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RETRATO DE UMA GORDA SENHORA Dona Loló foi minha diretora de escola, numa pequena cidade não muito longe daqui. Gorda e nariguda, sem papas na língua, era dessas italianas capazes das atitudes mais contraditórias: nas ocasiões de greve, era a primeira a comandar o movimento, mandando todo mundo para casa e fechando a escola. Reunia os professores e, na cara dura, indignadíssima, chamava-os de escravos para baixo. — É por isso que o ensino chegou onde tá. Vocês são umas barata tonta! — dizia-lhes sem muita preocupação com as normas cultas da língua. Os professores abaixavam a cabeça e iam amargar silenciosamente a sua greve em casa. Sofria represálias? Não ligava. Nunca engoliu desaforo de supervisor ou de delegado de ensino, a quem tratava como inferiores. Um dia, botou um supervisor da porta para fora e nada lhe aconteceu. Nunca faltava comida para preparar a merenda do recreio. Se a prefeitura descuidava, ela mesma ligava para fazendeiros, sitiantes e hortelões da cidade, intimando-os a trazer os alimentos necessários. E eles obedeciam. Deu-me todo apoio, quando decidi criar uma pequena biblioteca na escola, usando os livros que o governo mandava e que ainda estavam misteriosamente encaixotados no banheiro. Ela mesma sugeriu uma campanha de doação junto à cidade: — Faz que eu apóio, Rielli. Foi feita e deu certo. Conseguiu, sem muita dificuldade, o material para a construção da pequena sala, que em três meses estava pronta e já emprestando livros à molecada. Mas fechou a cara comigo, na vez em que usei o pátio para encenar uma peça de teatro. Achava teatro uma grande bobagem, perda de tempo, matação de aula... Como insisti na apresentação — afinal, tinha sido quase um ano de ensaios semanais, os alunos envolvidos com a coisa —, ela virou a cara para mim e ficou de mal. Nunca mais quis saber de prosa com o professor desobediente. Há um fato que ilustra bem como era a dona Loló, em suas surpresas e contradições. Estávamos na sala dos professores, com ela sentada pachorrentamente à ponta da mesa e comandando uma reunião de rotina, quando uma professora falou da aluna de oitava série que, na véspera, lhe tinha mostrado as costas cheias de vergões: foi uma surra do pai, que a pegara seminua, na própria cama, com o namorado. — Coisa mais horrível, gente! Tirou sangue da menina. Ela está em dúvida se denuncia o pai ao promotor... Dona Loló, no dia seguinte, mandou chamar a menina. Sob as vistas da secretária, conseguiu convencê-la a não levar adiante a queixa: — Besteira, minha filha. Tudo bem que ele exagerou um pouco... Mas no fundo ele está certo. Imagina se você engravida nessa idade? Hem? Deu-lhe uma verdadeira aula de educação sexual, encheu-lhe a bolsa de camisinhas. E depois piscou-lhe o olho malicioso: — E quando você quiser fazer "aquilo", sua boba, vai num motel... É bom demais pra fazer tão correndo. Em seguida, depois de mandá-la de volta à sala de aula, comentou séria com a secretária: — Fez muito bem o pai! Se fosse eu, tinha arrancado mais sangue daquela vagabunda. |