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HAMLETIANA A vida é uma excelente idéia. Por que a morte — o fim de tudo — não poderia ser, pelo menos, uma boa idéia? Ou uma excelente segunda idéia? Há porém mais hipóteses: a sobrevivência da alma no Paraíso, que seria a mais excelente das idéias excelentes, apesar de alguns esnobes acharem que seria muito tedioso; a sobrevivência da alma no Inferno, que seria a pior das piores idéias; ou a sobrevivência da alma, sempre cansada do éter, em eternos e desmemoriados retornos à matéria. Esta hipótese me parece a mais atraente de todas. E talvez por isso mesmo, por ser a mais atraente — cruel vingancinha da vida —, seja de todas a mais improvável. ABSURDO Se não fossem as guerras e a medicina continuasse neste ritmo, chegaria um dia em que ninguém mais ia morrer antes da hora. Só na hora certa. Quer coisa mais absurda? REFLEXÕES MARÍTMAS Cada homem é uma ilha, sir John Donne. Mais uma ilha do arquipélago: aparece sozinha na linha d’água e sozinha afundará no oceano, quando por ela roçar o grande furacão sem óculos. Há portos nas ilhas, barcos que vão e vêm, âncoras competentes, mas todo esse aparato geo-portuário é insuficiente para abolir a condição insular. Nenhum arquipélago pode salvar as ilhas de si mesmas, de sua irremediável insularidade cercada de ilhas por todos os lados. O RIO E O MAR Nosso jovem rio, Tranqüilo a passar, Coitado nem viu Quando deu no mar. E o mar engoliu, Com fome voraz, Nosso velho rio — Para nunca mais. SONHO VANGUARDISTA Vamos fazer uma transfusão de sonhos, minha cara? De vez em quando eu lhe empresto os meus, completamente sem graça e sem enredo, como um daqueles filmes chatos da nouvelle vague. E você me empresta os seus, convulsivamente hollywoodianos. MAQUIAVELISMO PLEBEU O povão, mesmo a léguas d’O príncipe, também sabe ser maquiavélico: quando vota, por exemplo, no candidato Róba Maisfaiz. OS MORTOS NA ARQUIBANCADA Os mortos nos olham de cima — pelo menos os mortos que foram para o céu. Seu divertimento é olhar as pessoas, zonzos com tanto vaivém no mundo. As pessoas pós-modernas não se cansam de ir e vir, fabricam coisas cada vez mais longe de casa, deixando o mundo atulhado de coisas — cada vez mais perto e sem graça. A graça do mundo estava nas azuladas e intransponíveis distâncias, nas surpresas que se escondiam por trás do horizonte. Mergulhados até a testa nas coisas do mundo, as pessoas só tem tempo de pensar nelas, quando não são as coisas que já pensam pelas pessoas. Os mortos estão melancólicos e não querem mais voltar ao mundo: a morte os deixou suficientemente sábios para não cometer de novo a insanidade da vida. Vivem nos três tempos do Tempo e olham as pessoas do ponto de vista do infinito. São filosóficos demais para interferir no mundo. Os mortos se aborrecem, pois só tem uma opção: ver sempre de novo o mesmo filme chato. Quem está lá em cima pode distinguir o caminho que leva à venda e o que leva ao buraco. E daí? Assistem de longe à partida de xadrez, frustrados porque não podem salvar os peões do furor da rainha. Os que mereceram o inferno se divertem melhor que eles. Pelo menos podem espiar de ângulo mais favorável as mulheres que não usam calças compridas. ESTOICISMO À BRASILEIRA Estoicismo já foi uma doutrina seqüestrada pelos manuais de filosofia. Hoje é uma obrigação da inteligência, quando os presidentes da república são economistas ou analfabetos. O que dá exatamente na mesma. ÚLTIMO ATO Durante o dia, qualquer coisa o irritava. À noite, nunca dormia com o tic-tac dos relógios. Sempre os mantinha bem longe do quarto. De tanto irritar-se, a morte veio buscá-lo antes do razoável. — Também não consigo morrer com esse tic-tac nojento — disse o moribundo. — Leva isso embora daqui. A futura viúva achou coerente e tirou o despertador do quarto. Mas voltou depressa, em tempo de assistir ao suspiro final do irritado. PALAVRA ESTRESSADA As palavras imitam os homens que as criam: algumas