— Algum problema? — perguntei aflita enquanto pensava no James.

— Está detido lá na Seccional um negrinho da Febém que se diz chamar James, Henry James... Confessou que presta serviço aqui para vocês.

— O James? Claro que sim — fiquei ainda mais assustada, imaginando o que ele teria aprontado, seriamente arrependida de tê-lo mandado seguir o barbudo. — O que é que tem ele? Aliás, James é o nome doméstico do James, papai tem essa mania de botar um segundo nome nas pessoas. O nome verdadeiro do James é Clayton. Clayton Jorge da Silva. O coitado assimilou de tal modo o apelido que... E até eu que...

— Isso não importa agora, moça. A senhorita poderia vir comigo?

Alguma coisa errada tinha acontecido com meu detetive, metera-se por minha culpa nalguma confusão. Por que o mandei atrás do bandido em vez de avisar a própria polícia? Passam afinal tantas coisas pela cabeça da gente com essa onda crescente de roubos no bairro.

— Mas o que está acontecendo, meu Deus? Eu vou, claro que vou. Onde é essa delegacia?

— Aqui mesmo no bairro, na antiga Fábrica de Chapéu.

 

 

Fui de moto. Num instante entrava na Seccional, onde junto da mesa do delegado estavam sentados o bandido de barba e meu detetive particular.

Depressa tudo ficou esclarecido. Falei para o delegado Marchetti (já sabia de quem eu era filha e só faltou me pegar no colo) que havia mandado James seguir uma pessoa que todo dia passava em frente da minha casa e depois parava, ficava olhando. Não porque achasse ser alguém suspeito, um bandido, longe disso — menti —, mas eu achava estranho aquilo de todo dia ali passar, ficar olhando...

— Eu trabalho numa sala que dá para a rua. Dali pude acompanhar tudo, dia a dia... — expliquei meio sorrindo, meio encabulada. — O moço vai me desculpar, mas com essa violência na cidade...

O moço de barba riu, entendia tudo, não tinha nada que desculpar. Isso me deixou mais descontraída. Explicou mais uma vez que tinha notado alguém atrás dele e achou esquisito. Como morava meio fora da cidade, era natural que se assustasse... Chegou na sua casa e viu da janela o James rondando por ali. Como não ligar para a polícia? Aliás James era o único que não achava graça nenhuma naquilo, tinha o rosto sério, os “beiços emburrados”, como dizia papai, chateado porque sua estréia num filme de suspense tenha terminado daquele jeito desastroso.

Enfim, e para encurtar o assunto, o cara era só alguém que passava por minha rua todo dia enquanto vinha da casa do pai ou da escola. Imagina só, Leo: é professor no Colégio dos Padres! Diante do meu endereço ele retardava um pouco o passo — segundo me disse — para “admirar uma das casas mais simpáticas de Canaviais. Mas hoje em dia, infelizmente, qualquer atitude mais demorada de admiração acaba sendo suspeita...”

Foi então que apareceu a grande surpresa do meu filminho de suspense:

— Casa que eu descobri mais tarde ser do meu velho amigo João Lucas — me olhou sorrindo. — Não vejo seu pai há uns bons vinte anos, moça.

Meu Deus! O bandido era um velho amigo de papai, do tempo do antigo Ginásio do Estado. Seu nome é Hildo Rielli e juro que não me é estranho.

Saímos dali depois de tudo esclarecido e todos desculpados. Pedi para o James voltar a pé e dei uma carona na moto para o bandido barbudo que vivia rondando minha casa. Quanto à casa dele, eu já conhecia de vista, aquela casona velha a caminho do aeroporto, quase sumida no meio do enorme pomar, mas espantada fiquei, juro, quando me disse que morava ali sozinho, e meio que fascinada quando falou o nome daquele lugar: Casa dos Leprosos! Será que meu filminho de suspense ia continuar?

Explicou enquanto descia da moto que tinha comprado aquela chácara ao voltar de São Paulo (onde ficou quase quinze anos), depois de vender o apartamento e um dos dois terrenos que tinha em Canaviais.

Mandou um forte abraço para o meu pai, apertou carinhosamente minha mão. Avisei que o convidaria num dias desses para conhecer nossa casa por dentro, já que gostava tanto dela por fora, e sobretudo para me desculpar oficialmente daquela mão-de-obra que eu e James lhe tínhamos dado.

