PRIMEIRA PARTE

 

 

1

 

A velha cidade desaparece lá fora, além de minhas janelas, invadida por hordas famintas que chegam de cima — Minas, Goiás, Bahia, Pernambuco, até do Maranhão — à procura de emprego ocasional nas usinas da Califórnia Brasileira, e barracos definitivos para esconder os cacarecos. Mas levanto outra cidade em minha pequena chácara, exclusivamente para mim, defendida por cerca elétrica e alarme. É meu forte-apache.

Já não sinto mais remorsos quando procuro defender-me. Direito são direitos. Trabalho, ganho honestamente meu dinheiro, coisa que não fazem aqueles que foram eleitos para evitar a superpopulação mal-assistida e impedir que mineiros, goianos, baianos etc, deixem suas terras para viver das sobras do banquete paulista.

Com a empregada recém contratada, terei mais tempo para o quintal da casa que ousei financiar, nos arredores do bairro da Colina. A maior parte do salário é engolida pela prestação. São quase mil metros quadrados, quase uma chácara. É muito pouco para agricultores, mas exageradamente assustador para um ex-padre como eu, que sempre viveu às custas da diocese. Também tenho direito de ler meus livros e cultivar minhas plantas. Nada mais quero desta vida, que fui obrigado a viver sem ser consultado.

A casa é velha e precisa de reforma, mas é bem situada — ou seja, quase não tenho vizinhos. Já veio com árvores, fator decisivo na compra. Fica na parte alta do terreno. A cerca rústica dos fundos já foi substituída por um muro alto que não me impede de avistar a matinha dos padres salesianos. O arvoredo lhes protege a mina d'água e melhora a paisagem do bairro. É um lugar bonito. Não posso me queixar. Avisto com nitidez o eucaliptal do velho Migotto e até um pedaço do morro do Açoita-Cavalo. Nada mal para quem viaja mais com o olho que com a perna.

À esquerda, há um bom terreno que ainda pode ser meu. Do outro lado, mora o pacífico mecânico da Chevrolet que nunca me aborrece. A maior implicância é com a rua da frente, cada vez menos silenciosa, por onde já passam motos, carros, caminhões, essas coisas monstruosas e fétidas que tomaram de assalto a cidade. Mas acaba compensando-a os vizinhos de cima: sol, lua, estrelas, incluindo as cadentes.

Viver sozinho nem sempre é desconfortável, mas não nego que preciso de companhia, mesmo à distância. A televisão ajuda um pouco, nas raras vezes em que posso alugar um filme que preste. No seminário e na paróquia sempre estive cercado de pessoas, sem que o fato alterasse meu destino de cidadão à margem da cidade — o mais incivil dos indivíduos. Mas hoje sei que aquela solidão compartilhada, de sombras esbarrando-se discretamente, ainda era preferível ao isolamento total. Talvez seja o modo mais higiênico de convivência.

Felizmente, estou longe de bispos e paróquias. Só por isso deveria sentir-me o mais feliz dos mortais. O diabo é que deixei a batina para virar monge vitalício em meu quintal. Depois das caçadas e pescarias, fugindo espavorido da Condessa Fernanda (e do que presumia haver sob a saia da Condessa), é chegada a vez da chácara, da qual espero mais que simples divertimento para enganar o tédio. Sinto, à medida que o tempo escoa, urgente necessidade de estar entre coisas primordiais — árvores, frutas, pássaros, estrelas —, apesar do conforto nada primitivo que tenho em minha cozinha e meu banheiro.

Começarei vida nova com espírito de ontem. Serei permanentemente acossado por tiriricas e braquiárias? Melhor que bandidos. Vou carpir, preparar o chão, jogar a semente ou replantar a muda, controlar as pragas e as doenças, irrigar: serão tarefas para todo dia, disfarçando de verde o ser dramaticamente moral que ainda se agita em mim. Contraria contrariis curantur.

É preciso continuar inventando justificativas para a vida, agora que o Brasil parece condenado ao caos e apeei do púlpito, livre dos dízimos, do azedo Dom Simão e dos outros mil problemas paroquianos, livre sobretudo da Condessa Fernanda e daquelas cartinhas...

 

 

Foi minha irmã quem me arranjou a empregada. Apareceu ontem à tarde para combinar preço e horário. Ao contrário do que prefiro, é mulher ainda jovem. Chama-se Ana Maria e quis logo saber se podia trazer o filho. Era uma idéia que não me agradava, mas disse que sim. “Vamos ver primeiro como é o piralho”, pensei.

Hoje cedo, às sete da manhã, já tocava a campainha. Dei-lhe depressa as instruções para o serviço e corri atrasado para as aulas, preocupado com o dinheiro perdido, mas satisfeito por me livrar do trabalho doméstico, que é a pior das tiranias.

Quando voltei das aulas, fui definitivamente conquistado pelo almoço. Já estava à minha espera, na mesa cuidadosamente posta, temperado com mão leve, na medida exata do sal, do óleo e da pimenta.

Aprovei a cozinheira, embora a preferisse mais feia, mais gorda e mais velha. Cursou até o primeiro ano do colegial e não parece estúpida, como a maioria das mulheres da sua condição. Foi a situação doméstica que a obrigou a trabalhar para fora: o marido é um caminhoneiro que precisou vender o caminhão, alugou uma chácara perto da cidade e hoje toca uma pequena horta.

Não impliquei com o filho: parece o moleque que eu mesmo fui, meio arteiro e meio tímido, antes de abandonar o mundo e enfurnar-me no Seminário Arquidiocesano da Virgem Santíssima, em Abacaxípolis.

Promoveu-me logo a tio e resignado aceitei. Acabei perdendo um bom pedaço da tarde observando-o esparramar papel no vento, pegar formigas na mão, conversar sozinho. Mijou demoradamente no pé de caju. Furou a bola na roseira. Passou carreira no gato Balão (que já estava na casa quando a comprei, há três meses). Esbarrou na caixa de marimbondos, chorando de empoçar o rosto. Quase caiu do jambolão, à cuja sombra fresca deitou-se por três irriquietos minutos.

