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SEGUNDA PARTE O tempora! O mores! Na curva do Horto Florestal, o ônibus do pecado diminuiu a velocidade e Canaviais apareceu pela frente: a vila Joana, a Catedral, o prédio, os bairros em volta, as colinas do Açoita-Cavalo ao fundo. Pela primeira vez, senti-me digno de minha cidade conspurcada. O homem é um bicho extraviado de Deus. Cheguei de Ribeirão Preto arrependido, novo filho pródigo, jurando a mim mesmo que jamais repetiria essas canalhices — não sem antes, porém, concluir o delito. Desci na padaria e vim devagar para casa, com a arma do crime guardada na maleta. Vou contar, caro papel. Envergonhado, mas vou contar. Veja em que abismo tombei... Se por duas semanas fui jardineiro aplicado e não manchei o papel com uma só palavra, eis que agora volto de cabeça baixa, humilhada, ofendida, cheia de pensamentos sórdidos. Ruiu fragorosamente meu ingênuo projeto de vida monástica, em tranqüilo acordo com o quintal e o espírito, livre da pressão do corpo — sem necessidade de caçadas e pescarias para fugir dos olhos de minhas alunas e dessa nova Condessa Fernanda, que agora me limpa a casa e me lava a roupa. Bem que percebia, aos poucos, a impraticabilidade do programa, vivendo diariamente com Ana Maria, rondando-lhe as nádegas para o tapinha impossível, ou defrontando-me com aquela ameaçadora coleção de jovens alunas, terrivelmente situadas entre os treze e os dezoito anos — loiras, ruivas, morenas, mulatas, o diabo! O Gênesis está errado. Deus fez o homem e ordenou que pecasse, pois sem o pecado a novela da criação não faria o menor sentido. Foi o que fiz: pequei. Para contribuir modestamente com a novela da criação. A besta voltou a espernear no purgatório auto-inflingido, soltou fogo pelas ventas — primeiro mergulhou no inferno e depois foi sair no paraíso, ou melhor, num estranho harém platônico, se for possível a existência de haréns platônicos. A expressão era do pastor Daniel, da Igreja Presbiteriana, com quem gostava de conversar. O pastor gostava de filosofia e coerência. Referiu-se certa vez a sacerdotes que, embora ainda ligados à Igreja, levavam vida quase secular, mais felizes nas festas paroquiais ou vendo novelas da Globo, que ajoelhados diante do crucifixo do Pai. Alguns até possuiam suas clandestinas Condessas Fernandas ou até Condes Fernandos. — Se o Vaticano acabasse com o celibato, essas ambiguidades desapareceriam. Estão mais para sultões que para sacerdotes, padre José. Cada um com seu harém, e nem tão platônicos como poderíamos supor... O pastor tinha razão. Agora sou eu. Já tenho o meu próprio harém platônico, como convém a medrosos. Condessa Fernanda poderia ser a madrinha da imaginária e etérea instituição, pois tudo começou com ela. Basta de rodeios. Vou contar o que aconteceu. Foi para ampliar, desgraçadamente, o território do meu harém, depois de muitas dúvidas, que tomei o ônibus e fui a Ribeirão comprar a Playboy do mês, plano que ruminava, com inconfessável vergonha, há já algum tempo, sem coragem de confessar a você, meu caro e neutro papel. Não me aventuraria a comprá-la, em hipótese alguma, aqui em Canaviais. A banca do Sabonete é muito exposta, mesmo sabendo que pouca gente me conhece em minha própria cidade. Mais radicais (Zamboni diria mais profundas) que essa revista, havia dezenas de outras que não consegui tirar da prateleira, na banca da praça Quinze, em Ribeirão. Mesmo ali, tive vergonha. E se o dono da banca, por um desses acasos improváveis, já me tivesse visto por trás do altar, na distante cidade de Assis? Pior: e se o próprio Zamboni, por um lance bem mais compreensível do acaso, me flagrasse com a mão na massa? Preso a esses temores, como um paranóico de olhar enviesado, saí chispando para a Rodoviária, com a mencionada arma do crime bem escondida na maleta de professor. No ônibus de volta, respirando mais aliviado, cheguei a ousar um título, em bom octossílabo, para um abominável livro de poemas que jamais poderia escrever: Entre lolitas & ninfetas. Gostei. Dou de presente ao Zamboni. Depois de usada, rasguei e queimei a revista. Repreendi-me com aspereza: — Nefasta criatura! Jurei a mim mesmo que jamais voltaria a Ribeirão para cometer essas coisas, proibindo-me severamente de ressuscitar a adolescência que nunca tive. Que adiantou a fogueira da virtude? Como inauguração de férias, no julho frio e seco, tive um sonho concupiscente. Paramentado de vermelho, lia uma espécie de Sermão do Quintal, publicado na Playboy que rasguei e destruí: — Se Moisés, em vez de no deserto, tivesse concebido numa chácara aqueles dez e áridos mandamentos, de preferência deitado em rede, escutando passarinho, sentindo o vento acariciar suas rugas, talvez fosse outro o espírito do velho Decálogo. Onde é que o Pai está mais perto do Filho? No quintal, é evidente — esse pedaço de Deus que o homem tenta banir das cidades. Amiguinhas, em verdade vos diria: se os Dez Mandamentos tivessem sido escritos num jardim, não seriam tão duras as Tábuas da Lei que tanto pesam sobre nossos ombros. O púlpito era no Harém de Platão, um lugar indefinido entre névoa e luz. Estava diante das odaliscas peladas, entre as quais se achava até a pobre Ana Maria, escondendo o púbis, desajeitademente, com as próprias mãos. A pequena Sheila, aluna do terceiro ano, protestou com veemência: — Por que “nossos ombros”, reverendo? Eu tiraria isso. Todas riram: as alunas e professoras do Colégio, as moças da Playboy, até Ana Maria esboçou um sorriso. — ... as Tábuas da Lei que tanto pesam sobre “meus” ombros — corrigi, visivelmente encabulado. Depois de muito pensar no sonho, em que a razão de ser do quintal aparecia estranhamente invertida, visando reaproximar-me dos baixos impulsos, fui à cozinha tomar um copo d'água — e