Riu e disse que não tinha de desculpar nada, tudo fazia parte do teatro do mundo, mas que seria um prazer imenso rever papai depois de tanto tempo.

— Pena que esteja em Goiás com mamãe — avisei. — Mas hoje mesmo vou ligar contando tudo...

 

 

Coloquei Frozen no colo e liguei naquela mesma hora para Goiás contando o que tinha acontecido. Papai riu muito, disse que gostava bastante do Hildo, a quem ainda chama de Dim. De fato não o via há um bom tempinho.

— Com os amigos acontece isso, a gente fica vinte anos sem se ver e parece que foi ontem. O que ele anda fazendo, filha? Ainda está no jornal? — quis saber.

— A gente quase não falou, papai. Mas deixou o jornal sim, mora aqui e dá aulas no Colégio. Veio para cá depois que morreu a mulher.

— Lembro quando ela morreu. Não sei o que aconteceu que nem lembrei de mandar telegrama. Conheci bem a Raquel...

— E agora, imagine você, mora sozinho na Casa dos Leprosos... Você acredita nisso?

A gargalhada veio forte do outro lado:

— Está brincando! Teve coragem de comprar aquela casa velha? O Dim sempre foi meio pancada mesmo. Se tivesse me avisado que queria voltar, tinha arranjado coisa melhor para ele.

Ficou rindo um bom tempinho e depois a voz ficou de repente grave:

— Casa dos Leprosos... O Pedro, que nunca perdeu ele de vista, me disse que o Dim andou meio revoltado depois da morte da mulher. Ficou meio esquisito.

— Vendeu o apartamento de São Paulo, saiu do jornal, ficou uns meses na Itália. Antes de acabar o dinheiro, voltou para cá e comprou essa chacrinha. Mais ou menos isso que ele me falou. Você conheceu a mulher, papai?

— Quem não conheceu a Raquel? Era uma moça bonita, uma das mais ajeitadinhas do Ginásio, só perdia para tua mãe... Sempre humilhando o Dim, coitado. Um dia, para minha surpresa, recebo o convite do casamento dos dois.

— Isso acontece.

— Ele adorava a Raquel.

— Não tiveram filhos?

— Ela não podia. Contra sua vontade, acabou não transmitindo a ninguém a famosa herança do Machado. Não faz muito tempo que vendi um touro para o pai dele, o seu Arlindo. O velho tem um sitiozinho na estrada de Nuporanga, na Santana do Estreito. Gente boa.

Depois de algum silêncio, próprio de quem está se lembrando:

— Como é que ele está, querida?

— Parece que está bem, apesar dessa Casa dos Leprosos que me deixou meio intrigada. Usa barba, óculos, tênis surrado, e a barriguinha já querendo aparecer debaixo da camisa, como você.

— Não seja injusta comigo, Carol. Ando nadando que nem louco, andando, correndo. Ainda vou retroceder aos vinte anos, igual àqueles teus amiguinhos de merda.

— Tomara que não...

— Por que não?

— Não quero um pai fecal.

A risada explodiu lá em Goiás.

— Mas o Dim... Então o filho da mãe apareceu de novo? Um dia te conto nossas aventuras da época da Biblioteca da Operária e do bar do Zé Bonitinho.

— Falei que convidaria ele para ir lá em casa, quando você voltasse daí.

— Ótimo. Em duas ou três semanas no máximo estou respirando de novo os ares mais suaves daí. Aqui o calor é de brochar.

Depois que já tinha se despedido e eu ia desligar o telefone, ouvi sua voz chegando mais uma vez do cerrado:

— Vocês vão se dar bem, querida. Ele sempre teve esses barulhos de literatura na cabeça. Tem uma cultura formidável.

Espantei-me:

— Não me pareceu com aspecto de intelectual, apesar do jeito meio esquisitão dele.

— Já nasceu com cara de jornalista cansado. Publicou até uns livros.

— Jura?

— Três ou quatro romances que ninguém leu. Nunca deixou de me mandar. Fez até um caderninho de poesia, poeta bissexto, como dizem os pais da matéria. O diabo é que ainda não tive tempo de ler nenhum...

