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QUINTA PARTE Estrela Cadente não foi hoje nadar, talvez punição do Pai pelo que julgo ter aprontado com Sheila. Julgo, não: foi mesmo real no ônibus. A danadinha saiu por último da sala de aula e, ao passar por mim, com cinismo soprou-me um beijo com a pequena mão de fada. Corei de vergonha. Gostei pouco do que senti longe da moça da Piscina — uma coisa de menos na alma, sensação de perda irreparável. Passei duas vezes por sua casa e não a vi. Para compensar, escrevi outro poema medíocre sobre estrelas que mergulham nas trevas, perguntando a mim mesmo, aflito, se não seria hora de voltar a pescar e caçar. No intervalo das aulas, depois de cem minutos desconfortáveis tentando desviar-me dos olhos da Sheila, veio a boa notícia. Zamboni, homem de duas palavras, pediu-me um minuto e levou-me para um canto da sala dos professores, onde fiquei sabendo que as aulas de literatura, na Faculdade, não serão minhas para o próximo ano. Era o castigo esperado de minha mãe, que soube mexer os pauzinhos no além. Ele ficou sem jeito, mas acabou revelando a verdade: — As freiras querem uma moça que fez doutorado na USP. Engoli a seco. Aequo animo, fiz o que pude para disfarçar a decepção, e penso ter conseguido: — Entendo — disse-lhe. — Sabe como é, Zé Carlos. O curso agora precisa de gente titulada, o MEC está em cima da gente. Por mim, preferia investir em qualidade, mas eles querem títulos. Vivemos sob a ditadura do currículo! Será que as freiras ficaram sabendo do episódio Sheila e do que ocorreu no ônibus? Não gostaram do relatório sobre o congresso paulistano? Fui sincero. Se elas queriam que eu pensasse de outro modo, é uma pena. — Se fosse você, partia logo para um mestrado. Vou começar meu doutorado anteontem — sorriu. O sinal do intervalo logo nos separou. Sobrou-me uma fita-cassete com duas peças orquestrais de Debussy, que joguei no prirmeiro lixo do corredor. A casa mergulhou novamente no vazio, sem as vozes de Ana Maria e André que, até há pouco, animavam cada cômodo. Por que não exijo que venha trabalhar sem nosso filho, alegando necessidade de silêncio para leitura e correção de trabalhos? Seria capaz do tapinha longamente desejado? Faria insinuações cafajestes, diante da tentação cada vez maior? Sinto que só o corpo de minha empregada poderia salvar-me da Estrela Cadente. Sem saber o que fazer, absurdamente sozinho, ainda abalado com a rasteira do Zamboni e das freiras, sentei-me no sofá. Nos canais sempre os mesmos da televisão, nada havia para assistir. As notícias da semana repetiam-se ad nauseam nos telejornais. Irritado, desliguei o aparelho. Fui à cozinha, bebi um copo de água, aproveitando para encher a talha. Tranquei a porta da cozinha, corri o trinco das janelas — com ladrões à solta, melhor não abusar da sorte. Voltei à sala, sentei-me de novo no sofá. Pensei seriamente em começar a ouvir mais música clássica. Iniciaria com os ingleses. Provaria ao Zamboni que até na música os ingleses eram melhores que os franceses. Não, nada a fazer. Nem com ingleses, nem franceses. Lembrei-me do poema de Bandeira “escrito para Jaime Ovalle” — mas eu não bebia café desde que reservara o cachimbo a ocasiões muito raras. Não havia chuva. Era só um começo de noite quente e vazia, na pequena cidade paulista de Canaviais, cada vez mais abominável. Ana Maria, quando longe, faz pouca falta. Só sua presença perturba-me e atrai. Sheila nem parece ter existido naquela noite (e talvez nem tenha existido mesmo). Mas a ausência da Estrela Cadente incomoda-me cada vez mais, angustia-me como se a conhecesse há séculos, ao contrário de sua imagem ao vivo no retângulo azulado, que me deixa com sincera vontade de abandonar a Piscina — pelo menos até a manhã seguinte. Vesti uma roupa leve e caí na rua. Tinha absoluta necessidade de ar puro para melhor digerir a decisão das freiras. Como sempre, nessas excursões noturnas, passei em frente à casa da Estrela — tudo apagado, como túmulo —, ao mesmo tempo desejando revê-la e rezando para isso não ocorrer. De alma vazia e corpo sem vontade, não sei como acabei chegando ao centro. Passei pela casa do próspero comerciante de crack, maconha e cocaína, cuja respeitabilidade parece crescer na cidade (dizem que pelo menos dois representantes do povo, na câmara de vereadores, foram eleitos com dinheiro seu). Se um dia enjoar da literatura e decidir viajar para outras paragens, já sei a quem recorrer. Caminhei de ponta a ponta pela rua do Comércio, a única que conservou o velho nome. Depois contornei o