eis que topei com a envergonhada odalisca do sonho. De calça jeans, blusa de frio, Ana Maria curvava-se tentadoramente sobre o tanque gelado, esfregando com paciência a roupa do sultão platônico. Minhas mãos tremiam de desejo e desespero. Supremo ultraje, perdi o controle da máquina assim que a vi. Spiritus promptus est, caro autem infirma. André, deixando o gato Balão de lado, chamou-a: — Mãe! Fiquei silenciosamente imóvel em meu ângulo, rígido como um poste, vendo e ouvindo sem ser visto. Sem parar com o serviço ou virar os olhos para o menino, Ana Maria disse-lhe num tom complacente e distraído: — Fala, meu filho. — Porque o rio do Açoita-Cavalo é sujo, mãe? Olhou-o rapidamente: — Por que a terra lá é vermelha, meu amor. — E as bostas da cidade, mãe? A mãe sorriu, as mãos descendo e subindo com a esponja, sempre atenta à camisa de algodão grosso. — Papai falou que todos as bostas da cidade vão parar lá. — Também — Ana Maria fez uma careta de nojo, abanando o nariz com a mão. — Os cocôs também... — E onde ele é limpo, mãe? — No lugar onde nasce, lá longe. — Limpinho, limpinho? — Limpinho cem por cento, meu filho. Como a luz dos teus olhos — e trouxe o pequeno capeta para perto de sua boca, beijou-o nos olhos, uma, duas, três vezes, como se de repente sentisse um medo inexplicável. Saí na varanda, quando devia ter corrido ao banheiro com as revistas. Deixando o filho, Ana Maria olhou-me com um meio sorriso que me desconcertou. Piedade, Senhor! André deixou a mãe com minhas roupas sujas e seu medo súbito, veio comigo para o quintal: — Verdade, tio Zé? — quis saber. — Verdade — respondi, ainda tocado pela graça da mãe. — Nasce limpo e fica sujo. É a vida, André... — É... — parodiou meu desalento. — É a vida... André, que ainda vive longe do bem e do mal, saiu outra vez pulando em seu território empoeirado, mudando rapidamente o tom de desalento para o de confiança, “é a vida, é a vida, é a vida”, já sem ligar para o fato do rio Açoita-Cavalo, embora sujo como minha consciência e minha carne, nascer em lugar cem por cento limpo. Telefonema número um. Era minha irmã, informando a morte de um conhecido. A bicicleta que ele pedalava virou bagaço. Definitivamente, sou um sujeito muito antigo, do tempo em que as mortes de Canaviais ainda se davam por problemas de saúde, depois de décadas do desaparecimento de Dioguinho e a extinção do jaguncismo na Mogiana. Do Estado Novo até o fim da Ditadura Militar, Canaviais foi uma pequena cidade da Suíça. Nas ruas, violentamente tomadas pelos carros e pelas motos, o perigo esconde-se em cada esquina, em cada sinaleiro, espreitando o incauto cidadão para o bote fatal. Maldito seja esse Henry Ford, inventor da lataria assassina. O morto de agora era o Copinha, colega de grupo escolar e filho de seu Custódio sapateiro. Via-o pouco em minhas visitas a Canaviais, sempre de longe, mas era uma daquelas figuras que já faziam parte da minha paisagem, como tantos outros aqui. Só a pequena cidade em que crescemos poderá nos oferecer tal coisa: identificar cada rosto encontrado na rua, conhecer sua pequena glória ou pequena catástrofe pessoal. Dona Fernanda e seu marido dentista, meu escriturário Alberto ou minha empregada Cida seriam para mim, nesse sentido, sempre estranhos, por mais que os confessasse e absolvesse em Assis. Mudar de cidade é começar a leitura de um romance pelo meio. Telefonema número dois. Era Zamboni, o canalha: — Tem dois minutos, padre? — perguntou com a fórmula usual. Arrastei-me, aflito, para o sofá. Era meu dia de penitência. Sabia que em menos de meia hora não estaria livre. — Pode falar — disse-lhe com figa na mão. — Vi a Débora ontem. Certeza de que era ela. Tinha acabado de subir no circular da Vila Tibério. Tentei correr atrás, mas o ônibus já estava saindo, o motorista fez que não me viu. Olhei para os lados, nem sinal de táxi. Só fui achar um na praça da Catedral. Quando o taxista conseguiu alcançar o ônibus, já era tarde. Entrei, conferi banco por banco, nem sinal da Débora. Mas era ela! Juro. Dei-lhe de presente, como prometera a mim mesmo, o título Entre lolitas & ninfetas: — Para o teu livro de memórias. Imaginei-o torcendo o vermelho e comprido nariz: — Redundante demais, padre. Lolita e ninfeta é praticamente a mesma coisa: menininhas com fogo na xereca. E voltou a contar o episódio, repetindo-o três, quatro vezes: Débora sobe no circular, o ônibus sai, ele toma um táxi para alcançá-lo, entra triunfalmente no circular, confere banco por banco, sem sinal da Débora. Mas jurava que era ela! Entre as várias versões do mesmo relato, encaixava longos comentários do próprio texto e da própria loucura. Quando minha orelha direita começava a arder, mudava o fone para a esquerda, até se completarem quarenta e poucos minutos de tortura telefônica. Estamos em papéis trocados: Zamboni devia ensinar literatura e eu gramática. Jogar é enfrentar regras — para cumpri-las, não para revogá-las. Receio que os poetas, como essas doenças imperceptíveis que levam anos para dar sinal, tenham desestabilizado minha república interior. O governo é fraco e está por um fio. A verdade verdadeira é que tenho mais medo do caos que da morte. O governo vai cair. A colorida Playboy já não resolve o meu problema. E um perigoso desconforto aloja-se, de modo definitivo, na carne do ímpio solteirão: perturba-me, como nunca, a presença de Ana Maria, com todo o fascínio de sua madureza rude, de mulher simples estranhamente refinada, apesar das mãos destruídas pelo sabão e a vassoura. Sem poder exigir que ela fique durante as noites e sem coragem para o tapinha no traseiro, vou com vergonha erguendo as tendas do meu harém platônico, vergonhoso work in progress, bem menos platônico que epicurista. Zamboni gostou da expressão, ele que, mesmo casado