QUARTA PARTE

 

 

O conceito do dia foi do colega Zamboni, solenemente exposto em conversa com as colegas professoras:

— Com mil perdões pelo clichê, mas mulher é mesmo um mistério. Talvez seja o bichinho que mais se pareça conosco — quase dançava à frente delas, enquanto falava. — Quando você espera a besta, surge o anjo. Ou vice-versa.

Indignadíssimas, xô! xô!, quase o expulsaram dali a tapinhas. A Vera Lúcia tirou o sapato fôrma trinta-e-quatro e pespegou-lhe uma carinhosa lambada nas nádegas. Zamboni saiu aos prantos da sala dos professores. Um bufão. Não sei por que, mas pareceu-me que até gostassem daquelas piadas do colega, em que a mulher surgia como um ser estranhamente superior, dotado de quase duas naturezas, capaz de driblar a lógica mais rigorosa e o bom senso mais enraizado. O mundo não será mesmo delas? Por isso, podem prorrogar mais um pouco a complacência que sempre tiveram para “conosco, os homens”.

Como ainda não havia apitado a sirena para o fim do intervalo, peguei meu material de aula e fui caminhando devagar pelo corredor, tentando enquadrar as mulheres da minha vida naquelas duas categorias do Zamboni. Em dona Fernanda, a besta e o anjo se entrelaçavam. Ana Maria deixaria o anjo matar a besta. As donas das revistas e das fitas de vídeo fariam o contrário.

Logo em seguida, na aula do terceiro colegial, comecei a falar sobre figuras de linguagem:

— Metonímia, palavra de origem grega. Consiste em indicar uma coisa A com uma palavra que, antes, exprimia uma coisa B, mas de qualquer modo a ela ligada.

Os rostos me olhavam espantados.

— Vamos aos exemplos — sorri. — Essa ligação entre A e B pode ser de causa e efeito, quando digo que admiro Portinari com restrições, em vez de dizer sua obra. De continente e conteúdo, se bebo um copo de vinho em vez de vinho propriamente. De lugar e produto: beber champanhe, em vez do vinho espumante fabricado na cidade de Champagne, na França. De autor e obra, se digo que comprei um Machado de Assis, em vez de dizer um livro desse autor. Da parte com o todo, quando dizemos...

— “Vou à Piscina nadar”, no lugar de “Vou à Sociedade de Cultura Física nadar” — cortou-me a voz forte da pequena Sheila.

Concordei entusiasmado com minha odalisca. Também não pude contestar a observação do Tomate (sempre com um boné diferente), de que metonímia é palavra horrível, propiciadora de trocadilhos vis. No entanto garanti que, apesar de tudo, feia ou bonita, todo aluno de terceiro ano era obrigado a conhecê-la, se desejasse ter o cabelo raspado e o corpo recendendo a ovo depois do vestibular. Foi a vez deles concordarem.

Apesar da aula cansativa, cheia de definições e exemplos, vim contente para casa, pensando em Sheila e na Piscina. Poderia ser uma solução para este corpo que envelhece e apita desesperadamente na curva.

Com duas taças de vinho, levei Sheila e a Piscina para o harém, onde a deixei rapidamente livre do uniforme colegial. Digam o que quiserem os homens práticos, mas a imaginação é infinitamente mais produtiva que a realidade. Aparentemente sem limites, desnuda as mulheres mais inacessíveis, constrói gigantescos e imponentes castelos de areia, faz o pensamento girar todo o universo no lombo de um mísero segundo. Não era mesmo um milagre — milagre do Cão, talvez — Sheila estar ali comigo, sem que aquele deslocamento dependesse de sua vontade? Ali estavam as perninhas cheias, os seios pequenos, o sorriso maroto — anjo e serpente embalados no mesmo frasco. Uma quase-Sheila, diria o Zamboni, sempre muito preso à materialidade das coisas. Mas as quase-mulheres sempre dizem sim, nunca pedem dinheiro, e jamais aderirão ao pensamento feminista.

De repente, de chicote em punho, um homem muito antigo irrompeu pela primeira vez no harém e expulsou Sheila dali. Vade retro, Satana! A imaginação não é tão livre como se imagina. Até no Harém de Platão há leões-de-chácara. Repus Sheila em sua órbita, de novo entregue a seus dezessete anos e suas abomináveis apostilas de vestibular.

 

 

Sobrou-me a Piscina. Ainda era tempo de salvar um pouco do tempo — o tempo que me restava de vida. Depois de tantos anos sem ali voltar, decidi rever a Sociedade de Cultura Física nessa primavera quente. Pedi para entrar, olhei, e vi que tudo estava diferente no velho clube. Mas para melhor, por mais inacreditável que pareça.

Animei-me, acabei comprando um título patrimonial. Tinha um pouco de dinheiro em poupança, meu pai emprestou-me o resto. Descolei uma foto três por quatro de um documento sem valor e fui submeter-me ao velho e sonolento doutor Alves, médico do clube. Olhou-me três dedos dos pés e decretou — também por metonímia — minha perfeita saúde. Agradeci-lhe do fundo da alma.

Estava pronto para a Nova Era. De manhã, tinha algumas “janelas” no horário do Colégio e os fins de tarde eram livres: o suficiente para o clube.