antigo Hotel das Palmeiras — onde funciona uma escola de línguas — e entrei na praça da Catedral. Logo passava diante da locadora de vídeo, da papelaria e da pizzaria em que, antigamente, ficavam o bar do Rui e o do Savietto, ao lado do também finado Cine Mariana. Onde enfiaram as velhas e poéticas casas das ruas 21 de Abril, Dorácio Lima e Dona Camila? A praça do velho Instituto Educacional José Olympio, atual INPS, está quase sem árvores. A antiga Estação da Mogiana é depósito da Prefeitura. Da velha Fábrica de Chinelos, depois marmoraria do Juca Moreira e hoje Seccional de Polícia, nada mais resta. Caminhei rente às paredes e muretas das velhas casas, que o redemunho imobiliário ainda não carregou, onde vivem restos de famílias que tudo possuíram e agora pouco têm, em geral com sobrenomes portugueses, depois que viram as antigas fazendas passarem para mãos de netos ou bisnetos de italianos (infelizmente, com sobrenomes que não coincidem com o meu). Olhei as altas janelas que quase não se abrem. Olhei as árvores dos jardins — que só não secam por piedade. Arranquei esse ou aquele vulto da memória, alguns nomes, dois ou três fatos, e concluí que a mudança por eles vivida — tudo possuir e tudo perder — foi muito mais pungente que a minha. Afinal, perdi as aulas que ainda não tinha... Sempre estive acostumado com pouco. Meu pai não ficou rico nem remediado, teve um pouco mais que meu avô, e esse, mais que o despojado imigrante que um dia apeou no porto de Santos para “fazer a América”. A escala econômica da família é, portanto, ascendente. Ainda estou vivo, ao menos aparentemente: posso superar meu pai nalguns centavos e continuaremos subindo. Só perdi o que não era meu — aulas, ruas, paisagens, casas alheias — ou era só da alma, que não necessita de títulos de posse para declarar-se proprietária. Poderia o sonho substituir a realidade? Serei indivíduo de uma raça em extinção, membro de uma confraria sem confrades, numa época em que as minorias se rebelam e querem a luz do sol? Não ouso acreditar nisso: enquanto mundo houver, haverá inadaptados (no melhor dos casos, porque imaginam um mundo menos miserável). Não há coisa mais fácil, e no entanto mais culposa, que imaginar um mundo melhor, sobretudo para quem sempre achou que o homem merecia mesmo ser expulso do Éden. Voltei pela avenida Marechal Caxias, olhando as pessoas que lutavam bravamente contra a velhice. Mas ganhei o dia quando cruzei com o preto desconhecido, de tênis, camiseta e calção pretos, passeando sorridente com o pastor-belga da mesma cor. Lição da fábula? Mesmo quando a coisa está totalmente preta, ainda é possível achar alguma graça. Releio o que escrevi antes e decido deixar como está o lapso de linguagem: “Por que não exijo que venha trabalhar sem nosso filho...” Afinal, já somos quase uma família — ela, minha dedicada esposa, André, nosso pequeno traquinas. Ausentam-se durante a noite, depois retornam, passamos junto boa parte do dia. Já merecemos uma fotografia a três para o álbum de meu pai. É mesmo bom que nunca apareça sem o menino. Não sei do que seria capaz, se me encontrar sozinho com ela em casa. Releio também o que escrevi, e depois risquei, antes da viagem a São Paulo: “Invejei os que caminhavam na avenida e os que ficariam tranqüilos em Canaviais...” Não há mais o que invejar. A cidade já não é aquela de trinta anos atrás, que deixei em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Resta a chance de mudar-me, assim que possível, para alguma pequena cidade vizinha — Nova Itália, Bom Retiro, Barão do Sapucaí — que devem continuar habitáveis por mais alguns anos. Viajaria, a cada manhã, para as aulas do Colégio. Seria, também, uma forma cômoda de distanciar-me da Estrela Cadente, antes que fique definitivamente preso àquele estranho olhar de monja atlética. Meu pai, a quem falei sobre o assunto, disse zombando que conhece um bom corretor de imóveis, velho amigo seu. Não acredita no filho. — Sou um escravo do hábito, pai. Sinto como nunca o tempo, me irrito com a menor alteração na rotina. Vou acabar ficando louco! Meu pai riu de novo e não sei se com razão. O certo, mesmo, é que aquelas aulas eram muito importantes para o cada vez menos platônico professor do tédio e do sono, apegado a um caderno que não passa de uma coleção de lamúrias, açucaradas valsinhas em tom menor. O jato do tempo passa bem longe, entre as nuvens altas, levando junto minha cidade e minha vida, e, a seguir, uma abominável máquina sentimental começa a emitir centenas de guinchos doloridos. Se foi iniciada para