Parece boa gente. É uma pena que a mãe quase não o corrija, como virou moda entre mães. O “proibido proibir” veio para ficar. Teremos, pela frente, algumas gerações de bebês mimados, com mais consciência do sinal verde que do vermelho. Os analistas mais moderados asseguram que vai ser o caos.

Fui com o jeito de Ana Maria, repito, porém de um modo que me preocupa.

 

 

Ana Maria, sem descanso, entra e sai dos cômodos, quase roçando por mim. Limpa, lava, cozinha. É educada, competente, mas tem belas pernas e bons peitos, da maneira que o diabo gosta. É impossível permanecer indiferente. Se começar a importunar-me daquele modo, demito-a sem piedade.

Pode parecer demasiado estranho, no final do século da pornografia, que alguém se esforce por conter a Luxúria. Não sou propriamente um especialista no sexo frágil, mas já sei o suficiente para temer a onça esperta que barrou o caminho de Dante, enquanto atravessava a selva.

Não sou o que você está imaginando, caro papel. Ao contrário da padrecada de hoje, não sou veado, bicha, fresco ou gay, como se diz hoje em dia. Inclino-me por elas, as oncinhas espertas — o suficiente para temê-las.

Quando era padre, respeitei as regras do jogo. Suei frio, não o nego, achando muitas vezes que sucumbiria. Mas, no final, quem vencia era a disciplina. Fui casto e era relativamente feliz. Mesmo quando distanciei-me de Deus e as regras do jogo podiam ser mudadas pelo apóstata, continuei fiel à Lei. Dona Fernanda surgiu como um temporal barulhento. O alicerce estremeceu, mas continuei padre. Perdi a fé, deixei a batina, e continuo obediente às regras. Será medo patológico do sexo? Sei que o amor é uma boa idéia, não por praticá-lo, mas pelo sofrimento da privação. Eu o conheci muito bem pelo avesso. Evito-o porque deve ser bom, extremamente bom, mas não pretendo ser arrastado pela correnteza. Sou um filósofo estóico, meio platônico, exilado em minha própria cidade.

Reli há algumas semanas, como faço todo ano, o diário do Conselheiro Aires. É meu guru para as horas da vida e para a hora da morte. Também sou um solteirão à procura de paz, antes do sossego definitivo na avenida Saudade. Aires, para mim, é mais real que o presidente da república. Conto com ele, embora a crítica literária não meça esforços para reduzi-lo a duas centenas de folhas impressas. Alguns colegas do magistério já nem o chamariam de personagem, mas de actante. É o fim do mundo civilizado.

 

 

Sintonizei a rádio de Ribeirão para ouvir a estréia do professor Zamboni, meu colega de trabalho, como consultor gramatical. Já foi locutor na Rádio Popular de Canaviais, sabe o que fazer com a voz.

Estranhei que usasse letras de música para ilustrar regências, concordâncias, conjugações. Não gosta de música popular, exceção aberta para os franceses Trenet, Brassens e Aznavour. Imagino o trabalho que deve ter tido à procura dos exemplos.

— O Caetano, o Gil, o Chico... Só se fala neles, padre. É hora de voltar aos poetas de verdade. Daqui a pouco, só vai ter letrinha de MPB nos livros didáticos — disse-me um dia, antes de pensar em programa de rádio.

Porém usou-os, o safado. Falou bem daquelas bobagens. Acabou acertando nas vinhetas musicais, tiradas do Satie.

 

 

Meu vizinho do lado, o tal mecânico da Chevrolet, é boa gente, já o disse aqui. Não molesta ninguém. Mas ontem à tarde, quando virava para entrar em nossa rua, cortou tranquilamente um outro carro que vinha na preferencial. Nada de muito perigoso para o trânsito. Só o perigo que a própria atitude continha: as pessoas estão se achando maiores, muito maiores, do que na realidade são. Esses bichos da terra tão pequenos, como corretamente os viu Camões, hoje estão cheios de vento.

Explosão demográfica, sem lugar ao sol para todos, aliada à hipertrofia do indivíduo, que pretende ocupar bem mais de um lugar no espaço, só pode resultar em caos urbano. Quando ando a pé pela cidade, encontro às pencas os tais manos. Olham-me com ódio ou indiferença. Não gosto de vê-los pelas ruas, pois invariavelmente sou forçado a exercitar a impiedade. Durante décadas, treinei amar o próximo como a mim mesmo. Nunca consegui, pois se trata da mais inatingível das utopias. Era, pelo menos, um nobre objetivo. 

Agora, aquilo era meu próximo? Eu poderia ter sido aquilo, se minha família vivesse abaixo da linha da pobreza, como dizem os economistas?

Que venha a compaixão, contanto que fiquem bem longe de mim.

 

 

Faz mais de mês que não escrevo. Ultimamente, ando sem tempo até para cuidar do quintal ou espiar as pernas de Ana Maria. Fico mais tempo no colégio, mostrando às freiras que desejo e mereço as aulas de literatura na faculdade. Com a prestação alta da casa, preciso melhorar o contra-cheque.

No próximo ano, as aulas estarão vagas, segundo Zamboni, que vibra atualmente com o Concerto para dois pianos, de Poulenc. Passou-me a fita cassete, ouvi e não gostei. Falta um pouco de sangue a esses franceses. Acharia normal se ele preferisse os alemães, mais angulosos. Ou os italianos, mais choramingões. O cartesianismo francês não combina com Zamboni, nem com a mais irracional das artes.

Mas fico o dia inteiro com a chácara na cabeça, obediente à lição de uma velha fábula grega. A Urtiga, invejosa, virou-se para a Roseira:

— Como você consegue fabricar essas belas rosas?

E a Roseira:

— Só penso nas rosas. O dia inteiro, a noite inteira, a vida inteira...

Mesmo com a agenda cheia, vou pegar na enxada, no rastelo, na pá, na carriola, no tesourão, reservando ao quintal um pedaço da tarde. Mandarei vir, regularmente, carroças de esterco e calcário. A cada nova agressão da cidade, a cada mau pensamento com a empregada ou as alunas — sobretudo Sheila, que deu de provocar-me mais ostensivamente —, pagarei com uma hora de enxada ou carriola.

