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OSSOS DO OFÍCIO Conversa com professora recém aposentada. Ainda é moça no registro civil, cinqüenta e cinco anos, idade em que as mulheres de vida tranqüila ainda dão trabalho na cama. Foi bonita nos áureos tempos, mas o exercício do magistério no País da Lama fez o que pôde para tirá-la do páreo. A inteligência continua ágil, capaz de salto triplo. Pertence à minoria de professores que merecia ter ensinado, em vez de substituir assistentes sociais. Olha para o salário escrito no holerite do mês e suspira: — Veja, diminui a cada ano. Como os meus ossinhos de vovó. MALDADE Fazia questão absoluta de ser sádico com os alunos de letras: só mandava ler boa literatura. VOZES DO VERBO O homem quer poder. A mulher — ser podida. ONIPOTÊNCIA À primeira vista, poderia parecer que a condição feminina foi absorvida pela masculina, restando às mulheres algumas poucas funções estritamente mulheris. A mulher está cada vez mais parecida com o homem, é verdade, mas nunca esteve tão feminina. O sonho feminino é um hermafroditismo sui generis: adjetivamente masculina, sem deixar de ser substantivamente mulher. ELAS ACHAM GRAÇA DE TUDO Mulheres não nasceram para ficar tristes, apesar dos poetas adorarem mulher triste. — Tira esta cara do rosto! — ordenou o marido à mulher melancólica, como se tristeza fosse máscara de teatro. E não é que era mesmo? A mulher achou graça e sorriu. HERMENÊUTICA DA BUNDA Os homens olham furiosamente as bundas que passam. Estavam à toa na vida, no País da Lama, e foram ver a bunda passar. Quem diria que a ex-principal instituição do mundo, a família, esteja organizada em torno de uma bunda? A base é a bunda. Tudo começou com uma bunda. “No princípio era a bunda”, assim começaria o verdadeiro Gênesis. Não é uma base lá muito sólida. Felizmente, é mais tenra que sólida, e a família ruiu fragorosamente. Culpa da bunda. Quem passou foi a família, e a bunda ficou. Quando a bunda passa, é pra ficar de uma vez por todas. SORRISO TUMULAR O médico, silencioso e branco como um túmulo recém caiado, compara atentamente as radiografias, a velha e a nova. Com um sorriso sádico (túmulos também sorriem, nas manhãs de sol), diz: — Tudo bem, amigo. Não é preciso preocupar-se. Pelo menos até a próxima chapa. REVOLUÇÃO PERMANENTE Há ex-marxistas que se rendem ao liberalismo, mas não entregam o fuzil. Continuam no ataque. Mudam do time que perde para o que está ganhando o campeonato, mas continuam jogando sozinhos na linha de frente. FELICIDADE DEMAIS Depois que inventarem a transfusão de felicidade, certamente não haverá mais dessas depressões que só cedem a golpes diários de fluoxetina. Seremos todos alegres. Haverá tanta alegria pleonástica, tanta risada hiperbólica, que acabará enchendo o saco e as pessoas vão começar a contrabandear do Paraguai umas adoráveis tristezas falsificadas. MISANTROPIA SOCIOLÓGICA Não gosto de rico nem de pobre. Mas — cá entre nós, ninguém nos ouça — não consigo ir com a cara dessa tal classe média. A VIDA É BELA Nunca poderia odiar o gênero humano que veste saias e fala com aquela estonteante doçura. Mesmo que, no jogo da vida, estejamos todos condenados à lanterninha absoluta, e tenhamos de aturar tudo o que Hamlet relacionou no famoso monólogo, não há prêmio maior que a existência — sobretudo por haver aquela parte da espécie que veste saias e fala com doçura. Quem gosta de mulheres pode falar mal à vontade do mundo, mas está proibido de falar mal da vida. MENTIRINHA DE VERDADE Sonhou tanto naquela noite que, ao despertar, custou a acomodar-se à realidade. Parecia fictícia demais. PRÉ-HISTÓRIA Quem quiser fonte segura para reconstituir a pré-história da humanidade, leia os jornais de hoje do País