TERCEIRA PARTE

 

 

Depois do ponto final no parágrafo anterior, voltou o jardineiro com a tesoura. Apontou-me, no estilo, as pegadas da bota machadiana. Esqueci as cartas e mergulhei em insolúveis questões de estilo. Acabava ou não com as frases curtas, diminuía as vírgulas, eliminava aquele braço que conteve o outro, trocava sandice por loucura? As relíquias de casa velha podiam ficar, junto com a própria menção a Machado.

Tentei. Não consegui. O braço continuou segurando o outro, e tudo ficou como estava, com Machado e tudo. Folheei o caderno em busca de outros pastiches involuntários do mestre e topei com vários. Pelo menos do ponto-e-vírgula escapei. Ninguém achará unzinho nesse diário.

Quem sabe um dia, à força de macaqueá-lo com a tinta rala do aprendiz, passe a escrever com meu próprio sangue, se puder curá-lo da anemia presente. Pois é o que me falta, papel amigo: hemoglobina e coragem.

Depois da chuva passada, o corpo alimentado com as fitas de vídeos e exemplarmente punido com enxaqueca, tentei retomar o trabalho de jardinagem, agora no próprio poema do quintal, dominado pela retórica do mato, cada vez mais refratário à enxada e à tesoura.

Esforço inútil. O quintal já não me protege da carne, temerosa das mulheres e, ao mesmo tempo, cobiçando-as como um árabe depois de muito deserto. Antes que a pornografia se transforme em filosofia de vida e aquele aviltante hábito solitário vire ocupação cotidiana, penso, obsessivamente, se não conviria voltar à pesca e à caça, talvez mais eficazes que plantar ou cortar mato.

Pois foi pescando e caçando, como recursos finais para evitar a saída da Igreja, que tentei livrar-me do cerco da Condessa Fernanda, boa mãe, boa esposa, uma das mulheres mais animadas da paróquia de Santa Inês.

Vamos ao circo. No início, tudo me pareceu preocupação caridosa de ovelha com seu pastor, até que começaram as cartas “anônimas”, invariavelmente em papel cor de rosa, que minha empregada Cida deixava sobre a mesa do quarto (cujo texto, em mais de um momento, revelava a ex-aluna de Letras, mais discípula aplicada de Emma Bovary que de gramática). Não foi difícil, logo no princípio, descobrir que a paroquiana e a redatora eram a mesma pessoa.

 

 

Padre José, como mulher educada seria melhor antes de tudo me apresentar. Pois bem, pode me chamar de Pandora, venho do sonho e ao mesmo tempo da realidade mais físico e material que existe, vivo sempre na semiletargia das minhas projeções pois somente assim consigo te possuir inteiro...

Não, não se espante. Minha idade? Como disse um poeta, o que interessa o tempo dos ponteiros para quem vive na eternidade dos sonhos? Meu autor predileto: aquele que faz os sermões mais belos da Santa Inês... Hobby: a trama. Fantasia: teu beijo. Ideal: teus braços só para mim.

 

 

Foi a primeira carta, sem data ou assinatura. Passou, a partir daí, a tratar-me com exagerado desvelo, em que entravam mais cuidados da mulher que da cristã, suficientes para que eu relacionasse a carta e a paroquiana. Comecei, então, a procurar com mais freqüência a várzea do rio Paranapanema, abandonando “nosso rebanho e nossa cruz”, estribilho com que o bispo Dom Simão resumia seu conceito do bom vigário.

De início, foram pescarias avulsas e sem muito empenho. Chegava, punha isca na varinha, jogava a linha na água do rio, mas logo lembrava-me da paróquia, das obrigações, e tratava de voltar depressa, jurando a mim mesmo que falaria com aquela mulher — com firmeza, se necessário.

De algumas horas em alguns dias, e à medida que o cerco aumentava — através das cartas e dos olhos —, a margem do rio acabou por virar refúgio quase diário, no período das tardes. Para todos os efeitos, pesquisava literatura na biblioteca da Unesp, quando na verdade estava bem escondido na beira do rio, procurando esquecer aquela estranha situação em que fora meter-me, enchendo-me, ao mesmo tempo, de vergonha e fascínio.

