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FALECIDO DA SILVA — Passa o dinheiro, chefe! — gritou-me o bandido, depois de saltar à minha frente, às duas da madrugada, na pracinha do Doutor Jorge. Imediatamente, instintivamente, levei a mão ao bolso para tirar a carteira quando, num assomo de lucidez, vi com antecipação, em poucos segundo — como num filme em câmera rápida —, tudo o que aconteceria comigo caso a entregasse. Imaginei-me, primeiro, ligando para as administradoras de cartões de crédito avisando do roubo do cartão (isso sem falar das contas que o bandido faria em meu nome). Ir, depois, à delegacia dar queixa do ocorrido. Pedir ao banco para sustar o meu talão, já sabendo das cobranças de cheque sem fundo que receberia por um bom tempo. Além disso, vi-me nos dias seguintes, na correria doida atrás de segunda via dos documentos pessoais, pois ninguém é ninguém, neste mundo, sem estas abstratas tiras de papel timbrado que me concedem ser eu mesmo, habilitam-me a dirigir veículos perigosos, colocam-me entre as vítimas do imposto de renda e dos candidatos a cargos públicos. Essa é a desvantagem de guardar numa só carteira todas as provas de que existo no Brasil e para o Brasil. Se já tremia pelo fato de estar diante de um bandido, com arma apontada para minha cabeça, passei a tremer em dobro pela possibilidade de enfrentar a burocracia brasileira. Concluí, acredito que sabiamente, não valer a pena continuar vivo para escalar esse penoso calvário, mesmo sabendo de tudo o que perderia desta vida — "madrasta vida", como queria o poeta, mas ainda assim com algumas coisas que me faziam continuar vivendo com certo gosto. Sim, pois há algumas coisas nessa vida de que gosto muito e das quais dependo para viver. Pensei, por exemplo, nas nove sinfonias de Brucknner, nas marinhas de Pancetti, na poesia de Antonio Machado, nos romances de Conrad, nas peças de Tchekhov, nos filmes de Bergman e Fellini. Pensei em Veneza e Florença. Pensei em minha jovem mulher esperando-me em casa. Mas tudo isso, por acaso, compensaria o trauma provocado pela mais íngreme das subidas, o calvário da burocracia brasileira? Decididamente, não. Decidi, então, desobedecer ao bom senso (que mandava, em primeiro lugar, não reagir ao bandido; em segundo, entregar-lhe o dinheiro com gentileza e serenidade). Devagar, tirei a mão do bolso com a carteira: — Joga aqui! Depressa! — o bandido gritou-me, apontando um lugar próximo aos seus pés. Rapidamente, algumas cenas dos faroeste do Cine Castelo passaram pela minha cabeça — primeiro, daria um chute na mão em que o bandido trazia a arma, e logo em seguida lhe desferiria um soco fatal no queixo. Foi o que fiz: atirei-lhe a carteira no rosto e, ato contínuo, tentei botar em prática meus conhecimentos — infelizmente, só teóricos — de pugilismo. Infelizmente, pela segunda vez, o bandido foi mais esperto e mandou-me desta para melhor. Desta para muitíssimo melhor, acrescentaria. Não me arrependo. Falecido da Silva, imerso no lago sem fundo do Nada, na serena e inafiançável condição de homem póstumo, definitivamente Zé Ninguém — mil vezes melhor aqui, onde estou, do que se tivesse de fazer tudo aquilo que previ antes da reação: ligar para as administradoras de cartões de crédito, pagar as contas do bandido, entrar na delegacia para o boletim de ocorrência, correr atrás dos documentos pessoais, etc. |