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ROLO COMPRESSOR Na drummondiana e perigosa curva dos cinqüenta, derrapei na mais cruel das evidências: o tempo passa, sim, mas sobre nós. PRÊMIO CARNE SECA O nordeste está sempre se mudando pra São Paulo. Conseqüência literária: todo escritor paulista foi automaticamente promovido a escritor nordestino. Tem mais futuro literário, sobretudo na universidade. Só falta um prêmio Carne Seca para o livro do ano ou conjunto de obra. ODI ET AMO — A pessoa que mais amei no mundo foi minha mulher. E a que mais odiei também — disse às gargalhadas um viúvo que me parecia perfeitamente normal. BESAME MURCHO A velha tia, viúva há alguns anos, não perde um baile da terceira idade. Não perde também o auto-humor: — Minha música preferida pra dançar é o “Besame murcho”... FILÓSOFO NO DIVÃ Salvai-nos dos psiquiatras, louco deus dos poetas. Folheando o livro de Peregrino Junior sobre as doenças do Machado de Assis, descobri que o apego a minha cidade tem nome científico: gliscroidia. Pelos ouriços da palavra, não deve ser coisa muito boa. E eu que sempre pensava que fosse filosofia de vida... ALTA-VOLTAGEM Não sou muito de pegar bebê no colo: a qualquer momento, parece que o bichinho vai desferir uma descarga elétrica. DA HUMANA CRIATIVIDADE Na natureza não existe mal, que é subproduto muito criativo do livre-arbítrio, junto com o bem. SINE QUA NON Entre outras coisas, milhares de outras coisas, a felicidade pressupõe o fim da vizinhança compulsória. DIRETO COM A CASA BRANCA Acordei, no meio da noite, com barulho martelado e eletrônico de festa. Devia ser longe, mas era como se fosse no apartamento vizinho. Impossível dormir com aquilo. Então levantei e liguei para o Dom Quixote. Sancho atendeu e disse que o patrão não mexia mais com essas coisas. Me bateu o fone na cara, o desgraçado. Voltei para a cama. A barulheira era tanta, que me ocorreu uma solução mais radical: o Bush. Liguei para a Casa Branca e, para minha surpresa, o próprio presidente atendeu (depois do Iraque, nunca mais conseguiu dormir). Expus a ele o problema. Informou que a agenda da América Latina estava carregada demais, com pedidos de socorro da Venezuela e agora da Bolívia. Prometia estudar o assunto com carinho e retornar quando possível. — Mas é urgente! — implorei. — Um míssil teleguiado resolveria na hora. É um lugar cheio de terroristas, de fundamentalistas. Disse que a coisa não funcionava assim. Havia necessidade de estudos preliminares, etc. — Tem poço de petróleo aí por perto? — ele quis saber. — Ouvir dizer que sim, presidente — me lembrei do Maluf e da Paulipetro. — Vale a pena investigar. — O pedido está anotado, my friend. Quando houver disponibilidade... — Mas aí a festa já acabou. Eu preciso dormir agora, presidente. — Os terroristas farão outras festas, pode ter certeza. Se ficar comprovado que elas ameaçam a segurança do ocidente, não hesitaremos: Bush nelas! Enquanto isso, tenho uma relação de ansiolíticos que podem mascarar o problema. Quer anotar aí? NESTE CARRO VIAJA UM ANJO Passo rápido pelo carro, mas consigo ler o que estava escrito no vidro traseiro: “Neste carro viaja um anjo — Rodrigo”. Como não ler, se as palavras tomavam quase todo o vidro? Calculo que deve ter só alguns meses de vida. Usa fraldas, certamente. Chorará esgoelado pelas razões mais diversas: de uma reles vontade de comer a uma pungente dor de barriga. Enfim, estamos falando de um bebê. O bebê Rodrigo. Ou melhor, o anjo Rodrigo, que já nasceu público e em público deverá encenar os principais atos de sua comédia humana. Fico torcendo para que Rodrigo, um dia, recuse tudo isso e feche a porta da privada. NO MEIO DO CAMINHO Todo dia, pela manhã, o baixinho está na esquina. Mulato, careca, quase gordo, está sempre de braços cruzados e vestido como quem vai para o culto. Em geral imóvel, parece uma estátua do Buda. De vez em quando, gira discretamente o pescoço para o lado que melhor solicitar uma resposta automática: uma freada súbita, um avião no céu, um grito de criança. Será a coruja vigilante dos gregos? Quando a gente passa por ele e olha para cumprimentar, ele esboça um sorriso tênue — e mais nada. Se, por capricho, a