Eu ri:

— Papai, você tem coragem de ter um amigo escritor e nunca ler um livro dele?

— Estou esperando a velhice para dar um repasso nessas estantes daí. Reler uns livros da juventude... Ler o Dim, Dim não, o Hildo, Hildo Rielli, um escritor não pode se chamar Dim... Ler as teses chatas do Pedro... O diabo é que não sei se vou ter saco outra vez.

— E cadê os livros do homem, pelo menos?

— Tenho tudo que ele editou, pode procurar na sala ou naquela estante da garage, que está enfiado nalgum lugar.

— Quando me disse o nome, na Delegacia, achei logo que não era estranho. Já devo ter passado os olhos pelos livros, ou escutado você falar dele com mamãe.

— Com certeza, com certeza. Um beijão, meu amor. Te cuida.

 

 

Quinta-feira. Mais essa agora! Primeiro, o carinha suspeito não era bandido, mas um velho amigo de papai que ainda sofria com a perda da mulher. Depois ficou sendo até romancista e poeta bissexto (o que mais, hem, Carol?), um escritor obscuro que gostava da nossa casa e por ela passava todos os dias diminuindo o passo, admirando...

Na certa deve ter ficado sem graça pois em seguida ao episódio da delegacia parou de passar por aqui. Não passou no primeiro, não passou no segundo dia. Então fui para a estante da lavanderia e achei os livros dele, deu um trabalho dos diabos, estavam distantes uns dos outros. Três romances e uma novela: Quatro luas, As donas da casa, A fruta proibida e Entrevistas com o anjo mau. O de poesia demorei mais para achar. Os dois primeiros e o de poesia foram edições do próprio autor, enquanto os últimos saíram por uma editora de que nunca ouvi falar. Dei uma folheada em todos eles e fiquei sabendo, ao ler uma contracapa, que há um só protagonista nas quatro obras, um mesmo e sempre diverso José Carlos — José Carlos Zamboni — vivendo destinos e profissões diferentes em cada narrativa.

Depois de muito fuçar dei com o livrinho de poemas com esse mesmo e simples título: Poemas. Li de uma assentada e até que não achei ruim. É uma poesia bem feitinha, metrificada, rimada, tem até soneto, mas sem aquele frisson, aquela alma, desses poemas que depois de ler sem desagrado a gente esquece logo, antes mesmo de pensar em ligar para o autor e continuar a conversa. Não é seguramente nenhum Drummond ou Pessoa...

Não esperei papai chegar de Goiás e ontem mesmo liguei para a casa do seu Arlindo Rielli pedindo o número da Casa dos Leprosos. Hesitei vinte e quatro horas antes de discar, pensei em tudo o que papai falou dele.

Hoje enfim tomei coragem:

— Hildo?

— Sim...

— É Renata. Filha do João Lucas...

Ele gaguejou um pouco:

— Oi, Carolina... Acredita que eu estava para te ligar? Mas não achava o número do telefone daí.

— Está no nome da mamãe. Liguei para o papai depois daquele negócio chato que aconteceu e ele te mandou um grande abraço.

— Não foi nenhum negócio chato. Pelo contrário. E quando o João Lucas volta?

— Está em Goiás cuidando da fazenda e acho que fica mais umas duas ou três semanas. Falou bastante de você, diz que gostaria muito de te rever.

— Eu também gostaria muito.

— Mas fiquei curiosinha, mesmo, foi com uma coisa...

— Diga lá.

— Teus livros.

— Meus livros...

— O de poesia eu até já li inteiro. Papai ganhou um exemplar do Pedro e estava aqui em casa. Mas já estou começando a folhear os romances...

— Bobagens... Você gosta dessas coisas?

— Ã-hã. Muito.

— Pois é, Carolina... — ficou meio perdido.

— Pois é... — também comecei a ficar meio sem graça.

— Você escreve também?

— Sou bem bissexta — lhe disse, pegando uma carona na palavra que papai usou.

— Então somos do mesmo time. Sempre achei bom poder dizer isso: sou um poeta bissexto. É o que enche o saco dos leitores só de vez em quando.

— Eu não ficaria nem no banco de reserva desse time...

