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PAULO FRANCIS, SEMPRE CONTEMPORÂNEO José Carlos Zamboni Quando releio o Diário da corte, de Paulo Francis — em meus recortes pessoais ou num site um tanto descuidado da internet que disponibiliza parte de seus escritos mais recentes —, concluo sem dificuldade que ninguém, nas duas últimas décadas, exerceu entre nós com maior inteligência a crítica cultural. Da política à economia, da imprensa à universidade (cujo lombo vergastou impiedosamente), sem esquecer obviamente a literatura, que ele sempre botou à frente do resto, Paulo Francis — Franz Paulo da Mata Heilborn — tudo examinou e tudo julgou. Não importa, aqui, fazer a contabilidade dos erros e acertos: aos que pensam por conta própria, quase tudo pode ser perdoado. Escrevia sem “sistematicidade”, sem “metodologia”, para o desprezo dos chato-boys acadêmicos e o júbilo de quem ainda estava vivo para os livros e as idéias. Ainda espero ver aquele Diário da Corte editado em livro, na íntegra, obediente à cronologia em que era publicado nos jornais, deixando evidentes as mudanças que devagar se operavam em seu pensamento. Daria alguns belos tomos, resultando no que seria uma espécie de “suma de época” (para lembrar uma expressão de Carpeaux a propósito de O Espelho Partido, de Marques Rebelo, autor que Francis admirou e a Nova Fronteira, em boa hora, repõe nas prateleiras das livrarias). É uma suma das duas últimas décadas em que o mundo, e, no nosso caso, o Brasil, viu aumentar o caos urbano — que nosso autor denunciou no romance Cabeça de negro —, enquanto decrescia melancolicamente o interesse pela velha cultura ocidental. Um indisfarçável mergulho nas trevas, apesar da informática e outras comodidades tecnológicas. Paulo Francis viu o populacho, cada vez mais insolente, rugir furioso contra o que restava de civilização — essa civilização que começou com Homero e terminava na universidade de massa, com os estruturalistas, freud-marxistas, pós-estruturalistas, marx-freud-estruturalistas, etc., etc. Quem escreveu sobre literatura com mais brilho e graça? Com precisão, enxergou a olho nu — nunca necessitou de telescópio metodológico — a estreiteza conceitual da crítica universitária, como o estruturalismo e seus rebentos mais recentes, como o irrisório desconstrucionismo. O ex-marxista que ele foi não perdoava a baixa crítica sociológica, limitada e reducionista, na qual não caberia jamais um ensaísta do porte de Edmund Wilson, cuja obra ajudou a divulgar no Brasil. Tinha razão Gide quando dizia não temer quem buscava a verdade, mas os que a encontravam. Em sua busca, Paulo Francis percorreu os principais caminhos do pensamento contemporâneo, não hesitando em abandoná-los quando percebia que o ponto de chegada podia ser o começo do precipício. No deserto mental em que cada vez mais se transforma esse país, Paulo Francis faz falta. O mínimo que podemos fazer é repor em circulação o que ele deixou de vivo — de preferência com dinheiro público, por via de regra tão mal empregado. Fazê-lo às custas da própria universidade que ele tanto criticou é um modo de fustigá-lo postumamente — universidade em que, apesar de tudo, um tudo que inclui alunos despreparados e professores na mesma situação, ainda é possível respirar-se um pouco daquele “ar público” a que referia Ortega, falando com liberdade para meia-dúzia de alunos (meia-dúzia de três). Questionar, inclusive, a própria ideologia dominante intramuros, o marxismo; o nefasto e planetário neoliberalismo; Deus e o Diabo; os inimigos de Paulo Francis e até o próprio Paulo Francis, se for o caso. * Muitos da minha geração o conheceram no Pasquim; os mais velhos, da Revista da Civilização Brasileira e da Senhor, três periódicos muito lidos nos anos sessenta. Paulo Francis foi cria legítima daquela escola de humor carioca, que começa em meados de Oitocentos com Manuel Antônio de Almeida e Machado de Assis, passa na virada do século por Lima Barreto, até atingir sua grande expressão contemporânea em Marques Rebelo, Millor Fernandes e Carlos Heitor Cony — escritores incapazes de vislumbrar alguma chance de salvação depois da morte e convencidos de que o melhor dos mundos não é este. Eram todos eles pessimistas, embora soubessem temperar muito bem o desencanto com o sorriso disfarçado (Machado), o riso ostensivo (Lima Barreto) e não poucas vezes a galhofa pura e simples (Manuel Antônio de Almeida). Como muita gente, também discordava de muita coisa que o Francis dizia. Mas se opiniões não passam de sombras que vêm e somem, sempre concordei profundamente com sua visão implacável do mundo, sua dificuldade cada vez mais crescente em acreditar num futuro melhor para esta humanidade medíocre. Ao contrário do seu ex-inimigo e recente amigo Roberto Campos, que é um neo-otimista disfarçado de cético e acredita quase piamente na salvação do mundo pelo capitalismo-liberalismo, Paulo