DALAI NO PAÍS DA LAMA

 

Finalmente, o Dalai visitou o País da Lama. Que adianta? O país já adquiriu anticorpos definitivos contra a virtude e a sabedoria.

É um papa mais light, sem multidões maltrapilhas em volta — os fiéis da sofisticada religião são artistas, intelectuais, gente-bem. Embrulhou-se na bandeira verde-amarela, que infelizmente não combinou com a roupa vermelha do simpático buda pop.

Ser budista, no Ocidente, é como andar a dez por hora em pista expressa.

 

 

 

O CÉREBRO DO PRESIDENTE

 

Vi ontem, na televisão. Mulher grávida de três meses foi autorizada a abortar, pois o feto não tinha cérebro.

Tirou o feto sem cérebro. No que fez muito bem. Já pensou se vira presidente da república — com direito a reeleição?

 

 

 

LIÇÃO DE GEOMETRIA

 

Maturidade: idade quadrada na qual a gente aceita, finalmente, a trilateralidade do triângulo.

 

 

 

AMOR, SUBLIME AMOR

 

Há certo sadismo no carinho das mães: se os filhos não adoecessem de vez em quando, elas é que adoeceriam até a morte por não exercitar o cuidado materno.

 

 

 

GOTA D’ÁGUA

 

Chuva braba? Tempestade? Tromba d'água? Tudo isso tiro de letra. O que me derruba mesmo é aquela gotinha inesperada que cai do beiral e entra na gola da camisa.

 

 

 

RIGOR SEMÂNTICO

 

Conversinha de quintal.

— Nunca matei um animal — disse o carroceiro, enquanto ia passando o monte de entulhos para a carroça. — Se eu vejo matar um boi, não como a carne. Animal não tem maldade. Mas, se precisar, eu mato um homem. Homem é a pior coisa que existe no mundo.

— O mundo está mesmo perdido, seu João — arrisquei um palpite.

Seu João é rigoroso como Flaubert:

— O mundo, não. O povo.

 

 

 

EXPLICA DIREITO...

 

Diz a estatística que o Piauí, um dos estados mais pobres do Brasil, tem o menor número de criminosos do país. Ou falta dinheiro para imprimir boletim de ocorrência?

 

 

 

POVERELLA

 

Minha cozinheira é discípula ortodoxa de São Francisco de Assis: jamais implica com as irmãs moscas que praticam aterrissagem na comida.

 

 

 

VANTAGEM DE SER NINGUÉM

 

Um dos principais inconvenientes de ser chefe é não poder gozar, em sua total e neutra plenitude, o maravilhoso tédio da segunda-feira.

 

 

 

LONGE DAQUI

 

Não tenho nada contra déspotas esclarecidos, desde que não me venham esclarecer nada.

 

 

 

O MELHOR ABANDONADO

 

O principal problema do País da Lama não é o menor abandonado. É o melhor abandonado.

 

 

 

NELSON CAVAQUINHO

 

Era o sambista Nelson Cavaquinho escrito e escarrado. Sentou-se no ônibus circular e começou a contar o assalto:

— Na hora, fiquei branco. Depois voltei a ficar preto.

Tirou a calculadora do bolso da calça:

— Nem com isso aqui dá pra calcular o medo que eu senti.

 

 

 

ALMA

 

Por que a crítica formalista insiste tanto nas palavras? Não é com palavras nem com idéias que se faz um poema, mas com imponderáveis entrelinhas.

 

 

 

TAMANHO NÃO É DOCUMENTO

 

Tudo bem. Só uma pequena parte do corpo é indecente, mas, como na política, manda em todo o resto.

 

 

 

ALZHEIMER

 

Descobri que o dia da árvore é também o dia internacional da doença de Alzheimer. No País da Lama, a segunda comemoração sempre fará mais sentido.

 

 

 

O BEM E O MAL

 

Mais fascinante, em moral,

Que discernir mal e bem,

É descobrir, muito além,

Os males que vêm pra bem

E os bens que só fazem mal.

 

 

 

ESFERAS MUSICAIS

 

Certo maestro, na rádio Cultura, respondia cartas dos ouvintes sobre música de concerto. Falava sobre masculinos e femininos:

— Dizemos o musicista para o homem e a musicista para a mulher. Dizemos músico para homem; e... música para mulher?