Terça-feira foi o primeiro dia. Troquei-me no vestiário, um pouco incomodado de tirar a roupa em lugar público. Oito e meia da manhã, um belo céu azul, nenhuma nuvem. Fiquei parado diante do grande retângulo azul-esverdeado de água. Apesar de não haver viva alma por perto, hesitei em pular. Dentro, temi nadar. Esbracejando, notoriamente fora de forma, engoli logo de início alguns goles de água. Tossi, agarrei-me à borda. Não tardei, porém, em familiarizar-me com o mais vivo dos elementos.

Saí de bem com minha vida, mesmo sabendo que jamais repetiria o desempenho dos vinte anos.

 

 

Com a Piscina no horizonte, a prisão do Colégio fica cada vez mais difícil de suportar.

— Procure não desviar-se excessivamente das apostilas, professor — recomendou-me a coordenadora pedagógica, uma irmã baixinha e seca que anda quase voando pelos corredores do velho prédio.

Comentei o fato com Zamboni, curado dos rins mas novamente recaído do coração. Estava mais interessado na Débora que em desentortar a filosofia pedagógica das freiras:

— Que me importa a educação brasileira? É a vida do indivíduo Zamboni que corre perigo, padre. Desconfio que aquela filha da mãe acabou arrumando um emprego decente. As crises econômicas tem pelo menos uma vantagem: desestabilizam as moças menos preconceituosas, deixam elas mais acessíveis.

E agora que sou parceiro quase diário da água e do sol de outubro, armei-me de coragem, rasguei e queimei todas as revistas do Cão, botando-as no lixo com as fitas de vídeo — como um rito de passagem, ou outra santa inquisição.

Basta-me o harém de éter, apesar do leão-de-chácara que vigia a entrada das mulheres. Por que apesar do? É até bom que ele fique por lá. Do jeito que as coisas iam, o harém corria o risco de transformar-se num vil e reles puteiro. Quem sabe, um dia, não precise mais da torpe molecagem, quando for mens sana in corpore sano.

Até desisti de comprar a televisão por assinatura, da qual vive falando o Zamboni, com dois ou três canais privés que me poupariam idas a Ribeirão para o suprimento de filmes.

— Sou um prisioneiro do sexo, padre. Ele me impede de enxergar realidades mais profundas que as vaginas — disse-me outro dia o obsceno gramático. 

— Espera-te a voluptuosidade do nada — profetizei-lhe.

— Como Machadinho é cruel! — gemeu com tristeza.

Farei por mim o que o amigo não faz por si: esmagarei a hidra libidinosa. A barriga está curvilínea? A pele disputa com a cor da nuvem e do algodão? Tomei algumas providências, a começar pela touca plástica e um par de óculos de natação, que boto já no vestiário. É minha máscara, com a qual nenhum aluno ou aluna do colégio me identificariam. Quando não posso chegar bem cedo, com o clube ainda quase vazio, vou no final das tardes, quando começa a esvaziar-se.

Complementei essas medidas com uma política anticristã que parece dar certo: suponho que os outros não existam. Ao menos na Piscina, deliberei que o próximo — a velha alteridade dos filósofos —  era uma pífia abstração, sem nenhuma representatividade em meu pequeno congresso de sol e água. O máximo de disfarce e o público reduzido ao mínimo são as palavras de ordem para o sucesso do circo.

Descobri que o melhor momento para pensar na vida é boiando de costas sobre a água azulada, após duzentos ou trezentos metros de nado ininterrupto, como o Pai descansando dos seis dias da criação.

A água deixa-me perigosamente otimista. Com o mundo reduzido ao azul do céu e a poucos fiapos de nuvens, tudo aparece nítido e cartesiano no espírito, as idéias acodem claras, precisas, com a nitidez e a lógica que as coisas nunca tiveram nem terão — e acabo por me convencer, pelo menos enquanto estou na Piscina, de que estamos no melhor dos mundos possíveis.

Não ligo para astrologia. Fiquei no entanto mais animado com a natação ao ler, numa revista sem capa do barbeiro, que o elemento do meu “signo” é a água e dela depende minha saúde. Na mesma revista, soube ainda que José Carlos é sessenta por cento líqüido nas células, no sangue, na saliva, na bilis, na urina, no esperma. Sem dez por cento desse oceano, correria perigo de vida. Se o esperma não ultrapassasse esse percentual, de bom grado o deitaria fora.

Mantenho o pé atrás com os astros, mas creio cada vez mais no poder da Piscina e da água. É uma forma indireta, quase envergonhada, de acreditar em mim mesmo.

 

 

A água me deixou mais corajoso e fui conhecer, finalmente, a horta do marido de minha etérea “esposa”, perto da antiga Estação. Hesitei muito antes de tomar a decisão, achando que seria grossa canalhice da minha parte. Se a razão aparente era a busca de paz e algumas informações práticas sobre horticultura, no fundo era só a mesquinha vontade de conhecer e invejar o homem que levava Ana Maria para a cama e, além disso, era o pai legítimo do nosso “filho”.

Para o hortelão não cheguei na hora melhor, mas caí do céu para o André. O pai gritava furioso com o pequeno, apesar da voz aguda demais para o corpanzil:

— Passa pra cá, moleque! — o cinto já vibrava fora da calça, quando me viu.