da Lama. UNS INVEJOSOS Apareceu, na TV, certa miss universo. Era bela? Talvez não passasse de um belo projeto feminino, maquete do majestoso edifício que poderia ser, não fosse a estética da magreza que toma conta da pobre cabecinha, dominada por estilistas gays que morrem de inveja da inimitável beleza feminina. FALTA DE PUDOR Mais despudorado que o poeta pornográfico é o poeta sentimental. É um sem-vergonha do pathos: não tem pejo de tirar em público a roupa das emoções mais íntimas. Basta o exemplo do ciúme, que Roberto Campos definiu como mau hálito do amor. Não é muito mais íntimo, vergonhoso e humilhante que um pênis exposto? FEIURA DISCRETA Bijuteria pode ser complemento da beleza, aumentar um ponto ou dois na mulher, jamais compensação da feiúra. Mulher feia é menos feia sem enfeites e pinturas — como a prosa jornalística, quando deixa em paz as figuras de retórica. MÃE PÓSTUMA A mãe tinha tanta dó dos filhos, que vertia rios de lágrimas ao imaginar o quanto eles sofreriam com sua morte. A LUCIDEZ DA SANDICE Santamente indignado com a facilidade com que alunos burros ingressam no curso de letras, formando a maioria da classe, professor Hildo Rielli começou a dar nota dez a quase todos. Ou seja, fazer o que virou moda no País da Lama: premiar a incompetência (to be) contra o mérito paciente (or not to be). Só reprovava os inteligentes. Quanto mais inteligente o aluno, mais próximo da zona fria do zero. Hildo inverteu as pontas da fita métrica: — Numa escola assim, vocês merecem ser cruelmente reprovados. Deixem a falsa vitória aos ineptos. Os poucos alunos reprovados até entenderam o método do mestre, e intimamente aplaudiram. Mas — e o futuro feijão das criancinhas? A vida prática tem razões que a própria razão, etc. O professor foi objeto de várias reuniões departamentais, intra-departamentais, pós-departamentais. Numa delas, a solenemente última, ficou decidido por milhares de votos a zero que ele devia ser submetido a uma perícia médica e afastado de suas funções, para o bem das letras. Há quem ache — cá entre nós — que ele fingiu hamletianamente um método. Fingiu de doido para escapar da insanidade geral. MAÕS AO ALTO A vantagem de ser roubado por bandido comum, em vez do Estado, é que a gente tem pelo menos direito a boletim de ocorrência. AMOR INCIVIL Verdade mais velha que a luz do sol, contemporânea do caos primordial, tenho até vergonha de dizer que há mais crueldade nos namorados que entre generais em guerra. Estes até podem virar amigos e tomar uísque numa das duas embaixadas, pois é uma inimizade abstrata, escondida detrás das táticas e estratégias que a distante soldadesca executará. Por que, então, descobrir outra vez a pólvora e dizer que dois fogosos namorados jamais serão amigos? Todos já estão fartos de saber que o amor sexual é tão incivil — é o sentimento mais incivil da face da terra —, que merecia ser milimetricamente controlado pelas polícias nacionais e pela Interpol. PENSA QUE EU NÃO PENSO? Um dia, fiz um soneto de um verso só: o resto não quis comparecer. Começava e terminava assim: “Mulheres — essas flores pensativas.” Os outros versos esticariam por trezes linhas a idéia de que elas pensam tanto, e o tempo todo, que não tem tempo a perder com filosofices. Os sonetistas esforçados têm tudo que aprender com as flores pensativas. ELITISMO Viver é bom, apesar das doenças vagabundas e dos políticos incuráveis, mas não devíamos ser tantos assim. Menos gente, menos barulho, menos impostos, menos dinheiro — desde que a vida, é óbvio, me incluísse entre os infelizes premiados com a existência. SEGURANÇA MÁXIMA Se só tivessem direito à liberdade os que não incomodassem o próximo, o planeta Terra seria um enorme presídio azul, de segurança