José Carlos Zamboni

 

 

 

 

O poblema da Fernanda

novela-ensaio

 

 

“...poesia, doença incurável e contagiosa.”

(Sobrinha de Dom Quixote)

 

 

 

 

 

 

 

 
 
 
 

 

 

 

1

 

Hildo não era mais criança quando foi procurado para dar uma palestra no IACANP, em Brodósqui, substituindo um prestigiado professor carioca que recebeu inoportuna visita do mosquito da dengue e não pôde viajar.

O convite partiu do amigo Pedro, que ali dava aulas de sociologia e fazia parte da comissão organizadora da VIII Semana de Artes e Literatura, SAL para os apressados.

Pedro, ultimamente, tinha uma obsessão: achava que o amigo bancário, depois de uns livrinhos de poesia publicados por conta própria, devia trocar os números pelas letras e investir na carreira acadêmica.

— Você já passou dos quarenta, Dim, e o Banco vai ser privatizado — disse-lhe, na última conversa telefônica, com a bela e insistente voz de Woody Allen. — A universidade é a mamata de que você precisa, com tempo de ler e escrever o que quiser. Mamata no bom sentido, obviamente. Não me entenda mal.

— Eu entendo muito bem, Pedrinho.

Pedro sempre foi boa gente, apesar das diferenças nas idéias. Eram amigos à antiga, amizade, amizade, idéias à parte.

— Banco não é lugar pra gente como nós, Dim. E a universidade precisa das suas luzes.

Hildo não se conteve.

— Pode rir. Eu não ligo — suspirou Pedro muito serenamente. — Você precisa começar o mestrado anteontem. Sem pós-graduação não se presta concurso.

A palestra, insistia ele, era um jeito privilegiado de apresentá-lo aos colegas da casa. Bastava caprichar um pouco na coisa, mostrar o que sabia de literatura (“Você põe no chinelo, tranqüilamente, aquele pessoal do departamento”) e logo sua via de aceso ao IACANP estaria pavimentada. Cuidasse da palestra, entrasse no mestrado e deixasse o resto com ele.

Hildo acabou agradecendo pelas luzes, embora já não acreditasse muito nos próprios quilowatts. Quanto à privatização do Banco, era a pior idéia que o mundo podia ter, mas estava disposto a recusar o convite e o brilhante futuro acadêmico que Pedro, milagrosamente, desentranharia de uma mísera palestra de afônico.

— Nunca fiz isso na vida — insistiu o bancário.

— Discrepo, nobre colega! Você não fez outra coisa, na vida, além de literatura. Nunca desceu do mundo das nuvens. Basta botar um paletó naquelas conversas informais e encarar a platéia.

— Tenho essa voz baixa que você conhece. Professor sem pulmão é centro-avante sem chute.

— Você chuta fraco, mas com efeito. Temos excelentes microfones. É só cuidar da pontaria.

— Não vê que estamos perdendo de dez a zero, Pedrinho? Falta um minuto pro fim do jogo.

— A gente perde a partida e ganha o campeonato. Vem pra cá, Dim.

Quanto ao SAL, Hildo sabia bem o que o esperava:

— Nunca tive simpatia pelo mundo acadêmico. Cinco anos, no Direito, foram um pé no saco. Me diga com honestidade: o que um curso de letras tem a ver com poesia? É o túmulo da literatura, você sabe disso.

— Há defuntos que ressuscitam. A literatura é muito maior que a universidade. E ninguém vai te obrigar a ser um acadêmico típico, pombas!, falando aquelas coisas marxistas e freudianas que você tanto detesta. Aliás, nem existe mais o acadêmico típico. O templo do saber virou oficina do conhecimento.

— Deixa de ser idiota, Pedrinho. Você sabe que o pessoal anda atrás de outras coisas...

— Tudo bem, jovem, tudo bem. Mas você ia ler e escrever à vontade! Imagina o que é ganhar um bom salário (que os coleguinhas do sindicato não me ouçam) pra ensinar o que você mais gosta: literatura. Uma teta enorme, miraculosa. Não é justo você ficar contando dinheiro sujo no Banco.

— O poeta Eliot na pensava assim. Mas falando sério, como adultos: é impossível caprichar numa palestra preparada em cima da hora.

O amigo deu um profundo suspiro.

— Sinto muito, Pedrinho. Não dá.

Foi então que Pedro botou a pelota no morrinho artilheiro, mirou o ângulo e chutou:

— A Bida mandou você aceitar, Dim. Disse que é uma ordem peremptória de sargento.

— Diga à sua esposinha que agradeço, mas...

— Mas coisíssima nenhuma.

Hildo não contava com aquele chute. Depois de enrolar mais um pouco na defensiva, suficiente para o amigo não ligar a vergonhosa rendição com a ordem de Bida, acabou entregando os pontos. Pedro ganhou. A bola entrou redonda no ângulo.

Para dissipar qualquer suspeita, encobriu a verdade com a própria verdade:

— Tudo bem, Pedrinho. Mas só porque Bida mandou.

 

 

 

 

 

 

2

 

Chamava-se Fernanda a professora que telefonou, na noite seguinte, para oficializar o convite:

— É desagradável convidar de última hora, mas foi o Pedrinho que nos animou. Fale sobre o que você quiser — disse-lhe com  voz neutra de quem não queria convencer. — Infelizmente, o cachê infelizmente é vergonhoso, só um pagamento simbólico. Pensa em um tema. Ligo amanhã pra saber.

Depressa notou  que a voz, do outro lado do fio, só cumpria uma obrigação profissional: tapar tão súbito e constrangedor buraco. Quem trabalha em banco conhece bem aquele tom neutro e distante, educadamente frio.

Não bastava o Banco? Havia uma maneira bem civilizada de recusar: perguntar se o professor carioca também receberia pagamento simbólico. A pergunta ficou coçando na garganta, mas se lembrou de Pedro e, sobretudo, da ordem peremptória de Bida. Então fez boca de siri. Achou que seria até bom desafiar aquela dicção frouxa, expondo-a pela primeira vez em público. Pedro levaria Bida para vê-lo e não convinha passar vexame.

Disse-lhe, também neutra e educadamente:

— Vou pensar num assunto, professora. Liga amanhã cedo, antes da nove.

 

 

 

 

 

 

3

 

Quando o telefone tocou de volta, no dia seguinte, sugeriu à professora do IACANP o tema de uma crônica escrita meses atrás, depois que leu alguns ensaios sobre Goethe.

Goethe era sempre um bom nome para impressionar os que jamais leriam Goethe. A crônica “Eu sou aquele que muda”, sobre dois poemas e duas mulheres na vida do poeta alemão, tinha saído empastelado na página de esportes da Voz da Mogiana.

Era um episódio da vida do poeta que servia como luva em sua própria vida. Interessou-se pelo assunto. Goethe, ainda jovem, enrabichou-se por Frederica Brion, filha de pastor protestante. Decidiu abandoná-la em nome de tudo o que, depois, ofereceria ao mundo ocidental.

Para justificar a canalhice, consolava-se filosoficamente: “Eu sou aquele que muda.” Não foi fácil esquecê-la. A vida passou e Goethe envelheceu. Um dia, já viúvo, estava no balneário de Mariembad e conheceu a moça Ulrica, por quem se sentiu atraído. Abriu o coração geriátrico e foi suavemente repelido.

O mesmo fez Hildo com Elzinha, há mais de vinte anos, para ficar livre do casamento e poder dedicar-se integralmente à tarefa de mudar a poesia brasileira contemporânea. Foi o que Maria Carolina fez com ele, quando voltou de São Paulo. Não é o que Bida faria, se conseguisse esquecer que era amigo de Pedro? Não era o que todas as jovens poderiam fazer com ele, obedientes à mais natural das leis?

Valorizando o serviço, não disse à professora que a palestra já estava escrita:

— São notas de leitura. Preciso botar ordem no material. 

Lembrou-se, logo em seguida, da “leproesia”:

— Tenho, também, um pequeno ensaio sobre poesia, “A lírica como modalidade de lepra”. Se o Goethe não servir...

A professora não quis saber do que se tratava. Goethe tinha servido. Goethe era um bom tema. Combinava mais com um simpósio de literatura, para cujo time principal Hildo já estava definitivamente escalado.

Como ficou sabendo, por Pedro, que Hildo não tinha carro, avisou que mandaria o motorista do diretor apanhá-lo em Canaviais.

— Às sete e meia. Tudo bem? Nossas palestras começam às oito e meia.

Professora Fernanda agradeceu laconicamente, desejou-lhe bom dia no banco (“essas ironias involuntárias”, pensou Hildo) e desligou.

 

 

 

 

 

 

4

 

Fazia muito calor naqueles dias. Ele tinha acabado de jogar “uma água fria no cadááááver” — como vivia dizendo um amigo taxista, Juquinha, imitando filme de terror — e deitou-se no velho sofá da sala para esperar o motorista da universidade.

Enquanto isso, releu o que tinha escrito sobre Goethe, impresso em três folhas de sulfite. Para continuar no clima goetheano e, ao mesmo tempo, aliviar o nervosismo, botou no velho Phillips a abertura Egmont, de Beethoven, com Karajan e a Filarmônica de Berlin.

Passava das sete quando tocou o telefone. Era a mesma professora Fernanda da véspera, avisando secamente que tinha havido um “pobleminha”: requisitado de última hora para outra missão, o motorista do diretor não poderia mais apanhá-lo em Canaviais.

Ficou um pouco frustrado, pois já estava se sentindo importante. Mas tinha lógica. Havia coisas mais sérias numa universidade que o leva-e-traz de literatos provincianos.

Para surpresa do literato, viria ela mesma:

— Como faço pra chegar até aí?

Não foi difícil explicar, nem ela demorou a aparecer. O velho Monza do Juquinha perdia feio para o Renault macio da professora, limpo, cheiroso, de quase inaudível motor.

Professora Fernanda não desceu do carro. Buzinou de leve, e lá se foi o improvisado palestrista, com um cigarro na boca e três folhas de sulfite mal dobradas no bolso da calça, a caminho de seu primeiro show acadêmico.

A professora disse um discreto boa noite e virou-se para destravar a outra porta. Hildo entrou, estendendo a mão para cumprimentá-la. Ela recusou a mão e aproximou o rosto para o beijinho social. Tanto melhor. Não era feia, apesar do rosto duro como pedra e do “pobleminha”. Branquela como a avó Elisa e a ex-mulher Elzinha, era menor que esta, mais alta que aquela. Tinha cabelos claros e lisos, escorrendo um pouco abaixo dos ombros.

— Interessante a casa — comentou sem virar-se, numa voz fria e distante. — Deve ser relíquia de família.

Parecia uma estátua no volante.

— É uma das últimas da velha Canaviais — informei.  — Foi de uma família de leprosos, há muito tempo.

A estátua de gelo virou-se, arregalou os olhos. Hildo esperava um sorriso e algumas perguntas. Mas ela não sorriu nem perguntou nada.

— Comprei na pechincha, quando voltei de São Paulo. A doença e o lugar afastado ajudaram a desvalorizar o imóvel.

— Vem daí sua segunda proposta pro SAL? — Fernanda lembrou-se. — A lepra da poesia...

— Pois é — disse ele. — De algum modo, acabei contaminado.

E começou a falar o que pensava de literatura. Por influência da casa, acabou tomado pela idéia de lepra, até francamente admitir a poesia como uma modalidade perigosa dessa doença. Era a sua leproética, que o ajudou a compreender porque o mundo sempre se defendeu tanto dos poetas e da poesia.

Ela ouviu em silêncio e nada mais perguntou sobre a casa, a leproética e o leproeta. Devia pensar, isso sim, que levava um doido no banco vizinho. Parecia um pouco assustada e, apesar do calor, a temperatura desceu abaixo de zero no carro, com Hildo imaginando os longos dez minutos que separariam Canaviais e Brodósqui.

