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UM FLAUTISTA Ultimamente, os escorpiões tem aparecido em maior número em Canaviais: chegam pelo cano de esgoto, entram pelos ralos, armam tocaias pela casa. Um dia desses, de chinelo em punho, avancei para massacrar um desses intrusos sob a mesa do computador. Quando já tinha desferido o primeiro golpe, vi que não passava de um pobre e indefeso grilo, que ainda saiu dando uns fracos pulos pela sala do assassino. A única saída era acabar de matá-lo. Enquanto removia ao lixo, pesaroso, o cadáver do ex-flautista, me veio na lembrança um outro grilo — Grilinho, meu aluno há quase vinte anos num povoado perto de Rio Fundo, cento e trinta quilômetros longe de Canaviais. Grilinho, hoje, estará casado. Terá filhos da idade que ele próprio tinha, quando na pequena escola do povoado nos infernizava a vida (o bastante para a gente desejar fazer com ele o que fiz com o falso escorpião). É provável que continue cortando cana para a usina São Bento, na companhia da mulher gorducha e dos próprios filhos. Era, disparado, o pior aluno da quinta série. Não copiava matéria, mal sabia ler, escrevia uns garranchos que a muito custo eu conseguia decifrar. Não parava sentado na carteira. Nas andanças pela pequena sala, estapeava a cabeça dos colegas e beliscava a bunda das meninas. De vez em quando, depois de um daqueles passeios, eu era obrigado a livrá-lo de uma tropa de choque que avançava para trucidá-lo. As aulas daquela quinta série transcorreram cheias de Grilinho, durante os primeiros meses do ano. Ocupava-me mais dele e dos seus inimigos, que em ensinar a diferença entre os modos indicativo e subjuntivo dos verbos. Um dia, numa gelada manhã de junho, quando cada aluno devia recitar uma quadrinha popular (“uma poesia qualquer, escolhida livremente por vocês”, disse-lhes na véspera, mais pessimista que nunca), Grilinho se dirigiu solenemente à frente da sala, na sua vez, e levou dois dedos à boca: começou a imitar, tranquilamente, não um grilo, mas o canto difícil do sabiá-laranjeira. Fiquei — com o perdão da palavra — estupefato. Não há outro adjetivo capaz de exprimir meu grande espanto, naquela hora. Parecia estar ouvindo, à minha frente, um sabiá verdadeiro, um triste e desconsolado sabiá que perdera a namorada para um sabiá mais esperto. No final, todos aplaudimos com inveja. Um colega sugeriu outra imitação: — Deixa ele imitar o canarinho-da-terra, professor. Grilinho olhou-me como mendigo que pede esmola. Com a imperturbabilidade do juiz atrás da toga, fiz que sim com a cabeça. E tivemos por alguns minutos o trinado barroco do canarinho-da-terra, com aplausos ainda mais calorosos no fim do número. Para encerrar o recital, coube-nos um sanhaço perfeito. Os sons eram emitidos com leveza, convidando para uma manhã mais pura que aquela, sem escolas e professores, anterior ao sistema público de ensino. Na semana seguinte, gravei em fita-cassete um disco do ornitólogo Dalgas Frisch, com cantos de boa parte da passarinhada nacional. Trouxe-a de presente ao Grilinho, com uma proposta: ele ensaiaria uma vez por semana um canto diferente de passarinho, e o mostraria à classe. Ele pegou a fita, contente, e fez uma contraproposta irrecusável: em vez de semanal, prepararia um show para cada final de aula. E o resto do ano foi com os cinco minutos finais das aulas dedicadas só ao Grilinho, que escrevia no quadro, quase ilegível, o nome do passarinho do dia e logo em seguida levava os dedos à boca para o início do espetáculo. Acabaram as andanças pela sala estapeando colegas, beliscando bunda de meninas. Nosso genial flautista, durante as aulas, era todo concentração, maravilhosamente preso à carteira, aguardando ansioso o momento de subir ao palco e arrasar com a platéia. Continuou péssimo aluno de gramática, mas passou com nove e meio, a maior nota da classe. A indignação foi geral. A campeã de análise sintática, uma bugrinha de cara enfezada que obteve nove, protestou com veemência. Grilinho não se fez de rogado: — Eu merecia dez. |