Quando me apresentei, arregalou os olhos e estendeu-me um comprido tapete de mesuras, desculpando-se envergonhado pela cena. Irritou-se com o André porque tinha deixado aberto o portão da horta, que é o paraíso proibido das galinhas.

— Como galinha de pobre anda sempre esfomeada, professor, dá para imaginar...

Foi fácil imaginar a catástrofe. Gostei de saber que André tinha quem lhe educasse, além das complacências de Ana Maria. Mas de certo modo, vergonhosamente, senti-me também ameaçado por aquele cinto que pendia da mão direita do homem. Lembrei-me das coisas vis que já fizera, no harém, com a pobre mulher do hortelão, além da obsessiva fantasia do tapinha. Decidi sair logo dali. Estava louco quando tomei o rumo da horta.

— Falo cem vezes! Mas essa peste nunca aprende, seu Zé — desculpou-se o homem, enquanto me levava ao canteiro de alface.

A horta é pequena, contudo bem cuidada. Depois da transportadora de Ribeirão tê-lo demitido, é dela que vem tirando atualmente o sustento de Ana Maria (que, por sorte, não estava em casa àquela hora), de André, da filha mais velha, do vira-lata de orelha quebrada e das próprias galinhas intrometidas.

— Olha que maço especial! — apontou com o canivete. — Leva esse, professor.

— Vai — concordei quase sem olhar, só pensando em dar o fora.

Arrancou o pé, sacudiu a terra, amarrou-o com uma tira de palha. Sem cerimônia, fez o elogio da própria criação:

— O senhor vai ver a macieza.

Tirei a carteira do bolso:

— Quanto pago?

— Vê lá — riu sem graça —, do senhor não vou cobrar.

Fiquei sem graça.

— Pode guardar a carteira, professor. É um brinde da casa. Alface como essa ninguém acha na cidade, sem veneno, adubada com bosta de boi. Espia só o tamanho da folha! Basta uma dessas para uma salada.

Grande João! Ana Maria arranjou o marido certo, mas merecia um melhor patrão. Já mais calmo, seguro de que ele nunca saberia da existência do harém, arrisquei algumas perguntas sobre alface e almeirão, devolveu-me duas ou três instruções proveitosas.

Enquanto isso, por via das dúvidas, meu “filho” tinha ido esconder-se no alto da mangueira. Como se pedisse socorro, olhava-me lá de cima com a cara atônita — nunca esteve tão parecido com a mãe —, enquadrada na pequena clareira que abriu entre os galhos.

André, coagido à imobilidade no alto da mangueira, daria tudo para estar em meu lugar, naquela tarde de perseguição e cinto de couro, enquanto eu gostaria de ter a sua idade, livre dos compromissos da vida adulta, livre sobretudo de desejar sua mãe, depois de ter invejado e secretamente odiado o homem que a despia.

 

 

O clube é compromisso diário. Ao chegar ali, hoje cedo, subi os degraus da pequena arquibancada ao lado da piscina e fiquei quinze minutos deitado na cadeira de sol, as pálpebras descidas, pensando em nada além de água, céu e sol.

Depois caprichei como pude numa ponta, que saiu torta como um arpejo de Bartok, uma perfeita e humilhante barrigada, mas estava outra vez nos braços da minha única parceira: Don’Água. A água “sempre recomeçada”, para parodiar o poeta. Meu principal elemento. Nos poucos segundos da parábola, entre o pulo e a subida, o corpo reviveu o útero da mãe, o aconchego absoluto, o sono original. Quem sabe, a antiga condição de peixe, antes do macaco e do homídeo.

De volta do meu tranqüilo mundo azul, abri os olhos e percebi que estava de novo na clara manhã canaviense, mas ainda um pouco dentro dela — aqua fratella, agua mãe. Foi então que, pela primeira vez, vi a moça saindo do vestiário, cabelos presos na touca cinzenta, envolvida da cintura para baixo em uma toalha amarela. Mirabile visu! Aproximou-se da cadeira de sol, deixou ali um livro, tirou a toalha e os óculos escuros. Na beira da piscina, esticou os braços e saltou. Foi a mais macia das pontas. Nenhum pingo ergueu-se da água. A touca reapareceu de fora, quase do outro lado da piscina, após vinte e cinco metros de mergulho. A sereia voltou num crawl ligeiro e suave, sem fadiga de velho.

Envergonhadíssimo, fugi da água e tomei o caminho do vestiário. Passei o resto do dia ocupado por aquela súbita epifania matinal.

 

 

No sol forte das onze horas, apoio-me no cabo da enxada, depois de cortar a touceira de braquiária ao redor do angico recém plantado.

— Alguma notícia do irmão, Ana Maria?

Ela curvava-se tentadoramente no canteiro da cebolinha-verde, a pequena bacia plástica ao lado.

— Chegou mais uma carta, seu Zé. De Montes Claros — disse sem voltar-se nem desfazer a pose provocante.

Não se viam, contou-me certo dia, desde 1969. Ana Maria era pouco mais que uma menina quando ele se foi, casado de novo, para um povoado no norte de Minas. Ela ficou por aqui, casou-se e teve dois filhos, está começando a despedir-se da juventude. Há três anos, pegou um ônibus em Passos e foi reencontrar o irmão, agora viúvo.