Ele sempre fazia o possível para manter-se na condição de doido manso: o pouco de sanidade mental que lhe restava era suficiente para garantir certa privacidade na loucura, pois entendia que os outros não deviam pagar pela sandice da gente. Pelo menos era assim que procurava viver, o que nem conseguia.

Preocupava-o, porém, o que os outros pensavam dele. Olhou disfarçado a bela estátua agarrada ao volante. O que podia esperar dele uma professora universitária, dessas que redigem teses enormes e publicam artigos complicados em revistas que só elas lêem, quando lêem? Não passava de um bancário metido a poeta, provável candidato a sumário pé-na-bunda dos novos banqueiros.

O silêncio tem suas virtudes. Hildo aproveitou-o para pensar na redonda burrice que estava cometendo. Quando ainda morava em São Paulo, nos quase vinte anos em que lá ficou, jurou que a universidade era a última porta do mundo em que bateria para esmolar um pedaço de pão. A vocação para a desordem sempre o impediu ter boa impressão do ambiente acadêmico, primeiro como péssimo aluno de Direito, depois nas poucas vezes em que foi ouvir palestras na USP ou na PUC. Como dizia um poeta paulistano, concretista que depois voltou ao soneto:

— É lixo de luxo, meu amigo. Estou longe desse ambiente “universotário”.

No capítulo seguinte da vida, o poeta paulistano não resistiu e doutorou-se. Quem resistia ao canto mavioso e regular dos holerites? A última vez que soube dele, era chefe de departamento de universidade pública em Mato Grosso do Sul. Já deve estar a caminho da reitoria.

Agora entende melhor o ex-concretista. O que as circunstâncias não mudam, sobretudo as femininas, com essas “ordens peremptórias” que não deixam margem para apelação?

Durante o telefonema de Pedro, estava disposto a recusar o convite do amigo: jamais faria carreira acadêmica. Bastou no entanto o amigo falar em Bida, e a cabeça de baixo contradisse com furiosa veemência os argumentos de cima. Mudou rapidamente de idéia. A palestra, intransponível muralha chinesa, seria agora a mais tranqüila travessia do Mar Vermelho, com todos os soldados do faraó devidamente afogados na Hora H do Dia D.

Os homens sempre foram capazes das maiores canalhices para dormir com a mulher vetada. A boa e a má literatura estão aí para comprovar que uma esperança de calcinha arriada fez mais milagres que Cristo na Galiléia. Por ela, já não descartava a hipótese de cursar mestrado e doutorado, participar do próximo concurso para seleção de professores, publicar artigos ilegíveis em pasquins acadêmicos, freqüentar soporíferos congressos de literatura.

Além do quê, as mulheres proibidas têm sempre mais razão que as outras, pelo menos até o fim da primeira noite. A palestra de Bida, quem sabe, poderia ser o pontapé inicial de uma brilhante carreira “universotária”, agora que o Banco ia ser privatizado e ele podia ser jogado no lixo sem luxo do desemprego.

 Quem sabe?

 

 

 

 

 

 

5

 

Antes de Brodósqui surgir à direita da rodovia, Hildo arriscou um assunto:

— Foi difícil achar o endereço, professora?

— Até que não — respondeu ela.

E nada mais disse. Ficaram mais alguns quilômetros em silêncio.

— Que calor brutal, hem? — ela se voltou, inesperadamente, franzindo a testa.

— Deve ser o dia mais quente do ano — ele animou-se, usando o tom mais cordial que podia.

“A seu lado, não há calor que resista”, era o que ele gostaria de dizer. Companhia ideal para verões como esse.

— Talvez não seja a noite mais adequada pra falar de literatura. Nem ouvir — Hildo tentou um gracejo. — Tenho pena das meninas do IACANP.

— Seremos valentes. Pode acreditar — disse Fernanda sem virar o rosto. 

Disseram mais duas ou três amenidades. Foi quando ele percebeu o tom quase adolescente da voz da professora. Depois, lá à sua maneira, ela pediu perdão:

— Sabe que nem tive tempo de abrir seus livros? O Pedrinho deixou eles no departamento, mas estamos numa correria só.

— Não perdeu nada — devolveu-lhe com a maior insinceridade, embora já plenamente convicto de que a poesia brasileira contemporânea jamais dependeria de sua insignificante leproética.

Ela ameaçou sorrir:

— Mas improvisamos uma banca em frente ao Salão de Atos. Os livros vão estar lá, pro pessoal folhear. Depois, vão fazer parte do acervo da biblioteca.

— Fico bastante honrado.

— E você teve tempo de jantar? — mudou logo de assunto.

Explicou que não, pois quando ansioso perdia completamente a fome. Só não lhe disse que, de estômago vazio, corria o risco de sofrer dor de cabeça, e aí a palestra podia acabar bem antes do tempo combinado, para decepção dos que pareciam acreditar nele.

Só agora, já entrando em Brodósqui, avisou-lhe que devia passar rapidinho em casa:

— Me falaram do motorista em cima da hora.

— Coisas nossas, como diria o Noel Rosa.

Fernanda não deu a menor bola ao Noel Rosa. Estava mais interessada em justificar o pequeno desvio de rota:

— Saí correndo e deixei meus óculos no quarto. Sempre os esqueço nalgum lugar. O “poblema” é que, sem eles, parece que estou sem roupa — disse com perfeita indiferença, sem a menor “poblematicidade” na entonação.

Hildo olhou discretamente a blusa cinza, a calça preta, a sandália pressionando o acelerador: imaginou a nudez alpina e sem óculos da professora Fernanda. Uma professorinha esculpida em bloco de gelo: uma bela e álgida nudez, certamente. Uma pelada tipo clássico. O diabo era aquele “poblema”, que soava como uma espécie de mau hálito sonoro.

Antes do carro sair da pista, avistou do outro lado da rodovia o ex-seminário de Brodósqui, que agora funcionava como instituto superior de artes. Com frio na barriga, percebeu que não tinha mesmo como escapar: em breve, estaria diante de uma platéia acadêmica, procurando caprichar naquela linguagem intelectual que tanto detestava.

Pediu para acender um cigarro. Foi quando notou que não estava só um pouquinho ansioso: tragava o cigarro com força, torcendo para tudo terminar o mais depressa possível e ele dar o fora do IACANP, longe do alcance dessa gente que agora ameaçava sua própria segurança pessoal. Ficou, repentinamente, com uma grande raiva de Bida, responsável direta por aquela palhaçada que ia acontecer em sua vida: o bancário Hildo Rielli dando uma palestra em salão nobre de universidade. Era o que lhe faltava.

 

 

 

 

 

 

6

 

Fernanda dividia a casa com professora Cláudia, das Artes Plásticas, que estava em plena atividade criadora quando entraram — e a quem Hildo foi sumariamente apresentado, à distância, como poeta Rielli. A artista balbuciou o olá mais indiferente do planeta e continuou cuidando de sua tela.

Cláudia estava dentro de uma camiseta larga e uma calça de algodão leve, estampado com folhas secas de outono, em que caberiam pelo menos duas razoáveis Cláudias. Não era nem alta nem cheia, mas tinha cabelos curtos à homem e uns olhos tão enfezados que bastavam para impor respeito a recém conhecidos.

Havia mais gente na sala, um jovem e uma jovem no sofá trajados como indigentes. Ele era um mulatinho delicado, de cabeça raspada, brinco de pirata numa das orelhas. A moça, alta e magra, estava nua da cintura para cima, os seios pequenos cobertos pela longa cabeleira.

— O Rô e a Vi, alunos do IACANP — apontou-os Fernanda.

Cumprimentou-os, eles acenaram discretamente. Não foi difícil entender o que se passava na sala: uma pintora lutava valentemente com seus modelos.

Fernanda propôs, gentilmente, um chá de artemísia com gelo e torradinhas macrobióticas:

— Estou preocupada com você não ter comido nada em Canaviais — disse-lhe imprevistamente amável e com alguma ênfase, bem diferente da geladeira anterior.

Hildo aceitou e ela saiu para a cozinha. A grande sala era quase tudo ao mesmo tempo: copa, escritório, ateliê de pintura, sala de som e tevê, com três sofás, uma espreguiçadeira, estantes com livros e discos, alguns quadros na parede. Ao fundo, havia um pequeno banheiro entreaberto, defendido por um biombo de vime.

Numa tela de metro e meio quadrado, Cláudia projetava o embrião da futura obra: alguns rabiscos entrelaçados, como fios de cabelo esquecidos numa toalha branca, que já sugeriam duas figuras abraçadas. Hildo olhou para o esboço, olhou para o casal de jovens no sofá e admitiu que seria bem mais interessante continuar observando aquela curiosa gestação, que perder tempo em falar de literatura para um público extremamente distraído com o final do século XX.

— Rô, meu querido, larga esse cigarro e abraça um pouquinho mais a Vi. Você anda tão apático! — disse a artista com um leve sotaque nordestino.

Rô, o moço delicado, deixou o cigarro de maconha na mesinha e abraçou um pouquinho mais a Vi. Vi, a moça da vasta cabeleira, fingiu um longo suspiro apaixonado. Cláudia aprovou-os como um sargento aprovaria a tropa:

— Bravos!

Vieram depressa o chá e as torradinhas, que Fernanda serviu só para ele na xícara e no prato de porcelana. Depois, sempre afável, pediu licença:

— Volto num instantinho. Fica à vontade — e desapareceu outra vez no corredor.

Hildo bebeu o chá e mastigou as etéreas torradinhas macrobióticas. Rô ofereceu-lhe educadamente o baseado. Desde Adélia, a distante amiga paulistana, que não cheirava aquela fumacinha ordinária, que lhe provocava náuseas ou dor de cabeça, mas, envergonhado de ser tão caipira entre gente moderna, acabou aceitando.

O casal esforçava-se por ficar quieto.

— Assim não, meus bens. Mais juntinhos. A careca no ombro dela, Rô — Cláudia corrigiu-os de longe. — O rosto da Vi mais levantado, com o pescoço aparecendo bem.

Apreciando a singeleza da cena, fingia que tragava a ervinha abominável. Continuou sentado na cadeira de vime, vendo aquela enorme mulher traçar mais algumas linhas na tela. Tinha um lápis na boca e outro na mão. De vez em quando, trocava-os de lugar.

Hildo acabou se levantando, foi até o vitrô e abriu uma pequena brecha, na cortina, para olhar a pracinha de Brodósqui sob as luzes recém acesas. Algumas crianças corriam e gritavam. Um velho cochilava no banco. Uma jovem mãe conduzia com orgulho o carrinho de bebê.

Sem saber se a pintora aprovaria ou não, contornou discretamente a sala e chegou mais perto da tela. Pôde ver que os traços não estavam tão informes como supunha: já indicavam um casal abraçado. Com um pouco mais de atenção, via-se uma figura maior, baseada em Vi, ao lado de outra menor, de cabeça apoiada em seu ombro, que seria o Rô. A feminina, com a nudez e os seios, apresentava mais aspectos masculinos que a segunda, apesar do cabelo e a camisa de homem.

— Cláudia, você não vai botar seios em mim, vai? — Rô perguntou rindo.

— Um belo e fogoso par de seios, Rô. 

Vi sorriu sem mexer-se.

— Até que daria uma figura bem grotesca — Cláudia ameaçou rir, trocou um lápis por outro.

Vi pediu o baseado a Hildo. Levou-o de bom grado. Ela puxou uma tragada forte e soltou-a, virando o rosto para o lado.

— Agora não, Vi. Você perde a concentração, pombas! — ordenou a pintora, condenando Hildo com os olhos. — Me dá aqui esse guimba.