pela segunda vez e já avô, não abre mão de presas fáceis e até prostitutas. Débora que o diga. Anda sempre à procura de novas manifestações fugidias de seu arquétipo feminino. — É possível falar num certo don-juanismo platônico — disse-me o amigo noutra conversa telefônica de “dois minutos”. — O verdadeiro amante seria o que amasse a muitas ao mesmo tempo, já que elas são fragmentos do Eterno Feminino. Quem ama todas, procura ser fiel àquela múltipla dama. Trair é o que ele menos pretende. Concorda? Já é um avanço em relação ao Corão. Aliás, foi o próprio Maomé quem começou a acabar com a farra no Oriente: das oito ou dez mulheres que o “turco” podia ter, reduziu-as a quatro, no máximo. O sujeito que não conseguisse mantê-las, ficasse com uma só, ou se contentasse com as escravas. As putas são a versão ocidental cristã das escravas de Meca. A gente paga e elas realizam nosso incurável sonho poligâmico. Sei é que todos, machos e fêmeas, somos ovelhas perdidas da Casa de Israel, e em breve o resto será silêncio. Enquanto isso, o sultão de Canaviais já apela, decididamente, para as revistas pornográficas, cheias de fotos abomináveis e no entanto irresistíveis, como se fossem, a seu modo, ícones de um culto proibido. Mesmo em Ribeirão, onde vou buscá-las nessas férias de muito frio e noites vazias, a paranóia continua. Antes de escolher as revistas, giro os olhos desconfiados, confirmo se não há nenhum conhecido canavianse por perto, o próprio Zamboni, quem sabe um Sherlock Holmes a soldo do arcebispo diocesano. Já estava sentado sob a tesoura do barbeiro, quando ouvi um cliente, numa cadeira ao fundo, rir bem à vontade — uma risada forte, imponente, quase sempre acompanhada de tosse. O barbeiro segredou-me, como se me conhecesse desde criança: — Uma judiação, amigo! Está ouvindo o cara que ri? Fiz um leve “sim” com a cabeça. — Pois é uma das pessoas mais ricas da região — continuou ele. — É o Bill Gates, já ouviu falar? Menti-lhe que não era daqui, que estava morando a pouco tempo em Canaviais. — Também não sou daqui — continuou falando-me em voz baixa: — Ele não vai viver o suficiente para gastar tudo o que tem... Diante do meu olhar imovelmente espantado, o barbeiro prosseguiu: — Bebe dezoito cervejas por dia e fuma três maços de cigarros. — É louco!... — foi só o que disse, eu que já não passo da segunda brahma e da leve cachimbada noturna, ao som das fitas francesas do Zamboni. As risadas e tossidas do sujeito rico acompanharam todo o corte de cabelo. Como estava do outro lado do salão, que não era pequeno, não ouvia o que ele falava, embora o fizesse em alto e bom som, que só as cordas vocais dos ricos conseguem emitir. Provavelmente não saberia mais nada dele se, na volta do barbeiro, não passasse pelo bar do Romano e o Rola não me gritasse de dentro. O professor de História comia uma tilápia assada e bebia cachaça vagabunda. Conversa vai, conversa vem, perguntei-lhe por aquele tal de Bill Gates — o sujeito que ria e tossia em alto e bom som, e não viveria o bastante para gozar toda a fortuna que juntara... Rola fechou súbito o semblante, abaixou o volume da voz: — Você não sabe, não? Cá entre nós, colega... — olhou para o lados, certificando-se de que ninguém nos ouvia. — Trata-se de um dos poderosos chefões do tráfico por aqui. Quando pensei que nada mais diria sobre o assunto, tal a mudança de feição no rosto do professor, Rola aproximou mais a cadeira da mesa e continuou: — Boa parte da erva e do pó consumidos na região provém dele. Inclusive no próprio IACANP, onde a clientela não é pequena, com alunos e colegas meus... — girou o olhar de novo para os lados, a voz era quase soprada: — O diretor do campus é um dos maiores clientes do Bill... Esse filho da mãe, quando não elege prefeito, faz maioria na câmara... A própria polícia está nas mãos dele... Não tive tempo de perguntar sobre aquela benfazeja tosse que, um dia, o devolveria às trevas de onde veio, pois logo entrou no bar o Tiãozinho eletricista, vereador e eminente língua de trapo, que arrastou uma cadeira para nossa mesa. Rola, a partir de então, fez boca de siri: não tocou mais no assunto. Concluí que o vereador teria algum vínculo com o poderoso chefão. Foi em seu harém cada vez menos platônico, entre mulheres sórdidas, de todas as cores, em todas as posições, que o Don Giovanni de vento passou parte da última noite, satisfeito com belos fantasmas. A reação veio logo, acompanhada de culpa e vergonha. Um severo tribunal formou-se na atormentada vigília. Minha mãe, do Outro Mundo, arrancava-me as orelhas: — Você me enoja, Zé Carlos! — Uma pouca vergonha! — rosnava o bispo de Assis. — Não passa de um pobre punheteiro, amigos — dobrava-se de rir o Zamboni. — Que ele depene em paz o sabiá. — Isso me causa espécie, professor — olhou-me com asco e desprezo a madre diretora do Colégio. — Não conte com as aulas de literatura. — Sacrílego! — diziam todos a uma só voz, como num coro de tragédia grega. —Nefasta criatura! Custei a dormir, pesado de remorsos. De madrugada, fui vítima de um sonho desagradável: Bill Gates estava na platéia de uma mesa-redonda, no Salão de Atos da faculdade, ocupando sozinho a primeira fila de poltronas. Ria bem à vontade, enquanto os membros da mesa discorriam solenemente sobre o papel subsidiário da teoria literária na inclusão social. Era uma risada forte, em alto e bom som, majestosa, escarnecedora, satanicamente obscena, sempre seguida daquela tosse que parecia vir do abismo mais sinistro. A manhã absolve o que a noite condena. Enquanto abria a janela para a varanda fria e empoeirada, descobri que o quintal consegue manter a pureza dos objetos sem consciência, enquanto vou criando pequenos jogos para alimentar a carne truculenta e insaciada. Não haveria necessidade desse Harém