O DONO DOS BOIS

 

 

Num dia desses, o jornal deu a notícia da morte do velho Esteves. Eu o conheci em Ribeirão, à época em que trabalhava numa agência de publicidade, quando fazia a arte-final de um boletim especializado em pecuária, o Jornal do boi, por ele criado.

Era um dos maiores pecuaristas da região, sempre bem informado, com um rebanho de fazer inveja a seus pares. Na primeira vez em que falamos, confesso que fiquei de pé atrás, um pouco na defensiva diante daquele sujeito grandalhão, de fala grossa, que parecia considerar o resto do mundo como apêndice de seu enorme rebanho.

Com os encontros mensais, porém, fiquei conhecendo um outro Esteves, oculto sob o homem rico e poderoso: amante de ópera italiana e da pintura de Goya, leitor de Olavo Bilac, capaz de ouvir o interlocutor após ter falado bastante. Depois do ponto final no trabalho, me chamava para jantar ou beber alguns chopes no Pingüim, no fim dos quais derramava-se em inesperadas e íntimas confidências.

Lembro-me do último número do jornal que fizemos junto. Chegou com o material no disquete, enfiei-o no computador e logo fiquei diante de uma gigantesca figura de touro, sobre a qual passaria a trabalhar no editor-de-imagens. A primeira ordem do Esteves foi que eliminasse o órgão genital do gigante:

— Pode cortar. Sem dó.

— Você vai castrar o touro, Esteves?

— Não pega bem num jornal de pecuária. Se fosse uma revista de sacanagem... — e fez reboar na saleta a gargalhada de tuba, como se tivesse dito a coisa mais espirituosa.

Não foi difícil castrá-lo: bastaram alguns movimentos de mouse na área de trabalho.

— Está vendo aquele ponto vermelho ali? O touro estava se masturbando na hora da foto... São uns filhos da puta.

Além de castrar o touro do Esteves, tive de consertar vários pontos do seu corpo, deixando-o mais apresentável — um touro digno da revista Caras. Transformou-se num monstro virtual, sem arestas agressivas, diferente da montanha de carne que serviu de modelo à foto. 

Também meio castrado era o próprio Esteves, apesar daquela aparência prototípica e quase caricata de macho. Numa das noitadas de chope, pôs-se a falar de sua mulher, a bela Júlia. Se ele devia ter uns sessenta e cinco ou setenta anos, ela não passava dos quarenta. Editei uma foto no próprio Jornal do boi, em que ela aparecia sorrindo e abraçada ao imponente marido, cercados de bois e vacas. Era uma mulher apetecível, digna de um rei do gado.

Mas o dono dos bois, infelizmente, não dava conta do serviço. Júlia tinha um amante, um juiz amigo da família, e o Esteves sabia daquilo, e daquilo falava com o mais descarado cinismo, ao contrário do que convém a um corno decente. Como era um homem além do bem e do mal, não ligava: até estimulava aquelas puladas de cerca da cara-metade.

— Uma esposa com amante é mais fácil de aturar, amigo — a tuba voltou a gargalhar, enquanto virava o resto de chope. — Mais dois aqui, ô garçom amigo!

E o amigo garçom, com olhos espantados, vinha correndo atender ao trovejante senhor dos bois e dos homens. Boa gente, o Esteves. Vou rezar por sua alma.

O ANJO ATRASADOJosé Carlos Zamboni                                              Contos
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