Fingindo mais furiosa do que estava, veio e pegou o cigarro de maconha das mãos da jovem, tragou-o bem forte antes de deixá-lo sobre a caixa de fósforos. Seguindo as instruções seguintes de Cláudia, Rô colou o rosto ao ombro da Vi. Depois, suas mãos abraçaram as costas lisas da Vi. Ela ergueu a cabeça — e o pescoço apareceu fino como um junco, do jeito que a artista queria.

Hildo sentou-se de novo na cadeira de vime, tentou repassar mentalmente o texto que leria daí a pouco, no Salão Nobre. Temia que, de repente, naquele salão cheio de olhos, olhos abertos, ele fosse parar no meio da fala cada vez mais baixa e sentir-se de repente sem o que dizer, enquanto a platéia ficasse esperando, impaciente, que ele retomasse o fio da meada.

— Vamos logo com isso, que o Rô já está de pau duro, Cláudia! — a modelo falou rindo, começando a sacudir-se de leve.

— Deus me livre — desdenhou Rô.

— Que saco! Parem de se mexer! — Cláudia berrou.

— Que jeito, Claudinha? O pau do Rô ficou duro. Olha ali, ó.

— Fofoca dela, Clau — disse o Rô. — Amizade, amizade, negócios à parte.

— Assim não dá — Cláudia tirou os lápis da boca e da mão. — Por hoje chega. Podem desgrudar.

Rô separou-se alegrinho da Vi, quase pedindo desculpas por também sofrer, esporadicamente, de ereção provocado por mulheres, e foi deitar-se exausto no pequeno sofá de palhinha.

Hildo acendeu um cigarro inocente, sem cannabis. A pintora abriu a torneira do banheiro e começou a lavar as mãos:

— Sinceramente, não sei pra que Deus inventou esse troço chamado pinto — riu. — Além de coisa supérflua, é anti-estética e nojenta. Se fosse você, Rô, mandava cortar.

Rô nem ligou. A Vi, que achou muita graça, vestiu a camiseta com a sigla da faculdade: IACANP. Antes que Hildo pensasse em esboçar uma defesa daquela coisa supérflua, anti-estética e nojenta — que tanta dor de cabeça já lhe dera —, Fernanda apareceu na porta do corredor. Além dos óculos esquecidos, aproveitou para trocar a blusa cinza e a  calça preta por um vestido também cinzento. Os tamanquinhos pretos substituíram os sapatos. Era o calor, pensou Hildo. Até as estátuas de gelo sentem calor.

— Vamos? — olhou distraída para Hildo. — Estamos quase em cima da hora. Que foi que a Vi está rindo tanto?

— Essa Vi...  — disse o Rô.

Fê interrogou-a com a cabeça.

— O Rô ficou de pau duro — Cláudia explicou, enxugando as mãos com raiva. — Me desculpa, Reale, mas os homens são uns porcos. Sem exceção. Querendo ou não, Rô, você também é um homem.

Fernanda sorriu:

— Não é Reale, Clau. É Rielli.

Cláudia olhou-os com desprezo, como se não valesse a pena pedir desculpas.

— O vestido ficou muito bem em você — ele arriscou enquanto iam pela calçada.

— Obrigada — disse secamente Fernanda, retomando o estilo geladeira.

— Sua colega pintora parece não gostar muito de poetas.

Demorou um pouco, antes de responder: o tempo de entrar no carro e abrir-lhe a porta.

— É o jeito dela — disse-lhe, acomodando pudicamente o vestido no banco, mas como se tivesse esquecido de algo. — Só um minutinho. Já volto.

Abriu a porta e desceu do carro. Hildo ligou o rádio, passou pelas FM de Ribeirão. Em todas, sem exceção, o lixo sonoro de sempre. Atrás do jardim da casa, via a sala quase escura, fracamente iluminada pela luz da tevê. Pareceu-lhe ter escutado um começo de discussão, e em seguida Fernanda abriu a porta de casa (ele desligou o rádio) e fechou-a. Veio depressa pela calçada — os saltos do sapato fazendo toc-toc.

Sentou-se no banco, sem ligar muito para o vestido desobediente. Vendo-a assim, Hildo até se esquecia do “poblema” (sabia, por Pedro, que era um milagre cada vez mais raro mulher bonita interessar-se por carreira universitária).

O carro contornou em silêncio a pracinha, passaram em silêncio por duas ou três ruas largas de Brodósqui. Hildo, de rabo de olho, via aquela estátua serenamente imóvel, grudada ao volante, sempre mirando em frente. Nada mais falaram até o IACANP, pois Fernanda trancou-se mesmo num belo silêncio cor de cinza — e perdeu a chave.

 

 

 

 

 

 

7

 

Quando olhou para a platéia, Hildo estremeceu. Mãe do céu, não devia ter assumido esse compromisso! Já que não tinha outra saída, prometeu a si mesmo que jamais olharia para o público, na maioria feminino, cheio de risinhos cheirosos e cabelos baloiçantes, lotando o colorido Salão de Atos do IACANP (decisão tomada, sobretudo, depois que notou as pernas de Fernanda, na primeira fila, generosamente cruzadas e expostas).

Tirou do bolso da calça a crônica “Eu sou aquele que muda”, impressa com tipo vinte e dois, para facilitar a leitura. As folhas de sulfite estavam um pouco amarrotadas. Desdobrou-as timidamente sobre a comprida e brilhante mesa de mogno, que já serviu a muita gente sabida e falastrona.

Acabou desobedecendo aos planos iniciais: movido pela vontade de aparentar domínio do assunto, decidiu que, em vez de ler, parafrasearia o próprio texto. Saiu uma tosca imitação de si mesmo, da crônica inutilmente estendida à sua frente. Como a trazia inteira na memória, não inclinou os olhos nem uma vez para a folha, nem para retomar o fio da meada depois das várias digressões.

Começou dizendo que Goethe tinha feito de tudo nesse mundo: literatura, filosofia, ciência. Foi advogado, ocupou cargos públicos. Sabia fazer um poema, explicar a morfologia das plantas, escrever uma  novela e, de quebra, modificar a teoria das cores. Tinha boa aparência, sensibilidade, inteligência. Teve glória e teve dinheiro. Foi, enfim, um intelectual bem sucedido, na medida certa para virar ídolo de poetas provincianos e deixar o justo Pai orgulhoso da própria criação.

Esse homem vitorioso tinha sido, sobretudo, um grande amante das filhas dos outros homens. Um hábil caçador de sereias. Hildo acreditava que todas as coisas sérias que aquele gênio alemão tinha feito, no mundo, fossem mero passatempo entre as sereias que capturou. Ou tomada de fôlego entre a sereia anterior e a seguinte.

Talvez a primeira mulher importante na vida de Goethe tenha sido Frederica Brion, filha de pastor protestante. Percebendo que essa brincadeira com o fogo poderia chamuscá-lo e convertê-lo num burguês obesamente feliz, decidiu cortar o mal pela base: abandonou-a no vale das lágrimas. Para justificar a canalhice, desculpou-se com o irrefutável Heráclito:

— Eu sou aquele que muda.

Depois de desviar alguns minutos com o pré-socrático, e citar do pensador grego algumas sentenças famosas, Hildo voltou a Frederica, que Goethe não conseguia esquecer tão facilmente como imaginava: a filha do pastor já fazia parte de sua corrente sanguínea.

Que fez, então? Tratou de elaborar uma agenda rigorosa para esquecer a jovem, entregando-se sobretudo aos esportes. Praticou espada. Patinou. Cavalgou. Escalou montanhas a pé. Agenda perfeitamente compatível com os vinte e um anos que tinha então.

Depois de uma difícil negociação com Eros, intermediada serenamente por Logos, conseguiu esquecê-la. Contudo Frederica, página virada, foi somente o prefácio de um livro com muitas páginas e muitas saias: Carlotas, Betinas, Cristinas, Marianas. Entre uma saia e outra, escrevia poemas, novelas, teatro, estudava as plantas e as cores, advogava, exercia cargos públicos — tudo distrações do grande sacana em recesso.

De saia em saia, o jovem Goethe envelheceu. Tinha setenta e três anos, e uma invejável experiência em colchões de casal, quando embeiçou-se pela moça Ulrica, talvez a última mulher importante em seu currículo. A mãe e a avó da garota mantinham uma pensão no balneário de Mariembad, onde o velho escritor costumava veranear.

Na verdade, conheceu Ulrica quando ela tinha dois aninhos de vida. É provável que não tenha partido daí a primeira flechada do Cupido, mas, em se tratando de Goethe, mais sensato é não afirmar nada. Todos sabemos que o maldoso arqueiro também opera com flechinhas mirins. Os biógrafos menos maliciosos juram que tudo começou quinze anos mais tarde, no ano de 1823, quando o velho de bengala reviu Ulrica recém saída da escola — fruta pendendo madurinha na árvore da vida, no ponto de ser colhida. Sentiu que, “por trás da cinza, havia muita lenha pra queimar”, como diria o sambista.

Saía para suas pesquisas mineralógicas nos arredores de Mariembad e, em vez de pedras para estudo, voltava com flores do campo para a menina. Ficaram amigos: era inevitável. Goethe, no entanto, percebia que começava a sentir por Ulrica algo diverso daquilo que, normalmente, pais sentem por filhas e avôs por netas.

Viúvo há sete anos de Cristina Vulpius, mais inclinado a passear pelos jardins cheirosos de Epicuro que nos claustros bolorentos do estoicismo, Goethe resolveu pedir a mão da suave Ulrica. Formalizou o pedido e levou um formidável pé na bunda.

Toda a platéia do IACANP riu.

— Estou exagerando — corrigiu Hildo. — Deve ter sido um delicado pezinho na bunda, pois ninguém era mais terno, nesse mundo brutal infestado de brutos, que a ex-garotinha de Mariembad, descendente de aristocratas que tinham perdido tudo, menos a noblesse.

E o velho Goethe, com o coração estraçalhado, retornou a Weimar. Impossibilitado de executar aquela agenda esportiva da juventude (subir montanha, cavalgar, empunhar espada etc.), decidiu esquecê-la de modo mais conveniente a um poeta na terceira idade: escrevendo uma elegia. Na viagem de volta, entre sacolejos do coche e pausas para olhar a austera paisagem alemã, fez um dos seus melhores poemas. Era a “Elegia de Mariembad”.

O poema começava com renúncia. Goethe reconhecia não ter mais fôlego para as tarefas domésticas de Eros. Mas imprevisivelmente — ‘Eu sou aquele que muda’ —, abandonava o tom lamuriento de elegia e mandava os versos soltarem foguetes à vida, terminando como hino surpreendente a essa mesma vida, que seus dentes moles já não podiam morder com a avidez de antes. Sem ressentimento, mandava gozar quem fosse jovem. Para comprovar o que ia dizendo, Hildo lia trechos da tradução do poema. Nas passagens mais exaltadas, tirava o pé do acelerador e lia sem ênfase.

Tratou logo de apressar o final da palestra. Goethe recusou Frederica e depois foi repelido por Ulrica. Entre a primeira e a última sereia, colheu muitas frutas da árvore verde da vida, numa procura obstinada da mulher que não envelhece.

Hildo podia ter encerrado a palestra nesse ponto, se fosse mais esperto e considerasse que as pernas de Fernanda, exibidas o tempo todo, podia ter um significado especial.

 

 

 

 

 

 

8

 

A vida é assim mesmo: a gente pensa uma coisa e faz outra. Ele foi o primeiro a admitir que não devia ter feito o que fez, no último minuto do show, desastroso momento em que fugiu do seu “texto” e do seu objeto para provocar a educada platéia — tática dos mais tímidos para aparentar segurança, embora tivesse anteriormente jurado de pés juntos que, em hipótese alguma, perderia tempo com essas bobagens.