O maestro não achava conveniente chamar as mulheres de música. Pois eu acho, sr. maestro. Pelo menos certas mulheres: música das esferas, das mais perfeitas esferas.

 

 

 

O ÚLTIMO ROCK

 

O roqueiro resistiu à voz de assalto e foi barbaramente assassinado. Foi o último rock de sua vida.

 

 

 

MORRER PELA ARTE

 

Manhã de sábado, no País da Lama. O balé está animado: bicicletas, motos e carros cortam-se coreograficamente no palco das ruas.

A sinuosa rapidez das motos está cada vez mais virtuosística. Em contraste, ma non troppo, as bicicletas deslizam mais calmamente por onde nunca deveriam ir, se o critério fosse o da racionalidade do trânsito. São linhas tênues, quase esvoaçantes, traçadas na palma da contramão.

A rua está cada vez mais cheia de artistas. Que grande arte não é feita de riscos? De vez em quando, uma ambulância aparece e leva o artista para o pronto socorro ou direto para o médico legista, sacrificado em pleno exercício da beleza.

 

 

 

CÓDIGO DE TRÂNSITO

 

Só com a cara muito cheia pra agüentar dirigir nesse trânsito surrealista, cubista, expressionista, dadaísta, futurista. Que saudade do parnasianismo!

 

 

 

PODE NÃO SER VERDADE, MAS É BELO

 

— Tudo passa — disse Heráclito com raiva, vinte e cinco séculos antes, sentado à beira do mesmo rio da véspera.

— Em nenhum lugar há permanência — apoiou-o o poeta Rilke, vinte e cinco séculos depois, passeando nas imediações do castelo de Duíno.

— Não se assustem com a mudança, rapazes — disse Platão sorrindo, muito antes e muito depois, abrindo uma janelinha do Céu. — O tempo é só a imagem móvel da eternidade.

 

 

 

BELEZA OU VERDADE?

 

Talvez a filosofia de Aristóteles tenha mais razão. Mas a de Platão é mais bela.

 

 

 

PESSIMISMO SADIO

 

Ambientalismo não é coisa de humanista: defender bicho e natureza é uma maneira discreta de condenar o homem.

 

 

 

FÚRIA DE PEDRO

 

Velho é obrigatoriamente sábio? Ungaretti, já com décadas nas costas, ainda se dizia um velhíssimo discípulo da vida. O vovô de Caldas tinha cabelo e barba branca. Andava com dificuldade. E a molecada, impiedosa:

— Ô são Pedro! Ô são Pedro!

Até um são Pedro mineiro perde a estribeira:

— Vai tomar no meio do seu cu! — dizia sem olhar para trás. — Vá à puta que pariu!

Era então que a molecada ficava mais criativa.

 

 

 

CANÇÃO REACIONÁRIA

 

Mas por que ir embora,

Se esperar é que é saber?

Quem sabe espera a hora,

Deixa a coisa acontecer.

 

 

 

AMEAÇA DISTANTE

 

Sem ameaça de eternidade, a vida não tem o menor sentido.

 

 

 

OS DONOS DA VERDADE

 

É pena que uma coisa tão fascinante como a dúvida — diabolicamente fascinante, segundo ilustres demonólogos — esteja para sempre associada a Descartes, mais conhecido como criador da filosofia descartável.

 

 

 

GRANDE SERTÃO

 

Sempre tive vontade de traduzir Grande sertão: veredas para o português.

 

 

 

PLATONISMO ETÍLICO

 

É um bêbado platônico. Basta olhar para o uísque que já fica alto.

 

 

 

QUASE TODOS

 

Cheguei à definitiva conclusão de que todo mundo está certo. Nunca fui tão relativista. Evidentemente, tenho um pouquinho mais de razão que os outros, mas disfarço bem.

 

 

 

DE SUSTO

 

— Deus está morto — disse um dia Nietzsche.

Ficamos todos, de repente, ateus.

Mas ao morrer, se Lá topar com Deus,

Bastará o susto pra que ressuscite.

 

 

 

BARRIGA SABIDA - I

 

O povão pensa com a barriga, dizia Lênin, que preferia pensar com chumbo grosso. Que idéias excelentes não pode ter uma barriga? Fricassê de vitela com cogumelos, bacalhoada com tomate e orégano, sorvete de passas e nozes etc., etc. Um eterno etecétera ligando todas as classes sociais pelo abdome, mesmo as que são obrigadas a comer pouco. É engano pensar que, em vez de prisão de ventre, diarréia, indolência, depois dos conceitos culinários venham idéias morais.