Vou ter problemas com a seca que se avizinha. O capim braquiária é pior que pensava: infesta a região e não deixa livre um palmo de terra. Para as tiriricas, já descobri uma função no mundo prático. Doutor Cintra, que não quis tratar minha escoliose — “deixa como está, amigo” —, revelou-me a virtude da erva daninha:

— Têm, na raiz, umas batatinhas aromáticas. São excelentes para curtir cachaça.

Tive uma idéia malévola. Gosto pouco de cachaça, mas que venham as tiriricas. Vou deixar alguns metros quadrados do jardim só para elas. Meu pai conhece um pingueiro desonesto, na estrada de Nuporanga, que costuma “batizar” cachaça. Vende barato. Posso virar matéria do Globo Rural como o primeiro brasileiro a transfigurar cachaça vagabunda, curtindo-a com tiririca. Já que a ordem social do país esfacela-se, por que não entrar também, discretamente, na contravenção?

Lembro-me de um fumeiro canaviense que colava um palmo de fumo bom na ponta de um rolo de fumo ruim, e ia vendê-lo nos cafundós de Minas. Ficou rico.

 

 

Era possível distinguir, no asfalto, os cacos de vidro brilhando sob a luz dos postes. A moto permanecia tombada na rua, perto da sarjeta. O carro ainda estava na diagonal, pára-lama esquerdo afundado. Os policiais terminavam a ocorrência e o bolo de pessoas dissolvia-se.

O show tinha terminado. Voltamos ao balcão. O bar do Romano é a única coisa que parece não mudar em Canaviais. Era inevitável que a conversa girasse em torno da batida. Ainda tínhamos algum tempo, enquanto o professor de gramática esperava o ônibus que o levaria de volta a Ribeirão, na véspera de Paixão de Cristo.

Zamboni conhecia o sujeito do carro. Era o Antonucci, do Varejão Central. Do motoqueiro ninguém sabia nada, nem o gordo Romano, que sempre sabe de tudo. Àquela hora devia estar esticado num leito do Hospital Bom Jesus, com ferimentos e fraturas no corpo.

— Hoje em dia ninguém mais sabe guiar — decretou o dono do bar, com voz sempre berrada, enquanto passava pano úmido no balcão. — Motorista não dá sinal, motoqueiro se enfia em qualquer brecha... O trânsito virou um inferno. Uma bostinha como Canaviais, que custou a ter cinqüenta mil habitantes, não devia ter tanta gente morrendo de batida e atropelamento.

— É muito carro para cidade tão pequena — arrisquei humildemente um palpite, quando queria dizer mais, por exemplo, que o povo é mal educado, e povo motorizado é povo saindo de seu chiqueiro.

Mas logo vi que estava errado. Romano olhou-me com desprezo e alguma piedade:

— Não é esse o problema. O enguiço é mais embaixo. No tempo do delegado Julião, por exemplo, isso não acontecia. Só tirava carta quem era bom no volante. Não tinha barriga-me-dói. Quem lembra de bandido na época do Julião?

— O próprio Julião era um deles — provocou Zamboni.

— Não fala bobagem! — retrucou Romano. — Você queria a madre Teresa de Calcutá na Delegacia? Na época do Julião, a bicicleta do meu moleque pousava no alpendre toda noite. Ninguém roubou. Todo mundo respeitava a borracha do homem.

— Então me dá uma dessas coxinhas — Zamboni desconversou, num desdém ostensivo pelos argumentos românicos.

— Delegado, hoje em dia, caga de medo de relar em bandido. Quando o tráfico dominar tudo, a cidade vai lembrar com saudade do Julião.

Perguntei como ia a história do aeroporto internacional de cargas que ia “levar Canaviais direto para o século XXI, sem ter passado pelo XX”, segundo um jornalista local.

— É bom demais para ser verdade — Romano passou a coxinha quente ao Zamboni. — A cidade ia crescer, dar emprego para todo mundo. Mas acha que Ribeirão deixa vir para cá? Canaviais está condenada a ser isso que está aí: uma cidade cercada de cana por todo lado

Quando foi atender na outra ponta do balcão, falei ao amigo dessas coisas indesejáveis, que chegam sem nossa permissão: a cidade que se desfigura, o trânsito insuportável, o crescimento do narcotráfico e “os do norte que evêm”. O professor de português recordou-me de pronto o soneto de Camões, em que o poeta queixava-se das mudanças que acontecem sob o sol:

— Os tempos, as vontades, o ser, tudo muda. Até as vaginas mudaram, padre — nosso magister dixit sorrindo, arqueando a grossa sobrancelha. —  E para bem melhor, aliás. Estão menos culpadas.

Abaixei a cabeça, sorrindo encabulado. Não gosto de falar essas coisas, nem ouvi-las. É um exibicionismo gratuito. Sexo anda muito barateado hoje em dia. Zamboni riu do meu pudor:

— Fiquemos na Semana Santa, por exemplo, que é um assunto que te agrada mais.

Arrastou-me para a mesinha perto da porta. O carro batido não estava mais na esquina, já fora guinchada a moto. Soneto por soneto, lembrei-me do Machado:

— Mudou a Semana Santa ou fomos nós?

— Belíssimo poema, para falar como o nosso José Dias. E, em vão lutando contra o metro adverso, Só lhe saiu este pequeno verso: “Mudaria o Natal ou mudei eu?” O homem era um gênio. Aliás, você está me devendo os teus sonetos. Os sonetos do padre Zezinho...

— Bobagens.

— Não venha com evasivas. Um dos meus hobbys preferidos é decorar soneto que me agrada. É um excelente exercício para a memória — disse-me ainda mastigando, enquanto deitava molho na coxinha recém mordida. — Mas não sou contra mudanças. Elas vão sempre existir, são a própria musculatura da realidade. As pessoas que se conformem. É só um problema de adaptação.

Enquanto o ônibus não chegava, comecei a pensar em diferenças na própria Semana Santa. A Catedral, ao contrário de hoje, era mais sombria, soturnamente roxa, mais próxima da idéia de morte: das imagens dos santos aos crucifixos, das cortinas aos paramentos do cônego Manuel.