de Platão, com mulheres tão improváveis como Sheila ou Ana Maria, se um dia aparecesse Aquela por quem eu trocaria tudo — o solidão, a paz, o quintal —, fazendo de mim um homem completo, diferente dessa estranha máquina que rabisca papéis ou ejacula sobre si mesma. Com direito a vôo súbito de rolas e orvalho brilhando na folha podre do figo, decepada pelo vento, era uma manhã de leveza absoluta, límpida como uma idéia de cristal ou uma frase de Mozart, sem malícias nem brincadeiras pervertidas, como se Adão e Eva não tivessem sido escorraçados do Éden, e nós, descendentes venturosos, ainda circulássemos sem carteira e pecado pelo velho paraíso. O rosto deve ser mesmo a vitrina da alma. As meninas do colégio, como se soubessem de minha recaída, sentam-se com mais freqüência em minha mesa, debruçam-se, exibem as belas prendas, que os agasalhos de frio não conseguem esconder. Para distrair-me das odaliscas e começar bem o segundo semestre, arregacei as mangas para escrever a palestra idiota sobre “Os espelhos da literatura”, que o Zamboni enfiará num ciclo de conferências promovido pelo curso de letras. Como ambiciono deixar as aulas do colegial e pegar as da faculdade (irmã Matilde, de mudança para a Itália, deixará teoria literária e literatura brasileira), aceitei na hora o convite do amigo, que é coordenador do curso. — É uma forma das freiras começarem a prestar mais atenção em você, padre. O curso precisa das suas luzes. Preferia se me tivesse feito o convite antes das férias, pois teria quase um mês para ler mais sossegadamente sobre o assunto, sem bater de frente com as aulas do colegial. De qualquer modo, o tema é batido e besta: basta compilar alguns ensaios que tenho em minhas estantes. Não é verdade o que disse o poeta Manrique — todo tempo passado foi melhor. Cada caso es un caso, falava outro espanhol, o engraçado padre Bergara, cujas artes parapsicológicas assombravam o Colégio Bom Jesus. A meio caminho de Ribeirão e Franca, a velha e silenciosa aldeia haveria mesmo de perder-se no mundo insano, dominada por máquinas fedorentas, pelo dinheiro inescrupuloso, pelo tráfico de drogas e, sobretudo, por um incompreensível ódio às árvores. O que antes era a “cidade dos mais belos parques”, sem barulho e ar nefasto, agora é só mais uma no meio de muitas iguais. Já não faz diferença. Os olhos se adaptaram ao mau gosto da paisagem urbana, os ouvidos acostumaram-se ao ronco que emite a todo instante. Com um século de atraso, enfim Canaviais mergulhou nas feses da modernidade. Passo importante para esse mergulho nas trevas fecais foi quando o poder público, pela caneta do Secretário do Meio Ambiente de Canaviais, ordenou o corte de dezenas de sibipirunas da avenida Pimenta Bueno, sob a alegação de que comprometeriam o asfalto. Foi uma bela homenagem à seca prolongada de julho, que prometia avançar por agosto. Voltava da casa de meu pai, quando entrei na Pimenta Bueno subitamente nua, sem árvores e sombras. Espantei-me, como se fosse fulminado por um raio: — Que diabo é isso? Não podia acreditar. Tive a imediata sensação de pisar em território ocupado. Olhava para um lado, para o outro. Onde estaria oculto o exército inimigo? Depois de algum tempo caminhando pelo espanto, consegui realizar a proeza: a raiva ficou suportável. Suspirei profundamente, mudei de rua, pensei logo noutra coisa. Se em certas horas ainda creio que a cidade deva ser continuação de minha casa — perdoável tolice num pessimista que volta e meia entra em crise —, logo em seguida recupero o juízo e bocejo em paz com a terrível condição humana, resignando-me a essa lucidez progressiva a que fui condenado. “Meu mundo não é desse mundo etc.” Era minha sólida parte Sancho, José de pés no chão, sobrepondo-se a meu dócil componente Quixote, um não-José das nuvens. — Não seria a morte das sibipirunas um importante e necessário episódio na longa duração do Espírito do Mundo, cujo desenvolvimento passasse pela destruição parcial da obscura avenida Pimenta Bueno e de um obscuro professor da província? — sorriu José de Pés no Chão. — Não brinca com o Espírito do Mundo — retrucou não-José das Nuvens. — Era uma das poucas ruas civilizadas da cidade, em que era possível caminhar ao meio-dia sem ser molestado pelo sol. — Insondáveis são os desígnios do Espírito do Mundo, nobre senhor — dizia-lhe José de Pés no Chão, quando já pisávamos no bairro da Colina. — Abaixa a lança e joga fora o elmo. Foi procurando administrar a convivência desses dois inimigos gêmeos que cheguei em casa, com a boa comida da empregada esperando-me na mesa. Nenhum problema social ou impasse metafísico permanecem ativos durante um bife acebolado e uma travessa de batatas fritas — e não me culpo por isso. Olhar é pecado? Tocar de leve é pecado? Só um tapinha, quase de raspão, para sentir a curvatura das nádegas de Ana Maria... Zamboni, num dias desses, depois de tentar, “com toda delicadeza, padre”, aferir o calor manual de uma escriturária da rádio de Ribeirão, foi asperamente repelido: — Só faltou a putinha me jogar na cara o estojo de disquete. Um absurdo! Onde estão os direitos dos homens contra essas feministas de merda? São as lésbicas que andam botando minhocas na cabeça das nossas meninas: querem tudo para si. As americanas e as européias já lascam processos duros, contra nós, por assédio sexual, quando só cumprimos nossa sina. Será crime tentar uma reação positiva do outro lado? — seu rosto avermelhara-se de indignação. — Logo irão à polícia porque foram olhadas. Imagina como ficariam apurados os italianos! Cada vez mais olhada por mim (tenho meus pontos de observação em casa, ângulos estratégicos que aos poucos vou descobrindo), Ana Maria veio hoje com uma camiseta justa, salientando os belos seios que a maternidade ainda não