— Quem agora está curioso sou eu. Quem sabe um dia você me mostra teus “textos”, como se diz hoje.

— Não são bem textos... Gosto mais de poesia visual.

— Poesia existe em qualquer lugar... — ele disse, e me perguntei, lembrando do tipo de poesia que faz, se estava sendo mesmo sincero. — Na imagem, no som sem sentido, no som com sentido.

Duvidei sinceramente de sua sinceridade.

— Também acho... — continuei. — O difícil é saber se nas minhas trans-imagens tem mesmo poesia...

— Gostei dessa: trans-imagens... — Hildo riu. — Isso já vale por um poema. De onde você tirou essa palavra interessante?

Sem dúvida estava gozando, tinha mais cheirinho de ironia ou observação crítica que de galanteio:

— Se a obra é espelho da autora, o que Carolina fizer sempre vai ser belo produto...

Eu ri, claro, já esquecida da ironia e me deixando envolver pelo calorzinho do galanteio. Acho que fui até muito apressada no convite:

— Então aparece um dia desses aqui em casa que eu te mostro alguma coisa. E se você quiser, me mostra as tuas mais novinhas...

Foi ele que riu então:

— Eu não cometo mais essas coisas, Carolina.

— Mentira.

— Juro por Deus.

— Você não crê em Deus.

— Na hora de jurar eu creio. Depois que voltei para cá tenho escrito muito pouco. Agora é que uma história começa a aparecer na cabeça e no papel...

— Com o mesmo José Carlos Zamboni de sempre?

— É o meu Sherlock Holmes da alma.

— Posso saber o que é ou é segredo?

— Não há segredo nenhum. O José Carlos “de sempre” aqui vai ser um ex-padre, o padre que eu poderia ter sido se continuasse no seminário. Um ex-padre procurando defender-se do sexo, do mesmo modo que eu procuro me defender da castidade... Um ex-padre, enfim, que queria continuar sendo padre. É meu antípoda, mas de certo modo é também meu alter-ego: as duas extremidades do barbante estão virtualmente muito perto de si. Basta aproximá-las e amarrá-las para o círculo se fechar... Nada é mais perfeito que um círculo. Mas com poesia parei mesmo. Juro outra vez.

 

 

Sexta-feira, três da manhã. A lua cheia de novembro está maravilhosa, Frozen dorme esparramado no tapete do corredor. Sem sono me sento na frente do Leonardo e entro no word.

Acabei de levar o Hildo para casa, ele não tem carro, nunca teve, nem sabe dirigir.

— Pode isso, Leo? Um cara, no final do século vinte, que nunca ligou um motor de carro?

Você não me responde, só escuta e registra o que eu escrevo. Tem hora em que a solidão é tanta e fico tão necessitada de conversar que tenho até vontade de te bater. Fala, Leo, fala alguma coisa! Como você é burrinho! Só faz aquilo que a gente manda. Você viu que o Hildo veio te conhecer? Te achou simpático, bem vestido, muito melhor que o dele, que nem nome tem, não passa de um 386 montado com peças do Paraguai.

— São nossos escravos, Carolina — ele me disse quando começamos a falar de computador. — Um dia vão andar, servir uísque para a gente, vigiar a casa. Num futuro bem distante talvez até façam a sua revolução abolicionista.

Acho que exagerou um pouco, escravo é demais, abolição idem. Apesar de você ser muito limitado, até meio burro, até que me ajuda muito, Leo... Na minha profissão por exemplo.

Mas voltemos ao Hildo. Chegou às nove depois de ter jantado no restaurante novo do lago, não muito longe da Casa dos Leprosos. Conheceu enfim por dentro a casa que tanto admirava por fora, elogiou as árvores e plantas do papai, se deu bem com Sísifo e Tântalo.

—Teu pai é um doido. Botar os nomes desses condenados eternos em dois pastores maravilhosos...

A gente ficou lá fora na varanda tomando uísque, falando da lua cheia, coisas assim. Hildo recordou a última vez em que viu papai:

— Foi bem antes de eu ir para São Paulo, há uns dezoito anos atrás. Eu estava na casa do meu pai na rua Duque de Caxias e o velho falou: “João Lucas passa quase todo dia aqui em frente. Vem da casa do sogro.” Eu não morava com meus pais, morava com meus avós, mas de vez em quando dava um pulo lá para ver como eles iam. E num dia desses vi João Lucas pela última vez: passou numa caminhonete nova, o polegar levantado, me lembro bem, como se tivesse me visto na véspera. Aquela mão levantada com determinação, a caminhonete reluzente... “Não”, eu pensei, “não é o João Lucas.”