— O mato está tomando conta desse canteiro. O senhor viu?

— Depois dou um jeito.

— E o professor gostou da horta? — virou-se, finalmente. — O João ficou contente que o senhor apareceu.

— Gostei — disse laconicamente, mudando logo de assunto: — Botou as cervejas na geladeira, Ana Maria?

— Meia dúzia, como o senhor falou — sorriu com malícia.

O que ela quis insinuar? Gostaria, no fundo, de fazer-me companhia? Quem sabe no próximo ano, quando André entrar para a escola e não houver mais necessidade de trazê-lo. Se, até lá, eu ainda não estiver com mens sana em corpore sano, muitas coisas poderão acontecer, se o Diabo der uma mãozinha. Sempre contendo a vontade de estapear-lhe as nádegas provocantes, fiquei em silêncio e nada disse sobre a visita prometida do Zamboni. Depois do cálculo renal, o amigo anda bebendo mais cerveja que antes — segundo ele, por estrita recomendação médica.

Mais tarde, depois que Ana Maria se foi, cansada e descomposta pelo trabalho, desci ao quintal com a espreguiçadeira e acomodei-me na sombra do jambolão. A cabeça inclinou-se para o lado, a madeira rangeu. Fechei os olhos e acionei o harém.

Minha empregada chegou sozinha no povoado estranho, à procura do irmão. Evidente que fui junto, mas por cautela fiquei em Montes Claros, aguardando-a no hotel. Ela apeou do ônibus, procurou distinguir entre os rostos desconhecidos as feições do irmão viúvo. Eles se abraçaram, trocaram frases estranguladas pela emoção, cada um espantado com as rugas e a morte cada vez mais próxima do outro.

A diferença era que Ana Maria teve quem a consolasse, dois ou três dias depois, quando nos reencontramos no hotelzinho da cidade mineira, onde o ex-padre finalmente conheceu mulher, depois das bravatas platônicas da Condessa Fernanda. Ela me confessou, envergonhada, que sou muito melhor de cama que seu hortelão chucro, que atualmente só admite couves e alfaces.

— Se você quiser, nunca mais volto para o João... — disse-me, acariciando-me com as mãos luzidias de cozinheira, ainda recendendo levemente a cebola e alho.

Olhei o corpo rudemente belo de Ana Maria, meio escondido sob o lençol do pudor. Apesar de ainda bem conservada, estava naquela idade em que a última juventude, mais consciente do abismo próximo, parece brilhar mais intensamente que a primeira. Prometemos ficar juntos naquela luta desigual com o tempo que passava, mas de minha parte prefiria manter as aparências: ela continuaria fingindo que é mulher do João da horta e eu representando o papel de patrão canalha.

Virei-me para o outro lado, na espreguiçadeira. Ana Maria foi-se como a fumaça que sobe da chácara do Migotto. A moça da Piscina entrou sem obstáculos na portaria do harém, vinda de algum ponto do infinito como uma estrela cadente. Rebobinei depressa o vídeo mental. Cabelos presos na touca, ela sai do vestiário com a toalha amarela envolvendo-a da cintura para baixo. Deixa na cadeira de sol o livro, a toalha e os óculos escuros. Aproxima-se da beira d’água e, suavemente, salta de ponta: a superfície líqüida quase não se mexe. A touca cinzenta reaparece do outro lado, depois de vinte e cinco metros mergulhando.

 

 

Zamboni chegou pontualmente para as cervejas. Com espanto de donzela e queixume de solteirona, só sei lamentar o tempo presente, que continua massacrando lá fora:

— Meu pai ligou na hora do almoço e estava bastante aflito, Zamboni.

— O que foi com o velho?

— O tio João foi assaltado na pracinha do Doutor Jorge, em plena luz do dia.

— Lembro vagamente do seu João.

— Foram dois pretos. Surgiram do nada. Por tio João andar sempre bem trajado, exigiram primeiro o cartão de crédito. Como ele nem sabe o que é isso, pediram o dinheiro que trazia. Mas tio João nunca anda com mais de duas ou três moedas no bolso. Imagina um frágil corpo de mais de oitenta anos... Derrubaram ele na calçada, impiedosamente.

Derrubaram-no, padre.

— E depois chutaram-no de raiva. De um lado fiquei com dó, é meu sangue. Mas se não fosse tão munheca, não teria acontecido.

— Em Ribeirão, ando sempre com um dinheiro a mais no bolso. O troco do bandido.

— Assaltos às casas, então, nem é bom falar. Nas fuças da vizinhança. Os bandidos entram e levam o que querem. A polícia sabe quem são, mas não pode prender sem flagrante. Onde é que estamos, meu Deus?

— Você precisa ler mais romances americanos. Eles nos dão uma visão completa da vida, com uma emoção que os filósofos não conseguem despertar. Sabe por que sempre gostei de lê-los? Para nós, brasileiros, eles funcionam mais ou menos como futurólogos: tudo pelo que os americanos já passaram, nós vamos passar também no Brasil. Com atraso de décadas talvez, mas vamos viver. Quando lia aquelas histórias escabrosas de Nova York, passadas em plenos anos cinqüenta e sessenta, Ribeirão ainda era uma aldeia. São Paulo, mesmo, ainda era tranqüila. Se você tivesse lido mais os americanos, não estaria estranhando tanto as mudanças de Canaviais.