desfigurou. Quer que vá conhecer a horta do marido: — O João ficou contente quando falei que o senhor andava querendo tomar umas aulas com ele... — sorriu-me. — Um dia apareço lá. Lamentou, também, o corte das sibipirunas da avenida Pimenta Bueno: — Foi uma judiação, seu Zé Carlos! Era uma rua tão gostosa... Será preciso dizer que não nunca fui “seu Zé Carlos”, que basta tratar-me pelo vazio e universal “Zé”? André, que poderia ser meu filho com Ana Maria, nem sabe do que falamos e continua brincando de trem de ferro, depois de aproximar em fila as coisas mais diversas do quintal: botina velha, lata de leite em pó, tijolo baiano, pá de lixo. Difícil era obrigar Balão ao papel de locomotiva, e acabou mesmo substituído pela botina. — Por que não tem mina d’água aqui, tio Zé? Na horta do pai tem duas. Não soube o que responder. — É só mandar o homem furar, que ele fura — propôs-me. — Não é, mãe? Ana Maria olhou-me, abrindo o belo e compassivo sorriso. A vida conjugal podia ser feita só dessas pequenas beatitudes. Brilhante idéia do Zamboni, em voz de locutor interiorano: — Tenho pensado muito, ultimamente, no caráter lírico das calcinhas e no caráter épico das cuecas, padre. Não seria um bom tema de conferência na Semana de Literatura? As freiras adorariam — riu da própria graça. Não vi muita graça na graça, mas forcei um riso condescendente, de quem não queria desagradar o coordenador do curso de letras, e nos despedimos em santa paz. Parece aceitar que não verá mais a Débora, embora continue “à recherche do chuchuzinho perdu”. — O mundo está cheio de Déboras, padre. Toquemos em frente. Ele não estará certo? As Déboras e as coisas passam, que é da sua natureza mudar. Fugit irreparabili tempus. As pessoas, essencialmente adaptativas, que se conformem a elas. “É só um problema de adaptação, meu caro”. Minha vã pesquisa descanse em paz. Lembro-me da famosa passagem em santo Agostinho: quando não pergunto sobre o tempo, sei o que é, mas se tento responder, não consigo. Pego as Confissões para conferir, mas desanimo e devolvo o livro à estante. Ana Maria tem um cuidado especial com meus livros, limpando-os semanalmente da poeira que o vento traz. A televisão anunciou chuva para amanhã. Levanto a cabeça para a janela e descubro nuvens cinzentas no azul, um e outro pássaro — sanhaço, corruíra, rolinha. As árvores e plantas estão secas, sofrendo a longa estiagem. A televisão estava certa. Ela veio — minha mãe, minha irmã, minha amiga Água. Depois da seca prolongada até o final de agosto, o calor exagerado das tardes em contraste com o frio das noites, o sábado começou com algumas nuvens que cresceram desanimadas, aumentaram indecisas, até que, pelas tantas da tarde, desabou uma chuva com todos os relâmpagos, trovões e goteiras a que teríamos direito. Senti, no rosto, os primeiros pingos, quando desci ao quintal para colher uns ramos de quebra-pedra que me propus levar ao Zamboni, em Ribeirão. Começou a sofrer fortes dores renais e faltou às aulas da sexta-feira. Olhei cético para o alto, desconfiei de que ela viesse mesmo — afinal estamos sem água desde... Não me lembro mais. Maio, talvez junho. Deixei a quebra-pedra sobre a pia da cozinha, deixei o amigo esperando na outra cidade — inconsciente vingança contra quem era mais livre e feliz que eu? — e fui tomar as providências necessárias para receber a ilustre visita do céu: subir as vidraças das janelas, fechar o carro, recolher meias e cuecas do varal, desligar os aparelhos elétricos. O fato é que, imperdoavelmente, esqueci-me do Zamboni retorcido em dor e fui sentar-me na varanda para melhor participar do ritual. Aspirei o cheiro forte da terra recém molhada, estremecia com o trovão sacudindo a terra e o céu. Há quanto tempo não o ouvia? O chuveiro deslizava do céu, de início suave, depois mais forte, malhando o telhado e as árvores. Logo depois, a água já caía das bicas e empoçava o chão. Nem faltaram as goteiras. Nada, nada faltou. Antes de escurecer, com a chuva já quase parando, o vento chegou ruidoso e vergou os galhos das árvores, os pardais recomeçaram a piar, avisando que a estréia chegava ao fim. Só então me lembrei do Zamboni que dependia da minha quebra-pedra e minha boa vontade. Entrei no carro, envergonhado, e saí voando para Ribeirão, com a erva num saquinho de supermercado. Desculpei-me com ele e com a esposa que, enfim, pude conhecer. Não me pareceu perfeitamente enquadrada no biótipo preferido pelo marido: faltam-lhe bons centímetros cúbicos de nádegas. Num gesto também imperdoável, digno de um crápula, culpei a chuva longamente desejada, a quem continuo desejando por toda essa primavera seca e por todos os verões seguintes. Água é o meu elemento. Eis tudo. Zamboni, depois que a esposa saiu, confessou que também anda sentindo-se velho. — Influência da dor — ponderei. — Não há dor que resista àquele torpedo — apontou-me o remédio na mesa. — Mas ainda não inventaram solução para esse mal aqui — levou a mão aos cabelos. — Não venço tingir. Logo vou estar fazendo como o Terêncio da Geografia: pintando até os pelos do peito e do saco — tentou rir, mas a careta indicava que a pedra ainda estava em trânsito pelas pequenas estradas do aparelho urinário. — O Terêncio faz isso, é? — achei graça. — Sempre fez — acomodou-se melhor na poltrona. — Essa idade é barra pesada, padre. Feliz é você que não carrega o estigma de ter netos. Zamboni também tinge regularmente os cabelos, cujo corte é feito mensalmente no Otero, o cabeleireiro chique de Ribeirão (não duvido mesmo que, em breve, comece a tingir toda a parte pelosa do corpo). — Tenho outros estigmas, Zamboni — disse-lhe, e instintivamente olhei para a palma das mãos. — Nenhum pesa como esse. A pior maldade que um filho pode fazer a um pai é promovê-lo a avô. Parece