— Você deve se lembrar melhor que eu — disse-lhe. — Aqueles panos escuros de cetim...

— Como esquecer? Era tudo roxo. Uma morbidez geral! — Zamboni mordia com avareza o salgadinho quente.

Falamos do respeitoso silêncio das sextas-feiras, do jejum de carnes, dos rádios desligados, das buzinas mudas. Lembrei-lhe que só os quadros do Portinari, na Via Sacra, ficavam descobertos, para que os fiéis passassem à sua frente cantando a velha e melancólica modinha: “O senhor é condenado/ a morrer crucificado...”

— Não vejo graça no Portinari. Embora comunista, era o pintor oficial do Estado Novo. Sou mais Pancetti — ponderou ele, insistindo com a coca-cola: — Aceita meio copo, padre. É a melhor bebida do planeta.

Recusei, incorruptível. Jamais botarei no estômago esse líqüido. Admiti, no entanto, que havia um notório contraste entre o cubismo pouco piedoso dos quadros e o aspecto mórbido da canção:

— Falta de sintonia que o cônego percebeu bem. Nunca parou de implicar com a obra do pintor.

— Das poucas vezes que o cônego teve razão — disse-me com falsa gravidade e a boca obscenamente cheia.

— E a vigília do Senhor Morto, que era o velório mais concorrido da cidade? — observei. — Meu pai fazia a “hora santa” de madrugada.

— Uma boemia cristã que tinha lá o seu charme. Mas quem hoje pode sair de casa de madrugada, com essas gangues de bonés por aí? — perguntou-me.

Foi minha vez de apanhá-lo:

— Na maioria, boné com distintivo do Corinthians — provoquei-o, para logo concluir desolado, pensando mais em mim mesmo que no resto da humanidade: — Ninguém mais faz abstinência de carne.

— Não implica com a carne! Você não gosta de vagina, não gosta de coxinha, tudo faz mal.

— Antigamente havia pelo menos o inferno, que de certo modo equilibrava as paixões — disse-lhe.

— O inferno e um time chamado Santos Futebol Clube... — despejou, com um sorriso, mais coca-cola no próprio copo. 

— O time-idéia de Platão... — contrataquei. — Não podia durar muito. Foi uma pequena amostra à humanidade do que seria o futebol no Topos Uranos.

Zamboni defendeu-se com um trecho do Réquiem de Fauré — “Sanctus... Sanctus...” —, que poderia ser o hino atual do time da Vila Belmiro:

— Serve para a Semana Santa e esse timinho decadente — piscou de leve o olho esperto.

Mudei de assunto. Como penso seriamente em retomar a caça e a pesca, para distrair-me das alunas danadas do Colégio, contei-lhe a história de meu avô. Certa vez, teimou em caçar justo naqueles dias, em companhia de um cunhado. Pegaram as espingardas e foram ajeitar-se no mato. Nada de paca ou capivara, apesar da ceva bem feita. A única coisa que avistaram foi um mico, no alto de um angiqueiro. Para desenfado ou vingança, puseram-se a fazer fogo — meu avô de um lado, o cunhado de outro. Atiravam, recarregavam, atiravam. Pingos de sangue começaram a gotejar das folhas. Continuaram atirando e o macaco não caía: só as gotas de sangue.

— E daí? — perguntou-me, meio indiferente, meio complacente, enquanto estripava a nova coxinha.

— Correram. Meu avô, que não gostava de missa, começou a vir uma vez por semana na Catedral do cônego Manuel.

— Sempre haverá algum sangue de mico por trás da fé mais sincera — sentenciou e riu.

Não posso falar em caças sem lembrar-me logo do velho cônego Manuel, a quem conheci já na velhice, à época em que meu avô costumava trazer-lhe, ainda vivas, as codorninhas ou perdizes apanhadas no sítio. O sacerdote tirava-as do pequeno saco de estopa e, enquanto gritava pela empregada e pela bacia, começava a estrangulá-las ali mesmo, conversando calmamente com meu avô (sempre de chapéu na mão, em atitude de humilde reverência diante do mais graduado representante de Deus em Canaviais). Isso escondi do Zamboni, não por corporativismo eclesial, mas por vergonha de ter sido parte daquele clube sagrado onde havia de tudo, inclusive santos e demônios, mas cuja grande maioria era composta de pessoas comuns, sem grandes vícios ou virtudes, exatamente iguais aos homens e mulheres do mundo.

Minha experiência decisiva com caça, no entanto, veio quando Condessa Fernanda apareceu em minha paróquia. Pensei em falar dela, contar ao amigo a história de minha saída da Igreja. Não haveria tempo nem coragem. Olhei a estufa de vidro sobre o balcão, com pastéis, quibes, esfirras, croquetes — todos com jeito de obra recente. Apesar do cheiro bom e da boa fama do Romano, contive a vontade de experimentá-los. Não era medo de ver pingar sangue do galo ou do boi morto, mas indesculpável falta de confiança em cozinha de boteco. Em nome da Semana Santa, voltei a recusar a coca-cola do Zamboni, que não deixa de ser uma espécie de água benta globalizada.

Foi nessa hora que entrou o Xavier. Sabe tudo de futebol. Escalaria, sem titubeios, a equipe titular do Arapiraca F. C. Vive com a Gazeta dos esportes debaixo do braço. Olhou sério para o pequeno público do bar:

— O cara da moto já era, pessoal — deu a notícia. — Acabou de dar no rádio.

Zamboni deixou o copo sobre a mesa. Todos os olhos pousaram no Xavier, eternamente de barba por fazer. Ninguém ousava dar um pio. Xavier foi até a estufa de salgados, examinou-a. No fundo, ninguém pensava que o acidente fosse tão grave, mas só uma batida de rotina, como tantas por aí. Parecia o próprio absurdo alguém morrer na esquina de baixo, com tantas outras esquinas mais adequadas para matar ou morrer.

Antes que alguém ousasse o primeiro comentário, Xavier sorriu com o dente torto:

— O cara só levou umas esfoladas... A moto é que ficou toda fodida. Dá pena de ver a coitada.