Parecia perigoso o ponto a que tinham chegado o pregador ingênuo e a paroquiana tenaz. Se não caí imediatamente na armadilha, também não cuidei de desarmá-la, como era meu dever. O silêncio tinha cor: é bem certo que ela interpretasse como sinal verde a complacência do padre. Se não era verde, vermelho é que não seria.

 

 

Meu amado: mude-se para o meu sonho, ali será nosso país e nosso planeta, no mais profundo de mim, no mais profundo de você... Faz parte do meu mal e do meu bem acreditar que estou onde não estou, pois saiba que estamos agora, você e eu, chegando a Gênova em 1887. Não é lindo sonhar? Tua Pandora.

 

 

A caçadora não cochilava em sua perigosa moita. Foi por aí que, de mim para mim mesmo, pensando na Condessa — perdigueira de meu avô que eu conhecia só pelos causos de família —, comecei a chamá-la de Condessa Fernanda, talvez um pouco maldosamente, como forma de autodefesa.

A perdigueira era imbatível naquela região do Açoita-Cavalo. Quando encontrava uma perdiz, sabia acuá-la e “amarrá-la” com o olhar de feiticeira. Bastava-lhe um cutucão no rabo para saltar súbito na ave, que voava assustada: Prrrrrr... Para dar mais gosto à maldade, meu avô deixava que a ave se distanciasse um pouco na altura, para só depois puxar o gatilho. A cachorra trazia-a depressa pela cabeça e sem estragos no corpo morto, além da própria morte, que é o estrago definitivo.

A Condessa de Santa Inês queria minha cabeça, minha catástrofe, meu estrago definitivo. Como o furibundo Schopenhauer, jurava morrer de armas na mão — que, por ora, não passava de um simples caniço de pescador, mas em breve chegaria à cartucheira.

 

 

Meu sonho é ser teu sonho, quero poder sorrir de felicidade diante da grandeza de tua alegria. Serei por acaso o teu fado? Dos comigos de mim para os contigos de ti,

Pandora, Roma, 1732.

P. S.: a mim não importa o livro todo, o que fica mesmo é a emoção do primeiro capítulo...

 

 

Sua participação na comunidade católica de Santa Inês era cada vez maior, como ministra de eucaristia, catequista das crianças, presidente das comissões de festas, monitora em cursos de noivos e batizados. Eu sentia medo, muito medo. Não era esse o mais humano dos sentimentos, desde que fomos expulsos do quintal para a rua, da inocência para o pecado, do espírito para a carne? Olhava de longe o rosto miúdo de Fernanda, o corpo pequeno e esguio mal contido pela calça jeans. Em nada lembrava uma senhora de quarenta anos, mas uma jovem que só passara um pouco da idade de casar-se.

Nunca, em nenhum momento, referiu-se às cartas que enviava, como se a ambiguidade fosse parte essencial daquele jogo. Nem conseguiria eu insinuar que as lera. Como aproximar-me dela e perguntar-lhe se era a autora das cartinhas? Não fazia sentido. Era uma situação muito delicada. Como se houvesse um pacto secreto entre nós, um compromisso de aceitação já impossível de ser rompido, meu silêncio podia ser interpretado de outra maneira, como indício de que aceitara o jogo. E foi assim que ela o interpretou: continuou escrevendo, mandando-me todas as tardes para a beira de rio.

 

 

Meu querido,

Não sei como aproximar-me nem sei se devo, mas a vontade é uma força incontrolável que me impele a buscar-te, então o faço através de palavras anônimas já que temo a falta de reciprocidade em relação aos sentimentos mais puros que lhe devoto. Mas a nível de esperanças ainda sou uma pessoa rica. Poderei ter esperanças no que diz respeito à verdadeira conquista do meu ideal? Te quero muito e em silêncio te espero,

Pandora, Moscou, 05/08/1864.

P. S.: Espero tua resposta nas asas de um pombo-correio ou na faísca dos teus olhos... Corresponda-se a menos telepaticamente comigo!

 

 

Padre é voyeur de almas, vampiro de segredos. Com o tempo, porém, não me contentava com esses passivos olhos de dentro. O olhar de fora tinha fome. Já não mudava o canal de televisão quando a cena do filme ou da novela eram picantes. Morando em esquina, à frente da capela, lutava inutilmente contra essa tendência espúria da visão. À noite, quando a empregada não estava, abria discretamente uma brecha na cortina da sala e punha-me a observar os namorados sobre os bancos da praça.