Perdeu. Aproveitando o interesse de Goethe pelas ciências, que em nada afetou o seu convívio com as artes, fechou a palestra com dispensável chave de ouro: falou das inúmeras vítimas que a psicanálise, o marxismo e o estruturalismo tinham feito na universidade brasileira, nas três últimas décadas, sepultando o velho e sempre saudável impressionismo.

Um súbito sentimento de culpa o fez virar o rosto, automaticamente, para o benfeitor Pedro e a anfitriã Fernanda, sentados na primeira fila de poltronas.

Pedro coçou a calva insinuante e apertou os lábios, naquele seu tique muito comum de reprovação complacente. Fernanda também não gostou, ela que, não muito longe de Pedro e ao lado do professor bigodudo, tinha lhe mostrado generosamente, durante toda a palestra, o belo e alvo par de coxas — pudim guardado em geladeira meio  aberta —, as mais belas pernas estruturalistas da universidade brasileira, revezadamente cruzadas e expostas, principalmente a direita.

Por mais tenso que estivesse, e por menos que olhasse fixo em direção ao público, Hildo não podia deixar de perceber a gentileza da jovem doutora, que durou até o penúltimo minuto, quando se viu entre as vítimas da “praga estruturalista”. Então, muito compreensivelmente, Fernanda descruzou as pernas e compôs-se, voltando a sentar-se como professora, discretamente elegante no sóbrio vestido cinzento.

Tarefa cumprida, Hildo agradeceu e, com certo nojo, afastou da boca o microfone. Todos aplaudiram, mesmo os que se sentiram um pouco incomodados com a provocação do palestrista. Bida, para constrangimento do marido, aplaudiu mais que todos. Cinturada como um bombom, sorriu-lhe o tempo todo, estimulando-o a continuar falando aquelas coisas difíceis que, no final das contas, pouco compreendia.

As coisas difíceis foram ditas quase sem gestos, travado que estava como Dom Quixote na velha e enferrujada armadura. Hildo falou muito baixo, bem mais do que temia, mas o microfone, regulado com competência pelo solícito funcionário da seção de audio-visual, garantiu que todos, no Salão de Atos, ouvissem perfeitamente suas idéias.

A comissão organizadora da SAL também era competente:  fez chegar às meninas e professores uma cópia, em xérox, dos poemas de Goethe mencionados por Hildo: fragmentos da citada elegia e o pequeno poema “A Frederica Brion”, em tradução de Cristiano Martins.

O espetáculo durou bem menos que os sessenta minutos previstos. Pela dificuldade de manejar em público o comentário e a digressão, os tímidos ficam obrigatoriamente concisos. Foi o que aconteceu com ele. Sob a entonação apagada, mesmo sem olhar para o papel, as frases saíram contidas, com a condensação que não conseguiria atingir se as cordas vocais emitissem arpejos suaves no lugar de tossidinhas nervosas, provocadas sobretudo pelas pernas de Fernanda. O que seria até uma vantagem, se as palestras não tivessem mais em comum com o teatro que com a ciência, e Hildo não fosse um péssimo ator.

E então o professor bigodudo, cujo nome ainda desconhecia, saiu sem pressa de seu lugar, ao lado de Fernanda, e procurou solenemente o microfone, que o mesmo funcionário competente tinha instalado perto do público.

Lamentando a ausência do excelentíssimo diretor do campus, Prof. Dr. Rubens Bratteschi, que andava em terras chinesas para um simpósio de literatura e semiótica, agradeceu a franca disposição de Hildo em colaborar com a SAL. Depois agradeceu a todos os presentes, agradeceu a comissão organizadora daquele bem sucedido ciclo de palestras sobre literatura e artes. Finalmente, depois de abrir a sessão de perguntas e debates, voltou serenamente ao seu lugar, na primeira fila, ao lado de Fernanda com o vestido bem composto.

 

 

 

 

 

 

9

 

Como ninguém se atrevesse a perguntar ou debater — as meninas estavam ali por suave pressão dos mestres —, a doutora das pernas gentis achou-se no dever de falar alguma coisa, “fazer uma colocação”, como se dizia nos meios acadêmicos, embora aquela inesperada sessão de debates fosse sacanagem da grossa, pensou Hildo, pois Fernanda não o mencionou no telefonema nem constava no “folder” (que na época de Hildo estudante já atendeu pelo modesto nome de “folheto”), aberto à sua frente junto com os sulfites do Goethe.

Mas tudo bem. Devia fazer parte do ritual.

Fernanda levantou-se calmamente da poltrona e foi ao microfone. Ajeitou-o, ajeitou discretamente os cabelos e mirou bem mirado o alvo Rielli, sempre escondido por trás da mesa de mogno. Estava ainda mais séria que antes, testa franzida, a barra do vestido escondendo pudicamente os joelhos.

Depois de elogiar a palestra — “a velha assoprada antes da mordida”, sabia Hildo —, lembrou-se da provocação anterior:

— Entretanto, em certo ponto da sua palestra você se referiu às vítimas, “inúmeras vítimas”, palavras suas — e imitou as aspas com leve flexão dos indicadores —, que o estruturalismo teria feito na universidade brasileira.

Ele já esperava por aquilo, depois de feri-la nalgum ponto secreto do gelo. E era justo: a professora não queria ser incluída entre vítimas e chamava-o para a rinha. Admitiu que “inúmeras vítimas” tinha sido um pouco exagerado. Por que não só algumas, duas ou três, pequena exceção à regra? Fosse mais esperto, teria feito boca de siri, pois já sabia qual era a grife metodológica da moça. Nada tem a ganhar um homem solitário quando maltrata mulheres generosas.

— Acha mesmo justo chamar de “vítimas” — continuou ela, carregando na última palavra — os que tentam dar um estatuto mais científico aos estudos literários? Gostaria que você se estendesse mais sobre este tópico.

“Estatuto científico” era sublime, mas preferia estender-se sobre outros tópicos, os que tão gentilmente ela exibiu da primeira fila de poltronas. Era o que gostaria de dizer, se as melhores idéias não corressem sempre o risco de ser mal compreendidas.

Felizmente, ainda havia tempo para redimir-se, bastando escolher uma das saídas que tinha à frente. De preferência, pedir perdão em público pela chacina estruturalista, “não quis dizer bem isso, etc.”, o que era também uma forma de agradecer o presentinho que ganhou durante todo o Goethe. Achava absurdo perder coisas concretas e tangíveis na defesa de idéias impalpáveis. Por que trocar uma coxa quase à mão, por alguns pássaros abstratos no céu da teoria?

A outra saída, pouco recomendada para os que gostam de pernas bonitas, era ser honesto e falar o que pensava. No início até hesitou, pois gostava realmente de pernas bem feitas, mas acabou afirmando que não tinha muito a acrescentar ao que já dissera: com as exceções de praxe, muita gente surfou na prancha do estruturalismo. O mar da literatura é feroz e a prancha virou, levando muita gente bem intencionada para o fundo, depois de submeter as obras literárias, mecânica e levianamente, a alguns conceitos mal arrancados da lingüística, como se o pessoal tivesse descoberto a galinha dos ovos de ouro da crítica.

— As outras opções, o inconsciente do doutor Freud e as contradições sociais do camarada Marx, eram mais imaginativas — disse com algum cinismo.

Fernanda não se alterava, mas devia estar com vontade de trucidar o sujeito que tão gentilmente buscara em casa e para quem exibira, com rigor calculadamente metodológico, as belas e alvas pernas.

Hildo, sem condições de respeitar as plaquetas de “Não fume” espalhadas pelo salão, acendeu sem pressa um cigarro, enquanto organizava o final da resposta. Por fim arrematou, em grande estilo, afirmando que, na verdade, encontraram “mais ovo choco do que ouro”.

Era o que tinha mais à mão para defender-se, depois de conseguir, com um magnífico e civilizado esforço, sufocar a palavra “merda”, que sempre lhe ocorria quando pensava em estruturalismo, semiótica, desconstrucionismo e outras coisitas do gênero.

As meninas gostaram do ovo choco. Ouviu risos na platéia, a mulher de Pedro riu mais alto que todos, sempre envergonhando o marido, ex-bom samaritano já arrependido da caridade e que, àquela altura, fuzilava-o com os olhos, remexendo-se inquieto na poltrona.

A cada nova graça que dizia, mais risos escutava na platéia, reconhecendo sempre a risada luminosa de Bida, o que deixava o bufão ainda mais cheio de vento. Continuava soltando fumaça e idéias brilhantes pela boca, como se estivesse no bar da esquina jogando conversa fora com amigos. Parecia que, contra sua vontade, a coisa ia render.

Estava perto de convencer-se, finalmente, de uma verdade que sempre relutou em admitir: o circo era a saída honrosa para a crise do poeta leproso que, se não conseguia mudar a poesia brasileira contemporânea, tinha tudo para colaborar “no processo de mudança” pelo qual passava a universidade, até assumir definitivamente a condição de grande shopping das profissões. Era inevitável aquele caminho.

“Se demitido pelo Banco, podia fazer carreira no grande circo do IACANP. Pelo menos se as contratações dependessem do voto dessas alunas risonhas”, pensava enquanto o auditório voltava ao difícil estado de equilíbrio anterior. Ainda não dependia delas. “Mas chegaremos lá, em breve. É uma questão de tempo. O assembleísmo da bases é que decidirá o futuro da humanidade.”

Por enquanto, as contratações dependiam do aval de gente como Pedro e Fernanda, que ainda acreditavam na sisudez das “colocações”. Nada contra universidades sisudas, oxfordianas (o ideal de ensino superior, para Hildo, não era o da garotada alegre de 1968),  desde que à seriedade aparente correspondesse a outra.

Talvez fosse aquela a principal virtude das academias, decadentes ou não: controlar a paixão com água fria do método. Jamais haveria vagas para cabotinos naquele lugar.

Além disso, já lamentava o rumo que a discussão tinha tomado. Não era difícil entender porque um sujeito como Hildo não estivesse muito à vontade naquele papel, apesar de compreensível nos tolos e nos tímidos. Mais de uma vez teve vontade de parar, agradecer, dar solenemente o fora, sobretudo quando o gracejo errava o alvo e não atingia as meninas.

Talvez ainda houvesse tempo para recuar e redimir-se. “Por que continuar maltratando a proprietária das coxas, seu idiota?”, censurava-se, sinceramente arrependido. Jurou que só ia falar sério dali em diante, terminando com ponderada gravidade a sua participação na SAL.

Afastou-se um pouco do mogno, com um braço apoiado à mesa e o outro na perna recuada — atitude defensiva, comprovada na experiência, que o protege da incontrolável correnteza emocional. Interrompia o argumento, puxava mais uma tragada do cigarro, completava o raciocínio.

“Vou erguer o nível do debate”, prometeu-se.

Por mais que tentasse, porém, não conseguia aplicar o método Fernanda. Já não podia recuperar o poder sobre a língua. Como manter-se sereno e equilibrado por mais de um minuto? E o falso cético da vara curta continuava cutucando a onça. Sabia que era impossível parar, pelo menos até o pregador dizer mais duas ou três “verdades”.

Fernanda permanecia de pé, diante do microfone. Queria mais briga, pensou ele. E pensou também que ela não ia voltar à poltrona antes de desmascarar o embusteiro, deixando-o indefeso e desabado sobre o esplendor da mesa de mogno. Tinha substituído o você pelo senhor e o tom da voz estava longe de ser gentil — como gentis tinham sido os tópicos de neve sobre os quais teria preferido estender-se.

Já sem nenhuma expectativa quanto aos tópicos de neve, Hildo continuou quebrando ovos chocos. Em certo momento, referiu-se à lamentável e grotesca a limitação do público acadêmico, pela facilidade com que o “gadão” arromba a cerca do vestibular e se instala nos currais da universidade. Seriam aqueles os futuros pesquisadores?