— Mas você leu, e parece tão assustado como eu com a chacina.

— A chacina foi diferente, um acontecimento quase mítico. Uma mistura de Rei Édipo com Macbeth. A verdade é que sempre estivemos bem longe da terra firme, meu caro, naquele ponto em que os maus navios afundam. É ilusão pensar que antigamente era melhor.

— Não estou preocupado com acontecimentos míticos, mas com o lugar em que vivo. Pela lógica, a tendência desses roubos é aumentar com o tempo. Juntando esse tipo de coisa à inépcia dos últimas gerações de políticos, concluo que a cidade em pouco tempo estará inabitável.

— O pior é que não tem mesmo ninguém capaz de tocar o barco com inteligância. Conheço todo mundo por aí. Quem presta, não quer se meter em política. Mesmo se houvesse alguém aqui, não ia adiantar. O problema é mais em cima...

Ecce homo! Descobri, no fim da conversa, o motivo real da visita do Zamboni. Depois da terceira cerveja, tirou da bolsa o pequeno embrulho e passou-me: era um rolo de filme com certas fotos que não podia, “em hipótese alguma”, revelar por aqui. Queria que o levasse a São Paulo, na viagem que eu faria a serviço das freiras:

— São fotos de arte, feitas no capricho. Tem até da ex-mulher de um ex-prefeito de Canaviais... E pode olhar à vontade, padre. Libero para você.

Explicou-me, em seguida, que eram “trabalhos” dos últimos anos, com várias parceiras, em diversos ângulos e poses:

— É a minha pequena coleção. “Il catalogo é questo delle belle que amò il padron mio...” — desafinou o trecho do Don Giovanni.

— Passam de “mille e tre”? — perguntei-lhe.

Um lerdo tapa no ar, com as costas da mão, espantou um obstáculo invisível:

— Vê lá, padre. Minha preocupação é com qualidade. Não me importo com números — gemeu, desconsolado: — Só falta a Débora...

Se faltava Débora, era preciso falar muito de Débora. E, nesse caso, as cervejas mal dariam para o começo, pois quem era obrigado a conviver com a falta de Débora, necessitava de um boteco inteiro só para si. Acompanhei-o resignado até o bar do Romano, sabendo bem o que me aguardava pela frente.

Horas de pagar pecados, essas em que passo ouvindo o Zamboni a falar sem trégua da moça desaparecida:

— Se você a ouvisse implorando por um tapinha, padre... Era o paraíso!

Enquanto o gordo trazia e levava os cascos vazios do amigo, o conteúdo do meu copo diminuía devagar, o suficiente no entanto para desligar-me de Débora e do infeliz apaixonado — que não queria interlocutor, bastando-lhe o pretexto para lamentar-se.

Fiquei pensando na moça da Piscina, a quem tornei a ver pela manhã. Dessa vez, a toalha era azul e a touca branca. Na saída, enquanto ela nadava, passei discretamente pela cadeira onde estavam suas coisas, mas não consegui ver o título do livro que trazia.

— Você acha que devo arranjar um detetive particular, padre?... — o olhar do Zamboni vinha do fundo das órbitas sonolentas.

— Parece a única saída.

— Traz um maço de cigarro, ô Romano! Qualquer marca serve! — Zamboni bateu na mesinha, quase derrubando a garrafa. — Devo ser o único fumante bissexto do planeta.

Romano trouxe o maço, piscou-me indicando o Zamboni com a cabeça. Sorri, discretamente desolado.

— Um detetive particular poderia resolver, padre... Há uma agência respeitável em Ribeirão, sabia? A demanda dos cornos é cada vez mais crescente. — explodiu a risada de sempre. — Dessa vez, aquela filha da puta não me escapa...

Só consegui desvencilhar-me do professor quando passou o último circular para Ribeirão, às dez da noite.

— E vê se acorda, padre! — despediu-se de mim. — Você vive no Brasil. Ou está achando que ainda mora na Suíça? Isso que começou a acontecer com Canaviais, já foi sofrido antes por muita gente, em muitas cidades. Agora chegou tua vez.

Ajudei-o a agarrar o corrimão do ônibus e subir o primeiro degrau da escadinha, sob o olhar cansado do motorista. Quanto a mim, incapaz de adaptar-me ao que é e ao que deve ser, só me restava voltar para casa e soltar a voz no banheiro: Va, pensiero, lontano dagli occhi... Entra de manso, como um ladrão, naquela bela casa entre árvores, onde vive uma moça triste.

 

 

Noite escura no hotel de Montes Claros. Ventava, as vidraças batiam. Acariciei o cabelo preto e liso de Ana Maria, subi-lhe a camiseta, beijei-lhe os ombros e os seios, acariciei as cobiçadas nádegas.

— Não sei se te seguro aqui ou te mando embora — disse-me baixinho, com resignada melancolia.

Ainda com a cabeça abandonada no grande seio, deixei que ela decidisse:

— Você escolhe... — disse-lhe, embora desejasse ficar ali para sempre, sabendo mesmo que ficaria, se insistisse.