que a chuva veio para ficar. Chove bastante no quintal, impedindo-me de pegar no pesado. Em compensação, o Demônio inspirou-me uma coisa fantástica. Na volta de Ribeirão, ao passar pela banca da Praça Quinze para abastecer-me de novas revistas, decidi experimentar uma fita de vídeo. Como o neófito ainda não pensara naquilo? Vim quase voando pelos trinta quilômetros da rodovia, ansioso por libertar o mundo aprisionado no pequeno pacote de plástico, cheio de fêmeas peitudas, consumidas pelo próprio fogo e pela voracidade de machos frios, impiedosos. Depois do ignóbil ritual, de que a própria Ana Maria participou sem saber, de mistura com flashs de Sheila e coleguinhas, Condessa Fernanda e a própria Débora que nunca vi, veio o opressivo sentimento de culpa, castigando-me o corpo pelos dias seguintes com má digestão, dor de cabeça, prisão de ventre. Com medo de que Ana Maria descubra a fita, guardo-a sempre na maleta, bem trancada com chave. Retomei o texto da palestra que farei na Semana de Literatura. Por sugestão do Zamboni, troquei a visão panorâmica sobre espelhos na literatura, por um “comentário didático” (ordem do coordenador do curso, rigorosamente cumprida) do conto “O espelho”, de Machado de Assis. — Um treco bem simples, padre, senão os idiotas não entendem — sugeriu-me por telefone, ainda sob o efeito do torpedo analgésico. — É preciso dar tudo mastigado, na boquinha. Sabe como é... Logo voltei a sentir-me bem, apesar do aspecto desolado do quintal. Como chovia, fui hoje obrigado a sair de guarda-chuva para buscar leite e pão. A caminho da casa de meu pai, na volta, parei no sinaleiro da avenida Primeiro de Maio — onde a desnecessária tragédia do Copinha aconteceu — e percebi que estava diante do alpendre de seu Custódio, pai do infeliz morto (ou felizardo, sabe-se lá). Confesso que olhei um pouco assustado: achava-me em frente ao próprio dono da casa, sentado na soleira do alpendre, contra um fundo desolado de antúrios e samambaias. Foi muito rápido, o suficiente para que eu visse os olhos do velho ainda úmidos e vermelhos, perdidos no vazio, esperando o filho que jamais voltaria. Ele não me reconheceu. Foi até bom. Conheço seu Custódio desde criança, meu pai se dá bem com ele. O padre que ainda vai comigo pensou em puxar conversa e levar-lhe duas ou três rudes palavras de consolo. “Ele estará melhor lá que aqui, seu Custódio. Esse mundo não vale a pena, Deus sabe o que faz, etc.” Mas segui em frente. Olhei mais uma vez para trás e vi aquele homem incapaz de suportar o desaparecimento do filho, quase metade de anos mais novo que ele, absurdamente morto enquanto vinha de bicicleta pela própria Primeiro de Maio — vinha visitar o pai, depois de uma pedalada para regular o colesterol — e a caminhonete do vereador avançava no sinal vermelho. Jogou-o na calçada, partiu-lhe a cabeça. Morreu a quinze metros da casa do pai. Para falar a verdade, a exemplo daquele santo Antônio que se desdobrava em dois, na história que contava minha mãe, o corpo do professor seguia a pé pela cidade cheia de carros, enquanto a alma ficava para atrás, silenciosamente sentada ao lado de seu Custódio na soleira do alpendre, dizendo-lhe sem dizer as velhas palavras fáceis do compadecimento e da resignação (que acabaram valendo mais para mim mesmo). Ao deixar para trás a Primeiro de Maio, lembrei-me de outras noites de chuva, dos paralelepípedos molhados, da luz dos postes espalhada pelo chão irregular. Quando eu era moleque, chamava-se simplesmente rua do Trem. A Estrada de Ferro da Mogiana acabou, um prefeito idiota arrancou os paralelepípedos, tirou o canteiro central com árvores e cobriu de piche o velho piso de pedras. Adeus, rua do Trem. Ficou mais feia? Talvez mais prática, deixando carros e motos mais à vontade para matar, nesse mundo que continua o mesmo mundo sombrio das cavernas, no início do terceiro milênio, cheio de ciências e tecnologias imprestáveis. — Nã-na-ni-na-não! — minha empregada puxou o filho pelo braço, antes que começasse a escalar a mangueira molhada. — Quer cair outra vez, é? Olha a cara braba do tio Zé. Em vez de tio, e apesar da vontade de rir, improvisei uma fisionomia grave de pai. Ana Maria, com um olhar indefinível entre cumplicidade e obrigação materna, agradeceu-me, enquanto meu sobrinho adotivo apanhava um frasco vazio de detergente e transformava-o num veículo rápido, especializado em curvas perigosas e pequenos vôos rasantes. Acompanhei-a até a cozinha, contendo a vontade de dizer que o vestido lhe caíra otimamente bem. Simples e discreto, na medida para sugerir o que escondia, dava-lhe um certo ar de nobreza, aquela nobreza natural do corpo bem feito, apesar das marcas do tempo nos seios a caminho da flacidez, na barriguinha já indisfarçável, nos pé de galinha do rosto, nas primeiras varizes. Nada disso, porém, diminui-lhe a atração. Ao contrário, seduz de modo estranho e necrófilo o professor de Augusto dos Anjos, que não poucas vezes se surpreende procurando as adiposidades, as veias dilatadas, as inflamações do tecido celular de Ana Maria. Sentados frente a frente na mesa da cozinha, só falamos das coisas que devia buscar no supermercado, nesta semana de pagamento. Anotei tudo o que ela ditava: o trivial de todo mês, além do vinho, da goiabada e da carne moída para a torta que pedi. Em certo momento, tentei erguer os olhos, desconfiado de que ela me espiava. Seria uma boa ocasião para estrear pequenas ousadias e ambivalências que poderiam levar, em breve, a atitudes mais corajosas: um sorriso, um galanteio, um poema acróstico, quem sabe um tapinha. Nada aconteceu. Mal disfarçado de filósofo estóico — sustine et abstine, padreco! —, o eterno reverendo refreou-se a tempo e continuou de cabeça baixa, esperando pelo fim do tremor de terra, vergonhosamente