Romano explodiu:

— Vai à puta-que-la-merda, Xavier. Isso é coisa para brincar?

Xavier ria como uma criança, arreganhando as gengivas horríveis. Boa gente. O ônibus não tardou a chegar e lá se foi o Zamboni, canaviense que se mudou para Ribeirão após o divórcio e o novo casamento, sem daqui sentir nenhuma falta.

 

 

Um dia, talvez lhe conte que voltei a Canaviais para reiniciar minha história no ponto em que a deixei em 1967, quando a troquei pelo Seminário e pela filosofia do tempo eterno, que não pressupunha ruínas nem cadáveres. Foi um engodo. Não sabia que a velha cidade estava enterrada sob si mesma, cercada de canaviais, sucumbida ao tráfico de drogas, com o maior índice regional de mães solteiras pobres.

Preciso dizer-lhe, também, que os “sonetos do padre Zezinho” nada tinham de litúrgico ou canônico, como conviria a um ministro do Senhor, nem bem intencionados socialmente como os do bispo do Araguaia. Eram confissões de culpa, com a imagem da Condessa Fernanda mal disfarçada sob os castos versos — duas dúzias de folhas idiotas que, seja dito de passagem, já mereciam fogo ou lixo.

Talvez lhe narrasse com mais detalhes a história da minha conversão à Igreja do Diabo, graças às belas graças da supra mencionada senhora, que o Anjo Rebelde soltou em meu deserto.  Não foi a única paroquiana que se insinuou ao pastor, em tantos anos de confessionário e altar, mas foi a que decidiu partir para a ofensiva. Houve tiros e emboscadas, tanto da parte dela como da minha. Dela em relação a mim. E de mim em relação a capivaras e pacas reais, na várzea do rio Paranapanema. Se não contar ao amigo, que é chegado a uma boa patuscada, conto ao silencioso papel, que não tem nariz grande, sobrancelhas grossas nem zomba dos desgraçados.

 

 

Enquanto a folha policial da Voz da Mogiana vai ficando mais emocionante, minha vida passa como um rio. Ainda é a metáfora mais original do Ocidente. Leio meus livros, dou aulas sem gostar do ofício e cuido desta casa enorme que, a rigor, já não é mais só minha, depois que chegaram a Ana Maria e o André.

O menino não sossega um minuto, mas respeita as plantas. O filho da empregada tomou posse, definitivamente, do quintal. Ex-padre demitido do eterno, sou bem crescido para saber que o “jardim” não haverá de compensar o mundo lá fora — cada vez mais torpe e boçal —, mas a infância passageira de André poderia me distrair um pouco da velhice que se aproxima. Prometo dar mais atenção a ele, ensinando-lhe discretamente, como um subversivo, a respeitar certas normas. É o melhor jeito de ser pai: apadrinhando, sem muito envolvimento, filhos alheios. Coisa de professor.

Hoje à tarde, depois que a empregada se foi, desci ao quintal. Estava furioso com a cidade que se avilta e descontente comigo mesmo, incapaz de olhar a mãe de André como patrão (planejo, a todo momento, um tapa nas belas nádegas, coisa que evidentemente nunca acontecerá), incapaz de conter as lolitas que me cercam no Colégio, sentando-se despudoradamente em minha mesa, expondo seios, pernas, tudo. 

Maltratar árvores é o melhor ansiolítico que já tomei. Deixa-me — com o perdão do trocadilho — novíssimo em folha. Peguei o serrote e parti para cima delas. Podar árvores e reescrever frases são coisas muito parecidas. Tornei mais conciso o pomar, cortando o que parecia inútil. A mangueira, cuja copa ameaçava tomar conta das árvores ao redor, perdeu alguns quilos. A própria goiabeira teve de ceder meia dúzia de galhos. A fruta do conde ficou só com o tronco, e os pés de figo, laranja-lima, mexerica, caju e pitanga passaram a receber mais luz, que agora contracena melhor com a sombra.

Conseqüência: a raiva se foi, foram-se pernas e seios, e a aurora de róseos dedos voltou a fazer parte do casto vitrô da cozinha.

 

 

Seu Wagner, afinador de pianos, mora em Ribeirão Preto e visita as freiras duas vezes por ano. Logo depois que fui contratado, no início deste, ele apareceu por aqui. Agora, no começo do segundo semestre, voltou.

Ouvi o barulho e, como estava sem aula, entrei na sala para espiar o trabalho. A tampa da frente do Fritz Dobbert estava encostada na parede. Cumprimentou-me e continuou concentradamente o seu serviço. Batia na tecla, apertava a corda com a chave, tornava a bater. Depois, numa pausa, olhou o pátio do colégio e disse-me:

— Passarinho gosta muito disso, professor. Atrai os bichos.

Elogiou as árvores da freiras, lamentou o desmatamento geral da região, que força a vinda dos passarinhos para a cidade.

— Um dia — contou-me depois de bater na tecla e torcer o parafuso — fui afinar o piano de um empresário de Ribeirão, num sobrado enorme em Higienópolis. Perto da sala, num jardim de inverno, tinha um viveiro com uma porção de passarinhos. Depois de algum tempo afinando, eles começaram a cantar, todos ao mesmo tempo. Eu batia de cá e eles respondiam de lá. Um verdadeiro concerto. Resultado: não consegui afinar o piano do homem... — riu. — Nunca mais me chamaram.

Impossível conversar com alguém de Ribeirão sem falar de violência, assalto, estupro, assassinato, tráfico de droga. Segundo ele, a cada ano a cidade vizinha piora, numa escala crescente de morte e pavor.

— A velha Capital do Café virou um grande festival do crime — observou ele. — Uma pobreza de dar dó.

E enquanto ia deixando o piano das freiras preparado para as mais finas combinações sonoras — delicado veículo para os prelúdios de Bach, as sonatas de Beethoven, os estudos de Chopin, os noturnos de Debussy, os sarcasmos de Satie —, o afinador de piano não parou mais de falar nas coisas brutais de Ribeirão e do mundo atual.

