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O MELHOR DE TODOS NÓS Cristóvão, das pessoas da minha geração, era o que mais prometia em Canaviais. Cristóvão, na verdade, sempre foi Cristóvo — o que, aliás, não combinava muito com sua dignidade. Sempre de livro na mão, sabia de tudo. Tinha uma facilidade incrível para aprender línguas: inglês, alemão, russo, árabe, chinês, além obviamente do latim e as românicas. Expunha-nos, com invejável clareza, desde a teoria da relatividade (só não aprendemos de tão burros), até o funcionamento da bolsa de valores e a música dodecafônica. Um crânio, enfim. Um crânio e um coração, pois ninguém era mais tocado pela natureza altruística da verdade que o nosso Cristóvo. Terminado o colegial, mudou-se para em São Paulo e estudou Direito, no Largo de São Francisco. Não foi surpresa para ninguém. Foi ali que ele ligou o motor de uma brilhante carreira jurídica, diplomática, política e, por fim, até literária. Era possível esperar tudo do Cristóvo, inclusive um livro de poemas metafísicos ou uma cantata serialista. Embora o perdêssemos de vista, pois era difícil continuar enxergando-o do nosso acanhado ângulo provinciano, do buraco medíocre em que afundávamos cada vez mais, sabíamos que ele estaria desde então — deveria estar, ora bolas, haveria de estar! — por trás dos acontecimentos mais importantes do país e, por que não?, do mundo contemporâneo. Quando, no Brasil, os ditadores militares passaram o poder aos civis, foi unânime entre nós a convicção de que o jovem Cristóvo fora peça-chave naquele intrincado xadrez político, pois só uma pessoa com sua habilidade de intermediação e gerenciamento de conflitos conseguiria juntar, na mesma dialética, as razões da esquerda e da direita. A morte, por infecção hospitalar, do primeiro presidente civil pós-ditadura foi por nós atribuída a um imperdoável cochilo do Planalto, que não deixou Cristóvo providenciar sozinho o internamento do Tancredo, nem escolher o melhor hospital e o melhor médico. Ele teria feito como ninguém e Tancredo estaria vivo. O Brasil não teria sido governado por um marimbondo de fogo. O próprio Collor só foi deposto porque Cristóvo abriu a gaveta da inteligência e tirou o único punhal que podia rasgar a gigantesca malha de corrupção que o envolvia. Cristóvo era o homem certo no lugar certo. Tudo isso seria imaginável sem o nosso Cristóvo. Alguns de nós eram ainda mais radicais: a própria perestróica russa não teria tido êxito sem os conselhos do Cristóvo ao velho amigo Gorba, e o Muro da Vergonha só virou poeira, fumo e nada depois que o tenaz canaviense lembrou, aos dois lados do mundo, que o pó era nossa origem e o pó era nosso fim. Por que continuar matando por idéias insanas? O sucesso diplomático só podia culminar no afetivo. Começou a circular a notícia de que nosso herói estaria noivo de uma linda jovem da nobreza belga. Segundo os mais céticos, uma condessa. Uma princesa — garantiam os cristovófilos mais entusiastas. Um amigo nosso, o único que chegou a vereador em Canaviais, chegou a propor depois do décimo chope a criação de uma comissão mista, composta de políticos e cidadãos honestos, para viabilizar uma visita do Cristóvo à cidade, onde seria recebido com honras de chefe de estado e ganharia o título de Cidadão Emérito. O difícil era localizar no planeta o nosso homem. Por quais embaixadas de Brasília deveríamos começar? Tínhamos algumas pistas: diziam que andava então por países muçulmanos, de lança em riste como Dom Quixote, criando centros de estudos ocidentalistas. A fama e a glória do Cristóvo iam muito bem entre nós e o mundo. Até que... Sempre haverá, mesmo nas carreiras e existências mais bem sucedidas, um inevitável “até que”, a fronteira do possível, o limite que separa os deuses e os homens, prova principal da humana falibilidade. A princípio, julgamos que fosse maledicência do Tico, que nunca soube disfarçar uma ponta de inveja do amigo superior. — Gente, o Cristóvo voltou pra Canaviais. Fundou um biblioboteco na vila Resende... De bom gosto rimos da piada de mau gosto. — E botou você na gerência, Tico? O Tico, sempre de cara séria, repetiu a informação e passou o endereço do boteco. E então percebemos que ele estava dizendo a verdade. Pude confirmá-lo eu próprio, com esses perecíveis olhos que Deus vai me tirando aos poucos. Entrei no boteco do Cristóvo e, logo que ele me reconheceu, atirou-se feliz em minha direção. Abraçou-me. Um riachinho de lágrimas deslizou dos olhos do amigo, enquanto perguntava pelo fã-clube local. Apresentou-me, depois, uma mulher baixa e gordinha que fritava quibes na cozinha do bar: — Minha esposa... Quem quase chorou fui eu. Triste fim o das princesas belgas! Acabei saindo do bar sem coragem de perguntar sobre o seu currículo de ouro, em meio àqueles eventos importantes do país e do mundo. A mediação com os militares, as negociações com a esquerda e a direita. A morte do Tancredo. A deposição do Collor. A perestróica. O Muro de Berlin. O Islã. E a verdadeira princesa belga. Quem sabe um dia, entre uma cerveja e outra, acabe descobrindo um jeito de perguntar sem feri-lo? E, sobretudo, descobrir as causas profundas do retorno do nativo, trocando uma vida cheia de glórias pela obscuridade humilde da vila Resende — só mesmo um estóico como o Cristóvo seria capaz daquele desprendimento —, sem ter realizado aquele que teria sido, sem dúvida, um dos seus maiores feitos: convencer o velho ditador de Cuba de que virtude é coisa que não pode ser imposta. |