máxima, girando cheio de grades em torno do Sol. ESSA GENTE PERVERTIDA Meu avô, nas cenas mais emocionantes das novelas da Tupi, defendia-se invariavelmente com a mesma arma: — Tá tudo combinado! Nudez feminina, em revistas e filmes, também sempre me deixa com a sensação de que estou sendo enganado. Como fã de são Tomé, só acredito em mulher pelada a alguns palmos da retina. Para filmes e revistas, sou mais pervertido: prefiro vestidinhos bem desonestos. UAI, SÔ! Muitas são as famílias famosas da história: a Sagrada Família, a Família Cristã, Adam’s Family. No País da Lama, para só ficar na música, há a Família Jobim e a Família Caymmi. Houve a Família Matarazzo. Tivemos também a Família Trapo, quando a tevê era preto-e-branco e a vida mais colorida. E a Família Tatu? Não tem sido estudada como merece. É uma das maiores famílias do País da Lama. Sua árvore genealógica exigiria bem mais do que um jequitibá gigante (necessário uma floresta de jequitibás para dar conta da ascendência tatuiana). O patriarca dos Tatus já é muito conhecido, depois que o seu principal biógrafo, Monteiro Lobato, e seu principal cineasta, Mazzaropi, decidiram tornar públicas as virtudes e defeitos do velho Jeca. Quem não conhece? Mas se o velho Jeca trazia as vísceras infestadas de vermes e por isso não conseguia melhorar de vida, há descendentes seus que, hoje em dia, têm um padrão de vida até respeitável. Quantos novos ricos não procedem dela? Vai longe o tempo em que o sobrenome era sinônimo de pobreza ou miséria. Muitos dos Tatus modernos ganham bem, comem idem, viajam ibidem, tem até programas de televisão ou gravam cedês. É o caso de alguns famosos apresentadores de tevê. Ou das principais duplas sertanejas, todas descendentes do venerável patriarca. Há fazendeiros dolarizados que cortam os céus do país nos jatinhos da TAM e da GOL sem deixar de trazer, na carteira de identidade secreta, o honrado sobrenome. Há Tatus no comércio, na indústria, no crime organizado. Médicos, dentistas, professores, políticos Tatus. Até Tatu na presidência da república nóis já têm, sô! HOMEOPATIA Invejo sinceramente quem crê em Deus, mas dispenso fanatismo. — Deus é coisa íntima. Prefiro não falar sobre ele — disse a um Testemunha de Jeová, da última vez em que fui assediado. Frases de efeito não dobram fanáticos. As estratégias anteriores também não funcionaram. Se me apresentava como católico, era alguém que podia ser convertido e tocava ouvir pregação. Se me apresentava como ateu, feria ainda mais fundo a veia missionária do pregador. Um dia certei na mosca. Dei troco com a mesma moeda e disse que pertencia a severa seita — uma certa Congregação Universal do Verbo Silente — que proibia aos adeptos conversar sobre religião, com ameaça de fogo satânico a quem infringisse o dogma. Como dizia o advogado mais culto da minha cidade, similia similibus curantur. ESTADO CIVIL Deus é pai solteiro, viúvo, separado? PAR DELICATESSE Só me espanto verdadeiramente, hoje em dia, quando um brasileiro comete uma vil delicadeza. GRANDE MÚSCULO Daniel e Sheila são irmãos. Estudam fora, moram junto. Ele música, ela hotelaria. — O quê? O Dani quer entrar na academia de ginástica? — perguntou a mãe à filha, num desses telefonemas extorsivos. O pai, ao lado do telefone, brincou: — Ele não precisa de ginástica. Já exercita bastante o grande músculo... A mãe não entendeu direito e disse à filha: — Teu pai tá aqui dizendo que ele já é um grande músico. Não precisa de outra ginástica. DEUS É MISANTROPO Diante da perfeita cópula entre tempo & silêncio na velha igreja abandonada de Minas, cheguei à mais óbvia conclusão: Deus nasceu mesmo no deserto. Combina mais com velhas igrejas abandonadas que com templos apinhados de fiéis. SABEDORIA