 

 

 

BARRIGA SABIDA - II

 

Gosto de comer. É bom. Faço isso todo dia, mas sem fanatismo.

 

 

 

ESTA NOSSA ESTRANHA VIDA PÓS-PARTO

 

Conversinha de hospital:

— O parto foi normal?

— Nenhum parto é normal. Todo parto é anormal, absurdamente anormal.

 

 

 

E AÍ, SENHOR?

 

Se houver um justo Pai nalgum lugar,

O criativo autor do bem e o mal

Também terá bastante o que explicar

No Juízo Final.

 

 

 

NIHILISMO ELEITORAL

 

Se a gente vivesse numa democracia plena, a campanha pelo voto nulo — a única que não engana — teria partido político, fundo de campanha e o mesmo tempo, na televisão, que os partidos ficcionistas.

 

 

 

ENVERGONHADOS

 

Cavalo empinado é coisa rara, e por isso, quando fica nesse estado, tem lá sua grandeza. O homem, que vive naturalmente empinado, afrontando tudo, de vez em quando fica de quatro, posição quase obrigatória para preservar a espécie empinada. É ridículo. Por isso faz no escuro e de porta fechada.

 

 

 

ESPERMÔMETRO

 

O único animal que pode controlar a emissão de esperma bem que podia ser um pouco mais relapso com a auto-preservação.

 

 

 

TROPPO MALDITO

 

O poeta marginal

Lançou um livro bonito

Em tiragem nacional.

Poeta troppo maldito!

 

 

 

FILHOS DA MÃE

 

As mulheres, hoje em dia, podem ser ao mesmo tempo mulher e mãe. Prefiro minha época, quando a gente era só filho da mãe.

 

 

 

UM POUCO DE MENTIRA

 

Todo filósofo sério devia se permitir ao menos um minuto de mentira por dia.

 

 

 

MOVIMENTO NEGRO

 

A pretinha, que conseguiu o milagre de manter manequim trinta e oito sem perder as curvinhas, era de parar o trânsito das passarelas com aquele belíssimo movimento negro — o único que ainda pode fazer revolução, segundo um humorista. Ofuscava todas as branquelas & magrelas sugadas pela anorexia, provando que nem tudo que reluz é louro.

 

 

 

MULHER DE VERDADE

 

Mulheres ideais são mesmo as Amélias. Mas só deviam se casar com gentleman.

 

 

 

NA HIPÓTESE DE ACABAR TUDO

 

Em respeito aos mortos queridos, bem que podíamos ser um pouco mais discretos em nossa tão efêmera felicidade. Com a vantagem adicional de despertar menos inveja no vizinho.

 

 

 

O MUNDO É AQUI MESMO

 

Cada época com os vícios e virtudes que lhe convêm. Não há pior vício que procurar melhorar a época, nem virtude melhor que deixar tudo como está. Dos mundos possíveis, vivemos sempre no melhor. Melhor que isso é impossível. E o que é pior: é impossível piorar.

 

 

 

NO INÍCIO ERA O JARGÃO

 

Os técnicos são os estupradores impunes da língua.

 

 

 

AINDA PAGANDO O PECADO ORIGINAL

 

O que fiz de tão grave nas outras encarnações, Senhor,

Pra merecer reencarnar no País da Lama?

Comi o fruto do bem e do mal?

Matei Abel?

Construí a torre mais alta do deserto?

Morei em Sodoma e Gomorra?

Neguei o Filho três vezes antes de cantar o galo?

Vendi Cristo por trinta dinheiros?

 

 

 

EXPERIÊNCIA É TUDO

 

O candidato a presidente, em discurso inflamado:

— No Brasil, quem perde eleição fica torcendo, torcendo para o ganhador fazer um mau governo!

Sabia bem do que estava falando, pois perdeu várias vezes. E eu que pensava que ele só torcesse pro Coríntians.

 

 

 

MACHADO DE ASSIS

 

Aquele jeito de dizer as coisas mais pesadas com leveza aidética.