Falou da leal e irrestrita proteção que o pessoal da droga dava a um amigo seu, que era dono de uma pequena mercearia na Vila Carvalho e ficava ao lado de uma casa de traficantes. Como nunca os denunciou à polícia, via-se livre de assaltos e outras importunações.

— É bom e ao mesmo tempo é ruim, professor — disse-me com um sorriso constrangido.

Contou-me, a seguir, de como escapara por acaso da morte, num começo de noite tranqüilo, no bairro dos Campos Elíseos. Entrou numa farmácia para comprar o calmante da esposa e ficou de prosa com o vigia, perto da balança. Um senhor de bigode acabava de ser atendido no balcão. Na mesma hora, parou uma moto com dois pretos: um deles desceu da garupa e entrou na farmácia. Encostou-se ao balcão, pediu um comprimido qualquer ao japonês, foi ao caixa, pagou e voltou à garupa da moto, quase ao mesmo tempo em que o senhor de bigode entrava no seu carro e saía. A moto acompanhou o carro e, vinte metros adiante, antes da esquina da magnólia, o preto da garupa disparou alguns tiros no motorista. O carro bateu na árvore e o senhor de bigode deixou de pertencer a esse pobre mundo pobre.

— Eu ia estar justo por ali naquele momento,  virando pra minha rua, se não tivesse por acaso parado pra conversar com o vigia. Na certa, eles também me apagariam, porque teria sido testemunha do assassinato. Ou teria sido atropelado pelo carro da vítima...

O piano ficou bom, os passarinhos não atrapalharam, nem eram tantos assim. E o afinador de piano despediu-se, voltou para a sua cidade perigosa, cada vez mais rica e mais pobre, completamente desafinada, fora do diapasão — piano já fora do controle de seus impotentes afinadores e pianistas, que já não sabem o que fazer com tanto “esgarçamento do tecido social”, para usar a imagem batida que pesquei na televisão.

 

 

Ana Maria chegou contente. Seus olhos brilhavam:

— Minha irmã foi sorteada com um apartamento, professor!

E houve foguetório, caminhão de trio-elétrico e políticos — municipais, estaduais, até um deputado federal —, para a entrega dos novos apartamentos aos canavienses, financiados pela Caixa.

— Fiquei com tanta vontade de me inscrever! O João deu o contra. Quer fazer uma casa de verdade. Só Deus saberá quando...

“Tudo pelo social”, ainda estava escrito na comprida faixa que ergueram à entrada do condomínio, quando lá fui conferir numa de minhas caminhadas. Os apartamentos eram minúsculos, os prédios eram feios — gaiolas microscópicas pintadas de azul, vermelho, verde, amarelo —, mudando para sempre a paisagem do morro do Açoita-Cavalo. Bombas coloridas, com carga explosiva humana, que mais cedo ou mais tarde o fósforo da pobreza detonará.

Mas estavam todos felizes: os políticos, a empresa de Ribeirão que os construiu e os futuros moradores, migrantes atraídos direta ou indiretamente pelos canaviais, com renda mensal (quando estão empregados) de um salário mínimo. Em breve, será o lugar preferido dos jornais e rádios da cidade para noticiar facada, tiro, tráfico, morte.

O erguimento de pequenos prédios, de cinco ou seis andares, com apartamentos minúsculos e destinados a moradia sub-humana — isso não é imoral? Canaviais ainda não cresceu horizontalmente de modo a justificar a construção dessas gaiolas humanas, agravando o equívoco político com o estético.

Que adianta ofender, num diário íntimo, os responsáveis por esse monstro habitacional? Pensando no riso sardônico do Zamboni, dou um jeito de frear a caneta acusatória e impotente. Adjetivos é que não faltam, posso escolher entre os mais desaforados no dicionário.

Tiro a caneta da linha e mudo de parágrafo. Estou cansado do Brasil, dos velhos truques, dos malandros de sempre.

 

 

No intervalo das aulas, Zamboni chamou-me sigilosamente para um café:

— Tem dois minutos, padre?

Passou-me a fita com o Trio em lá menor, de Ravel. Insiste em converter-me para a religião da música francesa. É inútil. Prefiro árias italianas. Mas minha fraqueza está mesmo nos olhos. É por eles que ainda serei condenado, no Dia do Juízo.

— Ouve com atenção e depois joga fora tuas coletâneas baratas de Puccini.

Desandou a falar da Débora, cujo cheiro ainda não conseguiu esquecer completamente. Conheceu-a em Ribeirão, na casa da Catarina, principal casa de prostituição da cidade. Puteiro de luxo, como ele prefere dizer. Débora parecia-se com a primeira esposa, com a segunda, com a própria mãe. Era mais uma manifestação do arquétipo feminino do Zamboni: moreno-claro, cabelo castanho, nem alta ou baixa, seios ao ponto e bela viola.

— Sobretudo isso, reverendo: uma bela e contida bunda.

A moça vivia rindo, embora um tantinho envergonhada pelo aparelho ortodôntico. Era a primeira vez que beijara mulher com aparelho ortodôntico, que lhe parecia mais atributo de filha que de amante. Era só por ele, o aparelho financiado em seis vezes, que fazia aquele bico ultrajante na Catarina:

— Acredita que era a primeira vez que ela vinha ali? — disse-me ainda espantado. — Conhecia de fama o lugar, o ex-namorado maconheiro falava sempre da Catarina. E, naquela noite, era ela mesma que estava ali, forçada pela vil matéria.

— O mundo é pequeno — arrisquei.

— Bota pequeneza nisso.

Não há necessidade de rodeios, enfim, para dizer que o amigo enrabichou-se.

— Aquele riso franco e prateado... Como é gostosinha, padre!

Jurou-me que o aparelho, apesar de feio, não punha em risco a beleza do rosto. Pensou, depois, em pagar-lhe o dobro do pedido, mas ficou só na vontade, pois o orçamento do mês andava sempre apertado.

— O pior é que nunca mais consegui rever a menina — olhou-me pesaroso. — Tem segundo grau completo, um cursinho deixado no meio do ano. Classe média baixa. Nós sabemos bem como é... Não tem nada a ver com o biótipo normal de puta. É uma moça como essas que andam por aí, trabalhando em agência de turismo, balconista de shopping, programadora de software.