Quando a Condessa Fernanda apareceu, aqueles pecados das retinas já eram velhos inquilinos da consciência. O que não me impedia de exultar — feliz por descobrir comparsas  — quando um respeitável paroquiano revelava-me, nas cada vez mais raras confissões secretas, que também fazia o mesmo com binóculos ou pequenos telescópios, apontados para coisas mais perturbadoras que a lua e as estrelas. Ou que compartilhavam vídeos pornográficos com a cara-metade, quando os filhos viajavam.

Condessa Fernanda foi a gota que faltava para transbordar o copo da deserção. Fiz o que pude para evitá-la, sempre pedindo socorro à várzea: sentava-me no barranco, mergulhava os olhos na ascese da paisagem e depois regressava exausto, nem sempre bem sucedido na tarefa de extirpar da alma aquele belo tumor de saias. A alma vinha mais leve, pronta para os novos cercos de minha infatigável caçadora, sempre de unhas e beiços primorosamente pintados. Era uma luta sem tréguas, e o espírito obrigava-se a viver sempre de espada em punho. Eia, Schopenhauer!

 

 

Lisboa, 12 de maio de 1865. Padre, desejo loucamente tua boca, meu coração bate incontrolavelmente, você é meu feitiço, você faz insanos todos os meus atos e pensamentos. Quero-te, quero-te, quero-te.

“Sinto do lado esquerdo do peito, entre a quarta e a quinta costela, um calor de ventosa acompanhado de vibrações elétricas, evaporações cálidas que me passam à espinha dorsal, e daqui ao cérebro, e pouco depois a toda a cabeça.” (Camilo Castelo Branco)

“A queda da espinhela, sensação esquisita de vácuo e despego, que a gente experimenta, uma polegada e três linhas acima do estômago quando...” (Idem)

Digo com as palavras do escritor aquilo que sinto neste momento louco e mágico, onde trago teu sorriso e teu corpo no pensamento, mas porém sua presença-ausência é um eco que machuca. Da sempre tua, Pandora.

 

 

No Boa nova, informativo quinzenal da paróquia, o padre barranqueiro já dava mais conselhos práticos aos amantes da várzea, que conforto espiritual aos fiéis do Senhor. Mesmo admitindo que houvesse muitos pescadores católicos no tranqüilo bairro de Santa Inês, já estava passando da medida.

Os editoriais “Palavras do pároco” transformavam-se em capítulos de um manifesto bucólico-panteísta, em vez da tradicional explanação sobre o vínculo do mês presente com a hora eterna. Coisas como calendário lunar, modalidades de iscas e características dos peixes ocupavam, devagar, o lugar da evangelização, da catequese, das pastorais, das notícias da paróquia e da diocese. Entre os anunciantes do jornalzinho, cheguei a incluir uma loja com produtos de caça e pesca. Nas verticais e horizontais das palavras cruzadas, por mim mesmo concebidas, sempre dava um jeito de mesclar às palavras da Igreja o vocabulário da piscicultura.

A própria teologia vinha em meu auxílio. Aquele que dissera ser a Luz do mundo, e que não deixaria nas trevas quem O seguisse, não tinha sido afinal um pescador, além de carpinteiro? De que serviria a multiplicação dos pães sem os peixes por recheio? O padre pescador já estava convicto, naquela época, de que um governo cristão sobre a terra deveria basear-se, antes de tudo, na criação e consumo de peixes. Estava perto de afirmar que a própria salvação da alma, sobretudo a alma do padre José Carlos, dependia dos peixes.

A “Parábola da rede”, minha preferida àquela época, transformou-se em epígrafe definitiva do Boa Nova. Nem me cansava de citá-la nos sermões:

— O reino dos céus, meus irmãos, é como uma rede atirada ao mar. Quando cheia, os pescadores a puxam para a praia: separam em duas vasilhas os peixes bons dos ruins, do mesmo modo que, no final do mundo, virão os anjos apartar os justos dos maus, lançando-os na fornalha acesa, entre choro e ranger de dentes.

O que ninguém sabia era que pregava, antes de tudo, para mim mesmo, a um só tempo emissor e receptor da mensagem, como diriam os professores imbecis da Condessa Fernanda.