 

 

 

DESMANCHA-PRAZERES

 

Num mundo que vai mesmo de bem a melhor, em que de hora em hora tudo melhora, os pessimistas ficam completamente desnorteados. Basta eles inventarem o problema mais criativo, vem alguém com números irrefutáveis e uma bela solução definitiva. É frustrante.

 

 

 

ESCONDERIJO

 

— Desconfio que o tempo quer acabar comigo! — disse o paranóico com olhar espantado, virando rápido a esquina e escondendo-se num balcão de bar.

 

 

 

CONSOLAÇÃO

 

Minha pátria amada, sem idolatria nem salva de palmas, sempre foi o Ocidente. O resto é acidente — no percurso de colombos, vespúcios e cabrais sem bússola.

 

 

 

UM NEGÓCIO DO DIABO

 

Depois de reler Machado, “A igreja do diabo”, vi como drenar nosso mar de lama: entregar definitivamente as chaves do Planalto ao crime organizado. Governados pelo vício radical — que é, no fundo, a vocação secreta da política brasileira —, logo vamos sentir comichões de virtude.

 

 

 

 

A MELHOR DAS MINORIAS

 

Primeiro, o homem se deita com a mulher. Depois nascem os bebês. Noventa e nove por cento dos bebês nascem para assistir ao jogo da arquibancada — e aplaudir, roer as unhas, vaiar. O homem e a mulher, quando chamam a cegonha, jamais pensam que vão produzir um craque da humanidade, do tipo de um Prometeu, Sócrates, Cristo, Goethe, Lula da Silva. É uma loteria. A mais difícil de todas.

De vez em quando me pergunto, ao cruzar com um sisudo bebê no colo da mãe:

— Vai ser um novo Pelé, como eu, ou jamais descerá da arquibancada?

 

 

 

DA INSOLUBILIDADE DOS PROBLEMAS

 

A solução mais perfeita deixa sempre uma fenda virgem para um novo problema insolúvel.

 

 

 

ANIMAL TAMBÉM É GENTE & VICE-VERSA

 

Os animais, como a gente, podiam ter sobrenome: Leão dos Reis, Girafa Torres, Jacaré Ribeiro, Cavalo Penteado, Camelo da Costa, Bode Cabral, Pombinha dos Santos, Picapau Machado, Garça das Neves.

No outro pólo da fauna, só falta oficializar no cartório o verdadeiro sobrenome de muito Pedro Rato, João Leitão, Zé Gambá, Maria Cadela etc.

 

 

 

PÉ ATRÁS

 

Sempre achei que o estranho era eu — e minha pequena cidade fosse um lugar normal, tranqüilo, imune a Shakespeare. Até o dia em que um servente de pedreiro, aparentemente igual a todos nós, saiu do eixo e sacrificou a família com metodologia de frigorífico. Foi a primeira vez que a mitologia grega chegava tão perto (quando matei meu pai e casei com minha mãe, eu era muito criancinha e não me lembro de nada).

 

 

 

FILÓSOFO

 

Nestor era zelador da escola. Tudo para ele era cachorrada. Faltava energia elétrica? Cachorrada. Se o Coríntians perdia, cachorrada. A doença incurável do fulano — cachorrada.

Descobri que era o nome que ele dava à condição humana.

 

 

 

CAXIAS E O CAOS

 

Como não acredito na ordem — e não consigo acreditar mesmo —, só me resta ser meticulosamente ordeiro.

 

 

 

DESAFINADO

 

É duro admitir que a gente não faria falta nenhuma no espetáculo da natureza. E que espetáculo, hem? Um rio que desliza, um pássaro que chispa, uma fruta que brilha: são coisas bonitas e necessárias.

Sem provocar a menor cosquinha no calcanhar do gigante, botamos na cabeça que é preciso completar a obra da Criação. E então, caniços atulhados de fezes — algumas vezes com idéias — admiramos e invejamos aquela necessidade dos rios, dos passaros, das frutas que jamais nos pertencerá de novo, depois da infância.

O homem é a desafinação da natureza. Está do lado de fora — um acorde sozinho vibrando no cosmo. Por culpa dele é que o maestro jamais termina o ensaio da orquestra.

 

 

 

MEDITAÇÕES PECUÁRIAS

 

Na aritmética moral, há uma minoria de maus, outra de bons e uma grande maioria flutuante — gado oscilando ora para um, ora para outro pasto. A guerra se dá entre os pólos. Vence-a quem melhor tanger para o seu capim a boiada oscilante. Mas a vitória é sempre relativa, pois não é possível viver o tempo todo de orelha em pé, vigiando currais.