trabalham demais, estressam, perdem até a identidade. Política, por exemplo. Ora ela pensa que é interesse comum, interesse de classe, interesse do bolso. A infeliz vai de mal a pior, sofrendo de esquizofrenia, doença a que as palavras já parecem nascer predispostas. Anda merecendo férias de deputado. SAGRAÇÃO DA PRIMAVERA Juravam que a gripe das aves chegaria ao País da Lama em setembro, junto com as flores. Para facilitar os velórios. POETA O velhinho mineiro, parente distante do Guimarães Rosa, falou sumitério, em vez de cemitério. Corretíssimo! Era o milagre da corruptela melhorando a etimologia. DIALÉTICA Desprezo os peixes do cardápio e peço miolo de alcatra no restaurante beira-mar, em São Francisco do Sul. DEMOCRACIA ABSOLUTISTA Democracia é a mais universal das políticas: um governo em nome dos pobres, exercido pela classe média e visando mais lucros para os ricos. COISA EM SI Nada é mais grotesco que uma velha de maiô. HANASSAKA Hanassaka tirava fotografia três-por-quatro, em Canaviais. Era um japonês alegre, com todos os clichês do japonês alegre dos programas de tevê. Sempre rindo em japonês. Conhecia a língua de Paulo Coelho o suficiente para tocar o seu negócio. Era um show à parte tirar fotografia com Hanassaka. Ia e vinha, sem parar, da máquina ao cliente, até que o julgasse na posição ideal para bater a chapa. O perfeccionismo nunca aparecia no resultado final: a foto, invariavelmente, ficava abominável. Mas como era o melhor preço da praça, todos voltavam. Hanassaka fazia de tonto para viver. No fim do expediente, a fantasia de palhaço ficava guardada no estúdio, junto com a velha máquina e a cadeira bamba onde sentavam-se os clientes. Fora do estúdio, era de uma gravidade quase solene, cumprimentando com sutil aceno de cabeça. Certa vez, anos depois que se mudou de Canaviais, encontrei-o na Rodoviária de São Paulo. Evidentemente, não me reconheceu. Vestia-se como um lorde inglês. Por que no Japão não haveria lordes ingleses? Nada restava daquele excelente ator que batia fotos três-por-quatro numa pequena cidade da mogiana. Consta que o velho Hanassaka viveu bem: todos os filhos estudaram, viraram engenheiros e voltaram ao Japão, onde ele deve ter vivido os últimos dias. O País da Lama foi um pesadelo do qual conseguiu acordar em tempo, depois de ter aproveitado ao máximo o próprio pesadelo. DEMITIDO DA ÉPOCA Quando eu era “mineiro” e escondia meu ponto-de-vista, as pessoas se esquivavam de mim, como se fosse um conspirador. Um dia, decidi brincar de não esconder mais nada e as pessoas, pelo simples gostinho da contradição, começaram a me procurar mais. Antes que me habituasse, voltei a ser “mineiro” outra vez. Vivemos numa época malditamente dialética, queiramos ou não os conservadores demitidos do Zeitgeist (multinacional alemã). Acho que é por isso que me canso tanto. Só de pensar nessa eterna luta livre da tese com a antítese, sabendo que sou parte dela, ainda que contrariado, já boto a língua pra fora. CHURRASQUINHO DE PAI E MÃE O negócio é continuar educando os filhinhos sem medo, doidamente livres para o bem e para o mal. Eles crescerão sem culpa e ansiedade, bem diferentes de nós. E um dia passarão sobre nós com as motos, salgarão nossa carne com cocaína e ainda vão chamar os amigos para o churrasquinho de papai&mamãe. Ao som de rap-hip-rock, obviamente. HOMEM CERTO NO LUGAR CERTO Antes do natal, passei pela casa do amigo João Lucas, que vai se lançar candidato a prefeito de Canaviais. Seu trunfo? Dar o que o eleitor mais quer. Entre um copo e outro de cerveja, resumiu o projeto político. Entre outras coisas, faria tudo para dar umas quinhentas moto-serras à prefeitura: não sossegaria enquanto houvesse uma só árvore de pé nas ruas da cidade e no bosque municipal. Estimularia a derrubada de prédios antigos — quanto mais antigo, mais próximo da condição de poeira. Lutaria bravamente para que os cidadãos ficassem cada vez mais mal-criados, promovendo mensalmente