Ela permaneceu em silêncio durante alguns minutos, o tempo necessário para a decisão. Murmurou em seguida:

— Vou te levar comigo para Montes Claros — afastou de si, delicadamente, minha cabeça latejante, desceu a camiseta e cobriu os seios. — Vem...

Em vez disso, abriu a porta da minha sala e sumiu na tarde de Canaviais, gritando ao André que esperasse a “mamãe”. Acordei com a enxaqueca já tomando conta do lado direito do rosto. E assim permaneci o dia todo: uma carcaça vazia, absurda, dolorida, apesar das cápsulas de analgésico engolidas de seis em seis horas.

É no que dá um padre carola cobiçar a Ana Maria do próximo.

 

 

Depois de dois dias sem poder ir à Piscina, preparando com as freiras minha viagem a São Paulo, voltei hoje cedo. A moça chegou para novamente humilhar-me com o crawl perfeito. Pude ver-lhe melhor o rosto: me pareceu triste, de uma opacidade pouco atlética.

Logo fugi da Piscina e resolvi caminhar um pouco pela cidade, antes das duas aulas no período da manhã. Era grande a vergonha que aquele corpo jovem me provocava — eu desajeitado, eu prematuramente envelhecido com aquela barriga, aquela barba e aqueles quase noventa quilos de monge comilão, resultado da boa cozinheira que arranjei.

Saí pensando na moça, caminhei pensando na moça. Para disfarçar o incômodo antecipado da viagem a São Paulo e abastecer-me do suprimento necessário de rotina para suportar a aventura e o desconhecido, agarro-me outra vez à velha Canaviais. Como um sub-Proust esmagado pelas patas do tempo, andei sem rumo por velhas ruas do centro, parei diante das casas que milagrosamente ainda continuam de pé.

Sentado na pracinha do doutor Ciro, olhei demoradamente o casarão da dona Loló Junqueira. A mureta, com suas grades enferrujadas, ainda estava lá, mas as janelas nunca estiveram tão fechadas, sem sinal de vida humana nos cômodos. Até quando ficaria de pé, epitáfio arquitetônico a uma época definitivamente enterrada?

Sinto-me cada vez mais sozinho na cidade. Quantos, entre esses animais que vestem roupas e guiam carros, podem ser considerados racionais, pensando para agir? Quem, hoje em dia, ainda se interessa em tornar Canaviais um lugar, além de útil, também bonito e agradável, nos velhos padrões da beleza greco-romana que os livros nos ensinaram?

— Incorporemos a passagem ou deixemos o tempo em paz — diria o Zamboni. — O século XX dele já se ocupou muito, encheu papéis que, picotados, dariam para bem mais de um carnaval.

Volta a idéia de santo Agostinho: só sei o que é, quando não me pergunto sobre o tempo. Será que, mais que os filósofos e os poetas, não diz mais sobre a vida e a morte aquela velha lei de Newton? Uma força impele a massa das coisas, e as coisas aceleram, põe-se em movimento, depois novamente repousam. Eis tudo.

— De que mão poderosa viria a Força? — poderia perguntar o Filósofo.

— Por que a mão é tão cruel? — gemeria o Poeta.

Como o Físico não precisa perguntar nem gemer, terminei o giro com um sorvete na praça da Catedral: o termômetro de Canaviais, depois da queda inesperada, voltava à marca sufocante dos trinta e cinco graus.

 

 

A viagem a São Paulo foi fastidiosa. Não pude recusá-la, pois preciso das freiras. Mas preferia não sair daqui, apodrecer no quintal como um velho barco encalhado numa ilha deserta. Sou um escravo espontâneo do hábito. Irrita-me abandoná-lo, sobretudo agora que tenho motivos de sobra para comparecer diariamente à Piscina — pela água, pelo sol, pela moça, mais uma aquisição valiosa para o harém.

Foram três dias inúteis naquela cidade insana, com dor de cabeça no primeiro e enfadonhas palestras pedagógicas nos dois últimos, sem tempo para uma visita às livrarias Francesa e Italiana.

O pobre evento acadêmico escondia-se sob um nome solene demais para as pífias conclusões a que se chegou no final: “As perspectivas da educação no novo milênio”. As palavras mais usadas foram “exclusão”, “inclusão” e “cidadania”. Parece uma praga. A preocupação maior não era com a qualidade do ensino a ser oferecido, única condição para tirar o país das cavernas e facilitar o emprego dos pobres, mas em saber qual era a ideologia mais adequada para comandar a festa. Todos foram unânimes num ponto: a dez anos da queda do Muro de Berlim, educação ainda devia ser consciência de classe. Segure-me, Pai do céu!

Salvava-me pensando na moça da Piscina, a Estrela Cadente. Posso chamá-la assim, à maneira dos índios? E nenhum pensamento lúbrico com ela, ao contrário dos provocados por Sheila ou Ana Maria.

Cheguei de viagem antes da seis da manhã. Como o colégio deu-me de presente o dia para escrever o relatório do congresso, resolvi não desperdiçá-lo com cama e sono: corri à Piscina. Estrela Cadente já estava lá, naquela estranha combinação de tristeza e atletismo, o livro na cadeira para depois dos mil metros. Quem será? Como perguntaria meu pai, “filha de quem”?