gente cumprimenta com ênfase, ele responde com superior má vontade. Deve ser um filósofo. A PRÓXIMA E A SEGUINTE Para o bem da tua cama e da tua mesa, ama a próxima mais do que a ti mesmo. Pelo menos nos primeiros meses: é o quanto dura um relacionamento sadio. Depois deixa a próxima e vai atrás da seguinte. MÁQUINA IMPERFEITA Sou máquina muito imperfeita. Exemplo: não consigo acreditar em Deus. SOBREVIVENTES Educar filhos é guerra como qualquer outra. Geralmente os pais sobrevivem, mas com seqüelas. SUBMISSÃO DA MULHER INSUBMISSA Mulher: tropa-de-elite disfarçada de território conquistável. O feminismo foi fósforo inadvertidamente aceso na trincheira, chamando a atenção do outro lado. A principal arma feminista sempre foi a submissão. ETERNO RETORNO Sogra não gosta de nora porque a história é cíclica: já sabe o que a mulher do filho vai aprontar com o filho da mãe. NOS BASTIDORES Do jeito que anda o futebol, é mais emocionante as brigas internas dos clubes que as próprias partidas. TUDO OU NADA O piano de Debussy Só um pouco desafinado Me incomoda muito mais Do que o rock mais pesado. ESTOICISMO REVISTO Estoicismo: aceitar serenamente a dor... alheia. CUMPRA-SE Exijo, como bom brasileiro, o direito de votar pra presidente dos EUA. O CAMINHO DO MEIO No entendo porque a maioria prefere os extremos, se o caminho do meio sempre foi o mais gostoso. O RABO NO SOL Que adianta o socialismo prometer sombra e água fresca a todos? O melhor da água e da sombra é de quem chegar primeiro. A maioria acaba ficando com o rabo no sol e a borra do pote. NO ÉTER O shopping está querendo acabar com o domingo. É impossível. Um domingo só se pode parecer com outro domingo — jamais com os outros dias da semana. Se me prendessem em solitária e eu nada visse do mundo lá fora, perceberia quando fosse domingo. Domingo está na luz imponderável da manhã, no ar gorduroso da carne assada, no éter vesperal do tédio. Mas tem um gravíssimo defeito: não desgruda da segunda-feira. Diga-me com quem andas... NATURALISMO Não sei que mil virtudes enxergam no João Gilberto. O único disco dele que consegui ouvir foi o Amoroso, graças aos arranjos de Claus Ogerman — a suave orquestra completa o que falta na voz do sussurrador baiano. O naturalismo da sua interpretação chega a ser anti-higiênico, quando se ouve a circulação de saliva na boca. Voz fina por voz fina, e ainda mais com barulho de saliva, prefiro a Astrud. ETERNÓLOGOS A sociologia, para ser levada a sério, devia partir do aqui-agora na direção de um sempre cada vez mais além. Ou seja: da pobreza sócio-moral do presente para a miséria humana de todas as épocas. GUERRA CONTRA O ESPELHO Na guerra de todo dia, a principal batalha é contra si mesmo. Óbvio que ninguém vence. E então os mísseis se voltam contra os outros: é mais prático estapear o espelho. RIDENDO A única saída digna de respeito é pela boca, quando ela ri. Não sei se as rugas provisórias da risada adiam as definitivas, é provável que não, mas é bom tônico pra digestão moral. ENTRE FATOS E HIPÓTESES Cada um pra si? É fato. Deus por ninguém? Uma boa hipótese. DEUS NA GUILHOTINA Deus foi assassinado por Nietzsche & Cia. como represália tardia por ter expulso o homem do paraíso, nos felizes tempos de vovô Adão e vovó Eva. Deus não devia ter feito aquilo, é verdade. Mas que direito tinha Nietzsche de fazer justiça com as próprias mãos? CAEL E ABIM A maldade não foi inventada no ano que terminou. Caim já traficava drogas e comandava o crime organizado. Enquanto seus descendentes assaltam lares e lojas, jogam aviões contra Nova York, declaram guerras contra velhos e crianças, os descendentes de Abel consomem sem trégua no shopping mais próximo, congestionam o trânsito, submetem-se ao Faustão e ao Sílvio Santos. Cristo, goyescamente preso à cruz, suspira: — Fazer o quê, meu chapa? TANTO SEGREDO A única chave do mundo Que abriria Tudo e Nada, Lá no fundo mais profundo Da conchinha mais pesada O Criador foi guardar: Depois... a perdeu no mar... PLÁGIO DE CHAMFORT Chego no meio do caminho. Nesta metade que me resta, Não farei livros: farei festa. Não há livro melhor que o vinho. Amar, pensar, sentir — é vida. Escrever? Hora perdida. Assis - 2007 |