BOVINA Devíamos aprender com os bois aquela solene indiferença com que tratam o mundo. Da vida, só esperam água e capim, antes que o matadouro e o frigorífico venham fazer parte do seu currículo. Há mais sabedoria neles que num rebanho inteiro de filósofos dialéticos. MUI AMIGOS — Ô filho de uma égua! — disse o pedreiro, saindo na calçada da casa que reformava e olhando para o pintor que passava o rolete na parede de uma casa recém construída, um pouco acima. — Teve coragem de voltar a Canaviais? Um casal de velhos, que caminhava placidamente pela tranqüila rua do bairro, olhou assustado para o pedreiro. No fio de força, o pardal retardou um pouco o vôo. O pintor, que passava o rolete na parede da casa recém construída, não deixou de fazer o que estava fazendo. Só disse ao outro com indiferença: — Quê-que foi, filhote de cruz-credo? Vê se paga o que me deve. O casal de velhos, aflito, apressou o passo. O pardal retesou as asas. Todos na expectativa de mais um showzinho brasileiro de sangue e violência. Então o pedreiro se aproximou, o pintor pendurou o rolete na escada de abrir e, contrariando todas as expectativas nacionais, abraçaram-se efusivamente. Eram só velhos amigos, estrategicamente disfarçados de inimigos. JOREMIAS Deus dá o frio conforme a grife do cobertor. Já pensou o Jó se lamentando como Jeremias? NÃO VENHA COM ESSA HISTÓRIA Um jornalista, na televisão: — O deputado corrupto foi absolvido pela Câmara, pra que a maioria dos deputados seja sumariamente condenada pelo tribunal da história. Como se o judiciário da história também não pudesse ser comprado. DO JEITO QUE O MUNDO VAI Estamos progredindo. Logo vamos conversar com latidos, miados, urros. Nada mais prazeroso que assistir ao espetáculo do reino animal, mas de longe. Não tenho a menor pretensão de reintegrar o elenco. FILOSOFIA A GOLPES DE ENXADA Se Nietzsche voltasse a crer: — O negócio é desenterrar o Filho de Deus bem depressa. Quebrar o Santo Sepulcro na porrada! Ressuscitá-Lo na marra! DA ARTE DE ENGOLIR SAPOS Buscar a verdade, mais que exercício filosófico, é arte de engolir sapo. Exemplo? Admitir que caminhões de lixo, fétidos urubus mecânicos conspurcando as manhãs mais azuis, sejam catalogados entre as coisas essenciais da vida. Também não é preciso pensar tanto. De tanto pensar, morreu o homem e reencarnou num burro. ENTRE LAÇOS & NÓS O nó é fácil. O laço é que é difícil. O fato do laço ser mais fácil de desfazer-se não é razão suficiente para desmoralizá-lo. O laço é uma verdadeira obra de arte: o cruzamento das duas pontas, os volteios seguintes e a amarradinha quase final, fechando sem fechar. Seu criador dorme anônimo no tempo, não recebeu nenhum oscar ou nobel, como certos falsos clássicos da literatura e do cinema. Laço lembra casamento. Mas o velho enlace matrimonial, autorizado pelo padre em nome de Deus, está mais para a cegueira do nó que para a complacência do laço. FALSO PESSIMISTA Sempre desconfiei que meu pessimismo fosse literário demais para ser verdadeiro. Nada a ver com o “quanto mais poético mais verdadeiro” de Goethe (algumas vezes, poético e literário podem até ser antônimos). No fundo, sou um otimista bastante constrangido e envergonhado, desses que esperam viver quatrocentos anos, mas se disfarçam de hipocondríacos que vão morrer amanhã de manhã. Vou assumir, de uma vez, meu otimismo recalcado. Posso até virar escritor de auto-ajuda e começar a ganhar uns trocados, coisa impensável com o pessimismo. Para não parecer idiota, continuo fingindo que a vida não presta, até chegar a hora em que finalmente botarei de bruços, na relva, a taça vazia (na bonita imagem de Omar Khayyám). EXISTE DE QUALQUER JEITO Se Deus é fiction, Foi privilégio ter nascido Pra testemunhar a