— Por quê?

— O João Lucas que eu tinha conhecido, dois ou três anos mais velho que eu, era um leitor voraz de Poe e Kafka.

— Meu pai? Kafka? — não pude deixar de rir. — Então foi por isso que ele pôs aquele nome no barco?

— Barco?

— Papai tem um barco chamado Odradek lá no rancho de Delfinópolis, Odradek Jr., mas pensei que fosse pura gozação.

Ele riu muito:

— Um barco? Ainda se fosse um circo. Circo Odradek...

Gostei do Circo Odradek, mas não acreditava que papai fosse ligado em Kafka.

— Aliás, foi teu pai quem me introduziu na literatura moderna. Belarmino Scapin foi meu mestre de literatura clássica, teu pai de moderna.

— Quem é esse Belarmino?

— Pai dumas peças velhas aí da cidade: Heródoto da loteria, doutor Ésquilo, padre Ovídio e o agiota Lucrécio. Sem esquecer de dona Laura Beatriz, a mulher que queria enfiar de uma só vez a civilização ocidental na minha cabeça.

Do padre Ovídio eu já tinha ouvido falar, da professora Laura Beatriz também. Doutor Ésquilo? Heródoto? Lucrécio? Que coisa mais surrealista.

— Mas do João Lucas kafkiano te falo outro dia. Deixa Kafka para lá.

Quando acabou de falar isso me mostrou um risquinho azul cortando o céu.

— Olha lá, Carolina!

Olhei. Era uma estrela cadente que eu ainda pude enxergar em tempo:

— Zás! Passou — me disse.

— E a noite está tão branca... Tem até sombra no quintal.

— Mesmo assim deu para ver. Parecia um pedaço de giz...

— Um giz riscando o horizonte.

— Ou um anjo escapando do céu? Lá não deve ser tão bom quanto dizem...

Essa lua, esse uísque põem a gente comovida como o diabo, diria o poeta. Bastou passar aquela estrelinha no céu para o uísque fazer uma mágica na minha cabeça. Hildo quase não falava mais, eu também, só o suficiente para deixar aquela estrela ainda vibrando na alma. Não me lembro das palavras, mas parecia que a gente estava compondo música junto de tão leves e bêbadas que elas ficavam.

— Será que existe pensamento orvalhado? Minhas idéias estão todas molhadas de orvalho — eu disse sorrindo. — Minhas idéias e meus cabelos. Vamos lá para a sala.

Entramos. Eu falei do meu curso de jornalismo na PUC, do trabalho como publicitária aprendiz em Ribeirão, falei sobretudo dos ossinhos do ofício, das viagens cacetes e quase diárias para lá.

Ele me falou um pouco mais da história que estava escrevendo: José Carlos, seu personagem de sempre, agora é um padre de quarenta e poucos anos que deixa a batina, aliás bem pouco usada, e volta para a cada vez mais diferente Canaviais, depois de cuidar de algumas paróquias e fugir de uma paroquiana safadinha em Assis (última cidade do padre, e onde Hildo só esteve uma vez, para um desastroso encontro de escritores obscuros no campus da Unesp).

Diz que empacou num certo ponto da história e não consegue avançar mais, quando se dá um encontro casual com uma moça bonita de Canaviais a quem o ex-padre começa a se ligar platonicamente. Aliás o título provisório tem a ver com isso: No harém de Platão.

— Foi um ex-amigo que inventou essa expressão — me explicou — depois que leu um poema meu. Achei que tinha o direito de usar. De qualquer modo, faço referência ao fato no próprio romance, com medo de que ele me acione na justiça por apropriação indébita.

Voltou a reclamar de Canaviais, que está quase irreconhecível:

— Os Portinari da Matriz agora estão em má companhia. Viu aqueles óleos que o pároco atual botou nas paredes?

Faz tempo que vi e não gostei, papai idem, muita gente da cidade ibidem.