Francis não tinha ilusões com o porvir da espécie — essa confusa espécie dos bípedes implumes, quase sempre à deriva no mar de lama da História (com perdão do H maiúsculo). Confesso preferir o jornalismo de Francis à sua ficção, embora não a despreze. Das suas três narrativas publicadas, li Cabeça de negro e As filhas do segundo sexo (ainda não consegui passar das primeiras páginas do Cabeça de papel). Engraçada é a cena do Cabeça de negro em que um gordo ministro da Fazenda canta “Tico tico no fubá”, de Zequinha de Abreu, enquanto é sodomizado por um jovem musculoso, à beira de uma piscina carioca. Todo o Francis está aqui: caricaturesco, sarcástico, inteligente. Um dia a literatura brasileira vai ficar mais rica, quando alguém resolver publicar na íntegra e em vários volumes o seu Diário da Corte, que ele vinha escrevendo para a Folha e depois para o Estadão desde fins de setenta. É ali que, na minha opinião, está o verdadeiro Paulo Francis, evoluindo devagar para uma expressão cada vez mais clara, a linguagem enxuta e sem retórica, trocando as posições de vanguarda e de esquerda dos primeiros tempos pela volta discreta aos clássicos que ele citava cada vez mais, apesar de não conseguir poupá-los quando tinha de salientar a dimensão humana do homem genial (que continuava humano...). Seu estilo tinha alguns cacoetes que algumas vezes irritavam, mas eram a sua marca registrada. Dada a audiência que tinha, sua implicância com a linguagem artificial da universidade foi importante, quando insistia na tese de que bastava, para o sujeito pensar, ter idéias claras na cabeça e exprimi-las de maneira simples, com palavras comuns, sem necessidade da terminologia fechada, do exibicionismo conceitual que enchem centenas de teses acadêmicas e encobrem a mais deslavada indigência mental. Apesar de seu freudismo exagerado, foi um dos mais agudos críticos da mentalidade brasileira nas últimas três décadas. * Vi domingo à noite (28/11/2004), no Manhattan Connection, da GNT, a homenagem ao Paulo Francis. Esse homem, que é seguramente um dos maiores escritores brasileiros do século XX, dono de um estilo inconfundível e idéias no ponto, representava no vídeo o melhor personagem que conseguiu criar: a caricatura de si mesmo — que sempre ocupou o primeiro plano em sua crônicas, ensaios e romances. Era o que melhor sabia fazer: caricaturas. O personagem mostrado pelo Manhattan, que só por isso merecia levar o prêmio de melhor programa de humor de 2004, não pode esconder o que ele verdadeiramente foi: um grande intelectual. Foi nosso grande crítico impressionista, para cuja atividade possuía as duas ferramentas exigidas no serviço: inteligência e bom gosto. Sua coluna Diário da corte, quando for totalmente reunida em livro, será para o mundo urbano do Brasil em transformação, às vésperas do século XXI, o que Os sertões, de Euclides da Cunha, e Casa-grande & senzala, de Gilberto Freyre, representam para a compreensão do país arcaico. Dois mundos aparentemente distantes, mas eternamente ligados pelo Nhonhô, o Sinhozinho, com as mãos enfiadas na algibeira do Estado e os pés no pescoço do escravo de ontem e do operário de hoje, esteja ele na fábrica ou no Palácio do Planalto. Cheia de Nhonhôs assim é nossa elite política e econômica, absolutamente pré-capitalistas, incapaz de resolver os problemas de um país que caminha, em marcha batida, para a barbárie. Todas as contradições brasileiras — cosmopolitismo e provincianismo, estatismo e capitalismo, individualismo e coletivismo, etc. — estão admiravelmente condensadas no Diário da corte, prontas para despertar, com linguagem irreverente, as cabeças jovens que gostam de pensar, infelizmente cada vez mais raras. * Francis, em entrevista antes de morrer, disse que mais importante que a política eram as amizades e a experiência estética. "Eu acredito na grandeza das amizades e penso que posso gostar de pessoas que são completamente diferentes de mim. O que importa na vida é você gostar das pessoas e receber afeto, e não a política." "Minha felicidade é ler um grande autor ou ouvir Beethoven." Tinha lá suas aporias, como dizem os filósofos. A diferença é que as expunha, e era esse um dos principais motivos de sua obra. Gostava também de fingir de mau. Exemplo: assinava em baixo aquele chiste de Faulkner, para quem um poema de Keats valia mais que a vida de trinta mil velhotas. É terrível, dizia, mas é verdade. E o inquieto Francis, hesitante entre ética e estética, amigo dos amigos e das obras de arte, morreu estupidamente pelas mãos da política. Uma grande estatal, vítima freqüente de seus sarcasmos, chamou-o para a briguinha jurídica. Podia custar muito dinheiro e o coração assustou-se, desativando antes da hora uma das melhores cabeças do país, antes de escrever o terceiro volume de uma trilogia que ia chamar-se justamente Cabeça, depois do Cabeça de papel e do Cabeça de negro. |