ser meu epitáfio, ou meu registro de ônus-e-bônus, esta confissão já vai ficando comprida demais para a função cemiterial ou contábil. Entretanto, vou continuar atrás do estilo seco e lapidar dos contabilistas, até emudecer de uma vez. Um dia chego ao objetivo: o silêncio absoluto das crateras lunares. A insônia é boa ferramenta a serviço do remorso. Só perde para as agonias de doenças incuráveis, quando a máquina suplica por repouso e ninguém tem coragem de desligar a chave, provocando uma perfeita antecipação do inferno, mesmo se o moribundo já possui um lote garantido no céu. Depois do forte calor, nos últimos dias de outubro, as blusas saíram das gavetas, as mantas cobriram as camas e Ana Maria voltou a dormir enlaçada ao João da horta. Era outra vez inverno, em pleno novembro, com chuva mansa e temperatura baixa. Ou terá sido um desses invernos puramente subjetivos, agora que sou a parte mais vulnerável do mundo, sem aulas na faculdade, dona Fernanda, Ana Maria, Sheila, Estrela Cadente? O sono não chegava. De nada serviam a grossa blusa de lã, a manta cobrindo o corpo e o sofá. Subi todas as vidraças, fechei as portas internas e isolei-me na sala, mas o frio inventava outra fenda e por ela entrava. Convoquei as odaliscas do harém, mas nenhuma atendeu. A memória não conseguia individualizar rostos, seios, coxas, separar Sheila e Ana Maria, Condessa Fernanda e Vera Lúcia, as moças das revistas e as alunas do Colégio. Só Estrela Cadente parecia destacar-se do caldo geral em que se dissolviam os fantasminhas eróticos, mas fazia-o em aparições rápidas — como convinha a uma estrela cadente —, os olhos melancólicos e sem brilho censurando-me por alguma coisa. Tentei dar sentido ao frio. Lembrei-me da execração da primavera lida no Tonio Kröger, de Thomas Mann. Indiretamente, era um elogio do inverno. Sempre enrolado na manta, puxei da estante o pequeno volume. Folheei-o até achar a passagem. Lá estava. Kröger visitava o ateliê da amiga Lisaveta, a quem contava o que lhe dissera Adalbert, o romancista mal educado. Li para mim mesmo, com voz tropeçada e tiritante: — “Maldita seja a primavera! É a mais horrível das estações. Acaso você consegue conceber uma idéia razoável, Kröger, consegue trabalhar com calma, aguçando o traço mais sutil, obtendo o melhor efeito, quando todo o teu sangue formiga de maneira indecente, e uma massa de sensações deslocadas te agita, elas que, tão logo você as perscruta, se revelam completamente vulgares e inúteis? Da minha parte, corro a um café. É um terreno neutro, que não se deixa afetar pelas mudanças de estações. Veja você: ele representa, por assim dizer, a esfera distante e superior da literatura, de onde só provêm idéias nobres.” Momentaneamente feliz, daquela estranha felicidade sentida sob doença com a qual já se acostumou, fechei o livro. Faria melhor negócio se me livrasse da manta. Lembrei-me do velho cachimbo e o tirei da gaveta. Fui sentar-me, outra vez, na poltrona do escritório. Tentei botar ordem na cabeça. Mexi nalgumas idéias, confrontei-as. Necessitava de algumas conclusões urgentes para deixar de ser inseto, e para justificar-me, depois, como ex-inseto, após a desmetamorfose — quando o absurdo inverno acabasse e eu voltasse à condição humana. Apaguei a luz da sala, deixando só a fraca luminária da mesa. Não suportei ficar sem a manta. Com raiva joguei o Kröger contra a parede. Os malditos livros não foram feitos para insônias. Onde estava o milagre da leitura, de que vive falando irmã Rose? A esfera distante e superior da literatura, de onde só provêm idéias nobres... Francamente! Lembrei-me do bardolino de boa safra, sempre escondido na estante, atrás dos livros. Embrulhado na manta, corri para o escritório, peguei a garrafa desprezada por meu pai. Enchi meia taça — nunc est bibendum: in vino veritas! —, mas larguei-a enojado sobre a mesa. O vinho estava péssimo, aguado, sem bouquet nem veritas. Ao forçar a descida, quase o vomitei. A água recusava-se a transformar-se em vinho, o inseto não podia recobrar a condição de gente. Onde o milagre da consciência e do inverno? Nem o bardolino, nem Thomas Mann, nem ninguém podiam fazer alguma coisa por mim. Não havia saída. Envolvi-me na manta como pude e tentei esquecer o tempo, a noite, o frio, a própria vida. Interpretei o teto por alguns minutos. A pintura estava gasta, pequenas fissuras se abriam na emenda das tábuas. O acontecimento mais digno de nota era a teia de aranha que Ana Maria esquecera de limpar. Mas não havia nenhuma aranha: até elas me abandonavam. Olhei o teto