Dessa vez, ninguém riu. Não foi feliz na imagem pecuária. As meninas preferiam cores divertidas no rosto do palhaço, em vez das cinco pedras na estilingue de Davi. Fernanda fez que não ouviu e prosseguiu, serenamente objetiva, com outras perguntas “sérias”. Era inacreditável como a voz nunca se alterava, sempre fria e controlada, objetivamente verificável.

— Como você encara a responsabilidade política e social do poeta no mundo de hoje? — perguntou-lhe por fim.

Mais um puxão de orelha. De unha e no lóbulo, como só dona Laura Beatriz sabia fazer com perfeição. Hildo voltou ao indivíduo, à liberdade do artista, ao execrável impressionismo. Ousou defender o subjetivismo crítico.

— Sem vida subjetiva, a gente não teria saído das tribos, em direção à “polis”. Exijo que os mais elementares direitos políticos do leitor sejam respeitados...

— Impressionismo não é ciência — sorriu-lhe Fernanda. — Se há dúvidas até sobre a participação da subjetividade na produção das obras, o que dizer de sua recepção? Leitura não é palpite, mas ciência, com sua terminologia e seus propósitos.

Hildo respondeu que não via necessidade daquela enxurrada de termos esquisitos nas análises literárias, palavras que mais pareciam saídas de um dicionário de engenharia ou termos médicos — homodiegético, anisocronia, modelização secundária.

— Valei-me, nossa Senhora! — encerrou com a voz já cansada, só audível pelo esforço do microfone. — Com o perdão da “polis”, voltemos às palavras mais simples da tribo.

As meninas acharam graça da tribo. Mais risos para o palhaço. De certo modo, elas o viam como aliado, pois deviam sofrer horrores, nas salas de aula, com aquele maldito jargão. Para quem não queria nada, além de um discreto certificado de conclusão do curso, já era pedir muito. Mas os professores queriam mais: como as portas do IACANP estavam democraticamente abertas às garotas, era uma forma de compensação brincar de rigor técnico no ensino das letras e das artes.

Enfim, Fernanda cansou-se. Agradeceu-lhe laconicamente e foi sentar-se de novo na primeira fila, ao lado do professor bigodudo e delicado. Percebeu, talvez um pouco tarde, que discutia com cachorro doido e a única coisa sensata a fazer era distanciar-se da sarjeta.

“Essa não fala mais comigo”, pensou. “Vou voltar a pé para a Casa dos Leprosos, se o Pedro não fizer outra caridade”.

— Só lamento — continuou mais um pouco, para depois emudecer de vez — que nossa conversa tenha deixado o velho Goethe de banda e patinado em torno de uma insignificante questão de método.

O guerreiro, finalmente, depôs as armas, desligou o microfone e puxou uma tragada bem profunda no cigarro.

 

 

 

 

 

 

10

 

Passava das dez da noite. Mais que depressa, com medo de que alguém voltasse ao microfone ou o guerreiro empunhasse de novo a espada, o professor bigodudo soprou o apito e deu por encerrado o segundo tempo do jogo, enquanto Hildo formulava um trocadilho idiota e inevitável com o nome daquela semana, para em seguida zombar de Pedro.

Acompanhado de Bida, sempre espevitada e encantadora, foi ele quem veio até onde Hildo estava, trazendo junto o professor de voz delicada.

— Professor Stefano, de lingüística — apresentou-o secamente.

Professor Stefano apertou-lhe simpaticamente a mão e disse ter gostado da palestra sobre o “gênio” alemão, embora discordasse de algumas “colocações” posteriores.

— Sobretudo as pertinentes à minha área. O senhor foi um pouco severo com a lingüística.

Por sorte do palestrista, despediram-se logo.

— Adorei, Hildo! — disse-lhe Bida com um beijo. — Diverti pra caramba.

— Ah é? Não sabia que você gostava de circo.

— Não se menospreze.

Como sempre, ela estava irresistível. Gostaria de dizer-lhe: “Foi tudo culpa tua, mulher.” Pedro permanecia mudo e nem queria olhar para ele. Era justo: tinha acabado de cuspir na sopa que ele serviu, comportando-se como soldado adversário em casa tão gentilmente aberta. Hildo podia ter dito alguma coisa, o trocadilho já estava pronto: “Desculpa, Pedrinho, se carreguei um pouco mais no SAL”. Mas achou que era mais decente respeitá-lo e também se calou, envergonhado por tudo, inclusive por Bida (que, como sempre, não parava de falar).

A professora loira, a única ali que poderia salvá-lo do pecado mortal, tinha desaparecido. Já pensava que nunca mais a veria, quando reapareceu pelos fundos do salão nobre com dois pequenos envelopes na mão:

— Quase nos enforcamos em público. Espero que você não fique com ódio de mim — disse-lhe com o sorriso quase imperceptível, friamente amistosa, estendendo a mãozinha em sua direção para entregar-lhe os envelopes: — Aqui está um atestado de participação no evento e nosso pagamento simbólico.

 “A cordialidade é moeda barata. Gastemos à vontade”, pensou no aforismo schopenhaueriano. Hildo retribuiu o sorriso. Fora do ringue, voltaram rapidamente a ser os animais razoáveis de antes. Com aqueles envelopes na mão, sem conseguir esquecer as pernas que tão gentilmente lhe oferecera da poltrona, conseguiu produzir uma mentira gentil:

— Daria de bom gosto o pescoço, se você quisesse fazer isso comigo. Mereço a guilhotina, professora.

Ela preferiu não levar adiante a comparação e desviou o olhar para a dupla de amigos. Surpreendeu-se, porém, quando viu que continuava oferecendo-se: fazia questão de levá-lo de volta à Casa dos Leprosos, contra a enfática oferta de Pedro e Bida:

— Nem pensar, Pedrinho. Pode voltar tranqüilo pra Ribeirão. Eu devolvo nosso poeta à Casa dos Leprosos...

Ela tinha o direito de exercer toda a maldade do mundo. Pedro olhou-o com a complacência e a piedade de sempre. Bida, que ria de qualquer bobagem, por que não riria também da Casa dos Leprosos, que aliás já conhecia muito bem? E foi assim que ela se despediu dele: rindo como uma doida, puxando pela mão o maridinho zangado.

 

 

 

 

 

 

11

 

Hildo carregava um saco de remorsos. Tinha vontade de afastar-se, o mais depressa, de tudo o que lembrasse IACANP e o lamentável bate-boca de minutos atrás. Lado a lado, silenciosamente, os dois saíram do Instituto. Em silêncio entraram no carro. Ela botou a chave na partida, ligou o Renault.

— Você podia me deixar no ponto de ônibus, em vez de voltar comigo a Canaviais — mentiu.

— É o mínimo que podemos fazer por quem se dispôs tão gentilmente a colaborar com a SAL. Não é trabalho algum.

Ele sorriu constrangido. Fernanda voltou, de novo, àquele silêncio gélido de antes. A cada minuto, porém, ele esperava outra provocação da vizinha de banco, embora tivesse jurado a si mesmo que não cairia noutra esparrela. Em que pensaria a professora? Era preciso falar alguma coisa, durante os quinze minutos até Canaviais:

— Está há muito tempo no Instituto? — perguntou-lhe.

A resposta demorou a vir, como se voltasse de uma longa e telepática viagem.

— Quatro anos — disse sem se voltar, no tom neutro de sempre.

— Sempre na mesma matéria? Como é mesmo o nome?

— “Leitura e produção de texto”. Sempre na mesma disciplina — agora olhou-o, corrigindo-o. — E você, no Banco?

— Quase vinte.

— Meu Deus... Deve ser horrível.

— A gente acostuma.

— Até com ameaça de privatização? — ela pegou um cigarro do maço sobre o painel e ofereceu.

— Já fumei o suficiente por hoje.

— Você nunca pensou em ensinar?

— Com essa voz murmurante, nunca.

— Murmurante? — e depois de lembrar-se de alguma coisa muito longe: — Nem tanto. Na palestra, aliás, você foi muito bem ouvido.

— Culpa do microfone.

— Com a prática em sala de aula, a gente vai soltando a voz. Voz baixa não é o nosso principal “poblema”.

Fernanda continuava impassível: o mesmo gelo de sempre. Olhava fixamente a rodovia. Em vez de ficar exultante com seu mais recente atestado de quase sanidade vocal, preferiria que ela tivesse dito que nem tinha reparado em sua voz baixa. Nem tanto, para um hipocondríaco, equivalia a muitíssimo.

— Só não concordei com algumas coisas, como você já sabe. Não posso aceitar aquela maneira de abordar o assunto. Sabe como é? Não vejo necessidade desse discurso biografista antes de entrar no texto. O que importa, pra nós da universidade, é o texto. Você falou demais da vida do poeta, e os textos estavam nas mãos da gente esperando uma verticalização que não houve. Me desculpa se insisto demais neste ponto... É quase uma questão de honra.

Hildo agradeceu aos céus por aquelas dúzias de palavras que, finalmente, gastava com ele. Pensou na mulher que lhe tinha mostrado uma coisa tão bonita, alguns minutos atrás, e pensou noutra modalidade de verticalização, não importava se em temperatura abaixo de zero. Um pouco de gelo e ordem só trariam benefícios ao poeta desorganizado, cada vez mais incapaz de controlar desejos.

Fernanda não mostrara as pernas à toa. Quem mais as veria, além do ângulo privilegiado do palestrista? Apesar da notória hostilidade das intervenções e aqueles silêncios de pessoa pouco educada, ela de algum modo teria simpatizado com ele. Sua obrigação, agora, era ficar quieto como um bom menino. Como aluno aplicado, responder comportada e humildemente às perguntas da professora, depois de ter pedido desculpas pelas “inúmeras vítimas do estruturalismo”.

— Pareceu que você não estava nem aí com os poemas. Pra ser sincera, acho que você se prendeu demais ao anedótico.

— Posso garantir, Fernanda, que foram os poemas que me levaram ao cidadão Goethe — respondeu com mansidão, avançando com mãos de pelica e nenhum ânimo guerreiro, chamando-a da primeira vez pelo nome. — A vida do poeta me interessa porque foi dali que os poemas escaparam. Parece que aqueles dois fatos da biografia esclarecem melhor o nascimento dos... dos “textos” — usou a palavrinha com a qual sempre implicou.

Ela retribuiu. Pela primeira vez, também chamou-o pelo nome:

— Tudo bem, Hildo. Mas ainda acho que você poderia ter trabalhado um pouco mais com os textos.

— Numa palestra?... — arriscou timidamente, para não espantar o arisco passarinho.

— Por que não? Apesar do IACANP ser um instituto de artes, é também lugar de fazer ciência.

Lembrou-se do juramento. Sabia muito bem onde aquilo ia chegar e não queria criar mais obstáculos a um futuro projeto de pesquisa nas noruegas de Fernanda. Bateu-lhe um cansaço antecipado da disputa que poderia ocorrer, totalmente indesejável em vista do que já tinha acontecido, num dia que ainda não dera tudo o que tinha para dar — apesar do Banco, dos modelos da pintora Cláudia e da própria Cláudia, do picadeiro no circo acadêmico.

Ficou profundamente, verticalmente calado, olhando os pinheiros e eucaliptos do Horto Florestal que acompanhavam o carro naquele trecho da rodovia. Apesar do cigarro de Fernanda deixar quase irrespirável o macio Renault, lembrou-se de um verso do Fausto — “Verde é a árvore da vida, cinzenta toda teoria”e imaginou o doce cheiro que aquele resto de mundo verde exalaria lá fora, indiferente às inquietações e expectativas das pessoas curiosas — cheiro primordial de natureza, de vida sem complicações, anterior a todos os conceitos lingüísticos e literários do IACANP. Para que aborrecer-se, se ela não parava de defender o método cinzento? Que lhe importava se ela ainda discorria, calma e objetivamente?