 

 

José, meu santo. Teus olhos estão sempre comigo, mas onde se oculta o resto de ti? Sinto ciúmes do próprio Cristo que te possui mais que eu, ciúmes do próprio cálice bento que conhece mais que eu o sabor dos teus lábios.

Será que habito fora do tempo? Ontem quase experimentei o calor do teu abraço, estou certa disso, faltou um milímetro de coragem de tua parte, não negue. Mas acho que no fundo foi melhor assim apesar de já estar cansada dos sonhos. Quero teus braços de carne, tua boca úmida e real, estou exausta do teu belo fantasma, no entanto...

No entanto esperarei, esperar talvez seja melhor que ter. Quem ama em “tudo crê, tudo espera, tudo suporta. O amor jamais acabará.” (I Coríntios, 13-7/8)

Dos comigos de mim para os contigos de ti,

Pandora.

Rennes, 09/08/1791, às 22 horas e 24 minutos.

 

 

A vitória da Condessa Fernanda parecia inevitável. Era preciso defender-me manu militare contra aquele cerco de Jericó, acionando todas as minhas forças armadas, externas e interiores, mesmo sabendo que, no final das contas, só haveria um derrotado: José Carlos.

Foi quando decidi trocar as pescarias pela caça.

Neto de italiano acaipirado e ovelha do cônego Manuel, eu tudo tinha para sair-me bem na arte de mandar desta para melhor os pobres animais de Francisco. Não foram o cônego nem meu avô, no entanto, que ensinaram ao adolescente os rudimentos de ceva e atração de pacas, preás, capivaras. Tudo começara no próprio Seminário de Abacaxípolis, nas saídas dominicais pela fazenda da Diocese, entre a missa da manhã e o terço da tarde, numa época ainda sem ambientalistas, em que caçar ainda não tinha entrado no índex das coisas incorretas do mundo.

Infelizmente, meu avô heresiarca já tinha ido desta para a outra quando, já sacerdote em Assis, decidi investir melhor em meu potencial predatório. É certo que não ficaria bem, a um porta-voz de Cristo, andar pelo mato de espingarda na mão, eliminando pacas e capivaras, com o risco e o vexame a que isso me expunha, ser flagrado por algum guarda florestal, topar com algum paroquiano. Mas era uma questão de vida ou morte para o espírito. Que morressem algumas pacas e capivaras, se necessário, contanto que a alma permanecesse viva.

Como não podia tomar aulas de caça com os paroquianos caçadores, nem visitar o avô num centro espírita, cuidei de ler ficção regionalista, incorporando novas técnicas às aprendidas no Seminário. Foi nos livros de Afonso Arinos, Valdomiro Silveira, Coelho Neto, Mário Palmério e Guimarães Rosa, que fiz um minicurso intensivo de caçador de capivara (cuja carne, felizmente, não conhecia).

Era minha última esperança de escapar da fornalha ardente, onde vivem os que rangem as dentaduras.

 

 

“Frêmito do meu corpo a procurar-te/ Febre das minhas mãos na tua pele/ Que cheira a âmbar, a baunilha e a mel,/ Doido anseio dos braços a abraçar-te,/ Olhos buscando os teus por toda a parte,/ Sede de beijos...” (Florbela Espanca)

Não tenho medo de que meus sonhos se transformem em realidade e toda minha vida desmorone com isso, ao seu lado aceitaria mesmo perder meu lugar no Céu mas o que mais temo é não ser amada por você depois do encontro “real” de nossos lábios. Só essa idéia me apavora!

Talvez o melhor seja continuar sonhando com tua boca na minha pele e a minha deslizando pela delícia da tua..., desculpe-me a ousadia mas são estados que só a alma em brasa possui, onde a inteligência não consegue controlar mais nada. Estou perdida!

Caminho com você em pensamento, estou sempre junto de você, beije-me, venha comigo, sorria comigo, busque-me, traga-me o perfume de teu colo e os barquinhos de carne dos teus lábios. Como hei de conter meu coração aos saltos?

Sinto que o momento do encontro ainda está longe, talvez nunca aconteça, estou insegura, gostaria de morrer.