Deu telefone falso de casa, não deixou nenhuma pista. Só sabia que era de uma pequena cidade perto de Ribeirão. Será que tudo o que disse ao Zamboni era verdadeiro? Minha experiência pessoal com essas moças é nenhuma, mas conheço-as um pouco através da literatura... Que ele acreditou, não tenho dúvida, provando que está mesmo fisgado.

— Você precisava ver o jeitinho dela ajoelhada na banheira quase cheia de água, rasgando com os dentes o saquinho plástico de xampu. Mexeu com as mãos até espumar e entrou, ficou escondida debaixo da espuma. E me chamou, padre! Fez assim com a mãozinha... — imitou-a sorrindo. — Na cama, foi de uma voracidade que as putas profissionais jamais teriam. Você sabe que puta é um bicho frio, não sabe?

Eu não sabia. Nas semanas seguintes, vasculhou de carro todas as cidades daquilo que chama, orgulhosamente, A Grande Ribeirão: Nova Itália, Barão, Bom Retiro, Abacaxípolis, Três Colinas, Mangueiral etc. Até em Canaviais procurou. Por que não? Em cada final de semana, pesquisava numa delas. Nada, porém, da moça bonita com aparelho ortodôntico, cujo nome presumia ser bem diferente de Débora.

— Veja o que a vaidade apronta com a pessoa. Ela não é menina de zona, não tem jeito para isso e nem é tão pobre, mas foi obrigada a abrir as pernas para saldar umas continhas de butique. Você acha justo deixar aquele chuchuzinho perdido no mundo, sem alguém mais experiente que tome conta dele? Sinto-me compelido por um dever de solidariedade quase cristão...

Achou que eu também tinha direito a um “chuchuzinho” e tentou passar-me o telefone da Catarina, mas recusei sob o sorriso cínico do amigo, cujo grande nariz torna-o ainda mais impudente.

— E, cá entre nós, padre, que ninguém nos ouça: ela adora uns tabefinhos durante o orgasmo! Sem machucar muito, evidentemente.

Como dizer-lhe que a utopia do ex-padre não incluía essa estranha modalidade de ritual com plantas trepadeiras, mas consistia sobretudo em viver sem fome de carne crua, pensamento em paz, como um pedaço de tijolo velho esquecido num canto de quintal?

 

 

A propósito, pensei em plantar trepadeiras no quintal: chuchu, uva, maracujá. Procurei a professora magrinha de biologia, enrolada de lãs até o pescoço, para uma conversa sobre o assunto. O pai é dono do Tudo-Verde, uma loja de plantas situada em bela chácara suburbana. Deu-me instruções valiosas. Conheci uma palavra interessante: gavinha. São os dedos do chuchu, com os quais trepa nos muros e nos estaleiros. Foi com eles que Débora prendeu o Zamboni.

Nos dias seguintes à conversa, percebi que ela andava me espiando com olhos pouco científicos. Como é feia, irritei-me e decidi evitá-la. Se fosse bonita, talvez me esquivasse ainda mais. Talvez sejam seqüelas da experiência traumática com a Condessa Fernanda, a exigir uma terapia ou... uma prostituta competente. Zamboni já me passou alguns números de telefone.

Não. Não posso acreditar nisso. Remédio para Zamboni pode ser contra-indicado para José Carlos. Tenho certeza de que nasci para solteirão, como minha irmã. Solteiro vou morrer, embora não seja o estado civil mais recomendável para o inverno que se aproxima.

 

 

A sala dos professores pegou fogo. Vera Lúcia, de matemática, subiu nos tamancos e condenou o tempo presente. Mendes, de química, ia de um lado a outro, repetindo que o seu carro era novo, recém tirado da agência. Dulcinéia, de física, insistia que a madre devia construir um estacionamento interno, só para o pessoal da casa.

— Não é previlégio, gente. É direito nosso.

Fiquei logo sabendo do que se tratava:

— Jogaram ácido nalguns carros — contou-me Zamboni, que depois sorriu com maldade: — Curioso é que foi só com os colegas das exatas... Obra de algum humanista.

Tomado de paranóia com essas máquinas mortíferas, temendo batidas ou riscadas, felicitei-me por não ter carro.

— Foi aluno? Ex-aluno? Algum maluco? — os colegas perguntavam.

— É terrível concluir que faz parte da lógica — disse irmã Rose, suavemente. — A lógica terrorista desse mundo que nos cerca, cada vez mais distante dos valores cristãos.

— Que época não teve seus predadores, irmã? — interveio Zamboni com delicadeza igual. — A diferença é que hoje as ferramentas são mais... precisas.

Irmã Rose concordou. Intimamente, também lhe dei razão, mas a boca permaneceu fechada. Talvez seja inveja do amigo, mas não quis subi-lo ao pódio. Saímos para as classes.

— Canaviais quer competir com Ribeirão nas estatísticas de crime — foi o que lhe disse, variando meu refrão cansativo.

— Não me arrependo de ter mudado para lá, padre. Bagunça por bagunça, lá estou mais perto dos bens indispensáveis da civilização: livros, discos, filmes, a casa da Catarina. O triste da situação é que agora os fatos negativos não acontecem sozinhos, ao acaso. Parecem parte de um sistema, de uma máquina que aspira ao funcionamento perfeito. Irracionalidade, violência, barbárie... Uma neobarbárie cercada de computadores, internet, essa globalização de merda.

— Logo, a máquina vai estar perfeita e azeitada — observei.

— Mas não me preocupo. Tenho fé que, como parte dela, a gente vá se acostumando. Lagarto em muro cinza é cinzento. Só não podem nos privar de dona Vagina, padre. É só dela que pode vir a redenção, os altos céus...

Sempre considerei que essa temível dama tivesse mais a ver com profundidades abissais, mas nada disse. Estava com uma grande vontade de calar. Despedimo-nos. Faltavam ainda duas aulas para encerrar o período. Em meu caso, aula dupla de literatura brasileira — Cruz e Sousa e Alphonsus de Guimarães. Respirei fundo e entrei na sala oito, onde me aguardavam trinta pares de mãos ávidas por linchar o sujeito que os torturaria, durante cem minutos, com a incompreensível leveza da poesia simbolista.