Prefere, como eu, as primeiras horas da manhã, mas como nem sempre posso vir cedo, acabo perdendo-a de vista por alguns dias. Diferente de mim, não alterna cinqüenta metros de crawl com outros cinqüenta em lenta travessia de costas, boiando geriatricamente. Vai sem interrupção, rápida e suave, ao contrário do professor de literatura e filosofia.

Uma nuvem escura de impotência atravessa a clara manhã, quando penso que, provavelmente, nunca falarei com ela. Talvez um dia a siga, discretamente, ao sair da Piscina, para lhe descobrir o endereço e prolongar em alguns minutos a fugidia presença.

 

 

Só hoje cedo, uma semana após a nota anterior, descobri onde mora Estrela Cadente, depois desses dias seguindo-a, desviando-me a meio do caminho, recomeçando na manhã seguinte, alternando freadas de temor e ímpetos de coragem. Não consegui escrever uma só linha, tão ocupado estive com ela.

É uma bela casa entre árvores, não longe daqui. Francamente, querido papel, não é mulher para o meu bico. Mais um motivo para conservá-la no alto do céu, no topos uranos, séria candidata à chefia do Harém de Platão. Instalei-a numa ala exclusiva, aparentemente mais espiritualizada, longe de Ana Maria e das alunas. Apesar de vê-la quase sem roupa, com o belo corpo à mostra, parece feita mais de alma que de carne: impossível misturá-la às outras odaliscas, nos pensamentos sujos antes do sono.

Mas era uma estrela tão alta, era uma estrela tão fria... Se não tenho coragem de abordá-la na Piscina, faço-o no harém, imaginando a conversa que teríamos. Começo falando do sol, do céu, do azul, pergunto pelo livro que lia, até apresentar-me como professor na faculdade das freiras. Tenho mais chances como professor universitário.

— Professor de quê? — pergunta-me.

— De literatura do tédio... Filosofia do sono... — digo para caçoar de mim mesmo e merecer o sorriso complacente.

Não é mentira o detalhe da faculdade, mas só uma pequena e desculpável verdade antecipada. Tudo indica, parece-me, que as aulas de literatura serão minhas.

 

 

O mais difícil, mesmo, é derrubar esse Muro da Vergonha que atualmente me separa das mulheres, coisa que nunca senti com minhas paroquianas, antes do affaire Condessa Fernanda.

Antes, bem antes, havia até muros que aproximavam. Os da casa de meu pai, na rua Campos Vergueiro, eram de barro, tinham formigas pretas e pacíficas que gostavam de circular pelas pernas lisas da Gina, filha do vizinho. Pegava-as na mão, subiam pelo braço magro e delicado: e ela ria fininho das cócegas. Caminhávamos pelo muro, no muro sentávamos e conversávamos, do muro é que víamos nosso pequeno mundo, ampliado desmesuradamente por grossas mentiras de ambas as partes.

De quando em quando, cruzo com a senhora Virgínia nas calçadas da Gordovia — nas raras vezes em que por ali passo —, cumprimentamo-nos discretamente, talvez envergonhados do passado comum, e digo-me que não é ela. Impossível ser a Gina. Espio-lhe disfarçadamente as pernas e constato as varizes, algumas estrias no rosto, longe da jovem bonita e da mulher desejável que não pude ver desabrochar, quando estava no seminário.

Luta, agora, com a barriguinha e os seios caídos, tinge de ruivo os primeiros cabelos brancos, disfarça com cremes as primeiras rugas. De roupa esporte e tênis claro, anda tão rápido que parece correr atrás do tempo perdido, como se a moça de ontem estivesse logo adiante, após alguns meses de caminhada matinal.

Penso no final da “Viagem aos seios de Duília”, conto de Aníbal Machado — o velho disparando pela noite depois de rever o antigo amor da adolescência, ao fim de longa e cansativa viagem. Não tenho motivos para esse cooper desesperado, mas de qualquer modo entristeço-me. A menina da rua Campos Vergueiro merecia um futuro menos humilhante.

Mas é impossível caminhar na Gordovia. Depois das cinco da tarde, começa a procissão dos amigos da boa forma física. Os carros passam em alta velocidade pelos inimigos do colesterol, que mal acabam de limpar as veias e já têm os pulmões emporcalhados.

Depois da devastação da Pimenta Bueno, só é possível caminhar no Parque Municipal, um milagre verde numa cidade cada vez mais seduzida pelo deserto. Foi lá que conheci o simpático casal de velhos, ele magro e sangüíneo, cabelo branco, voz grave, ela baixinha, cabelo liso e negro da tintura.

Caminhavam de braço-dado, lentos, em silêncio. Aposentados, depois da vida inteira na capital — ele enfermeiro do Hospital do Servidor, ela funcionária dos Correios —, escolheram Canaviais para uma velhice mais tranqüila (terceira idade, somos hoje obrigados a dizer), depois de conhecê-la numa excursão de férias aos quadros de Portinari. Aqui não tinham parentes, não tinham amigos, ninguém: unicamente um ao outro. Salvo quando os dois filhos apareciam com os netos, alternadamente ou não, em feriados prolongados.