por cinco minutos, trinta, talvez uma hora. Pode ter passado uma eternidade ou tempo nenhum. É impossível quantificar o tédio. Se usasse drogas, talvez puxasse um fumo, poderia equilibrar o corpo e a alma, concentrado em nada, livre do passado, presente, futuro. Mas não usava drogas. Um calmante de farmácia talvez resolvesse. Mas não tinha nenhum calmante de farmácia. Se soubesse ioga... Mas não sabia ioga. Fui para o quarto. Embrulhei-me, com raiva, sob duas cobertas grossas, encolhido sobre mim mesmo e meu esquentado rancor (o que, por um certo tempo, conseguiu aquietar-me). Durou pouco. Voltou o frio e, por uma brecha insuspeitável, penetrou na alma. Ali ficou, mais gelado que nunca. Pensei em apanhar o termômetro, mas sabia que não era febre. Era um frio sobrenatural, fantástico, metafísico. Sem forças para quebrar a cadeia, sem poder voltar à sala ou ao escritório, nem dormir, nem beber, nem filosofar, acabei resignando-me à pena. Que vantagem havia em regressar à humana forma anterior, se é que podia chamar de homem aquele humilhante aparelho que só sabia ejacular sobre si mesmo? Se ainda tivesse as fitas de vídeo ou as revistas, talvez fosse possível voltar a ser máquina de gozar. Melhor que ser nada. Em péssima hora, jogara-as no lixo. Por fim, como um milagre, resignei-me. A única coisa a fazer era deixar que as imagens sem nitidez circulassem pela consciência tiritante, coisas nada conceituais que se misturavam e embaralhavam, como pássaros sobrevoando um depósito de ferro-velho. A sempre onipresente Estrela. Flashs de Canaviais entre ruínas. As freiras conspirando minha demissão pelos corredores do colégio. O sorriso enviesado e mal contido do Zamboni, “o negócio é afogar o ganso, padre”. O rosto desconhecido da doutora da USP. O quintal abandonado. Ana Maria esfregando minha roupa no tanque, com o traseiro arrebitado. Tentava limitar as imagens à Estrela. Refazia, ponto por ponto, o roteiro matinal da nadadora, acompanhava-lhe o mergulho na água, os mil metros executados com rosto triste e olímpica serenidade, a cabeleira crespa livre da touca de natação, a carne horizontal alimentando-se de brisa e sol na cadeira azul, o livro aberto. Como aquele ambiente matinal não combinasse com o quarto escuro e o frio, logo a perdia de vista. Retornavam, sem que pedisse, as imagens do Colégio. A opção pela doutora não teria sido forçada pelo Zamboni, que por um rabo de saia é capaz de tudo? “Sexo não tem ética”, lembrava-me das palavras do filho da mãe. Como será a doutorinha? Loura, morena, alta, ou mignon, como gosta de dizer o safado? Voltava à casa da nadadora, reaparecendo entre as árvores e a rua quieta. A Piscina. O retângulo verde-azul. As suaves braçadas em ritmo lento de pesadelo. E as nádegas de Ana Maria se aproximaram, ficaram grandes como dunas para conter o corpo inteiro do proprietário do harém. Era fácil ter os olhos de Sheila em minhas mãos. Fechava-os e abria-os como se fossem de uma boneca de plástico. Os seios da Estrela voltavam ao normal. Curvava-me, com a cabeça em fogo, para tocar o mamilo esquecido fora da blusa arregaçada, e a mão subia das pernas cálidas, parava onde era mais morno. Ela retirava-a com brandura e a conduzia de volta ao quadril, acomodando-me o rosto entre os seios. “Dorme” — sussurrou-me com o sorriso triste — “dorme...” Despertei na manhã fechada de Canaviais. Um gosto de cinza podre na boca. O abismo sem fundo cavado na alma. O cachimbo descansava apagado na palma da mão — pequeno e indiferente seio de madeira que acabara levando para a cama. E o que imaginara, verdade era. Bonitinha, simpática, articulada, a doutora pela USP apareceu hoje cedo no colégio para assinar o contrato de trabalho. A única nota dissonante, na bela música de carne, era o mau hálito. — Esta é a Paulinha, professor. Vocês vão ter muito o que conversar — sorriu o Zamboni, arrastando-a pelo corredor. Nosso professor de português, de nariz fechado e olhos abertos, ia abrindo as portas da casa à novata. Audaces fortuna juvat. Mostrou-lhe a biblioteca, a sala de informática, o laboratório audiovisual, a vista do morro do Açoita-Cavalo. Dei-lhe razão. Sexo não tem ética. A faculdade vai ganhar com o título e o Harém de Platão ficará enriquecido de mais uma odalisca — sexo não tem mesmo ética... O próprio Zamboni acabou beneficiando-me com as fitas de música francesa, da qual pouco sabia. Puxou-me o tapete? De tudo fica um pouco, garantiu o poeta. Voltando a pé, na hora do almoço, passei outra vez pela casa da Estrela. Como sempre, faço e refaço o mesmo