— Mas se está lá é porque o padre gostou — falei —, é um direito dele gostar do que não gostamos. Igreja não é museu, os critérios dela não são estéticos.

— Mesmo assim... — sorriu. — Acho que o vigário foi caridoso demais com o jovem artista.

Hildo lamentou que boa parte da velha cidade não exista mais, a “sua” cidade, e até se culpava um pouco por isso:

— Se não tivesse ido embora, ficando aqui de armas na mão — riu —, os imbecis não teriam arrancado os paralelepípedos da rua da Estação, desfeito o canteiro central, derrubado tantas casas antigas...

— As sibipirunas da Comandante Salgado...

— Não entendo como vocês deixaram derrubá-las. Se soubesse, teria vindo um repórter na mesma hora...

A única coisa que mudou para melhor foi a Piscina, comprou um título logo que voltou para cá. Engraçado: eu que nado quase todo dia não me lembro de tê-lo visto lá.

Enfim, achei o Hildo muito gente fina, aprovado com louvor e distinção no primeiro exame.

 

 

Sexta-feira. Quatro da tarde. Acabo de receber um fax: “Depois de muito tempo sem conseguir fazer um poema, copiei uma parte daquelas coisas que você me disse ontem, quando apareceu a estrela cadente. O poema é todo teu: emissora e agora destinatária... Só não consegui dispor em forma de verso, pois alguma coisa ainda me trava.”

O texto falava de uma estrela cadente, pura como um “pensamento orvalhado”, bela como “certos olhares distraídos”, que tinha passado numa noite branca, mas tão branca que até tinha sombra no quintal. Giz quase invisível passando um traço no horizonte? Anjo entediado fugindo do céu? Muito rápido passou e nem deu para saber direito, tão depressa sumiu no luar. Mas “andorinha azul capturada em pleno vôo”, alguma coisa teria permanecido: “esse brilho de luz que nunca morre, dessas que iluminam o último cômodo da alma e ali ficam acesas como uma idéia eterna.”

Como pós-escrito vinha isso: “Apesar de eu ser um poeta demitido da eternidade, só consigo pensar em coisas duráveis depois de uma noite como ontem...”

Na verdade tem mais coisas dele que minhas no “texto” (Hildo implica com essa palavra...) Mas o que quis dizer com o último parágrafo do poema? Referência àquele barato que a gente sentiu, ajudados pelo uísque, depois que a estrelinha passou no céu? E o que desejou insinuar com “depois de uma noite como a de ontem”?

Não quero nem pensar nisso, Leo. Vou parar de escrever, fumar um “baseado” no quarto, com cuidado para o cheiro não chegar até o nariz do James ou da Assunção, e ficar lembrando daquele momento bobo, a estrela surgindo, ele gritando para mim:

— Olha lá, Carolina!

As palavras ao acaso tentando entender o milagre pela comparação, as palavras soltas e quase murmuradas fazendo tudo aquilo virar qualquer coisa parecida com música... pensamentos orvalhados... certos olhares distraídos... noite branca cheia de sombras... giz quase invisível riscando o céu... andorinha azul... anjo com tédio fugindo de Deus... o último cômodo da alma... idéia eterna...

 

 

Sábado. Dez da noite. Tinha combinado com o Dri e o restante do pessoal uma idazinha noturna a Ribeirão, depois do telefonema ridículo da Cê me cobrando o que não devo. Antes de sair de casa entro no programa de operador telefônico e ligo para o Hildo. Agradeci o poema da véspera. Ele é que realmente agradeceu e aproveitou para dizer que tinha saído outra “coisa” (evita falar poema) sobre a mesma estrela.

— Estou curiosa — disse procurando evitar ênfase, temendo que o telefonema se esticasse indefinidamente.

— Posso ler?

— Claro...

Leu devagar, com a voz diferente, na certa um pouquinho alterada pelo uísque, longe daquela dicção fria com que disfarça a emoção e se fingir de mau.

