|
COISA DO DIABO Foi num daqueles bares sórdidos da Rodoviária. Mal encostei no balcão e o sujeito molambento veio atrás de prosa. Pediu a cachaça. Tinha chegado de Marília com dois sacos de sandalinhas e precisava vendê-las. A mãe sofria com aquela doença sem fim. Ele sofria com os remédios caríssimos. Apeando na rodoviária, fez a promessa: —“Senhor, se vender as sandálias, nunca mais boto um cigarro na boca!—e jogou o maço fora. Deus foi camarada: na primeira loja que entrou, vendeu metade. Depois do almoço, vendeu o resto. Livre, antes do que imaginava, do serviço, foi à rodoviária e comprou uma passagem de volta para aquela noite. Dispensado o hotel, livre de mais uma diária, perambulou pelo centro até a hora da janta—um prato-feito com bife e, de graça, um cafezinho no balcão. Mas aquela vontade danada de fumar! Como o cafezinho exigia o complemento natural—cigarro!—, saiu às ruas como um doido, andou depressa e sem rumo, para disfarçar a tentação do demônio. Como? Era uma força maior do que ele. Adiaria a promessa para depois desse último cigarro: seria, jurava, o último—filado em desprezo no botequim do mercado. Que prazer! Sendo o derradeiro, fumava gozando cada milímetro de papel queimado, tragava com gosto jamais experimentado; fechava os olhos, suspirava. Não tinha coisa mais envolvente no mundo. Quase não sobrou quimba. Veio, depois, a culpa. Um profundo abatimento prostou-o, andava lentamente e sem destino; por fim sentou-se num bar e pediu uma cachaça. Depois outra. Ainda outra... Quando deu por si, lembrou-se do ônibus e da passagem comprada para as nove. Tinha menos de meia hora; correu para a rodoviária. Às nove, nada de ônibus. Nove e pouco, nada. Nove e meia—subiu ao guichê. O rapaz informou-o: —O horário de Franca é as oito, companheiro. Só amanhã cedo. —Mas eu comprei para as nove, tenho certeza! —Nunca existiu esse horário, amigo! Esfregava o rosto: —Então me troca a passagem para amanhã, pelo menos. —É contra o regulamento, parceiro. Acabou comprando outra. E pagou novo pernoite. Já era castigo?—se perguntava. Deus lhe facilitara a vida nessa época ruim de comércio e ele não cumprira a promessa. Começava a castigá-lo. No dia seguinte, em casa, a má notícia: a mãe tinha piorado. Daí uns dias, internou-a. Apesar de nada gastar com médico e hospital, tinha aqueles remédios. —Agora ela já está em casa. Mas como sofreu a coitadinha!—e pediu mais uma cachaça.—Eu bem que disse ao Senhor: “Eu mereço tudo isso, Pai!” Estou esperando mais castigo por aí...Eu mereço. Não fui um homem de palavra. Virou a bebida de uma vez. —Não consigo largar desse maldito cigarro, seu Luís. É isso que tá fazendo da minha vida um inferno. Sou um fraco. Acendeu outro maldito cigarro: —Toda a produção está encalhada. Ninguém compra. —Está ruim para todo mundo, Manoel. Esse governo filho da mãe! —Governo coisa nenhuma, seu Luís. Quando Deus quer, está falado. É castigo mesmo. E o Senhor sabe o que está fazendo... Puxava uma tragada forte, os olhos ardiam — deviam estar vermelhos como os olhos do Diabo. Cigarro era isso mesmo, não tinha mais dúvida: coisa do diabo. |