 

 

 

HAICONTO

 

O sujeito era hipocondríaco

E colecionava bulas de remédio.

Um dia mandou encadernar.

 

 

 

PENA CAPITAL

 

Ninguém pune ninguém no País da Lama, exceto a receita federal.

 

 

 

PADRE ALONSO

 

O quarto do padre Alonso, morto num dia desses, nunca foi aberto para limpeza: o velhinho basco não permitia que ninguém entrasse em seus bentos domínios.

— Eu mesmo limpo — dizia.

Nunca limpou. Depois do enterro, quando a faxineira do colégio veio com a vassoura e o pano de tirar pó, quase saiu correndo. Um fedor de roupa suja, sem nenhuma santidade, tomava conta do pequeno e escuro aposento. A poeira ameaçava soterrar o genuflexório, a escrivaninha, a estante de mogno e, perdoável heresia, o quadro de Goya ao lado da porta.

Agora é Deus quem vai decidir. Se foi porquice intencional, é auto-flagelação bastante para Pedro lhe abrir imediatamente a porta do céu. Se desleixo, vai passar dois ou três milênios submerso em poeira, nalgum lugar fétido do purgatório. Um purgatório projetado por Goya, certamente.

 

 

 

TÚNEL DO TEMPO

 

Consegui evitar, sem muito esforço, aquele velho contágio passional da copa do mundo. Ufa! Acho que estou remoçando.

 

 

 

O PROBLEMA É O TEMPO

 

Carnaval carioca é desses problemas sem solução, que você acaba vendo de qualquer lugar do País da Lama, mesmo em retiro espiritual no convento das carmelitas. Mas há problemas com solução. Em geral, só se resolvem com o tempo. Quando o problema acaba, ficamos alguns anos mais velhos e com uma insolúvel nostalgia do problema ainda não resolvido.

 

 

 

ANTI-DIÓGENES

 

Olhos fixos nas estradas,

Só pensando em percorrê-las,

Não caiu dentro do poço.

Mas perdeu quantas estrelas?

 

 

 

CASAL DO TEMPO

 

Aqueles dois que apresentam o Jornal Nacional, marido e mulher, serão sacrificados em público, na telinha. De que adiantam todos os truques de esconder velhice? Serão sadicamente desmascarados por nós.

 

 

 

RESSENTIMENTO

 

Bom divertimento, para a velhice ressentida, é procurar nas moças bonitas os defeitinhos que um dia serão amplificados pelo tempo. O tempo, além de inventor da caricatura, é o dono definitivo da patente.

 

 

 

NO TEMPO DAS CARROÇAS

 

A lei de trânsito mais respeitada não está escrita no código do País da Lama: a do menor esforço. Quando nasci ainda havia carroças e charretes. Não gosto de andar de carro. Andar de carro, entre outras coisas, é sofrer a lei do menor esforço alheio. A melhor forma de suportar um carro é dirigindo.

 

 

 

ECONOMÊS

 

Numa época de superávit de ação, a poesia é deficitária e insolvente.

 

 

 

FUTURO SEM FUTURO

 

Um dia desses, comecei um poema assim: “Um futuro com jeito de passado/ Com ruína e bolor antecipado...” Fui autocaridoso e não continuei. Era um poema sem futuro.

O futuro é uma ininterrupta fábrica de passado. O futuro não tem o menor futuro, embora eu desconfie que alguém já tenha dito isto nalgum lugar do passado (v. epígrafe bem intencionada no começo do livro).

 

 

 

POETA NA GARRAFA

 

Encontro o amigo Hildo Rielli, que não faz mais versos e quase não sai à rua.

— E aí? — perguntei-lhe. — Anda sumido.

— É verdade. Fico em casa bebendo sozinho. Bebo toda a garrafa e depois entro nela, onde fico preso o resto da noite.

Meu amigo continua poeta, como se vê.

 

 

 

PALETA

 

Certamente, tudo já aconteceu antes: o bem, o mal e todas as combinações possíveis entre os dois.

 

 

 

CRÍTICO HONESTO

 

Depois dos quarenta anos, nunca mais passei impunemente por um espelho.