Como é bom tê-lo por perto! Sei que estou pecando quando na santa missa desejo o corpo que se oculta sob os paramentos sagrados. Até quando o altar será obstáculo entre nós dois, meu querido? Há momentos em que você parece falar olhando só para mim, como se não houvesse mais ninguém nos bancos... Estarei enganada?

Tenho ido com freqüência ao nosso futuro ponto de encontro na Piazza San Marco. Há uma bela e delicada gôndola cansada de esperar por nós, sabia?

Quer vir comigo? Mando um anjo te buscar agora mesmo. Dos comigos de mim para os contigos de ti,

Pandora, Zagreb, 02/08/1817, 00:42 minutos.

 

 

Em minha estréia como caçador, depois de extensa bibliografia compulsada, deixei sal na margem do Paranapanema e voltei para casa. Tamanha era minha ansiedade, que à Condessa Fernanda, pela primeira vez, não fora o último pensamento daquela noite, num inequívoco sinal de que poderia estar perto a vitória do espírito sobre a carne — a minha e a das capivaras.

No dia seguinte, fui conferir. Os bichos tinham comido todo o sal, o chão estava esburacado. Deixei mais, para acostumá-las. Sob a emoção daquele estranho esporte, cuja reta de chegada era a morte, minha perseguidora de saias ia sendo reduzida, novamente, a uma nuvem pequena e pálida, condenada à última linha do horizonte, esgarçando-se mais e mais.

Após sete dias de ceva, sem Pandora em minha cabeça e, numa feliz coincidência, sem róseas cartinhas para distrair-me naquela semana, voltei à várzea com a cartucheira carregada e aguardei, pacientemente, em cima de um jenipapeiro.

Heureca! Aleluia! Elas apareceram. Veio o bando inteiro. Pecar com Condessa Fernanda poderia, acaso, substituir a emoção provocada pelo contato do dedo indicador com o gatilho, nos segundos que antecediam ao disparo?

Certa vez, numa entrevista, o escritor Ariano Suassuna contou como deixara de caçar. Andava atrás de um preá. Escondido na moita, avistou o bichinho e preparou-se para atirar. Eis que apareceu, de repente, uma cobra perseguindo o roedor. O escritor ficou espantado diante daquela coisa demoníaca, na qual se encarnava o próprio Espírito do Mal. Suassuna e cobra se identificaram no mesmo ato. Seria ele semelhante àquele ser traiçoeiro e maligno?

Investido momentaneamente de Satã, ad majorem Dei gloriam, escolhi a que me pareceu ser a mais gorda das capivaras e — garganta seca, coração aos saltos — puxei o gatilho. O bando fugiu espavorido pelo mato, enquanto descia para recolher a pobre vítima, carne imolada que significava o início da vitória sobre minha própria carne insatisfeita.

Levei-a cheio de culpas para a casa paroquial. Para a empregada, inventei que a tinha recebido de presente de um paroquiano gentil. No dia seguinte, capivara assada e mesa posta, quase devolvi ao prato a primeira garfada que levei à boca. Engoli assim mesmo o resto que me competia, fingindo naturalidade, ao lado da tranqüila Cida, que divulgava com orgulho o prazer que lhe dava a supimpa iguaria.

Uma semana de vômitos e diarréia — “desandado pra baixo e pra riba”, segundo a Cida — afastou-me dos trabalhos regulares da paróquia e do cerco implacável da Condessa Fernanda. Por esse lado, até foi bom.

No início, achei que o incômodo gastro-intestinal teria sido remorso, talvez uma decisão ecologicamente correta do corpo depois do arrependimento da alma. Que caçador era esse que, depois de tanto esforço na caça, torcia o nariz e o estômago na hora de provar a capivara? Mas logo descobri, apoiado em fonte segura, que o fator principal da repugnância fora o gosto de capim na carne, à qual faltara um bom tempero. A causa estava mais próxima do fígado que da consciência. Fiquei menos humilhado.

O saldo, no fim das contas, fora positivo. Ocupado com a várzea, a caça e a diarréia, tinha permanecido longe de Condessa Fernanda, do corpo e dos olhos daquela mulher sem escrúpulos que me roubara a paz, transformando-me no mais vil dos criminosos, no mais hediondo dos pecadores.