trágica falta de Deus — Essa coisa tão espantosa, Tão inacreditável, Tão divina Que é a inexistência de Deus. Mais divina, talvez, que a própria existência de Deus. A ESPADA E A VIRTUDE Esperar do homem que dê a César o que é de César parece razoável, sobretudo quando há polícia por perto e um tribunal virando a esquina. Mas transformar a solidariedade em obrigação cívica é pedir demais à espécie dos bípedes empinados. FELICIDADE MASOQUISTA Felicidade hedonista é uma trégua entre duas obturações. Um cessar-fogo provisório. Mas há uma felicidade que, além da dor e do prazer, mas incluindo os dois sentimentos, consiste sobretudo em pensar — pensar na infelicidade, obviamente. PIXANDO O MURO DAS LAMENTAÇÕES Sem Deus como avalista da verdade, Frente-e-verso assinando o que foi feito, É sempre caos o cosmo mais perfeito. Que vale a morte sem a eternidade? OH MINAS GERAIS Deus errou, ao preparar o cenário mineiro o melhor que pode — altas serras cobertas de árvores, águas cristalinas rolando em cascatas, vacas pastando em silêncio nas colinas que escaparam de ser montanhas —, esperando pacientemente que os mineiros cumprissem a sua parte. Felizmente para nós, condenados a nascer em São Paulo, Deus está esperando até hoje. Minas continua deliciosamente atrasada. Graças a Deus. SÓ POR FORA Há excelentes títulos que não merecem certos livros ruins. Exemplo, As sandálias do pescador. Podia estar na capa de um bom romance de Hemingway ou Conrad. INIMIGO MORTAL Do País da Lama é fácil me defender: há empresas especializadas. Mas quem me defenderá de mim mesmo? FILHA PREFERIDA Voz do povo é voz de Deus? Mentira. Deus não se mistura. No máximo, Ele pode ser um bom aliado do homem sozinho. As religiões quase nunca. Que necessidade é essa das pessoas se juntarem em bando e orar em uníssono? A massificação é a filha predileta da religião. CONVERSINHA DE BOTECO — Viu o que aprontou o deputado? É um filho da puta. — Por favor! Não rebaixe tanto assim os filhos de uma senhorita tão operosa e necessária. TARTARUGA Calcular é fácil, pensar é que é difícil. E, entre duas atitudes plausíveis, um milênio pode ser pouco tempo para comparar e escolher. PROGRAMA DE DOMINGO Começa o domingo com suave lazer: a missa das nove. E termina com fanatismo religioso: o jogo do Coríntians às quatro. DEUS É ELITISTA Se Deus existe, deve achar de extremo mau gosto as religiões autênticas. Tem uma discreta predileção pelas falsas, aquelas que deram emprego a milhares de gênios da pintura e da música. NA JAULA DOS MACACOS Não gosto de zoológico. É tão falso como flor de plástico ou garota inflável. Selva tem de ser selvaggia. Apesar da democracia vigente no país, num dia desses fui obrigado a ir e acabei fascinado com a jaula dos macacos. Combinei com mulher e parentes que ficaria por ali mesmo. Quase em frente, tinha um banco sob uma árvore e serenamente abanquei-me. A jaula dos macacos é o lugar mais antropológico do zoológico. O que significa, entre outras coisas, que brinquei de Deus e me diverti a valer com a espécie humana. Deve ser assim que o Deus verdadeiro se diverte com nossa jaula — que Platão preferia chamar de caverna. PINTANDO O SETE O que é vivo, para sobreviver, deve se adaptar ao próprio ambiente. Evidentemente, não vale para o homem, que pode adaptá-lo a si mesmo, mudar de ambiente ou, o que é mais razoável, piorá-lo. Por exemplo: essas tais “instalações” artísticas. Compete com a fumaceira de Cubatão para emporcalhar o meio ambiente. Enquanto os melhores continuam abandonados, quem não sabe desenhar, pintar nem esculpir, hoje faz instalações, dá aulas na universidade e escreve teses ilegíveis sobre arte. Quem não sabe que as melhores “instalações” não estão nos museus, mas em quintal de