campeonatos de xingamento no trânsito, cuspe nas calçadas, som alto nos carros e nas casas, etc. — O melhor fundo de campanha são as idéias certas na hora certa — concluiu. — Mas se o tráfico de drogas quiser colaborar, estou aberto a negociações. Sou obrigado a concordar. Tem excelentes chances com essas idéias e aberturas. DO CASAMENTO A vingança do casamento — quando ele dá certo, obviamente — é transformar a boa parceira de uma noite numa nem sempre doce inimiga vitalícia. QUANDO HAVIA MILAGRES Se uma bela mulher ia para o convento — isto sim era um milagre. O espantoso milagre de alguém que decidiu fugir da cadeia natural, quando tinha tudo para ser uma bem sucedida funcionária da espécie. VERGONHA NACIONAL É o Brasil do jeito Que o Diabo gosta: Bandeira fincada Num monte de bosta. CETICISMO MAIS OU MENOS CÉTICO A velha objeção ao ceticismo, que duvidaria de tudo, menos de si mesmo, não tem o menor sentido. O bom cético duvida até de si mesmo, considerando sempre, claro que com algum ceticismo, a possibilidade do inimigo estar certo. FUTURO E PASSADO Nos últimos quatro mil aninhos, houve alguma mudança essencial no ser humano? Creio que não. Estou autorizado a pensar, portanto, que nos próximos quatro mil nada de substancial surpreenderá meus descendentes. Ao contrário da tecnologia. Como estará ela daqui a quatro mil anos, se não houver nenhum grave acidente de percurso? Completamente science-fiction. E o ser humano patinando como nos últimos oito mil anos. Pelo menos metade desse tempo, a espécie eleita gastou sonhando com o fim das tiranias, a liberdade individual e a restrição desta mesma liberdade, que provocava novas tiranias, etc., repetindo o ciclo muitas vezes. O grande encontro do futuro próximo — que acho inevitável — será entre o capitalismo esquerdista e a esquerda cada vez mais seduzida pelo mercado. Na prática, todos serão de direita. Na teoria, de esquerda. Como a tendência da tecnocracia é centralizar tudo, visando a um governo absurdamente planetário, e a tendência de Narciso é inchar-se até não caber mais no espelho, a briga dos próximos milênios será por reduzir essa discreta contradição. Mas, no fundo, o futuro vai continuar muito parecido com o passado. NO TEMPO DO CHORO Antigamente, quando os brasileiros demoravam semanas para morrer de morte súbita, havia o chorinho. Era veloz como um moleque de recados. Só funcionava bem por isso mesmo: porque tudo em volta dele circulava muito devagar. Ou seja, a vida tinha ritmo. Ritmo é um pouco de cada coisa na discreta predominância das outras. CONSIDERAÇÕES TRANSITÓRIAS SOBRE O TELEFONE Um século: foi tempo suficiente para o telefone nascer e crescer como menino prodígio. Não está longe o tempo em que era preciso girar uma pequena manivela, para que uma voz feminina, simpática ou não, instalada num lugar kafkiano-metafísico denominado O Centro, perguntasse pelo número. Nem sempre o emissor encontrava logo o receptor: havia mais chiados e problemas entre um telefone e outro do que podia imaginar nossa incipiente telefonia. Deixou de existir uma respeitável instituição do passado: o telefone da vizinha. Que saudade do tempo em que se dizia “alô”! E quando o sujeito pega o fone, ansioso de falar com a namorada ou o cliente, e percebe que a telefônica cortou a linha por falta de pagamento? E quando toca no meio da noite, anunciando morte de parente? E quando, ó decepção, é aquele usuário que nunca consta das listas telefônicas, hidra de mil rostos chamada Engano? Hoje há os sem fio e o celular. Amanhã, só Deus sabe. Haverá sem dúvida os embutidos nos relógios de pulso, nos anéis, nas alianças de casamento. Imagina, apaixonado leitor, um telefone delicadamente embutido no brinco da namorada... TÍTULOS VENCIDOS Assim falou Nietzsche, na aurora do niilismo: humano, demasiado humano, cheio de considerações intempestivas, com sua gaia ciência visando além do bem e do mal, sem conseguir ocultar uma vontade muito grande de