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NOTAS SOBRE GASTÃO CRULS

 

 

 

Quase todos gostam de contar e ouvir histórias. Contos, novelas e romances existem por exclusiva culpa da “função fabuladora” (Bergson) do animal racional.

No caso do estranho romance De pai a filho, de Gastão Cruls, preferia que o escritor tivesse contado mais coisas sobre o Alberto-filho, do mesmo modo que contou sobre o Alberto-pai. E que também tivesse perdido menos tempo — quase duzentas das quinhentas e tantas páginas — com a placidez burguesa daquele Rio fim-de-século, embora eu já desconfiasse, enquanto lia, que aquele adiamento dos conflitos tivesse uma razão respeitável: tornar mais absurda a tragédia das últimas cem páginas. Também contribui para  isso as outras histórias misturadas à principal — Cruls foi bom contista —, como a do carioca que virou gaúcho e incorporou todo o vocabulário pampeano; do português, comerciante respeitável, que morreu feliz nos braços da amante mulata; da ex-aluna do colégio Sion que vira atriz, numa época em que atriz e prostituta eram quase a mesma coisa.

Mas se aquelas duzentas páginas iniciais não funcionam direito na máquina do romance, tem valor histórico e sociológico, mostrando um pouco da parte civilizada da cidade mais civilizada do país de então, especialmente as mansões de comerciantes portugueses recém enriquecidos.

O principal da obra está mais na psicologia que na sociologia. Traz epígrafe de Gide, “A vida nos propõe uma grande quantidade de problemas realmente insolúveis, que só a morte pode resolver, depois de um longo período de inquietação e tormento”, como poderia ter trazido as palavras finais das Memórias póstumas de Brás Cubas. O romance, publicado em 1954, último dos cinco que Cruls escreveu, parece feito pra confirmar, com dois casos clínicos, o famoso aforismo machadiano.

— Fiz um filho — Alberto-pai terá concluído no Além —; transmiti a alguém o legado da miséria humana.

Gastão Cruls foi próximo de Lima Barreto, que resenhou e elogiou seu primeiro livro de contos, Coivara. Embora médico, dizia, não escreve pedante como seus colegas de ofício. Lima morreu logo depois e não viu o “amadurecimento” do estilo do amigo, típico fim-de-século, meio parnasiano, meio simbolista, pendurado aqui e ali de “jóia rara”, empurrando a gente pro dicionário. Se, nos últimos romances, se aproximou tematicamente de Machado, seu estilo sempre teve mais afinidades com José de Alencar e Euclides da Cunha. Em De pai a filho, publicado na década da poesia concreta, a linguagem não tinha como ser mais anacrônica — o narrador é onisciente, pula com agilidade e sem cerimônia de uma alma a outra —, mas de certo modo o livro acabou lucrando com essa analogia do estilo preciosista e a época dos acontecimentos narrados, alguma coisa como a mão e a luva.

Tinha jurado que não leria tão cedo um romance brasileiro, e acabei varando sem grande esforço as quinhentas e vinte páginas do livro, com direito a decepção no final. Francamente, é uma obra muito boa e bastante ruim, mas o que ela tem de bom, de muito bom, compensa largamente as deficiências.

 

 

O português Cardoso, no romance De pai a filho, de Gastão Cruls, morreu na cama com a amante, balançando sobre o corpo da mulata em plena agonia. O comentário mais sábio veio de Alberto, no velório:

— Morreu em cima de uma mulher? Magnífico! Eu não queria outra morte.

Vários capítulos depois, o leitor fica sabendo que Alberto, naquela época, já não estava no seu juízo perfeito, vítima de paralisia geral. Por que a verdade insiste nessa preferência desleal pelos doidos?

 

 

 

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