Não regatearam elogios à cidade:

— Limpa, sossegada, bonita — disse a senhora.

— Tem problemas, é claro. Mas qual não tem? — ele me olhou sorrindo. — Mas comparada a São Paulo, meu jovem, é o próprio paraíso.

Agradecido pelo jovem, não discordei do paraíso. Para que falar de coisas vis? Aceitei o método comparativo. Quem sabe o utilize mais vezes, para acabar com tanta reclamação de Canaviais.

 

 

Releio o que escrevi muitas páginas atrás, sobre “Aquela por quem eu trocaria tudo, o solidão, a paz, o quintal, fazendo de mim um homem completo, diferente dessa estranha máquina que rabisca papéis ou ejacula sobre si mesma.” Encontrei-a, finalmente?

 

 

Não sei se foi mais um episódio do harém ou aconteceu de fato. Na memória, os fatos reais e os imaginários são feitos do mesmo material impalpável, e o que torna os primeiros um pouco mais convincentes é a presumível carga emocional da experiência. Talvez não passasse de uma daquelas cenas picantes dos vídeos, nas quais costumo enxertar o corpo de alguma odalisca mais próxima. A fantasia invadiu-me de tal sorte a realidade que me considero incapaz de discernir o ato e o sonho.

Foi no começo da noite de ontem, quando subia no ônibus em Ribeirão. Avistei a pequena Sheila num dos bancos de trás, que logo acenou-me sorrindo:

— Oi, ‘fessor!

Em pouco tempo, já estava sentada a meu lado, falando sem trégua do vestibular que se avizinha e do curso de Comércio Internacional que pretende fazer. Quando o motorista apagou a luz, senti-lhe a pequena perna. Em cinco minutos, comíamos junto o mesmo tablete de chocolate. Antes do rio Turvo, não sei dizer como, minha mão... minha mão já estava...

Aonde chegaria aquela linguagem das mãos, forçosamente contida, e aquele ansioso comércio de dedos, em que a lei não escrita era praticar uma autodisciplina cada vez mais difícil, numa noite obrigatoriamente sem palavras? O resto... O resto ficou, vergonhosamente, por conta do velho homem de barbas e da jovem mulher a seu lado.

Oscilando irregularmente entre ousadia e pânico, com o corpo tremendo, olhei para o outro lado do corredor, onde a preta gorda parecia cochilar em paz, tendo mais o que fazer além de assistir àquelas traquinagens dos vizinhos. Estaria bem longe de imaginar o que fazíamos, protegidos pela noite, a bolsa de Sheila e o barulho do motor.

O que seríamos logo mais, eu bem antes dela, senão duas míseras ossadas? Foi imaginando minha futura caveira que segui em frente, pulvis es et in pulverem reverteris, fazendo o que pude para não me decepcionar ou decepcioná-la. Não tinha esse direito. Hipocritamente, procurava dar a impressão de que o fazia sem aprovar.

Antes das luzes de Canaviais aparecerem no negro horizonte, eu já estava emporcalhado — e não sabia o que fazer para apear sem vexame no ponto de ônibus, com a roupa parcialmente comprometida. Foi Sheila que me lembrou do banheiro no próprio ônibus, enquanto limpava rápida e serenamente as mãos nos lencinhos de papel que trazia na bolsa.

Mal cheguei em casa, — levitando como um adolescente cheio de espinhas, sentei-me na poltrona do filósofo para melhor compreender o que se passara. Rebobinei o filme da memória, voltei ao ônibus escuro, juntei de novo a carne trêmula do professor e da aluna.

Mas durante a noite, medroso e preocupado, dormi mal. Voltava a pé do colégio — não pela Gordovia de Canaviais, mas pelas névoas da avenida da Luz, em São Paulo —, quando passei pela senhora magra e curva. Vista por trás, lembrava minha mãe antes de morrer. Andava devagar, com ar de desânimo, braços pensos, e trazia na mão direita um caniço (maior que uma batuta, menor que um bastão).

Ultrapassei-a e, alguns passos à frente, percebi de esguelha que ela tentava alcançar-me. Olhei para trás, e o que via, então, era uma senhora resoluta, de olhar duro, avançando sobre mim não com o pedaço de bambu, mas com o cinto do João horteleiro, de repente transformado em pai de minha noiva Sheila. Apressei os passos, mas era inútil: ela atingia-me as costas, os ombros, e por fim a cabeça, que eu mal conseguia proteger. Acordei imerso em suor, enquanto o ônibus freava para passar a primeira valeta de Canaviais, chegando de São Paulo e, ao mesmo tempo, de Ribeirão.

Era um sonho dentro do sonho.

Por fim, acordei de verdade, sozinho em minha cama, decidido a pagar uma missa pela alma de minha mãe e a nunca mais colocar os pés em São Paulo, mesmo que fique de mal com as freiras. Nunca mais olharei nos olhos de Sheila. Estou sinceramente envergonhado pelo que fiz com a menina — se é que tudo foi mesmo real. Farei tudo para nunca mais deixar o futuro jardim, exceto para as aulas no Colégio e as aparições na Piscina.

 

 

 

O HARÉM DE PLATÃOJosé Carlos Zamboni                                              Novela
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