pensando no décimo mandamento de Moisés. Parou a chuva e faz bastante sol, que voltou a ser o comandante do quintal, bem diferente do proprietário da casa, que jamais consegue ser chefe de si mesmo, vagando sempre nas ondas do acaso. A condição humana parece depender, de algum modo, das condições climáticas. A prova é que, quando o céu está fechado, entro em depressão e admito facilmente que uma morte civilizada, sem escrúpulos hamletianos, faz mais sentido que continuar vivo. Não sei quantas vezes reescrevi a palestra sobre “O espelho”. Ana Maria percebeu a neurose. Confessei-lhe e ela achou graça. Contou-me que também gostava de estudar, tirava boas notas na escola, teria até cursado letras ou pedagogia, na faculdade das freiras, se não tivesse conhecido o João e casado às pressas. Tive súbita ereção ao ouvir as ultimas palavras e corri ao banheiro. Ontem, finalmente, dei a palestra. Depois de um início genérico e rápida passagem pela mitologia grega, onde me detive obviamente na história do Narciso, passei em seguida a resumir o conto de Machado e a “comentá-lo didaticamente”. A fritura final, apesar do bife martelado e temperado com a devida antecedência, desagradou-me bastante. Talvez para compensar o malogro do ensaio cuidadosamente preparado, encerrei com um improviso sobre espelhos em geral, externos e internos, sua presença em nosso cotidiano, sua impiedade etc. Também não gostei. Algumas alunas perguntaram algumas coisas e depois sorriram, Zamboni sorria de sua poltrona, as irmãs presentes sorriam, eu mesmo esbocei alguns sorrisos, até que tudo acabou e ficamos ainda mais contentes, sobretudo o palestrista, que estava finalmente livre e só. Quase só: Zamboni acompanhou-me ao banheiro. Disse-me, enquanto mijávamos, que os alunos haviam gostado e as aulas da irmã Matilde seriam minhas para o próximo ano. A madre diretora foi muito receptiva à idéia. Para disfarçar a satisfação, como costuma acontecer, mudei de assunto: — A pedra era muito grande? — perguntei-lhe. — Nem tão grande, mas rombuda. Foi uma verdadeira educação pela pedra! — riu do próprio achado, e, evidentemente, também ri, embora mais que gostaria. A verdade é que nunca se pode confiar no que dizem essas irmãs do Colégio. Chegando em casa mais conformado, verifiquei que, ao contrário do amigo, não tinha nenhum motivo para rir, apesar das aulas da irmã Matilde. Continuava achando que a palestra havia sido um fiasco. Fui ao banheiro, olhei gravemente para o pedaço de vidro no armarinho e constatei que a imagem José Carlos, vista com cuidado, também estava perdendo os velhos contornos, como um náufrago sumindo nas ondas. Como não tenho uniforme de alferes, pedi socorro a esta folha branca de papel — qui scribit, bis legit — que, de certo modo, já é minha alma exterior. Como uma espécie de purgação pelo malogro da palestra, passei o resto da noite tentando registrar o improviso sobre espelhos, reescrevendo dezenas de vezes cada frase e cada parágrafo — cinco ao todo —, para no final concluir que aquilo não passava de um refogado de lugares-comuns. A reescrita é sem dúvida uma virtude, uma verdadeira ascese, mas depende visceralmente do talento. Não há disciplina flaubertiana capaz de transformar em gênio um Charles Bovary. Há muitos espelhos, por aí, devolvendo-me rostos diferentes. A matriz, na aparência, sou eu mesmo, mas cada vidro exibe um pescoço diferente — mais alongado, cheio, retorcido. Sou mais José Carlos no espelho da rodoviária, da minha casa, do Colégio? Não há um espelho universal, e nele um rosto único e definitivo, uma identidade absoluta capaz de salvar-me, sem margem de erro, dentre os demais companheiros de viagem. Em vez disso, assoma na curva uma estranha hidra de mil rostos, simultâneos e constrangidos — o que é pouco recomendado moralmente, embora seja uma irrecusável verdade da alma. Revi, há pouco tempo, minhas fotografias do velho álbum de meu pai. Mudava de página como quem muda de canal de televisão. As caras ali justapostas pareciam de outro proprietário, dezenas de homens seguintes que não se pareciam comigo, espelhos que imobilizaram, nas superfícies de mofo e sépia, os vários equívocos da farsa rumo à última cena do derradeiro ato, numa sucessão implacável de máscaras cada vez mais danificadas pelo tempo. E há o espelho de dentro, pendurado nas sobrancelhas da consciência, vigilante e delatora, multiplicada em muitas subconsciências que nunca concordam entre si, alternadas nos trezentos e sessenta e cinco degraus de Sísifo, de janeiro a dezembro. Em cada um desses poços sem fundo, desponta uma nova alma, com reações esperadas e outras imprevistas, condenando como obsoletas quase todas as experiências guardadas no tempo, e inútil o esforço de reaproveitá-las no erro seguinte. É diferença demais para um único R.G.. De vidro, papel ou éter, o espelho é um dedo-duro do tempo, obrigando-me a desmentir agora a verdade de ontem. Mais ácido na sala dos professores. Agora era a vez do Rola, nosso revolucionário. Entendi por que faltara uma semana das aulas. Ele contava um pouco e depois chorava. Mal tinha aberto o portão da rua, viu a porta da sala aberta. A primeira impressão não foi de pânico, mas a de que a casa estivesse aberta como em qualquer dia normal, com as pessoas de sempre fazendo suas coisas normais. Só um pouco depois é que percebeu a porta arrombada, a fechadura retorcida, e então caiu em si: a mulher estava na casa da mãe, em Minas, e ele tinha passado a tarde em Ribeirão. Na sala, tudo estava espalhado pelo chão: os discos de vinil, revistas, roupas. Foi entrando como um robô, sem pensar que os ladrões ainda pudessem estar ali. Olhou cômodo por cômodo — tudo estava revirado, os guarda-roupas de portas abertas e gavetas jogadas pelos cantos. Só os livros