Pena que não tenha pensado em registrar no teu gravador, Leo. A “coisa”, “Biografia da estrela cadente”, dizia mais ou menos que o destino da estrela cadente era nunca só um: passar, depois passar e ainda outra vez passar, ir embora sem deixar nenhuma marca (marca ou rastro?) na estrada do céu. Uma estrela mendiga que nem nome tem, indo tão rápido que nem dá para nomear a apressada... Ela talvez nem quisesse ser mais nada além disso: brilho errante, anônimo e sem dono, sumindo para sempre, mas encantador na sua triste brevidade. Os dois versos finais falam de qualquer coisa como viajante sem pousada, rio de Heráclito sem foz...

— Quero ver o poema — falei.

— Bobagem... O ritmo está emperrado, as imagens cheias de clichês.

— Eu não achei.

— Está sozinha aí na fortaleza? — perguntou.

— Não. Estão aqui o Leo, o Frozen. O James e a Assunção já estão dormindo, Sísifo e Tântalo desceram para a ronda no fundo do quintal...

— Pensei em te convidar para mais uma sessão de estrela cadente... Você...

— Seria legal, Hildo. Legal mesmo... — cortei a frase dele. — Mas já marquei com um pessoalzinho aí. A gente vai até Ribeirão.

Ficou meio sem graça:

— Fica para outro dia, então. Afinal, sempre tem estrela caindo no céu. E na vida...

— Se tem...

“No dia que você quiser vir...”, ia dizendo, mas me contive, falei só aquilo e mais nada. Podia ter dito “amanhã”, “depois de amanhã”, mas fiquei quieta e medrosa.

— Até qualquer dia, então — me disse.

— Até.

A gente se despede e eu registro isso no word antes de sair.

 

 

Segunda-feira. Tocou o telefone, atendi.

— Carolina? — era uma voz desconhecida do outro lado.

— Ela mesma.

— É Hildo.

Eu não tinha ouvido direito:

— Quem?

— Hildo!

— Oi, Hildo. Tudo bem?

Juro que não tinha reconhecido sua voz.

— Te vi hoje no restaurante do lago... — me disse.

— Você também estava lá? — estranhei.

— Então não me viu?

— Não, não vi...

— Você estava sozinha. E muito bonita, aliás. Aquele vestido cinza te caiu muito bem.

Ri:

— Obrigada, Hildo — e ralhei com ele: — Mas por que você não me chamou?

— Eu estava do outro lado, perto dos vitrôs.

— Também sozinho?

— Não, com um corretor de imóveis. Teu vestido combinava com o cabelo comprido e cacheado...

— Obrigada, Hildo...

— Quando você virou a esquina do balcão, a caminho do caixa, não limpou os óculos de sol na barra do vestido?

Eu ri, espantada com a observação:

— Acho que sim...

— Parece que o movimento do restaurante está caindo um pouco — mudou de assunto. — Naquela hora sempre foi mais cheio.

— Não é mais tarde que costuma encher?

— Há umas duas semanas atrás, já no meio-dia estava cheio. Por isso que gosto de ir mais cedo, menos gente, fila menor.

— Eu vou nessa hora porque é a hora em que me levanto quando não vou na Piscina... E quando não tenho Ribeirão na agenda, é claro.

— De qualquer modo, fico preocupado. É o único lugar decente em que se pode comer na cidade. Se fechar, só me casando de novo.

— Também gosto muito de lá — disse.

— Você vai para Ribeirão hoje?

— Vou... E você, fazendo o quê?

— Por enquanto não tenho o que fazer. Enquanto isso, vou dando umas aulas para o pão e o vinho.

— Você podia ter me ligado mais cedo, a gente teria ido almoçar junto... — falei sem ter desejado falar.

— Quem sabe amanhã, ou depois? — fez uma pausa. — Você vai viajar no feriado da quinta?

— Acho que não. Talvez dê um pulo no sítio em Delfinópolis... Sei lá...

— Eu te ligo no feriado. Se você estiver em casa, a gente vai almoçar.

— Liga sim. Acho que não vou para lado nenhum.

— Então tchau, Carolina. Até talvez na quinta...

— Até talvez na quinta... — eu ri.

— Um beijo...

— Tchau, tchau.