pobre? RAÇA SUPERIOR Há duas raças (ambas superiores) difícil de suportar: ateus e crentes. Difícil ou difíceis, prof. Pascoale? FOME-ZERO É IMPOSSÍVEL — A verdadeira fome está um pouco mais acima do estômago — disse um personagem de Faulkner. E apontou o coração. O CARA DO MILÊNIO No fim do século passado, depois de um programa de tevê, meu filho perguntou em quem eu votaria para “homem do milênio”, o sujeito que representaria os últimos mil anos de história. Foi um milênio cheio de fatos. Quase tudo o que o homem quis, de algum modo conseguiu nesse período: sofisticou as armas de guerra e os presentes das namoradas, diminuiu as distâncias do mundo e do próprio sistema solar, criou a camisa de Vênus e a cadeira elétrica, a coca-cola e a penicilina, Chitãozinho e Xororó. Só faltou mesmo a vacina da vida eterna, mas isso pode ficar para o terceiro milênio.
Cristo regeu o concerto dos primeiros mil anos da nossa era. Deu-lhe o tom e o rumo. Qual o homem (ou mulher, vá lá) que teria feito o mesmo com esse complexo de séculos e idéias seguintes, os mil anos do individualismo, do livre-arbítrio de alguns e do determinismo da maioria? Um nome que sugerisse por si mesmo tudo isso, como a pequena concha na praia remete a todo o oceano?
Muito nomes compareceram ao tribunal da consciência, como diria o samba. Dezenas de substantivos próprios se candidataram: Leonardo, Beethoven, Goethe, Kant, Napoleão, Lula da Silva. Nenhum, no entanto, conseguia resumir em si todos os aspectos do milênio em questão. Entreguei os pontos. Mas devolvi a pergunta ao filho que, sem religião como o pai, resolveu o problema na batata: — É o Anti-Cristo. METAMORFOSE DO CIRCO Hoje entendo porque o circo de lona decaiu. Como ia competir com o Congresso Nacional e os clowns de paletó? INVENTORES DE DEUS Certos absurdos, desde que não afetem nossa vidinha prática, são perfeitamente toleráveis. O absurdo da crença em Deus, por exemplo. Ou da descrença, na visão do outro lado. Convivo diariamente com católicos, que olham complacentes para minha insuficiência religiosa e me deixam passar. Ninguém deixou de me vender ou comprar alguma coisa, porque sou um sujeito absurdo. Este intercâmbio de absurdos é impossível com os muçulmanos. Apesar da truculência, como são delicados! Não se pode tocar num átomo do Maomé. Parecem brigões de boteco, encardindo por qualquer tolice. Se os católicos fossem morrer e matar pelas irreverências dos próprios católicos contra seus deuses e santos, não restaria um único cristão vivo no planeta para aumentar o dízimo. Aprendi com o avô ítalo-brasileiro, católico com restrições, algumas até cabeludas. Meu avô não morreu disso, nem disso pretendo eu morrer. Já fiz minha obrigação, transmitindo a meus filhos certas locuções aprendidas com o velho, numa irreverência no fundo muito respeitosa a essas criaturas que, mesmo não existindo, criam a própria necessidade de ser inventados. NIETZSCHE & CIA. Não sei. Acho que não creio em Deus. Mas de vez em quando escapa um suspeito e suspiroso “graças a Deus!”, entre exclamações mais laicas, “ainda bem!”, “felizmente!”, que no fundo são nomes disfarçados do Deus improvável. Não sou ateu profissional. Por que viver botando grampos telefônicos na consciência? Quem sabe, de tanto falar o nome Dele em vão, recupere a velha e ingênua crença (que aliás só fazia bem, sem tomismos, neo-tomismos, tristões de ataúdes, leonardos bofes), antes que Nietzsche & comparsas viessem botar minhocas explosivas em nossa cabeça. TEMPO PERDIDO Aos cinqüenta anos, bem depois do meio do caminho, a gente já começa a olhar no fundo da embalagem o prazo de validade do corpo, que infelizmente começa a vencer quando a alma está um pouco mais sabida, um pouco mais apta a tocar o