poder. Foi a origem da tragédia desse anti-cristo bigodudo, que acabou dando bom-dia a cavalo em Torino. ALÉM DA ALMA Se aperfeiçoamento moral dependesse do conhecimento da alma, os psiquiatras estariam na linha de frente da sabedoria humana. SUCESSO DE PÚBLICO O ensino público é uma farsa onde o aluno finge que aprende, o professor finge que ensina e o pai finge que se preocupa. O governo cuida de manter o espetáculo em cartaz o ano todo. MEDITAÇÕES PRÉ-SOCRÁTICAS Havia um cheiro bom de café torrado no fim da tarde. Eu estava sentado na varanda, copo de uísque na mão, quando vi escorrer uma pequena gota de água, que logo veio ficar dependurada no dedo mindinho — o dedo mais próximo da base do copo. A gota hesitava entre continuar presa à carne ou cair na camisa. Enquanto não decidia o futuro, nos poucos segundos entre a suspensão e a queda, vi o quintal inteiro microscopicamente dentro da pequena redoma de água, toda verde. Se tivesse lupa, enxergaria melhor o conteúdo da gota. Se a lupa fosse mesmo boa, teria visto até o sanhaço num galho do figo e um tiziu pulando no muro. Todo o quintal espremido numa pequena bolsa d’água que pendia do meu dedo menor. Era Pascal quem dizia: se pela matéria o universo me envolve, pelo espírito devolvo o troco: o cosmo cabe num piscar de olhos, o mar numa concha, o mundo numa aldeia, o presidente da república num copo de cachaça. Não tive tempo de concluir estas profundas e alegóricas meditações. A pequena gota já tinha caído na camisa, a qual, mal lhe sentindo a presença, tratou logo de absorvê-la. The end. ANJO OU MONSTRO? Se a gente passar numa peneira a filosofia contemporânea, o principal que fica é a idéia do homem ser um animal relativamente racional e que a razão está sempre a serviço de alguma paixão. Se as emoções tem certa base genética, a conclusão desalentadora é que jamais vamos entrar num acordo que não seja efêmero. Dependendo da paixão, pode o animal racio-passional se transformar em monstro ou anjo, mas sem possibilidade de escolher pessoalmente o uniforme. NUAS E CRUAS As roupas podem seguir a moda. As palavras, não. As palavras não precisam de roupa nova, nem velha: Quanto mais nuas, melhores: nuas e cruas. Até ao ponto da pessoa, ao abrir a boca, Virar alguém de qualquer época e lugar. As palavras não precisam de grife. Não devem pertencer a classes. Como os anjos, também podem viver sem sexo, Exceto na hora do nosso amor, amém. DÉDALO E O LABIRINTO O reescritor é o verdadeiro Dédalo — e a literatura é a arte de emaranhar-se ainda mais no próprio labirinto. MILAGRE INTACTO A sutileza a que chegou o violão de Luís Bonfá, no fim da vida do compositor, é mais um desses milagres da música. Nada de unha ferindo agressivamente as cordas: só a pele da falange roçando-as, acarinhando-as. Coisa de alma para alma. Pura introspecção. A falange a serviço da alma. A maior prova de que a anatomia não explica a alma é que, depois de conhecido o mecanismo, o milagre da alma continue intacto. ALTO LÁ, NARCISO! Quando é demais, o amor-próprio produz mais vítimas que o próprio ódio. OLHO FURADO Não há vagabundos, nem horas vagas. Todas estão ocupadas com alguma coisa perigosamente mental: lembranças, remorsos, planos de guerra, embrião de poemas, mulheres do próximo etc. Vagabundagem é ponto de vista de quem deliberadamente furou o olho de dentro. PADRE POETA Domingo de manhã em Jaraguá do Sul. Saio para buscar um jornal catarinense e passo pela catedral aberta. Por que não? Subo como um penitente a escadaria. “Todos os rios dão na morte. Os difamadores da morte são inimigos da paz. Lázaro estava coberto de Deus, não de lepra”, garante no sermão o padre com sotaque gauchesco. Não preciso ficar nem mais um minuto. Desço os sessenta degraus já alimentado para o resto do dia — não de verdades, mas de imagens. EPISÓDIO PARA A NOVELA DAS SEIS A jovem de classe média, obrigatoriamente bela, morava sozinha no apartamento carioca. Da área de serviço, via de