trajeto, retardando o passo para admirar um dos lugares mais tristes da cidade — como se fosse, agora, o próprio túmulo da Estrela que nunca mais verei. As árvores da calçada e do grande quintal, que transformavam em bosque sagrado o lugar prosaico de Canaviais, eram agora sombrias e apavorantes. Será que viajou? Olhei aflito a casa, o grande vidro fumê, as árvores. As janelas não estavam fechadas: sinal de que havia gente. Mas um homem de barba, andando devagar pela rua sob o meio-dia ensolarado de novembro, poderia levantar justíssimas suspeitas na vizinhança ou nos moradores da casa. Apressei o passo e virei a esquina. Enquanto voltava, ocorreu-me uma brilhante idéia, talvez a mais luminosa, até agora, entre as que já registrei nestes foscos retângulos de papel: queimá-los sem dó, implacavelmente, aproveitando que o caderno chega ao fim, e depois sair vitorioso pelas ruas, vazio de mim mesmo, sem mais implicâncias com banhas, adjetivos e galharias. Desci ao quintal, preparei a fogueira. Quando ia arremessá-lo, outra vez um braço segurou o outro... Subi como um fantasma para a casa, infeliz por ter mais lucidez que coragem. Consegui, ao menos, permanecer alguns dias longe deste ouvinte pautado, seriamente decidido a parar com as lamúrias. José de Pés no Chão vai vencer. Vou mudar. Hei de adaptar-me, cada vez mais, à situação do mundo. Mudar é da vida. Para melhor ou pior, é coisa do homem, cujo aferidor moral decide sobre o que é mal e o que é bem — para o bem ou para o mal. De forma que teremos, para sempre, dois grandes inimigos: o tempo que a tudo devasta, e os homens que tudo querem moldar à sua vontade, e para isso não hesitam em copiar a lição do tempo.
Seria mesmo ótimo poder esquecer muita coisa — e nesse sentido a pobreza da memória, tem razão o Zamboni, acaba por ser benéfica. Ontem, fui vítima de um acontecimento curioso. Estava no sofá da sala lendo uma dessas revistas idiotas. Mais precisamente, naqueles segundos de intervalo que encaixamos entre uma página e outra. E o pensamento abriu a portinhola da cabeça e viajou, foi parar num lugar bem diferente. — Nunca vou me perdoar o fato de... Disse-o a mim mesmo, um tanto distraído, enquanto voava junto. Mas logo percebi que o sol já entrava pela janela: levantei-me do sofá e fui até a mesa mudar de lugar minha maleta. A luz já a alcançara. Quando, alguns segundos depois, tentei retomar o sofá e a frase, trazendo ao nível da consciência aquele perdão impossível, aquele grande pecado que não chegara a ser palavra pronunciada, eis que já havia esquecido completamente o resto da oração. Que fato tão grave seria esse, com o poder de me condenar? Tão grave quanto isso, por que o esquecera? Teria sido uma daquelas providências do inconsciente freudiano para preservar-me de uma idéia desconfortável? Ou seriam as gavetas da memória já em processo de emperramento no armário cerebral, nesses quase cinqüenta anos de abre e fecha para a nobre função de recordar? A memória preserva indiferentemente o que fiz de bem ou de mal. Testemunha, com fidelidade, meus poucos sucessos, ao mesmo tempo em que é um depósito de minhas vilezas e vergonhas. Ou na fórmula mais lúcida de Mario Soldati: “Devemos à memória toda nossa riqueza espiritual, mas também uma prova humilhante da nossa mesquinhez de indivíduos.” Que vileza cometida tanto me envergonha? Não matei. Não roubei. Não traí. Não dei falso testemunho. Prostrei-me diante de falsos deuses? Desonrei pai e mãe? Acaso ando por aí agindo com soberba? Sou avaro com meus parcos bens e tostões? Sofro demais com o sucesso alheio? Ponho no prato e no estômago mais arroz que devia? Esbravejo contra tudo e todos? Entrego-me excessiva e indolentemente aos braços da minha já torta espreguiçadeira? É certo que ando cobiçando a mulher do João da horta, desejando-a mais do que me faculta a Santa Igreja e os bons costumes. Daquele pesado elenco de possibilidades, o que teria feito de tão grave que não merecesse minha própria indulgência e, ao mesmo tempo, não devesse ser trazido à zona mais iluminada da minha consciência? — Nunca vou me perdoar o fato de... Perdoar-me de quê? Será o Harém? Só pode ser o Harém. Minha culpa, seguramente, é ter criado algumas personagens para com elas gozar alguns parcos minutos da carne. Mas pode não ser o Harém. Pode ser o relatório sincero que fiz do congresso. Se tivesse sido simpático às conclusões populistas... De qualquer maneira, se o esquecimento foi conseqüência do empobrecimento da minha memória, viva a pobreza — que não é tão deplorável como parece. Se