Quando, já curado do estômago e ainda doente da alma, julgava inocentemente que as cartinhas cessariam e a pecadora tinha enfim caído na santa rede do Senhor, arrependida do que fazia, eis que vinha outro envelope pela frincha da porta, com o róseo papel cada vez mais incendiado de palavras.

 

 

Queria possuir-te inteiro... Descendre jusqu’à ton coeur et naviguer dans ses veines, boire un peu de votre sang. Beijar teu peito até o colo e me abandonar lá-bas. Ah! Je veux aussi, aprés... Não, ainda não, talvez nunca... Por enquanto só pretendo desmanchar teus cabelos e roubar tua boca, levar-te aos altos céus nas asas de meus beijos. Desculpa meu francês fraquinho mas juro que é de coração. Dos comigos de mim para os contigos de ti,

Pandora, Toulon, 07/08/1754, 21 horas e 48 minutos.

 

 

Numa das últimas cartas — que estava, infelizmente, entre as destruídas —, a remetente deixava transparecer dúvidas sobre a conveniência de um encontro “real” entre nós, o que, misteriosamente, alegrava-me e compungia-me...

Quanta às capivaras, aquela foi a primeira e última caçada. Tinha sentido matar para esquecer uma possuída, que punha em risco uma paróquia, um casamento, uma vida? O pecado, porém, já tinha sido cometido. Não havia mais diferenças entre mim e o cônego Manuel, meu inconfessado mestre canaviense, degolador de codornas e perdizes. Estávamos igualados na vileza e provavelmente na culpa.

Antes da Condessa Fernanda, eu já era o pior dos pastores, procurando sustentar a mais insustentável das contradições: um filho que já duvidava do próprio Pai. A vida da paróquia aos poucos deixava de interessar-me. Só as raras confissões secretas interessavam-me, como ao abutre interessaria a carniça. Minha indiferença ao rezar missa era notória. Era a mesma do velho cônego de Canaviais. Nenhuma fé ardia em sua voz, ao afirmar que o Senhor estava conosco: era como se não estivesse. Como dar-lhe crédito, ouvindo-o falar de maneira mais burocrática que piedosa?

Os dois gostaríamos de dar o fora do púlpito e do altar, cada qual em sua época, não fosse mais forte o apelo das conveniências. Sob os olhos espantados do bispo de Assis, minha estante de literatura já dobrava a esquina da sala com o corredor, na muito pouco teológica casa paroquial.

Outras dúvidas surgiam, enquanto o caçador já sem várzea transformava-se, cada vez mais, numa presa fácil da própria debilidade. Foi então que dona Fernanda mandou-me a carta definitiva, um autêntico apelo dos abismos, e — o que era pior — sem as dúvidas anteriores sobre a conveniência de um encontro real. Além de definitiva, foi a última.

 

 

Alma minha gentil, te espero amanhã ardentemente no lugar que você mesmo decidir, no inferno, no purgatório, no paraíso, a escolha agora é só tua, minha liberdade está em tuas mãos. “Ele” estará viajando, meus filhos dormirão fora de casa, ligo para você amanhã às vinte e três horas desejando urgentemente teus beijos para as vinte e três e cinco... Meu carro está preparado para seguir discretamente o teu como uma serva submissa sob as ordens do seu senhor... Você terá de escolher o norte ou o abismo.

Em tempo, sou uma Pandora diferente, creia-me..., trago em minha bolsa só os bens e “o maior de todos os bens, a esperança, consolação dos homens.” Repito que sou o bem, desejo ser somente a tua esperança, não consigo mais escrever, de tão trêmula que estou, meu querido!

Até mais, tua Pandora. Paraíso, Árvore do Bem, 06/09/1821, às margens do Ipiranga.

P.S. Independência ou morte? Você decide. Se você recusar tudo o que te ofereço saberei com muita tristeza compreender.

 

 

Dom Simão, que vivia tranqüilamente cultivando seu jardim diocesano, não estava contente com o pastor de Santa Inês:

— Você anda apático, meu filho. Com essas perigosas seitas evangélicas, é urgente trazer Cristo para perto dos fiéis. Ânimo, padre José! Não se esqueça de que o Demônio é um eterno insone: jamais cochila.

Se dependessem de mim, os evangélicos teriam vencido com baixa munição aquela guerra santa, sobretudo depois que abandonei a beira de rio e comecei a ficar mais atento aos motéis da região.