Se Hildo me viu e não me chamou, eu vi muito bem a Cê, a alta e elegante Cecília, e a alta e elegante Cecília também me viu e fingiu que não viu... Estou nem aí. Aqueles traços finos de inglesa nobre, o perfume discreto... O mesmo gesto medido de sempre, a fala sem paixão, o olhar doce escondendo as neuroses. Tenho certeza que sentou numa mesa perto da minha só por provocação, por isso apressei a comida e saí, não sem antes limpar os óculos na barra do vestido: para fazer uma coisa que ela solenemente condenaria.

 

 

Desculpa a ausência, Leo, mas esse dentinho bandido quase me matou. Não sabia se procurava o Rô ou outro dentista qualquer. Acho que não seria bom rever o Rô tão cedo e acabei optando pela segunda saída, marcando um horário com o José Eduardo mesmo, que está com boa fama e não é amigo do Rô, portanto não vai correndo denunciar minha  infidelidade.

A desvantagem de morar em cidade pequena é que a gente se encontra muito com as pessoas. Vi o Hildo de novo quando ia para o dentista e ele descia a marechal Deodoro debaixo do sol forte. Eu não o tinha visto, ele é que me acenou no sinaleiro e então parei para lhe dar carona.

— Desculpa, Hildo. Ando tão distraída — ofereci o rosto para o beijo.

— Você está linda, como sempre — olhou-me com ternura.

— Obrigada... — estremeci.

Desceu o olhar para minha camisa:

— Virou surfista?

Dei uma fraca risada de disfarce, difícil por causa do dente:

— Compro roupa sem reparar nisso! Um dia acabo vestindo algo comprometedor...

Percebeu minha boca inchada do lado esquerdo. Expliquei:

— Fui tirar os dois dentes do siso, e sabe o que o José Eduardo encontrou? Um tumor cristalizado debaixo de um deles. Só tirando também.

Mudei de marcha e diminuí para esperar o sinaleiro da Monsenhor Alves abrir:

— Estou com doze pontos na boca, Hildo. Você pode imaginar o que é isso?

Falei do meu pavor de dentista e de outros pavores maiores e menores (exceto a Cê). Incrível como me pego falando numa boa e quase sem restrições com esse cara quase desconhecido, como se o conhecesse há centenas de anos. Por ser uma pessoa avalizada por papai? Deve ser.

Desceu na praça, na esquina do “prédio”, e me deu uma vontade totalmente descabida de perguntar aonde iria, mas me contive, me beijou de levinho no outro lado do rosto, os dedos tocando meu queixo com delicadeza. Estremeci de novo...

Depois me falou:

— Estou preparando uma surpresa para você. Uns troços que você me obrigou a escrever...

Fiquei alguns minutos meio passada depois que ele se foi, pensando se podia ser aquilo mesmo que eu estava pensando. Distraidíssima, quase atravessei no vermelho o semáforo da DPaschoal.

 

 

Pensei certo. Mais tarde me ligou:

— Posso ler outra vez por telefone?

— Claro — e aí pedi um tempo porque decidi, sem que ele soubesse, gravar tudo no computador. — Espera só um pouquinho, vou tirar o Frozen do colo.

Entrei no programa de gravação:

— Estou ouvindo. Pode falar, Hildo.

E então o novamente poeta Hildo Rieli me dizia que, sozinho no bar América, diante da folhinha rasgada de calendário mostrando trigais ondulando ao crepúsculo, ainda me esperava. No meio de risos estalando do outro lado do tempo e do relógio (e comparou os minutos com velhas pálidas, de velas entre os dedos, numa procissão de Senhor Morto), insistia que ainda me esperava, a mim, tadinha de mim, que seria uma sombra silenciosa caminhando sobre as águas, um pássaro silencioso chegando da face ardente da lua ou ainda uma nuvem silenciosa perdida na calçada... E o poeta teimoso em três vezes aflitas me esperava: no vento que dobrava a esquina suja, na espuma depositada no fundo do copo e até no olhar terrivelmente tranqüilo do último bêbado...

Equivocado poeta. Como seu eu fosse digna de ser esperada com palavras tão bonitas e mentirosas... Terminava com nosso mote atual, me esperando como a última estrela cadente antes da aurora.

Meu Deus, virei musa. Estou trêmula de susto! Estou sendo literalmente cantada em prosa e verso pelo amigo que papai endossou.

 

 

 

 

 

 

O HARÉM DE PLATÃOJosé Carlos Zamboni                                              Novela
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