galeria o exército ocupando o morro, com suas estratégias e táticas, procurando os fuzis roubados por traficantes. De vez em quando, pipocavam tiros — e soldados verdes escondiam-se atrás dos postes ou dos carrinhos de cachorro quente. Os traficantes saíam para fora dos barracos, de bermudão, fazendo singelas micagens para a soldadesca. Nossos estóicos defensores olhavam e engoliam em seco, com uma vontade louca de atirar, mas era preciso esperar ordem do comandante. Era essa a rotina da jovem de classe média, quando estava em casa. Como era pessoa de bom coração, torcia para tudo acabar bem, de preferência com soldados verdes e traficantes abermudados apertando-se as mãos — esses últimos jurando que abandonariam para sempre o tráfico de drogas, doando o dinheiro ilegalmente acumulado a ongs que desintoxicam drogados ou cuidam de menores abandonados. A jovem de classe média acreditava que o ser humano era naturalmente sossegado, a sociedade é que o agitava. — O que posso fazer? — perguntava a si mesma, ao namorado, aos amiguinhos. — Gostaria muito de fazer alguma coisa. Nós precisamos fazer alguma coisa, gente! A “gente” não era tão altruísta como nossa jovem — e levantava mil e dois obstáculos. Nossa jovem, que ainda não tinha as retinas fatigadas, removia a pedra no meio do caminho e vinha com outras mil e duas soluções. Propostas de ação eram no entanto logo desmontadas por si mesma, ou pelo namorado, ou por algum amiguinho. Certa tarde, alguns dias depois, acabou admitindo que não havia mesmo possibilidade de ajudar, de modo mais concreto, na solução do conflito. Perdida entre a impossibilidade de uma ação mais concreta e o descontentamento com meras especulações abstratas, a jovem da novela das seis — com bom coração por dentro e belos seios por fora — foi ao supermercado comprar coisas. Comprar coisas é uma forma muito eficaz de compensar frustrações — na novela das seis e mesmo fora dela. Abarrotou de coisas o carrinho. Lembrou-se, já perto do caixa, que não havia plantas no apartamento, e então foi à seção de plantas: escolheu um pequeno vaso de violetas brancas. Botou-o com ternura no carrinho do supermercado, sobre os saquinhos de arroz e de macarrão, entre latas de óleo, legumes, pacotes de carne e bolacha, leite em pó, etc. No apartamento, depois de guardar as coisas compradas, pegou delicadamente o pequeno vaso de violetas brancas — como uma jovem mãe pegaria o frágil bebê —, levou-o à torneira, deu-lhe de beber um belo gole de água cristalina e em seguida deixou-o, como uma oferenda religiosa, no parapeito da área de serviço (o lugar de onde assistia ao conflito armado). Chegou à conclusão que era a única coisa que podia fazer pelo conflito no morro: oferecer ao deus da guerra um inocente vasinho de violetas brancas. TRATOR O tempo passa, sim — mas sobre nós. NÃO TEM SOLUÇÃO Primeiro, Deus inventou o mundo. Depois, o Diabo contratacou com os problemas do mundo, entre eles o País da Lama, obra-prima da criação diabina — o primeiro problema absolutamente sem solução. ESPÍRITO SANTO Somos filhos absurdos de um Pai solteiro que jamais copulou. TUDO PELO MERCADO De que adianta aposentar? Além de mais velhos, obrigam a gente a exercer uma profissão ultrajante, a última da vida, sem direito a aposentadoria: visitar médicos, ajudando a movimentar o mercado dos planos de saúde, dos remédios, dos exames. Até nossa morte acaba dando lucro. HERESIA Perdão, Senhor, mas sempre achei Cristo um pouco exibicionista. Como todo político, aliás. Sua humildade gostava de subir ao palco. Nunca consegui encaixar direito, no enredo dos evangelhos, a cena da expulsão dos camelôs. Por que não deu a outra face também aos vendilhões? Sua tragédia — um dramalhão de circo para ser representado na Semana Santa. O verdadeiro Cristo nasceu na Itália, mais de mil anos depois, numa pequena cidade da Umbria. Atendia pelo nome de Francisco, mas não se incomodaria se o chamassem de Chiquinho. Separou-se da jovem