foi resultado da minha autodefesa, é sinal de que minha consciência-inconsciente (admitindo que isso seja possível) ainda joga bem na defesa. O negócio é fazer como o casal de velhos, que reencontro com freqüência no Parque Municipal: aceitar. Cumprimentam-me com a deferência de sempre e continuaram o passeio lento, silenciosamente, próprio dos que nada mais esperam do tempo. Era começo de noite. O céu prometia chuva. Subia a pé para casa, pensando no fiasco da minha vida, quando vi a senhora encurvada na calçada e os saquinhos de supermercado encostados no muro. Inclinada sobre eles, esfregava disfarçadamente o próprio pulso. Ouvi-a murmurar, quando passei ao lado: — Não sei para que comprar tanta coisa... Os saquinhos eram três e estavam cheios. Tive dó, mas continuei o caminho. Pouco me custava ajudar, mas não conseguia prever como a generosidade seria recebida. Andam todos muito desconfiados em Canaviais. Além do mais, ela podia não morar perto e eu corria o sério risco de tomar chuva. Se estivesse no confessionário, ouviria seus pecados. Se no altar, botaria a hóstia em sua boca. Sem a batina e os paramentos, era cada vez mais difícil exercer o ofício da caridade. Fui um burocrata de Deus, nada mais. Tantos anos repetindo a patacoada cristã, e nada aprendi do essencial. Dez metros adiante, olhei para trás: ela vinha com sua carga. Pelo jeito, logo pararia outra vez. Continuei inflexível o meu caminho, que só poderia cruzar com o da velhinha cardíaca na imaginação. Nem só de haréns é feita minha fantasia. Para compensar o remorso, repeti a estratégia do santo Antônio: escalei um samaritano imaginário para ficar e ajudá-la em meu lugar. Noutro sentido, também sou um homem de duas palavras. — A senhora precisa de ajuda? — perguntou o bom samaritano que deixei para trás. Nem o olhou no rosto, de tanto que precisava: — Agradeço muito, moço — o braço trêmulo já ia em sua direção com o saquinho do qual mais queria se livrar. — Se não for incomodar... — Não é incômodo nenhum — disse ele. Pegou os dois saquinhos mais pesados — estavam mesmo pesados, com sabão em pedaço, óleo, arroz, açucar — e deixou-lhe o mais leve, com pão de forma e papel higiênico. Notou que ela respirava com dificuldade. Passava dos sessenta anos e tinha o rosto compassivo, triste. Exigira do corpo mais que podia dar, mas não estava irritada. O samaritano falou sobre essas miudezas de supermercado que, juntadas, acabam pesando mais que a gente imagina. — É teimosia minha — falava sem o olhá-lo, verdadeiramente envergonhada. — Para não voltar logo, compro mais que devia. Mas o coração não colabora. Como se adivinhasse sua preocupação, avisou depressa: — Moro aqui perto, logo virando a rua Portugal. — Não tem problema, minha senhora. É meu trajeto mesmo — mentiu-lhe o homem a boa mentira. — O senhor mora por aqui? — perguntou com humildade, talvez querendo certificar-se de que ele não fosse ser mais nocivo a ela do que os três saquinhos. — No bairro da Colina. — Mas então o senhor pode deixar que eu mesmo levo — preocupou-se. — Não vá sair do seu trajeto. — Não se preocupe. Não estou indo para casa — ele continuou mentindo. — Vou passar antes pela casa do meu pai. — Quanto incômodo! — gemeu. — Mas de quem o senhor é filho? Quando disse o nome do seu pai, ela não conteve o espanto e parou, olhando-o pela primeira vez: — O senhor é o filho da finada Clarice? O padre Zé Carlos? Confirmou-lhe. Quanto ao padre... Bem, o padre já não era mais padre. Era professor de literatura e filosofia na escola das freiras. Ela ficou repentinamente loquaz: — Mas como o senhor ficou diferente! Nunca que eu ia reconhecer. Falou de sua mãe. Conhecia-a desde pequena, trabalharam junto no catecismo da paróquia, foram colegas da Legião de Maria. Gostava bastante dela e ficou muito triste quando ela morreu. — O filho da Clarice... — levou a mão à boca. — Não acredito, meu bom Deus! De exclamação em exclamação, chegaram à casa dela. Era uma casinha típica do velho bairro do samaritano: duas águas laterais, veneziana grande no quarto da rua, alpendre com mureta baixa de losangos vazados. O alpendre era desgastado, mas com os ladrilhos vermelhos brilhando de tanta cera. — Agora o senhor vai entrar para um cafezinho! — a ex-senhora reticente ordenou-lhe. Não custava entrar. A sala era muito simples, com um velho sofá rasgado sob a sagrada família e duas poltronas. Na pequena estante, a televisão entre enfeites de louça. Enquanto a água fervia, veio sentar-se à sua frente e começou a contar a história da sua vida. Chamava-se