barco, infelizmente já furado. O diabo é que, até a reencarnação seguinte, a alma já esqueceu o pouco que sabe. SÓ A DEUS PERTENCE Por que se preocupar tanto com o futuro da espécie? Filosofia não é ficção científica. VIDA OCIOSA Não há maldade comparável à volta ao trabalho, depois de um mês de férias. As férias devolvem o indivíduo a seu verdadeiro estado, o ócio — que pode ser criativo ou não, dependendo do ocioso. Não é a morte o ócio absoluto, sem intromissão mal educada de despertadores e sirenes? EQUILIBRADÍSSIMOS Os verdadeiros comentaristas políticos são os chargistas. Chegam fácil na essência. FALTA GRAVÍSSIMA Se os juristas levassem Shakespeare mais a sério, confiança nas instituições humanas não seria só um problema da psiquiatria — como prova irrefutável de estupidez —, mas passaria a fazer parte dos códigos como crime inafiançável. LONGE DA LAMA Yahoo! Sou um sorridente astronauta brasileiro e estou na estação orbital russo-americana. Nunca um brasileiro subiu tanto na vida. Olho o mundo lá longe, azul como os olhos da minha finada mãe. Para aparecer na Globo, embrulho-me na bandeira verde-amarela e boto chapéu de Santos Dumont, meu glorioso precursor. Trouxe quinhentas canções do Roberto Carlos em MP3. Pego uma bola e tento uma embaixada à Ronaldo, mas a bola não obedece. Não tem importância. Estou sempre sorrindo, um sorriso mais verde que amarelo, pois afinal não sou eu quem está pagando a passagem. O BONDE E A VIDA A grosseria ganha do celular — é o produto mais bem distribuído no País da Lama. Ninguém precisa se sentir frustrado no nosso socialismo capitalista. Por delicadeza perdemos o bonde e a vida, diria Rimbaud. Ou foi Drummond? PLATONISMO DE ESTUFA Alma e corpo são, no fundo, Uma planta muito rara Num vaso bem vagabundo. TERRA LEVE Drummond, do além: — Depois dos ombros suportando o mundo por oitenta e cinco anos, como podia imaginar que a terra seria tão leve? ERUDIÇÃO DO VENTO — É pecado escrever aos domingos — diz o vento entre as folhas, um vento sabido, que entende até de literatura húngara: — Quanto aos livros, leia só os que contam aquelas belas mentirinhas coloridas, como dizia o poeta Kosztolányi. MALASARTES NO PLANALTO O país que já ficou mundialmente famoso por não ser sério teria de ter, mais cedo ou mais tarde, Malasartes presidente. É a prova mais irrefutável daquela verdade. DIA DE FINADOS Deixemos em paz o pó. Por que tanto importunar Os mortos neste lugar? A morte é uma coisa só. PITBUL SEM DENTE E pensar que há quem goste de botar o Eu no andor, como um Narciso empinado. Também não é necessário varrê-lo para baixo do tapete, como aranha morta. Basta trazê-lo bem humilhado sob a coleira — pitibul rangendo os trinta e dois punhais quebrados. Êpa! Será que cachorro tem o mesma quantidade de dentes que nós? PELA LUZ DOS OLHOS TEUS A aluna mostrou ao Hildo Rielli o livro recém comprado: As poéticas do olhar. Ou qualquer coisa do gênero. Está na moda essa história de olhar: novo olhar daqui, novo olhar de lá. Na civilização visual e epidérmica como a nossa, olhar a bela viola é preciso, pensar o pão bolorento não é preciso. — Prefiro a poesia dos seus olhos — disse-lhe o professor. A aluna sorriu e brilhou como a estrela da manhã, justificando plenamente a opção do mestre. SINFONIA DA MADRUGADA Tuga me acordou às duas da manhã. Latia forte: — Ôu, ôu! Outros cachorros latiam no bairro, talvez em toda a cidade. Uma filarmônica de cães, com todos os presumíveis timbres caninos, executando atônita sinfonia de latidos. Dormi e acordei de novo. Meu capa-preta continuava latindo: — Ôu... ôu... Agora só ele. Persistia num solo melancólico, sem acompanhamento — um cansado solo de tuba que, fechando outra vez o ciclo, me fez dormir novamente. |