 

 

 

 

 

 

12

 

As luzes de Canaviais apareceram logo depois da curva. Ao entrarem na cidade, ensinou-lhe um caminho mais curto para casa: ela entrou pela travessa mal iluminada, contornou a pracinha sem árvores. Entraram, finalmente, na rua da Casa dos Leprosos, com poucas casas além da sua, e Hildo fez de conta que Fernanda ainda não estava falando. Foram delicados puxões de orelha que, afinal de contas, ele bem que mereceu. Ela tinha razão. Toda razão.

No quintal, Sísifo e Tântalo começaram a latir. Como ponto final nas digressões metodológicas, parou objetiva e suavemente o carro:

— Pronto. Entregue a domicílio.

— Não merecia.

Desligou o carro. Sinal de que queria continuar falando.

— Não fiz mais que minha obrigação. Você mora sozinho nessa casona estranha?

— Eu e o Deus que já não acredita mais em mim.

Ela esboçou outro sorriso:

— Não é grande demais pra uma única solidão?

— Comprei quando voltei pra Canaviais, depois da morte de minha mãe. Pra preservá-la dos inimigos do passado e me preservar do resto da cidade.

— O terreno é enorme. Parece uma chácara.

— Mas paguei muito barato. Era de uns leprosos, que a construíram pra curtir em paz suas feridinhas e ninguém os aborrecesse. Depois de mortos, ninguém queria comprar. Era uma espécie de lugar proscrito na cidade.

Diferente da reação anterior sobre a casa, no início da noite, quando veio buscá-lo para a palestra, agora ela parecia estranhamente encantada com a idéia de estar ao lado de alguém que morava num antigo leprosário.

— Você teve coragem?

— Embora não fosse necessário, foi devidamente desinfetada antes de me mudar pra cá.

— Mesmo assim. É muito, muito estranho.

Pela primeira vez, nas últimas três horas, percebeu que Fernanda se interessava realmente por ele. Ou por sua loucura. Seria acaso obra da irradiante magia da Casa dos Leprosos?

— A poesia é também uma espécie de lepra, Fernanda. Tenho até um projeto de ensaio sobre isso, Para uma teoria da lepra poética. Ou Para uma teoria da lírica leprosa. Ainda não me decidi sobre o título.

Destravou a porta para abrir, enquanto ela tratava de contestá-lo:

— Imagine uma coisa dessas! A poesia como lepra? Apesar de nunca ter feito um poema, poesia me parece mais um aparelho de aperfeiçoamento da linguagem, uma maquininha de palavras a serviço das pessoas.

Será que tudo ia começar de novo? Ele abriu a porta, já resignado com a insensata distância que se abrira entre eles, por culpa de uma língua desqualificada que, quando não emudecia, só conseguia ofender ingênuas e dedicadas professoras. Lembrou-se de dona Augusta, dona Laura beatriz, Elzinha, Marta. Quantas mais? De novo, lá viriam aqueles significantes & significados atrapalhar a expressão & comunicação de dois seres humanos de sexo diferente que, no fundo, no fundo, só queriam um pouco de carinho e compreensão.

— De qualquer modo, mais uma vez agradeço — disse-lhe Fernanda. — Por mim e pelo departamento de literatura. Boa noite.

— Quem agradece sou eu — aproximou a boca do rosto da geleira. — Tchau.

Beijou-a de um lado, quase foi beijado do outro, e percebeu que a temperatura da bela ursinha polar não estava tão baixa assim.

— Tchau. Até qualquer dia — Fernanda disse-lhe. — A gente precisa conversar mais.

Concordou que seria ótimo. Desceu do carro mais animado com o futuro. Fernanda ligou o carro, fez a manobra de cento e oitenta graus, acenou-lhe e partiu. 

 

 

 

 

 

 

13

 

O carro não andou vinte metros e parou, começando a subir de ré. Chegou até onde ele estava. Ela abaixou o vidro:

— Não vai me dar nenhum livro seu? Seria imperdoável voltar de mão abanando.

Ele não entendeu aquele súbito interesse pelos livros, mas gostou da idéia.

— Então desce e vem pegar — disse-lhe. — Aproveita pra conhecer a casa por dentro.

Fernanda o olhou em silêncio — aquele silêncio que podia dizer tudo ou nada. Sem tirar a mão esquerda do volante, consultou o relógio e depois mirou em frente. Hesitava. O Método também hesita. Quando a mão direita deslizou para a chave, apostou que ela não aceitaria o convite. Apostou e perdeu. Fernanda saiu do carro, trancou-o e ligou o alarme.

— Será que tem ladrão nesse deserto? — olhou para o escuro, amplo e vazio, entre as poucas casas do bairro.

— Fica tranqüila. Qualquer coisa, pego a cartucheira e solto os dois pastores.

— Que horror! Você tem tudo isso em casa?

— Nunca foi preciso usar a espingarda — abriu a porta e deixou que ela entrasse primeiro. — É paranóia de homem solitário.

— Casa dos Leprosos... Quanta emoção — disse-lhe sem nenhuma ênfase no quase escuro da sala, que só não era total porque ele sempre deixa acesa a luz fraca do corredor. — Presumo que os titios estejam bem trancados lá fora.

— Estão debaixo do sofá. Mas não precisa ter medo.

— Deus me livre! — Fernanda usou pela primeira vez, naquela noite, uma exclamação digna de sinal e recuou para a porta. — Morro de pavor.

— Estão no quintal, bobinha — ousou o diminutivo com séculos de intimidade, substituindo o vinagre da palestra pelo mais suave mel das entranhas: — Pararam de latir porque já sabem que sou eu em boa companhia. Pode entrar sem cisma.

Bastava escolher melhor as palavras, de agora em diante. Sucesso, no relacionamento pessoal, sempre dependeu do que deve ser dito e sobretudo calado, não importa se com a boca, os olhos, as mãos.

Acendia a luz da sala ou partia para a ofensiva? Tudo tinha de ser muito rápido. Uma inexplicável hesitação, diante daquela estátua de gelo, deixou-o subitamente imóvel diante do interruptor — Hamlet ainda tinha muito que aprender com Dom Giovanni. Nada perderia, se fosse rejeitado, nem seria a primeira vez. Se fosse bem sucedido, todas as contradições do universo se transformariam em pó e, finalmente, em estrelas, milhares de estrelas rutilantes.

Sem pensar em nada, como devem ser as decisões que levam ao abismo sem volta, sinceramente arrependido de ter sido anti-estruturalista durante toda a vida e já disposto a rever aquela teimosa falta de método, na literatura ou na vida, com veemência ordenou aos braços sem conceitos que envolvessem aquele belo corpo sem grandes idéias (afinal, por que as teria?) da sua mais recente e cordial inimiga.

Mas foi ordem de sargento sem tropa. Os braços permaneceram quietos, castamente pendidos dos ombros. Paralizava-os a possibilidade de ser novamente recusado por uma jovem mulher, como aconteceu com a filha do João Lucas e fatalmente aconteceria com Bida, no dia em que decidisse dar uma de Escobar. Uma tábua justamente naquele dia, depois da palestra sobre a humilhação do velho Goethe, seria duplamente vexatória e desconfortável.

— Não estou achando o interruptor — mentiu.

Numa rara vitória do espírito sobre a carne, apertou a tecla — e a fraca luz da sala salvou-o da possível catástrofe. Fernanda não dizia nada. Desfilou discretamente diante dos quadros, discretamente tocou a coronha da cartucheira, inútil viés no reboque rachado.

— Está armada?

— Imagina... É só enfeite — Hildo mentiu.

Espantou-se com as largas tábuas do assoalho, com fendas suficientes para acolher os principais insetos domésticos, e mais espantou-a a enorme coleção de long plays, na velha estante entre os janelões da rua.

Hildo escolheu um disco e ligou o aparelho. Começou a tocar baixinho a abertura Egmont, desta vez na versão Toscanini.

— Tchaikovsky? — ela perguntou.

Abertura Egmont, de Beethoven. Feita pra uma peça de Goethe.

— Sei. Você curte bem os clássicos, não é?

— Só sei viver com fundo musical.

— Meu “poblema” é esse: não tive formação musical. Não dá pra ouvir música de concerto sem algumas informações adicionais.

De duas, uma: recomeçava a polêmica do IACANP ou deixava passar. Como ainda havia esperança da tropa obedecer ao sargento, e, sobretudo, do exército inimigo render-se, fez boca de siri.

— Pode aumentar o volume, se quiser — ela pediu e sentou-se no sofá. — Parece bonita.

Hildo preferiu a poltrona: era menos perigoso. A estátua de neve nunca perdia a pose, apesar dos “poblemas”. Sem prejuízo da elegância, Fernanda tirou da bolsa um lenço de papel e enxugou o suor da testa, que a noite continuava abafada. Os cabelos permaneciam impecavelmente penteados, a bolsa preta descansava sobre o vestido cinzento, desta vez sem coxas à vista.

Ela suportou a música, heroicamente, por alguns minutos. Depois levantou-se e foi espiar o corredor. Olhou para o teto de madeira, espantada com um pé direito tão alto. Parecia mais interessada em arquitetura que música.

Só lhe restava oferecer-se como guia, apesar dos riscos:

— Quer conhecer o museu?

— Só se você acender todas a luzes da casa. Tenho medo de fantasmas.

Fernanda avançou lentamente pelo corredor. Sempre acompanhados pela cordas e metais da Sinfônica da NBC, Hildo levou-a a todos os cômodos da casa, que ia deixando, um por um, de luz acesa. Em pouco tempo, a Casa dos Leprosos estava toda iluminada.

O ponto mais temeroso da visita, no entanto, foi quando ela entrou no quarto e parou para examinar os velhos móveis. Primeiro, assustou-se com o guarda-roupa de embúia.

— Estilo barroco?

— Um belle époque fajuto do começo do século — explicou-lhe. — Os fazendeiros do café gostavam desses luxos. O guarda-roupa e a cama, quase arrebentados, vieram como brindes quando comprei a casa.

Ela contornou a cama de casal, admirou as volutas da cabeceira que, restauradas e envernizadas, ficariam muito chiques.

— Os leprosos deitaram aqui, é?

— Acredito que sim, mas não no meu colchão.

Ela ameaçou um sorriso. Se tivesse de agarrar aquela ursinha polar, só podia ser nessa hora: parecia em êxtase diante de tanta decadência. Mas, cheia de cautela e caldo de galinha, a tropa deixou o sargento outra vez na mão.

 

 

 

 

 

 

14

 

— Preciso ir — disse Fernanda, sentando-se no sofá em vez de tomar o rumo da porta. — Não é hora de criança ficar na rua.

Tinha lá seu humor, a branquelinha. Foi bom mesmo não ter feito nada, apesar de já estar mais envergonhado pela falta de coragem que medroso de levar a tábua. De qualquer modo, estava assimilando o bom método, “devagar e sempre”, embora tudo tivesse apontado para um resultado positivo, desde que o Renault fez marcha à ré e parou de novo à frente de sua casa.

— Sabe o que eu penso mesmo do Goethe? — perguntou-lhe, enquanto ele guardava o disco na capa velha e ensebada.

A cabeça de Hildo fez que não, mas era evidente que ele tinha todo interesse em saber. Concordaria com tudo o que ela dissesse, de agora em diante.

— Era um tremendo machista, esse alemão.

Hildo não precisava perder tempo em defesa dos gênios.

— Vi um retrato imponente dele, de página inteira, que saiu numa revista — disse com desprezo. — Pelo aspecto, devia ser um homem super-autoritário.