Benedita, mas todo mundo a chamava de Dita. — Pergunte a seu pai pela Dita do Anselmo. Ele conhece... O samaritano nem ligou para a chuva que começou a cair lá fora. Ouvia com prazer aquela mulher que vinha do seu passado. Viúva do Anselmo, com as filhas casadas e o único filho homem, gerente de banco, morando em Ribeirão Preto. Tinha o coração fraco, que podia levá-la a qualquer momento. Tratava com o melhor cardiologista de Canaviais, dr. Marcelus, que duas vezes por semana passava em sua casa. As filhas eram muito boas, não tinham culpa dela viver sozinha. Era teimosia dela mesma, dificuldade de abandonar a casa onde viveu toda a vida de casada, onde nasceram os filhos e onde eles foram criados. — Só saio daqui no meu caixão, filho. Mexeu com ele aquele “filho”. Melhor que “senhor”. — Mas é bom evitar pegar peso — disse-lhe o ex-padre. — É só pedir que o supermercado entrega em casa. — Não gosto de amolar os outros. — Não é amolação, dona Dita. É um serviço que eles prestam. — Eu sei, mas mesmo assim... Depois da chuva e do segundo cafezinho, despediu-se. O bom samaritano não saiu, porém, sem ouvir dela a promessa de mandar o supermercado trazer as próximas compras. Mas eis que, como um raio do Senhor, aconteceu uma coisa real que não estava agendada. Outra vez, sem poder segurar o vômito, pedi socorro ao lápis e ao novo caderno, disposto a continuar derramando-o. Depois de vários dias sem ver a Estrela, fui reencontrá-la na Delegacia. Que fazer agora? São fatos que ameaçam os dois tempos do personagem, o do relógio e o da alma. Tenho provavelmente duas saídas: providencio varinhas e cartucheira, ou abro a porta ao mundo. Foi o teste decisivo para confirmar que não tenho mais salvação e, de uma vez por todas, não pertenço mais à volátil Ordem de Francisco. — Se ficar, o bicho come. Se correr... — provoca o fantasma do Zamboni. De nada serviu traçar o programa de mosteiro, quando já estava livre para as safadezas do mundo. Cheguei ao ponto de não saber a qual José dar mais crédito: se ao que manda as tropas avançarem, se o que abdica do trono. — Nunca é tarde para mudar, padre. Mude para aceitar a mudança. A salvação é viver como todo mundo. Vai na praça, chupa um sorvete. Aliás, a gente muda a cada milésimo de segundo, para o bem ou para o mal, querendo ou não — parece dizer-me o mesmo fantasma, de quem ainda posso virar discípulo fiel. A mudança, mais que categoria do ser, é pão-nosso-de-cada-dia. Eis o refrão do século. Mudei-me do eterno para o contingente, apeei de Deus, sem contudo lembrar-me de tirar a batina da alma. Mas vamos aos acontecimentos. Depois de quase cem páginas de blablablá, trago-te enfim fatos, caro papel. Antes daquela cena grotesca, na Delegacia, passava como de costume pela rua da Estrela (que é Maria Cristina, no registro de nascimento), incomodado comigo e, ao mesmo tempo, atraído pela força irresistível que me empurrava até a casa das árvores. Era meio-dia: ninguém passava por ali, exceto um ex-padre de cabeça dividida e uma carroça de aluguel, com o condutor de pé desferindo chicotadas brutais no lombo do animal. Esqueçamos os fatos. Não vou contar o que aconteceu. Bastariam as pescas, para começar. Se for preciso, recorro à espingarda. Si vis pacem, para bellum. A várzea do rio Jurucê não é longe. Não preciso de Dostoiévski. Os escritores regionalistas ainda ocupam o mesmo lugar na última prateleira da estante: sabem tudo sobre caça e pesca. Há muito que aprender nessas aulas de evasão. Poderia escrever um romance, idéia que vem me tentando faz tempo, agora que a fonte dos poemas parece ter secado de vez. Para me substituir, um personagem e um nome já me perseguem, surgidos não sei de que poço da memória: Hildo Rielli, também um homem de duas palavras, com um pouco do José Carlos que sou e outro tanto do Zamboni que observo. O nome não me agrada, cheira a pseudônimo, e talvez por isso mesmo o aceite. Umas alterações, aqui e ali, nas páginas aproveitáveis destes papéis, e já teria algum começo para um mau romance. Diário mesmo, já faz tempo que não é mais: desde que fundei o harém, perdi o discernimento e a realidade vem se confundindo com a fantasia. Como ando muito cansado de mim, seria um bom repouso, merecidas férias para a alma que tanto me pesa — e transformar-me, finalmente, naquilo que não consigo ser: paradoxo, cinismo, explosão. Antes do romance, porém, é preciso tirar a Estrela da cabeça. Não preciso da companhia real das mulheres. Bastam-me a solidão, meu prático harém e as odaliscas de éter. O mais certo, seguramente, seria