 

 

 

SÁBIO DE FRALDINHA

 

Esses bebês que chegam ao mundo e logo partem — usados pela estatística para separar os países desenvolvidos e os outros —, não serão acaso sábios disfarçados nas fraldas, que preferiram partir enquanto ainda era tempo?

 

 

 

NOTA DEZ

 

O aluno, boné ao contrário, exige prova substitutiva. Merecia dez pela sinceridade:

— Entrei no curso de letras só pra puxar em paz meu fuminho. Acho literatura um saco, fessor.

 

 

 

PEDRO MALASARTES EXPLICA

 

Pra renovar minha carteira de motorista, o País da Lama tirou cento e trinta reais do meu bolso e ainda me fez escutar doze horas de aula sobre trânsito, com prova no final.  Beleza! Para quem pagasse o curso, a prova não reprovava, progressão automática. Como as informações não circulam direito na terrinha, soube bem depois que as aulas não eram obrigatórias, bastava estudar a lição e marcar prova (e aí podia levar bomba, pois não tinha pago o curso). É justo, não é? Pedro Malasartes explica.

O professor de trânsito não tinha didática e falava depressa demais. Não entendi nada. Merecia ser multado por excesso de velocidade.

 

 

 

ETERNO RETORNO

 

Na gangorra da história, cada época tem o idealismo que necessita ou merece. Há quarenta anos, idealista era quem falava em proibir a proibição, descia o pau na ordem estabelecida, na repressão burguesa, e se “engajava” na liberação geral. O idealista de hoje é o que deseja discretamente a proibição do proibido-proibir.

 

 

 

CAUSA PERDIDA

 

Só com milagre cristão pra Nietzsche transformar o camoniano “bicho da terra tão pequeno” em super-homem germânico.

 

 

 

BOM COMEÇO

 

Paro o carro no sinaleiro e sou abordado por um oxímoro — moça belamente suja. Está coberta de farinha de trigo, fedendo a ovo, com maquiagem de índio. Depois da abordagem, o assédio:

— Uma moedinha pro “bicho”, tio — implora.

Minto com a maior cara de santo:

— Infelizmente, não tem nem uma aqui.

Ela agradece e vai mendigar no carro de trás. Deve ser pagamento de promessa, depois do massacre dos exames: uma “incluída” assumindo, por algumas horas, a condição de “excluída”. É bom treino, também, para ingressar definitivamente no capitalismo socialista, mantendo na ponta da língua o discurso igualitarista, sem abrir mão, nem um milímetro, da gostosa prática competitivo-consumista.

De qualquer modo, é atitude bem simbólica: o primeiro gesto do universitário, no País da Lama, é pedir esmola.

 

 

 

QUE CULPA TENHO EU?

 

Ultrapasso o caminhão de sucata. A carroceria vai cheia de latinhas de cerveja. Nunca vi tantas — de todas as cores e marcas. E me vaiando em coro, estrondosamente, porque prefiro vinho.

 

 

 

MULTINACIONALISMO

 

Como ser patriota no País da Lama, que tem por princípio não ter nenhum princípio nacional? Nosso maior escritor é um inglês do Cosme Velho. Impossível imaginar a obra de Machado sem o assédio de poderosas multinacionais inglesas: Shakespeare, Swift, Sterne & Cia. Os melhores boleros mexicanos são de Lupicínio Rodrigues. São Paulo é uma colcha cinzenta feita com retalhos do mundo inteiro. E por aí vai.

O inglês devia ser de direito o que já é de fato, língua oficial do País da Lama, em suave parceria com o português. Imagino boletos bancários e bulas de remédio em duas colunas — inglês e português. Meu neto alfabetizado, ao mesmo tempo, no idioma de Michael Jackson e Lula da Silva.

 

 

 

TURNO INTEGRAL

 

A semente nasce

Pra perder a vida.

Mas bastou perdê-la,

Já é recém nascida.

 

 

 

LUZ E SOMBRA

 

Professor podia ser lamparina, lâmpada e até holofote. Dependia da central energética de cada mestre. De qualquer modo, iluminava. As sombras que sentavam nas carteiras das escolas já foram mais sensíveis à ação da luz. Hoje, com proteínas demais e cérebros de menos, criaram poderosos anticorpos de trevas.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

DALAI NO PAÍS DA LAMAJosé Carlos Zamboni                                              Notas
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