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COROA DE ESPINHOS O advogado João Racine estava em pé, diante das revistas. Óculos no nariz, testa larga e vermelha, folheava-as ao acaso — aperitivo para o repasto principal, quando ficaria esquecido dos minutos com um livro nas mãos, sob olhar complacente de dona Genô. O certo é que dona Genô preferiria vender. Mas, enfim, tratava-se do dr. Racine... Estava até acostumada com aqueles anos de visita rigorosamente semanal à livraria. Solteirão e notório mão-de-vaca, mas perdulário verbal nos discursos e nos textos, ela irritava-se com as matérias de meia página que ele publicava na “Folha da Mogiana” — feitos para ninguém entender. — Li seu artigo da semana, doutor — dizia-lhe no entanto com amabilidade. — Merecia sair no Estadão! — Fico muito lisonjeado, dona Genô. — Se o senhor não tivesse deixado o seminário, seria um grande sermonista. — A imprensa e o tribunal são os meus púlpitos, dona Genô. Quem tem uma missão a cumprir não pode cruzar os braços. Mas a principal missão do dr. Racine era mesmo colecionar piadas e adivinhas: — O que é, o que é, dona Genô? Se tinha freguês na livraria, o freguês e dona Genô se voltavam interrogativos. — Perché il cane entra in chiesa, dona Genô? Ela nunca sabia: — Por que, dr. Racine? — Mas que católica é a senhora? Perchè trova aperta la porta! Dona Genô se dobrava de rir e o advogado Racine continuava lendo de graça seus livros e revistas. Naquele dia, porém, depois de muito fuçar por ali e com a vista já começando a arder, Racine sentiu um friozinho na barriga quando viu, na estante, aquela brochura conhecida, exposta com destaque. Era o livrinho do amigo William, William Shakespeare, gerente do correio que, nas horas vagas, acumulava as funções de poeta e pianista. Publicou sonetos a vida inteira nos jornais da cidade — uns sonetos meio modernistas, cheios de liberdades grosseiras para com o nobre gênero medieval — e agora os reunia em volume, às próprias custas, sob o título pouco moderno de Sonetos. Racine já ganhara o seu exemplar, autografado pelo autor. Mas vê-lo assim frontal na livraria, visto por todos que entravam, em pose de livro importante... “Por que tanta ênfase”, perguntava-se ele? Não compreendia como William, sempre tão humilde e discreto, se deixara levar por aquela manobra imperdoável da vaidade. Ademais, era poeta apenas regular: os sonetos, carregados de tantas falhas rítmicas e métricas, tinham as imagens gastas como botina surrada... Bastaria a publicação em jornal (o que talvez já fosse muito). Deu as costas ao William-impresso e continuou zanzando por ali. Folheou algumas revistas, deixou um romance policial no terceiro capítulo. Mas o livrinho do amigo o incomodava, como uma espécie de coroa de espinhos moral. Por fim, decidiu: mesmo já tendo o seu exemplar, foi até a estante e pegou-o. — É para um amigo, dona Genô — mentiu —. Embrulhe para presente. — Grande poeta, não é, doutor? — Grande, grande, dona Genô! — Merecia estar na Academia? — Na Paulista, pelo menos... Altíssimo poeta, dona Genô. E saiu feliz da livraria por ter tirado de circulação, ao menos provisoriamente, o livro medíocre do William. |