Os gênios podem se defender por conta própria, mesmo depois de mortos. Mas ela mudou logo de conversa:

— Jura que você não fica mesmo impressionado — perguntou-lhe com alguma preocupação — com esse fantasma da lepra te cercando por todos os lados?

— Já estou imunizado. Peguei faz muito tempo.

Ela arregalou os olhos.

— A lepra da poesia — acalmou-a.

Fernanda não achou nenhuma graça, mas se lembrou do tal projeto de ensaio que tinha a ver com o assunto:

— Mais de uma vez você falou nisso. Fiquei curiosa.

Já tinha dado para perceber, nela, uma certa atração pelo sórdido, que procurava inutilmente disfarçar com distância e semiótica. Hildo animou-se:

— São algumas reflexões sobre a poesia como espécie de lepra. Ainda não passam de algumas notas soltas. A vontade é desenvolver, quem sabe mesmo escrever um ensaio. Já tenho dois candidatos a título, como já falei: Para uma teoria da lepra poética ou Para uma teoria da lírica leprosa. Ainda não decidi.

— Interessante — ela ameaçou de novo um sorriso.

— Não sei se devia te mostrar. Acho que você vai discordar de muitas coisas. Já discordamos o suficiente por hoje, não acha?

— Discordar é viver. Gostaria de ouvir as tais reflexões.

Ele achou que não devia fazer aquilo, afinal estavam começando a se entender e o futuro não merecia ser comprometido por aquelas notas tão cínicas. Mas a vaidade era maior que o bom senso. Pediu licença e foi até o escritório, de onde voltou com uma velha pasta amarela, de elástico arrebentado. Tirou o rascunho manuscrito. Sentou-se de volta onde estava, botou os óculos de leitura:

— Você tem o direito de me enforcar, se ficar ofendida — disse com o tom mais terno que conseguiu. — Vou ler o mais alto que puder.

— Desliga antes o aparelho de som. O prato ainda está rodando — avisou-lhe.

Esticou o braço e desligou a vitrola. Pigarreou e em seguida começou a leitura:

—“O propósito do trabalho, num primeiro momento, é fazer um histórico da lepra poética, delimitando no tempo seu aparecimento, desenvolvimento e atual ameaça de erradicação. Depois, pretendo localizar e delimitar o campo de ação do mycobacterium leprae da poesia. Como na outra doença, há também dois tipos de lepra poética: uma superficial e outra visceral. No segundo caso, as palavras viram garras monstruosas prendendo as coisas do mundo, a alma se contrai e deforma, o espírito toma as dores da alma e finge que ri.”

— Que horror — ela expulsou do belo narizinho um odor imaginário. — Mas continua, continua...

— “O período de incubação pode ser prolongado também, manifestando-se muito tarde. Desempenha papel importante na contenção da doença uma educação sanitária eficaz já na escola secundária, e depois nos cursos de letras, sobretudo quando a leitura sem compromisso é substituída pelas análises e interpretações rigorosas, metodologicamente corretas e comprometidas.”

Espiou-a com um rabo de olho. Uma aparente neutralidade tomava conta do rosto de Fernanda, agora voltada para a cartucheira na parede que, certamente, ajudou-a nalguma justa fantasia de vingança.

  “Para uma boa profilaxia, é bom evitar contato com portadores do bacilo. O isolamento dos portadores em leprosários acadêmicos, com o auxílio de teses de doutorado e algumas revistas que quase ninguém lê, até tem se revelado eficiente, impedindo a contaminação da população virtual, já de si bastante reduzida, sobretudo na adolescência.”

Fernanda tirou da bolsa o maço e acendeu um cigarro.

— “Apesar das técnicas modernas de tratamento, trata-se de doença muito rebelde a metodologias acadêmicas: os infectados não se curam facilmente. Contudo, o tratamento tem dado resultados positivos, quando se usam doses maciças de formalismo russo, estilística, new criticism, estética da recepção, semiótica, estruturalismo, pós-estruturalismo, desconstrucionismo, etc.”

Olhou-a, mais uma vez temeroso pela reação. E ela riu pela primeira vez na noite. Um riso de cristal partindo-se, asséptico, sem alma. Hildo interrompeu a leitura:

— Tem mais coisas. Mas acho que já te aborreci o bastante.

— Por que você não transforma isso num projeto de mestrado? Pode dar uma dissertação. Basta padronizar certinho, incluindo metodologia, cronograma, bibliografia.

— Jura? Nunca fiz essas coisas.

Fernanda levantou-se:

— Marca uma entrevista comigo no Instituto. Eu te orientaria com prazer. Com prazer e algum nojo — disse sem conseguir disfarçar o bocejo. — Um dia, talvez no próximo SAL, você volta e expõe os resultados de tão mórbida pesquisa.

— Acho que você não entendeu, Fernanda — falou com arrependimento, com fortes suspeitas de que ela estivesse sendo irônica. — Só quero só escrever um pequeno ensaio. Jamais conseguiria desenvolver a analogia por cento e tantas páginas.

Ela se levantou. Depois do beijo no rosto, por iniciativa dela mesma, disse-lhe tchau e até qualquer dia.

— Posso te ligar? — perguntou Hildo.

Fernanda sorriu com o primeiro olhar malicioso da noite e, mais uma vez, silenciou. Quanto mistério sob aquelas gélidas muralhas! Abriu-lhe a porta e Fernanda saiu correndo para o carro, sem voltar-se para trás, sem nenhum livro dele nas mãos. Pensou em chamá-la, correr até a estante e pegar um exemplar de cada plaqueta publicada. Afinal, era a razão daquela improvisada visita.

Não valia a pena tanta correria. Levaria os livrinhos pessoalmente, no IACANP.

 

 

 

 

 

 

15

 

Não podia avaliar o quanto havia de estranho naquilo tudo, dos ataques infantis no IACANP, passando pelo sargento sem tropa na Casa dos Leprosos, até o inesperado interesse de Fernanda pela sua doutrina leproética. Mas como nada mais havia de anormal no grande circo do mundo — mesmo o absurdo já havia sido institucionalizado pela boa crítica literária e pelo próprio mundo —, Hildo considerou que tudo estava como devia: aquela moça loira e glacial chegou e saiu de sua vida como tinha de ser. Uma rápida e gelada estrela cadente, como foi Maria Carolina. Nada mais.

Pedro, como já esperava, ligou:

— Dim, você não emenda! Por que tinha de provocar o pessoal daquele jeito?

— Desculpa, Pedrinho. Foi incontrolável. Meus planos eram outros.

— “Meus planos eram outros...” Sempre esse abismo entre os planos e a ação!

— Não estou arrependido por mim, mas por você.

— Eu não perdi nada. Continuo com estabilidade no emprego. Mas quero ver o que você vai fazer da vida, depois que a merda do Banco for privatizado. O diabo é que me dou bem com o pessoal das letras. Seria fácil te encaixar ali, se você não tivesse sido tão autêntico.

— Você tem razão. Sou um idiota.

— Continuaram a brigar ontem à noite, você e a Fê?

— Não. Depois do peido, apertei bastante o rabo. 

Para não inquietá-lo ainda mais, não mencionou a visita da professora, nem a leitura que fez da leproética. Mas tranqüilizou-o:

— A gente “fizemos” as pazes. A bandeira branca já tremula no mastro.

— Ainda bem. Sempre confiei na tua civilidade. Não dá pra prometer nada, Dim, mas talvez ainda possa fazer alguma coisa. Vou sondar o ânimo dos coleguinhas e depois te ligo.

Quem sabe, Fernanda aceitasse mesmo orientá-lo numa pesquisa para o curso de pós-graduação no IACAMP. Parecia ter gostado da leproética. Não havia dúvidas de que ela apreciava, pelo menos semioticamente, antropologicamente, essas coisinhas sórdidas da vida. Seria um jogo estimulante ser orientado por alguém que “pensava” completamente diferente.

De duas, uma: podia dar em cama ou acabar na polícia.

 

 

 

 

 

 

16

 

No dia seguinte, ao contrário do que gostaria, Hildo continuou pensando em Fernanda, mas já estava um pouco mais cético. Não convinha esperar muito da jovem professora: bastava-lhe bem pouco. Uma noite. Talvez duas. No máximo, três. Fernanda era mulher para três noites. E ponto final.

Começava a sentir falta daquela serena algidez. Jamais esqueceria o brilho de seus olhos — fiordes noruegueses também cintilam — quando o escutou mencionar, pela primeira vez, a Casa dos Leprosos. Depois, mais que tudo, o interesse brincalhão que manifestou pela leproética, indicando claramente que o bate-boca da palestra era coisa do pretérito passado.

Alguma coisa lhe dizia que não levou seus livrecos para que ele os pudesse entregar pessoalmente no Instituto. Bastava um telefonema humilde, de aluno sempre arrependido, pedindo prova substitutiva. A pouca experiência nesses assuntos recomendava, porém, esperar alguns dias, deixando que a poeira abaixasse.

Não foi preciso. No começo daquela noite, mal tinha chegado do Banco, um surpreendente telefonema desobrigou-o do outro. Era Cláudia, a pintora:

— É com o ilustríssimo poeta que estou falando?

— Com ele mesmo, professora — respondeu Hildo, espantado com aquele tom de voz.

— A Fê não está, nem sabe que estou ligando.

Lembrou, então, que Fernanda tinha se referido a uma reunião com seu grupo acadêmico, na USP. Devia estar na capital, àquela hora.

— Ela viajou pra São Paulo?

— Não sei — respondeu-lhe secamente. — Não é da sua conta.

Hildo já não era mais criança, porém estremeceu. Não teve tempo de desfiar do novelo as hipóteses que pudessem explicar aquela inesperada hostilidade telefônica. Mesmo se tivesse, era improvável que alguma coincidisse com os fatos concretos que ficou conhecendo logo em seguida.

— Sr. Hildo, não sei se o senhor sabe...

Houve um pequeno silêncio, desses que precedem uma grande explosão. E logo a voz de Cláudia voltou, uma áspera voz de soldado:

— Eu e a Fê somos... — o soldado engasgou um pouco, mas logo tomou coragem: — Não é segredo pra ninguém que a gente mora junto. Que a gente vi... vive junto. Compreendeu?

Sr. Hildo, desabado em sua velha e gasta poltrona de couro, começava a compreender. Antes tarde que nunca, embora qualquer pessoa mais integrada em tão doida época pudesse ter colhido, já na rápida visita à casinha simpática de Brodósqui, algumas impressões que conduzissem àquela curiosa hipótese, para no mínimo tê-la incluído entre as outras. Não precisava ser um detetive bem treinado em modernos comportamentos sexuais para deduzir aquilo.

Mas não incluiu, nem deduziu. Hildo era um fóssil pré-moderno, uma vergonha para a Califórnia Brasileira. Somente agora, depois da revelação da pintora, certos aspectos da noite brodosquiana começavam a fazer sentido.

— São amantes? — Hildo murmurou, com desolação.

— Pode ser, sr. Hildo. Amantes — parodiou o murmúrio do poeta desolado.

Não queria, nem saberia dizer mais nada, embora aquele “poblema” já lhe parecesse perfeita e estranhamente normal. Lembrou-se de um verso de Camões: “Busque Amor novas artes, novo engenho”. Era um direito do Amor, o mais criativo dos deuses.

E também o mais furioso do Olimpo, quando contrariado. O tom da Cláudia era cada vez mais agressivo:

— Ela me disse que o senhor tentou agarrá-la à força naquela noite. Violentá-la, pra usar uma palavra da própria Fê.

“Sacaninha!”, ele pensou. Mas permaneceu em silêncio, inesperadamente calmo e conformado com a estranhíssima normalidade das coisas do mundo.