ficaram intactos. No centro geométrico da cama de casal, como se tivesse sido calculado com rigor, erguia-se sobre a colcha imaculadamente branca o pequeno monte barroco de fezes. Correu ao escritório, olhou enraivecido para a mesa onde antes reinava o computador. E os disquetes com os textos das provas e planos de aula? E as anotações para a dissertação de mestrado, produtos de dois anos de pesquisa e leitura? Estavam irremediavelmente perdidos, mergulhados para sempre no Nada. Levaram tudo o que puderam: dois aparelhos de som, um ventilador, um ferro de passar, um secador de cabelo, dois telefones, um violão, algumas panelas, dezenas de cedês, várias fitas de vídeo gravadas, vestidos, calças, camisas, blusas, sapatos, tênis... Seu mundo tinha sido estuprado. Mais tarde, quando saiu daquele estado de espanto e voltou à visão habitual das coisas, concluiu que tinha participado de uma cerimônia iniciatória, um rito de passagem, uma espécie de batismo de fogo para habilitar-se a continuar fazendo parte do mundo presente. Podia agora dizer, dono da teoria e da prática, que tinha sido expulso do Éden, transformado num cidadão de hoje. Antes, assalto era uma coisa exclusiva dos outros, como o câncer e o enfarto, sempre visto pela televisão ou por relatos indiretos. “Quando será minha vez?”, pensava sempre, mas certo, lá no fundo, de que nunca aconteceria consigo. Mais tarde, submeteu-se à cruzada burocrática: telefonemas seguidos à companhia seguradora, aturando a voz mecânica e automática das atendentes, a fila no banco — sem direito a sentar-se — para a reposição do seguro, a troca da porta e do vitrô, as visitas à Delegacia para conseguir a confirmação escrita de que tinha sido realmente “subtraído de alguns bens”. Como não achar graça da linguagem usada no Boletim de Ocorrência? “Alguns elementos ignorados adentraram a residência do Sr. Fulano de Tal e subtraíram os seguintes bens.” — Ladrões não subtraem: roubam — corrigiu o escrivão arrogante. Ele não lhe deu atenção. A mulher voltou depressa, quando soube do fato. Nos dias seguintes, foi impossível evitar a depressão, o sentimento de estar morando e vivendo sobre o vácuo. Uma família arrancada de seus pertences, exilada em sua própria cidade. Num primeiro momento, a raiva tinha destinatários certos: os “elementos” desconhecidos que “adentraram” por sua casa. Alguns dias depois, já tinha ampliado seu raio de ira, abrangendo também todas aquelas pessoas que, de um modo ou de outro, contribuíam para o aumento do crime e da subvida nesse país. Deus, como bom brasileiro, acabava escrevendo certo por linhas tortas... Com o dinheiro do seguro, reporia alguma coisa roubada e pagaria o cheque especial, que já andava pela hora da morte. À noite, em casa, liguei a televisão, espelho do mundo, e fiquei subitamente diante da bela cena, repetida em todas as guerras que a telinha exibe: nas carrocerias do trator, crianças esgoelavam nos braços de mães aflitas, velhos de olhar atônito fugiam das bombas e dos soldados inimigos. Não era mais um filme de Hollywood. Tenho algo em comum com esses personagens reais cuja desventura acabei de acompanhar na tela: todos fugimos de alguma bomba e algum soldado inimigo. Zamboni — fugitivo de guerra que procura esconder-se sob as saias das mulheres — chamou-me a atenção, recentemente, para alguns desses soldados do front oposto que não provém daquela região estatística abaixo da linha da pobreza: são os jovens simpáticos e saudáveis, que pegam os carros dos pais, com permissão ou não, e saem chamando para a briga a Tranqüilidade, a Paz, o Sossego, a Calma e outros sinônimos que querem, a todo custo, ver fora do dicionário e de Canaviais. Desliguei o aparelho. Fui à janela, olhei minha rua, cada vez mais tomada pelos carros, pelo barulho, pelos assaltantes. Quando chegaria a vez da minha casa? Pensei nas outras ruas de Canaviais, que também já eram pequenos campos de batalha, estatisticamente com menos vítimas, porém guerra. Guerra ao ar que respiro, ao silêncio de que me alimento, às sibipirunas da Pimenta Bueno, à casa do Rola, ao pobre Copinha que, agora, não passa de ultrajada matéria em decomposição. Não consigo aceitar essa morte estupidamente antecipada do Copinha, nem a orfandade às avessas de seu Custódio. Não bastaria uma única dessas mortes absurdas, para toda a matemática perder o sentido? Que morte, aliás, não é absurda, depois que um padre abandona a Igreja e a filosofia do tempo eterno? O presente é um ponta visível do iceberg do passado, garantiu com outra imagem e outras palavras um desses filósofos sabidos. Náufrago do mundo e de mim mesmo, à procura de um inexistente ponto de apoio, ressuscito algumas cartas que guardei da Condessa Fernanda, esquecidas com cuidado numa pasta bem conservada, depois de haver tentado destruí-las. Antes de deixar a paróquia de Santa Inês, amassei-as, comecei a rasgá-las e já ia consumi-las no fogão, quando um braço conteve o outro. São minhas relíquias de casa velha, diria com Machado, e é preciso restaurá-las. Vou armar o quebra-cabeças. Depois, com paciência, as copiarei aqui. É um modo de distrair-me de Canaviais, de Ana Maria e das outras odaliscas, ao menos por enquanto. Sei que pode, também, provocar o efeito contrário: deixar-me mais desperto para certa coisa que procuro esquecer. — Lembra, José? — repito a mim mesmo, enquanto as remonto e releio. — Este corpo gasto e feio já foi desejado com ardor. É inacreditável. Será meu principal documento de identidade existencial. Duplo remorso me oprime enquanto as ordeno cronologicamente: por não haver tido a coragem de reagir — na mesma altura, com o mesmo coração — à sandice daquela senhora, e por ter escondido o gravíssimo fato do meu chefe espiritual, ao qual jurara obediência e fidelidade. |