Felizmente, para o bem do pastor, da ovelha perdida e do resto do rebanho, houve aquela terrível revelação do escriturário da paróquia, alguns meses depois da primeira carta da Condessa Fernanda. Alfredo exigiu-me uma confissão à antiga, no velho e carunchado confessionário da capela, no qual invariavelmente entrava com a nítida sensação de ser um péssimo ator, sempre à espera de que, a qualquer momento, pudesse soar do outro lado uma tremenda vaia.

— Padre, acho que cometi um erro muito grave — começou ele.

— Então diga, Alfredo.

— Nem sei como falar.

Levantei a cabeça, olhei-o através dos furos. Nunca o tinha visto antes naquela posição dramática. As mãos apoiavam-lhe a testa, como a impedir que a cabeça se separasse do corpo e rolasse ao chão. O que teria acontecido a meu pobre escriturário?

— Padre...

— Sim, Alfredo.

— Preciso muito contar...

— Então conta, filho. Deus está ouvindo.

— Não foi por querer. Juro por Deus.

— Não precisa jurar, Alfredo. Deus saberá compreender.

— É sobre uma carta, padre...

Fiquei, de repente, mais gélido que meus defuntos de Santa Inês ou os fiordes da Noruega. Gélido, mudo, cego e outros adjetivos indicadores do mais total assombro. Ele continuou falando, embora a vontade fosse mandá-lo parar, pois era suficiente para seu perdão e meu completo ultraje.

— Naquele dia — murmurou —, ia fechar mais cedo o escritório e botei a carta no bolso, uma carta que tinha acabado de chegar no escritório para o senhor, embora estivesse endereçada à casa. O carteiro deve ter pensado que era a mesma coisa, coitado... Depois eu expliquei a ele que a correspondência pessoal do padre devia ser entregue na casa paroquial. Ele falou que estava bem, que dali em diante entregaria lá.

De fato, o carteiro costumava enganar-se, deixando no escritório da igreja a correspondência que era para a casa paroquial — cartas de meu pai, de minha irmã, de minha mãe enquanto vivia. Mas o que eu poderia fazer senão continuar ouvindo, as mãos devorando-se na muda expectativa?

— Não trazia o nome do remetente, padre. Quer dizer, da remetente...

Ele violara a carta! Sabia de tudo! Não tinha mais coragem de olhar, pelos orifícios do confessionário, a cabeça baixa do Alfredo, as mãos sempre apoiando-lhe a testa, a dificuldade em continuar falando.

— Minha intenção era enfiar aquilo debaixo da porta da sua casa, assim que passasse por ela. Afinal, tinha de passar mesmo por ali. Não sei o que aconteceu, padre.

Eu sabia o que acontecera. O pobre Alfredo, como Adão e Eva no paraíso, também não resistira à tentação. Estava diante da árvore do Bem e do Mal, a fruta da verdade pendendo madura do galho mais próximo. Bastava esticar a mão e colhê-la.

— Naquele dia, peguei de prosa com seu Juca, o do fusca branco, e acabei esquecendo da carta. Fui para casa, a carta ficou no bolso de trás da calça.

Alfredo, evidentemente, estava mentindo. Ninguém perdia a memória diante da árvore do Bem e do Mal.

— Quando mamãe levou a roupa para lavar, esqueceu de revistar os bolsos e a carta chegou a molhar um pouco. Ela me mostrou, eu peguei aquilo e já não sabia mais o que fazer. Como ia entregar aquela carta úmida, já meio estragada? Sem saber o que fazer, ela foi ficando ali no bolso de trás da calça. Até que um dia, tentado pelo Demônio, eu abri ela, padre... Vi que era uma carta daquela mulher para o senhor. A dona Fernanda, mulher do dentista.

Não dormi naquela noite. Na manhã seguinte, aflitíssimo, tentei falar com a “mulher do dentista”. Disquei e bati o fone várias vezes, antes de completar-se a ligação. À tarde, como previra, ela apareceu em Santa Inês, mas não consegui falar nada. Vestia uma calça e uma blusa de malha muito justas, que revelavam tudo o que eu mais gostaria de esquecer. Com medo de que ela se fosse, criei coragem e sugeri-lhe uma confissão à antiga, no velho e carunchado confessionário... Ela achou estranho e sorriu, mas abaixou a cabeça, concordando.