— É verdade ou não? Eu preciso da verdade, sr. Hildo — ameaçava pular do fone, a qualquer momento, como Aladim da lâmpada. — É claro que o senhor não vai confessando assim, de cara, ainda mais porque se trata de um crime. E o senhor, com todos os seus versos medíocres e seus bagos sujos, podia parar direitinho na cadeia. Que idiota que eu sou!

Bastou aquele bafejo de código penal, para Hildo endireitar-se na poltrona. Sentiu-se conversando com o próprio delegado.

— É demais pedir a um Don Giovanni de merda que confesse uma tentativa de estupro.

Uma coisa era certa: Hildo estava tentando permanecer calmo e conformado. Não era a primeira vez que forças hostis o ameaçavam.

— Folheei à tarde um dos teus livros na biblioteca do Instituto — ela continuou. — Bastou pra saber o que é que tem dentro dessa cabeça machista.

Devia ter ficado quieto, só abrindo a boca diante de seu advogado e do juiz, se fosse mesmo acionado pela dupla Fê-Clau. Mas foi impossível. E, novamente imerso na poltrona, com paciência de Jó e enredo de Henry Miller, deu a sua versão dos fatos. O seu boletim de ocorrência. Narrou tudo, cínica e minuciosamente, detalhe por detalhe, o pouco que tinha e o muito que não tinha acontecido na véspera, a realidade e a ficção: desde as coxas sólidas e reais, expostas por Fernanda no Salão de Atos, até o oitavo e fictício céu do Paraíso, para o qual até que gostaria de ter ido com a professora.

Falou da marcha-à-ré do Renault em busca dos livros do poeta, e o convite, prontamente aceito por Fernanda, para conhecer por dentro a Casa dos Leprosos. O que não era mentira. Falou da sua iniciativa na sala escura — e aí começou a ficção. Ele também se sentia no direito de criar. Fernanda não tinha inventado para provocar ciúmes na mulher amada?

E então falou da boa recepção que a professora lhe deu. Da blusa desabotoada. De quando, finalmente, Fernanda decidiu inclinar-se sobre o poeta leproso e seus cabelos se derramaram como ramos de trigo sobre a calça. De como ele foi sendo conduzido, finalmente, através da esfera do fogo e da luz, ao próprio paraíso — um homem a caminho dos últimos céus de Beatriz. Falou dos tenros lábios de Fê que se puseram a executar, miraculosamente, uma antiga e pouco higiênica operação, com rigor metodológico que superava até a prima Maria Rita, especialista no assunto. Que, mais tarde, ela parou e, sempre olhando-o de baixo, rosto perdido entre aqueles cachos de trigo em desordem, perguntou onde ficavam os velhos discos. Que o abandonou na mais cruel expectativa e levantou-se, abotoou parcialmente a blusa e, sem calçar os sapatos, foi com os pés muito leves e alvos sobre o tapete, e depois, sem acender a luz da sala, satisfeita com a fraca luminosidade que vinha do corredor, sentou-se no chão diante da estante dos discos e começou a examiná-los. Que passava um disco depois do outro. “Adivinha com quem vamos terminar a noite?”, perguntou-lhe depois de achar o que queria. E que logo em seguida explodiram, do aparelho de Hildo, os metais da Abertura Egmont, de Beethoven — na bela e chiada versão de Toscanini, em vez da digitalizada de Karajan —, escrito sobre a peça do mesmo escritor alemão que o tinha levado ao IACANP. Falou de quando apareceu o oboé plangente e em seguida, outra vez, o naipe das cordas, antes da volta gloriosa dos metais, e que então ela, sempre ajoelhada ao chão, já tinha novamente os tenros lábios presos à parte mais saliente do leproeta. Que o ritmo da operação era dado pelo próprio Beethoven — ora mais calmo, ora mais agitado, Hildo emitindo levemente alguns sons parecidos com o nome de Fernanda (que, ao contrário dele, tudo fazia em silêncio, sem nenhum ruído humano, com uma concentração verdadeiramente mística). Falou também que, se era seu propósito adiar o final para depois da terceira ou quarta audição da Egmont, num longo e indefinido adiamento da Graça alcançada, tudo não passou de projeto inconsistente, teórico demais para quem estava nas mãos de mulher que parecia tão hábil naquela matéria. Que, cada vez mais, distantes iam ficando os céus, purgatórios e infernos anteriores — o Banco, a Casa dos Leprosos, o IACANP, as velhas damas e sereias, a solidão do leproeta. Que, finalmente, diante de tanto fogo e tanta luz, acabou perdendo a visão — no justo momento em que a orquestra veio com tudo e o foguete explodiu no ar rarefeito. E que as cordas voltaram a dialogar mansamente com as flautas e os oboés, quando então Fernanda resolveu antecipar o fim daquela primeira, única e inesquecível audição goethe-beethoveniana, correndo ao banheiro. E que, mesmo não lhe deixando subir ao nono céu, aquele a que certamente só o dedo manchado de tinta ou a língua sôfrega de dona Cláudia tinham acesso, Hildo já se sentia temporariamente realizado, pois considerava um grande feito haver atingido o céu de número oito, estrategicamente situado entre estrelas de fogo e suspiros de anjos.

Concluiu, por fim:

— Posso asseverar, dona Cláudia, que ela chegou aí em Brodósqui com um pouco de Hildo Rielli na boca e nas mãos. Por livre e espontânea vontade.

Só então, muito frustrado, Hildo percebeu que o telefone da pintora estava desligado: bip-bip-bip-bip. Em que trecho do BO o teria batido no gancho? Supôs, na hora, que Cláudia estivesse vindo de Brodósqui e fosse materializar-se de súbito em sua frente, avançando com as mãos cheias de ódio e tinta, prontas para estrangular a garganta murmurosa do inimigo. Chegou a olhar, preocupado, para a fechadura da porta, mas a visão da cartucheira pendurada na parede deu-lhe alguma segurança.

 

 

 

 

 

 

17

 

Antes que tivesse tempo de levantar-se, o telefone tocou de novo. Do outro lado, a mesma artista plástica do capítulo anterior.

— O pior é que acredito em você. Aquela vaca já fez coisa pior. Você nem queira imaginar... — recomeçou em tom de choro, surpreendendo-o com aquela resignação inesperada e ressentida, politicamente incorreta.

Estava tão compadecido da dor de Cláudia, que quase chegou a perguntar em que ponto da narrativa havia desligado, para que pudesse retomar daí e fazê-la sofrer mais um pouco. Mas, apesar do que o mundo aprontou com ele, Hildo continuava o menino bem comportado da rua Duque de Caxias. Ninguém vira bandido só porque quer: uma boa educação cristã também pode atrapalhar.

— Desconfiava que ela estava mentindo. A Fê morre de ciúmes da Vi e quis me magoar — abria-se com o mais novo confidente. — Foi por isso que ela te trouxe aqui em casa, botou aquele vestido sem-vergonha e aprontou tudo isso. Ciúmes absurdamente irracionais, senhor Hildo! Eu sempre lhe fui fiel, servilmente fiel — era triste ouvir um bravo soldado chorando. — Aquilo lá não sabe o que é amor: é fria demais, calculista como ela só.

Em seguida, antes que ele tivesse tempo de perguntar-lhe como andava a tela do casal abraçado, Cláudia deu um admirável salto emocional:

— Tomara que não esteja mentindo, senhor poeta! Sei como tirar isso a limpo. Fique sabendo que eu não tenho medo de homem, ouviu? — imaginou-a apontando o anular obsceno para o fone. — Muito menos de escrotos como você.

E, pela segunda vez, bateu-lhe o fone na cara. Hildo nem conseguiu levantar-se. Afinal, não estava tão acostumado assim com agressões frontais, ainda que telefônicas. Imaginando a polêmica pouco acadêmica que, em breve, teria como palco a singela casinha brodosquiana, quando a pérfida e complicada Fernanda voltasse do seu grupo acadêmico, ele ficou mergulhado na poltrona e no vergonhoso arrependimento, sincero arrependimento, de ter sido o outro, o intruso, o vampiro naquela singela história de amor e ódio.

 

 

 

 

 

 

18

 

Como prometeu, Pedro ligou-lhe do Instituto, alguns dias depois:

— Você está mesmo queimado aqui no IACANP, Dim. Irremediavelmente.

— Só tenho que pedir desculpas, Pedrinho.

— Bem que eu tentei ajudar.

— Nem sei o que dizer. Você é um bom amigo.

— Confesso que errei em não te instruir mais sobre o que era conveniente calar. Há certas coisas que não se dizem na universidade.

— No fundo, eu já sabia disso. O erro foi meu.

— Devia, sobretudo, ter falado da Fê e da Cláudia. Vieram me falar coisas horríveis de você! Devia imaginar que você daria em cima da moça...

Hildo não se preocupou em desmentir nada.

— Mas é uma pena que não deu certo. Você ia gostar da universidade, apesar de tudo. Deixaria de ser escritor cansado, teria mais tempo pra ler... Veja o meu caso.

— Eu sei. Penso que não invejo?

Mentira. Se tivesse que lhe invejar alguma coisa, seria Bida. Jamais a profissão.

— Você perdeu muito tempo no Banco. Se te mandam embora, como é que fica?

— Francamente, não sei.

— A palestra era o melhor jeito de apresentar você aos colegas. Do resto eu cuidava. Bastava ter engolido duas ou três palavras. E, sobretudo, não ter partido pra cima da Fê.

— O diabo continua preferindo as palavras. As palavras e as mulheres.

— O Banco não é lugar pra gente como nós. Não é lugar pra ninguém.

— Já deve ter sido melhor. Eliot foi bancário em Londres, depois de algum tempo dando aulas. Trabalhava das nove às cinco e meia, um sábado inteiro por mês e só duas semanas de férias por ano. Sabe o que ele falou? Ainda era melhor que ensinar.

— Você é dono da própria vida, Dim.

— Juro que nunca pude acreditar nisto. Mas que o sujeito já nasce professor, tenho certeza. Jamais simpatizei com quadro negro, nem depois que mudaram pra verde.

— Fazer o quê, não é? Rezar pro Banco te esquecer, na hora de fazer a lista das demissões.

— Talvez nem me mande embora.

— Na empresa privada, as regras do jogo são outras. Você sabe.

— Quem está vivo acaba se acostumando com tudo. E pretendo continuar vivo. Se possível, com alguma coerência — disse Hildo, imediatamente envergonhado por tanta pretensão.

Ainda tinha muita coisa pela frente. A árvore da vida ainda estava verde, com flores tentadoras por todo lado, muitas vezes vigiadas pelos espinhos inconvenientes da amizade.

— E como elas estão?

— Elas quem?

— Fernanda e Cláudia.

— Estão furiosas.

— Não é isso. Como elas estão, digamos, entre si?

— Muito bem. Nunca vi as duas tão bem. 

— Eu desconfiava. Não passei de instrumento nas mãos da Providência, que só queria estreitar mais o laço das duas.

Era o sentido de tudo: a dengue do professor carioca, a boa vontade de Pedro, o motorista da faculdade deslocado para outro serviço, sua visita à casa de Brodósqui, a palestra, o debate, a visita de Fernanda à Casa dos Leprosos. Fez parte, por algumas horas, do curriculum vitae de Fernanda e foi de extrema utilidade.

— A Bida também não se conforma. Torcia pra você ser um dos nossos.

Não pediu mais perdão. Afinal, era a culpada de tudo. Enquanto a árvore não perdia as folhas, a ordem era seguir em frente, de preferência com cautela:

— Agradeça a ela pela torcida — mentiu-lhe. — Acho que eu mesmo vou ligar agradecendo e me desculpando. Bida está em casa agora, Pedrinho?

 

 

Assis - 2007

 

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