obedecer ao poeta: libertar-se José Carlos daquela moça, como a flecha se livra da corda para ir mais longe. É uma boa imagem e uma idéia feliz, e com elas vou disfarçando, pelo tempo afora, minha incurável timidez de cego que não quer ver, feito só de movimentos interiores e mentais, exceto alguns vaivéns com a mão direita sobre minha parte mais reprimida. Voltemos, de novo, aos fatos. Foi constrangedor encontrar Estrela Cadente — aliás, Cristina — hoje à tarde na delegacia, apesar do mal entendido logo desfeito, das mil desculpas que me pediu, do sorriso simpático e um pouco triste, do convite para conhecer-lhe a casa por dentro, “já que o professor gosta tanto dela...” Obviamente, não lhe disse que era seu colega de Piscina. Vista de perto, pareceu-me menos nova que deslizando na água. Como seqüestrador de fantasmas, tremi diante daquela mulher longamente usurpada pelo harém, mas consegui agradecer-lhe o convite gentil e o número do telefone escrito numa tirinha de maço de cigarro. Prometi ligar assim que pudesse. — Liga sim — sobrou-me o sorriso de despedida, empalidecido pela pequena nuvem triste. Gostaria de saber que motivos teria uma jovem bonita, e provavelmente rica, para ser deprimida. É uma pena, se for defeito de fabricação. Resumindo: enxerguei algum sinal verde nos olhos escuros. “Venha”, pareciam dizer, “não tenha medo de mim... Podemos ser bons amigos.” Era tudo o que eu menos desejava e temia. O que acontecerá se aceitar o convite para uma visita à bela casa, após o grotesco encontro diante do delegado? Como explicar-me diante da família, que provavelmente exercitará o sarcasmo depois de minha saída? Como serão as próximas manhãs na Piscina? Como ser amigo da mulher que já acredito amar? Zamboni deu o nome técnico adequado ao meu problema: sociofobia. Está correto. Misantropia é filosófico demais para um sujeito tão superficial como eu. Em vez de ir em pessoa, posso mandar o personagem Hildo Rielli fazê-lo por mim no faz-de-conta literário, sub specie fictionis. Vou viver com tinta e papel a vida que me foi roubada pelo seminário e pelas paróquias. É o único Mundo-da-Lua possível. Lamento, profundamente desolado, que Ana Maria seja tão direita (o professor de português riscaria o tão e relativizaria o direita) e eu excessivamente medroso, incapaz de corrompê-la. Uma namorada casada, com o perigoso joguinho de culpas e disfarces, tornaria mais remota a possibilidade de ser reduzido a cinzas pela estrela cadente, agora provisoriamente imobilizada no céu. Quando estrelas cadentes se transformam em estrelas-guias, o final de tudo pode ser o mesmo dos camicases. Convivendo com Ana Maria, aprendi um pouco sobre mulheres. Mas há o resto, e não é pouco: o visgo escravizador do sexo, as vontades compartilhadas, o peso aviltante da rotina. Se Cristina não tiver namorado e aceitar-me, o que parece remoto, pergunto-me se valeria a pena, pelo breve e cintilante minuto inicial. Quando ela souber que vivo apertadamente, depois que pago a prestação da Caixa e o salário de Ana Maria, desanimará de mim. — Essa é tua sina, padre: temer a contusão antes de começar a jogar — sorri-me outra vez o fantasma do Zamboni. — Teu lugar é a cela escura, ajoelhado sobre pedras, neuroticamente acostumado às privações do claustro. Há outra saída, antes de tentar de seduzir Ana Maria. Talvez seja mais honesta, embora ainda torpe. Tenho telefones e endereços, passados por Zamboni, de certas garotas “limpinhas e bem apessoadas”, não necessariamente agenciadas pela Catarina, e que completam o orçamento pessoal encontrando-se, em Ribeirão, com indivíduos parecidos comigo. Mereço ser inaugurado por uma senhorita venal, depois do treino no ônibus com Sheila — se é que foi verdadeiro. Só uma profissional do sexo poderia esvaziar minha obsoleta virgindade. Uma ou duas visitas ao mês a um desses lugares não me deixariam mais miserável. Já seria um progresso em relação às revistas e às fitas, e Ana Maria não correria o risco de manchar a honra do marido com o patrão safado. Não posso aceitar o convite de Cristina antes de dormir com uma garota de programa. É uma questão de honra. Está decidido: não passarei mais por aquela rua cheia de árvores, nem aceitarei o convite de Cristina. Mandarei Hildo aceitá-lo por mim. Cristina poderia ser Carolina. Como os escritores de verdade, virarei Hildo e Carolina, vou ser as casas em que moram, o chão que pisam, o ar que respiram, as palavras que dirão para começar um caso. Meu mundo é o da lua — nele é que sempre me senti bem. Vou-me embora pra Pasárgada. |