Falei do Alfredo e da carta interceptada, implorei-lhe que parasse de escrever. Condessa Fernanda não pronunciou uma só palavra, embora me olhasse fixamente através dos furinhos. Só ao final da admoestação, moveu suavemente os lábios para dizer que sim, que ia parar, e levantou-se, deu-me as costas e retirou-se em silêncio da capela. Por um vão da cortina, observei-a saindo, mais atraente que nunca, sem nenhum remorso naquelas belas ancas irracionais.

Em compensação, vieram longos e diários telefonemas de Condessa Fernanda, no mesmo tom ardente das cartas. Diferentemente do que acontecera com as cartas, implorei-lhe que não levasse adiante aquela insanidade. Quem era eu, no entanto, para impedi-la? Desisti completamente de tentar demovê-la. Fiat voluntas tua, mulher! Pediu-me duas ou três novas confissões secretas, quando era dominado totalmente por sua presença — e aquelas palavras... e o jeito como as dizia... sempre misturadas a dúvidas sobre a conveniência ou não de um encontro real entre nós, ao mesmo tempo em que queria, queria, queria...

Ela deu de aparecer menos na paróquia, exceto para as missas de quinta e domingo, e as aulas de catecismo. Dar um basta naquilo já era impossível. Que prece milagrosa conseguiria salvar-me, se há muito tempo o vigário autômato deixara de acreditar no poder da preces e das magias cristãs? Só me restava entregar o barco à correnteza, deixar o tempo e o acaso decidir sobre o que era melhor ou pior para os dois.

Como Condessa Fernanda parecia, mesmo, não pretender ir além das palavras, com suas palavras contentava-me. Éramos amantes verbais — ou virtuais, como se diria hoje —, na dosagem suficiente para minha desonra e minha vergonha.

A idéia de deixar a Igreja, longamente acalentada, parecia perto de concretizar-se. Acaso não teria sido aquela mulher um instrumento de Deus, ou de sabe-se lá quem, para forçar-me à decisão corajosa? Longe da batina, depois de haver traído os juramentos que fizera deitado ao chão — naquela cerimônia de ordenação sacerdotal que hoje mais parece uma farsa —, ficaria à vontade para os pecados seguintes, “além das palavras”, com a ressalva de serem escolhidos por mim mesmo, sem coações epistolares nem caçadas evasivas.

Ela engasgou e perdeu a fala quando comuniquei-lhe, num dos últimos telefonemas, que tinha resolvido deixar a Igreja:

— Decisão irrevogável, Fernanda! Para o bem ou para o mal.

Mas em seguida protestou com veemência, jurando nunca mais me ligar ou procurar se cometesse aquele desatino.

— Por que jogar no lixo uma bela carreira de sacerdote, querido, se está tão bom desse jeito?

Cumpri minha parte, esperando ardentemente que ela não cumprisse a dela. Condessa Fernanda foi-se, todavia, para sempre, mudou de paróquia e talvez de padre. Continuei com minha inútil virgindade, embora com a consciência suficientemente maculada para merecer qualquer perdão da terra ou do céu.

Compreendi, pouco depois, que ela não precisava de um homem livre com quem partilhasse a cama e, quem sabe um dia, a própria casa, mas de um mísero padre afundado em remorsos. Consciências pesadas excitavam-lhe mais que relacionamentos normais (e sentir dona Fernanda excitada no telefoene ou no confessionário, a poucos palmos de minha própria e impotente excitação, foi o maior, o mais inesquecível, o mais imperdoável de meus pecados).

Ao insinuar que pretendia transformar-me em coisa real, res non verba, e para isso não continuaria sob o abrigo da Igreja, deixei de ser atraente para aquela doidivanas, bem mais necessitada de riscos e de fantasias. Ficou claro que a solução de seu problema conjugal dependia menos de advogados ou juizes que de namorados platônicos. Na certa, não fora eu o primeiro, nem seria o último na vida daquela mulher, que jamais apearia do conforto do sonho para uma prosaica cama de motel, nem trocaria seu dentista real por algum amante real — num mundo excessivamente real.

 

 

 

O HARÉM DE PLATÃOJosé Carlos Zamboni                                              Novela
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