A MISTERIOSA ELVIRA

 

 

A empregada preta que o doutor Cássio arranjou, quando separou-se da mulher e morava em Ribeirão Preto, atendia por Elvira. Isto é, quando achava que devia atender. Era muito boa de serviço: limpava, lavava e cozinhava como nenhuma outra fizera antes. Nunca mexia em nada. Nota dez para a Elvira.

Mas tinha um defeito: não gostava de cumprimentar, nem de responder cumprimento. No início, doutor Cássio estranhou, mas procurou logo compreender as razões profundas daquele comportamento intolerante.

Lembrou-se das aulas de história no ginásio. Pensou nos pretos chegando da África em fétidos navios negreiros, depois de várias semanas cruzando o Atlântico. "Stamos em pleno mar... Que cena infame e vil! Que horror!", diria Castro Alves. Pensou nos maus tratos dos senhores impiedosos, pensou nas senzalas formigando de gente, pensou em tudo o que um bom manual de história do Brasil teria a dizer sobre a escravidão.

O próprio tataravô do doutor Cássio tivera escravos na fazenda do Boqueirão, em Canaviais. Ele mesmo, quando criança, conheceu os restos mortais da senzala da fazenda, ao lado do monjolo desativado. Era uma tulha de mantimentos. Diziam que o tataravô era um bom senhor: nunca maltratou ninguém. Prova disso era que, depois do 13 de maio, nenhum dos pretos quis sair do Boqueirão.

De qualquer modo, deu razão à Elvira. Com o passar dos dias, porém, aquela secura da empregada começou a irritá-lo. Ela tocava a campainha, doutor Cássio abria-lhe a porta e dizia-lhe um sonoro "bom-dia". Elvira resmungava qualquer coisa inaudível e entrava de cabeça baixa pela porta da sala, indo logo cuidar do serviço. Pelo resto do dia, falava só o estritamente necessário.

— O que é que eu fiz, senhor? — perguntava-se doutor Cássio, ainda lembrando-se de Castro Alves. — Que torvo crime eu cometi para merecer o desprezo da Elvira? Acaso fui eu o feitor que surrou seus antepassados?

Frustrado por não ter arranjado uma preta bonachona, como aquela Irene do poeta ("Irene preta, Irene boa, Irene sempre de bom humor"), pensava, também, na hipótese daquilo não ser nenhuma vingança étnica da pobre mulher, mas justificável autodefesa de quem ainda trazia na pele o ardume dos antepassados.

Ou, simplesmente, era pura antipatia: Elvira não ia com sua cara, e pronto. Restava-lhe aceitá-la ou demiti-la.

Naquela manhã, Hildo sentou-se na sala à espera de Elvira. Dois planos passaram-lhe pela cabeça irada. No primeiro, ele se levantaria assim que tocasse a campainha, abriria a porta e nada diria à empregada, reagindo ao silêncio com mais silêncio. No segundo, diria um "bom-dia!" em alto e bom som, bastante provocativo:

— Bom dia, Elvira!!

Ela arregalaria os dois olhos e certamente resmungaria o seu costumeiro farrapo de "bom-dia". Em qual dos casos a irritaria mais? Naquela altura do campeonato, doutor Cássio só queria irritá-la — fosse pela insolência ou pela indiferença absoluta.

Quando tocou a campainha, ele se levantou decidido e abriu a porta. Quando viu o perfil da empregada à sua frente, não emudeceu de todo, conforme o plano número um, nem berrou bom-dia, segundo o plano número dois. Fez o mesmo de toda manhã: pronunciou um bom-dia normal e mecânico, recebendo o costumeiro grunhido de ódio.

Suspirou mais com a mente que com os pulmões e parou de pensar naquilo, jurando aceitar Elvira como Elvira sempre seria — com sua vingança étnica, sua autodefesa, sua antipatia por ele.  Quem sabe, não fosse só o jeitão dela? Cada qual como Deus o fez, concluiu o médico, cada vez mais resignado à condição de eterno aprendiz do mundo como ele é.

 

 

 

O ANJO ATRASADOJosé Carlos Zamboni                                              Contos
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