Clara para se casar com dona Pobreza, a quem amou profundamente. A auto-negação, proposta pelo Cristo, só nele atinge sua realização completa. Tinha até senso de humor, coisa que faltava ao nazareno. Cristo foi o profeta do poverello. REPÚBLICA GLOBAL O País da Lama é uma república federativa, composta de vinte e tantos estados ligados entre si pela Rede Globo de Televisão. MATURIDADE Agora entendo melhor o verso do Drummond: “Na curva perigosa dos cinqüenta...” Se tiver de fazer alguma mudança de rota em minha vida, que seja agora, urgentemente, quando a adolescência vai comicamente chegando ao fim. DOUCE FRANCE Num dos seus últimos filmes, Hollywood ending, Woody Allen faz um cineasta que, perdendo repentinamente a visão, acaba dirigindo um filme com ajuda de um assistente. Quase ninguém sabia. Na hora da montagem, recupera a vista e tenta fazer o possível. Ou seja: o impossível. O filme fica uma droga, Hollywood torce o bico, mas cai nas graças da crítica francesa como brilhante realização do cinema de vanguarda. NO INÍCIO ERA O MITO Um cientista político, transformado em coordenador de campanha eleitoral, criticou a imprensa por estar “dissociada da opinião pública”, claramente favorável a seu candidato. Um dos problemas da democracia (v. Stendhal no cap. XXIII de O vermelho e o negro), é justamente a opinião pública, manipulada à vontade por tolos que o acaso deixou poderosos. Infeliz de quem dela se separa, para ver com os próprios olhos. A opinião pública se transforma, como que por encanto, em Opinião Pública, com veneráveis e indiscutíveis maiúsculas. Na hipótese da Opinião Pública estar equivocada — pois é humana e falível coisa —, ainda assim a gente deve se associar a ela, pois é preferível errar com o povo a acertar com os ricos. Voz do povo, voz de Deus era a máxima que parecia fundamentar a doutrina do tal coordenador de campanha política. Conclusão? A ciência política, a serviço do poder, sempre acaba retornando à mitologia. LITERATURA GERIÁTRICA Bom programa para escritores na terceira idade: reescrever sisifianamente tudo o que foi feito até a meia-idade e ninguém quis publicar, como se a obra fosse o único passaporte para entrar no céu. Isso se o céu já não estiver empregando críticos acadêmicos para analisar passaportes. CORDÃO DE DIAMANTES O bebê, com dois ínfimos meses de vida, mirou bem a mãe e fuzilou a mijadinha certeira: uma parábola cristalina na penumbra do quarto. AS ESTRELAS DO RUBIÃO Filósofo é o cão sarnento que consegue erguer a cabeça no meio-fio e enxergar além dos postes de eletricidade. Se, além do além dos postes, enxergar estrelas completamente indiferentes, como Rubião em Barbacena, então o cão sarnento é um poeta. DA UTILIDADE DOS JORNAIS Descobri, finalmente, uma boa razão pra voltar a comprar jornal: tapar as mijadinhas do Tuga pela casa. Pelo menos até o cachorro aprender a mijar no lugar certo. REPORTAGEM COM OPINIÃO Escrevo esta nota no carro, em meu diário do front. Estou diante do varejão em pânico. Não tenho mais dúvidas que o Iraque seja aqui mesmo. Acabou de passar por nós um tanque de guerra, escapamento bem aberto — brbrbrbr— para engolir a paciência de uma dúzia e meia de Jó. Pilotava-a um sereno motoqueiro de sete arrobas, tranqüilamente desabado no banco. Todos saíram pra ver. — Tomara que fure o pneu! — rogou a senhora de olhos brilhantes. Aristóteles disse que uma cidade com mais de cem mil habitantes é ingovernável. Quem sou eu pra corrigir o estagirita? De governar não entendo bulhufas, mas entendo bastante de habitar, e digo com toda convicção que uma cidade com mais de dois habitantes — eu e ela — é absolutamente inabitável. CINEMA COMPARADO Há mais eloqüência num pequeno filme mudo de Buster Keaton que em todos os filmes brasileiros somados e multiplicados. MEU HINO NACIONAL Se houvesse eleição para novo hino nacional, eu faria campanha para o “Samba do crioulo doido”, de Sérgio Porto. E O PAÍS DA LAMA? O País da Lama é uma