 

 

Quando saía da escola, Rola ofereceu-me carona. É professor de História, faz parte da comissão do Transartes, revista que as freiras criaram para posar de sabidas, e explicou-me por que meu pequeno ensaio não foi aceito: não se encaixa no “perfil científico” da revista, que agora exige resumo em inglês, palavras-chave, referências bibliográficas, etc.

Não demonstrou nenhum pesar pelo vandalismo nos carros. Anda relendo Lênin e, para minha surpresa, Gilberto Freyre. Esse último, segundo ele, apesar de reacionário, teria tido alguns lampejos progressistas. Serve, indiretamente, à causa social. Eu queria ver o processo da democracia racial no Brasil? Bastava dar um giro pelas periferia de Ribeirão ou mesmo Batatais, no final das tardes, ou pelo centro delas — que é onde estão, durante o dia, os moradores dos bairros mais distantes. Ficasse atento aos rostos, que neles eu veria de tudo: loiros de cabelo ruim, pretos de cabelo liso, pardos de olhos claros, ruivos de nariz chato, mulatos sararás, etc.

— A série é bem mais rica do que pode imaginar nossa vã imaginação — garantiu-me. — Estamos perto da democracia racial.

De qualquer modo, é o que o Rola quer para o Brasil que, em sua opinião, têm muito mais condições de realizá-lo do que certos países protestantes e de raça nórdica. Eu visse os EUA, por exemplo. Ainda conforme o sociólogo de Canaviais, essa franca miscigenação, ao destruir a homogeneidade étnica e consagrando o princípio da mistura, estaria na base de uma verdadeira democracia social, que ele prefere chamar, ainda, de socialismo.

— E a democracia espiritual — perguntei-lhe —, que pressupõe aberta variedade de credos e idéias, sem fanatismos?

Lembrei-lhe que os pobres de hoje falam a mesma língua cultural, imposta pela televisão. Engordam como burgueses pançudos, ao contrário dos seus ascendentes escravos. São insolentes e arrogantes como seus modelos pasteurizados de classe média. Destroem-se com maconha, crak, cocaína, etc. Sua reta de largada é a favela, e o pódio é o shopping, aonde vão em seus carros velhos.

Rola discorda com veemência. Chama-me de fascista, reacionário, elitista. Segundo ele, o potencial revolucionário da periferia estava bem escondido, mas ainda existia:

— É como uma granada numa lata de lixo... — procurou uma imagem melhor: — Como dinamite escondido no porão, na base de tudo. A explosão demográfica só é benéfica: aumenta o nosso exército... Quando aparecer um líder de verdade, que saiba localizar e detonar a arma, a classe média reacionária e os burgueses endinheirados irão pros ares! É preciso saber direcionar a energia desses moleques que jogam ácido nos carros. Por sorte — riu — o meu ficou ileso...

Perguntei-lhe se nossas escolas populistas, gramscianas, não fariam isso bem melhor. Explodiu a bomba do riso na minha cara:

— Ajudam bastante... Estão, digamos assim, preparando o terreno. Mas na hora H, que infelizmente ainda vai demorar muito, precisaremos de um novo Fidel. Aquele sim é que tem a bússola no rumo certo. Matou, torturou? E daí? Guerra é guerra. Stalin, Hitler, Fidel, Pinochet, Medici, todos comandaram guerras a serviço de uma causa. Minha causa, tenho certeza, é a mais nobre. Em seu nome, e contra os bem pensantes, defendo agora até o derramamento de sangue, a guerra civil. Como disse o Kazantzakis: “O ódio é um servo que vai abrindo caminho ao seu patrão, o amor”. Não podemos ter pressa... Um dia, de repente, acontece.

Olhei para o colega: não tinha cara de quem sofismava. Os dois vincos entre os olhos estavam mais fundos que nunca.

— E nesse dia vai sobrar também pra gente como você e o Zamboni, se ainda estiverem vivos. Vocês estarão entre os primeiros fuzilados — soltou, de repente, a gargalhada neurótica.

 

 

Minha empregada, que aos poucos adquire preocupante visibilidade, contou que viu o eclipse pela televisão, direto de Foz do Iguaçu, com um animado coral de Belo Horizonte e milhares de turistas, entre os quais não faltaram esotéricos, astrônomos, astrólogos. André, a princípio, animou-se com a idéia, mas depois tratou-a com superior desdém. Havia coisas mais importantes na horta do pai.

Com chapas de estômagos, rins ou pulmões, meus vizinhos olhavam para o alto. Eu próprio apanhei minha última radiografia da coluna e mirei o céu, que em parte era céu e em parte escoliose lombar. Mas nada havia no céu capaz de distrair-me das pernas e seios do mundo. Nem as estrelas cadentes, das quais sou caçador platônico quando me sento, à noite, na varanda.

Devia ter recusado com firmeza a empregada, quando vi que não era feia, nem velha, nem gorda. Uma voz distante, talvez do anjo da guarda, lembra-me a todo momento a lei de Moisés: deixa em paz a mulher do hortelão.

Vou dar férias às leituras e a este caderno. Já perco mais tempo com frases que com plantas. Vou descer mais vezes ao quintal. Meu tempo livre do Colégio, enquanto houver sol, será da chácara. Confio que o trabalho pesado dê conta da besta indócil, do inquieto cão aprisionado que recomeça a uivar, batendo insanamente a cabeça contra a cerca, percorrendo-a de um lado a outro em busca da liberdade ilusória do sexo.

Lugar de carne fraca é no cilício. Foi o que fiz. Peguei a enxada, carpi o mato, fiz a cova onde plantar o ingazeiro, estiquei os dois fios para a tomada de força. O monte de galhadas, com o produto das últimas podas, ficou maior que o previsto, quase do tamanho de uma árvore. Daria uma bela fogueira junina. Mais que isso: uma majestosa flor de sangue ardendo numa dessas noites vazias.

 

 

 

O HARÉM DE PLATÃOJosé Carlos Zamboni                                              Novela
Hosted by www.Geocities.ws

1