abstração. Quando atravesso a Mantiqueira e piso em Minas, já me sinto no estrangeiro. Mais perto da realidade, somos paulistas, gaúchos, paraguaios, mineiros, baianos etc., que também não deixam de ser categorias abstratas para uso geopolítico. Estou quase dizendo que meu país sou eu — e eu, evidentemente, mais vassalo que rei d’eu mesmo. SE AS ÁRVORES FALASSEM Se as árvores falassem, xingariam toda vez que um carro estacionasse em sua sombra. ELOGIO DO ESQUECIMENTO A memória é uma das principais qualidades do homem. Talvez a mais importante, depois de esquecido tudo o que deve ser esquecido. UTOPIA “É bom onde não estou”, diz um ditado russo. É para lá que eu sempre quis ir. ERRATA BÍBLICA Jacó serviu Lobão. ESSA MODA VAI PEGAR Se ainda tinha alguma dúvida quanto ao caráter progressista do Paraná, ela desmoronou de pronto quando passei pela ponte do riozinho e lá estava escrito, na placa verde: Rio 119. PRONTUÁRIO MÉDICO Minha mãe ficou nove meses doente de gravidez para que eu nascesse. De certo modo, eu também fazia parte de sua doença. Enfim, nasci; e minha boa mãe sarou completamente. Estou em convalescença até hoje, cinqüenta anos depois. DÚVIDA TEOLÓGICA Como pôde um comediante tão refinado como Deus ter tido um Filho tão trágico? CARTA CELESTE Ventou tanto ontem à noite, que as estrelas mudaram de lugar. ESTÉTICA ROCOCÔ O sujeito parou e levantou a sola do sapato, conferindo se não tinha pisado numa dessas obras-primas do rococô, que os vira-latas do País da Lama sabem produzir melhor que os vira-latas do estrangeiro. Seguramente, com mais engenho e arte que os escultores da Bienal. ESSAS PALAVRAS Os poetas juram que as palavras têm vida. Verdade verdadeira. Nenhuma palavra alemã vai com minha cara. PREMISSA AZUL DO MAR Calor nunca combinou com vida civilizada. Como era possível abanar e ler ao mesmo tempo? Daí o superficialismo sem remorso dos cariocas. Machado, no fundo, era mineiro — o mais mineiro dos nossos ingleses. Quando esquentava pra valer, o silogismo dos cariocas não ia além da premissa maior. E como não há premissa maior que o mar... SONETO NA OFICINA Também sei fazer soneto pela metade. Tentei um à maneira dos simbolistas, mas, como sempre, empacou no primeiro quarteto: “Com minha alma filtrada de mim mesmo, Limpo de fatos e de contingências, Vaguei um século sozinho, a esmo, Na pátria silenciosa das essências...” Não ficou mal, mas era tudo mentira. Nunca saí da minha segunda-feira prolixa e braba — e poesia é insuportável sem os higiênicos subentendidos da elipse, ao contrário hiperbólica, pleonástica, disentérica vida. Uma “chave” foi escrita um século depois da quadra e ainda está esperando pelo miolo. Era um decassílabo mais ou menos nas regras da arte, mas de antítese profundíssima — “Quanto mais denso o breu, mais arde o fogo” —, que tanto poderia sugerir o poder das bimbadas como das idéias. Aliás, pra voltar a falar sério, quem pode mais? Bimbadas ou idéias? MUSEU DO RISO Seria interessante uma história das coisas que não puderam ser ridicularizadas. Seriam as coisas mais ridículas; e essa história, o mais cômico de todos os livros, mesmo se escrito por um doutorando da USP. VER É PRECISO Todos tem direito a um ponto de vista — venha de uma seita religiosa, um método filosófico ou um binóculo na fresta da cortina. LETRA PARA MARCHA NUPCIAL As noivas, vestidas de maio, ignoram as folhas secas do outono, o vento frio nos caixilhos, a massa de ar seco que vem do Atlântico, etc. Compreendo a alegria das mulheres no discreto carnaval das bodas, mas como os ritos são cansativos! Já disse que detesto botar gravata, filha. Não insista, por favor. O padre, com voz de bicha, é o campeão dos clichês. Casamento devia ser um bolo só pra dois, sem platéias com inveja, nem álbum de fotografias congelando o minuto volátil. Os poetas é que deviam oficiar casamentos: sem perguntas constrangedoras, diriam as palavras fundamentais e depois mandariam os noivos para a cama. |