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MEMÓRIAS PÓSTUMAS DE DOM CASMURRO Pensei que morrer fosse a melhor coisa que me aconteceria. Perfeitíssimo engano. Em vez do sono eterno ou da eterna beatitude, fui condenado — imaginem só — à mais antiga e cruel das paixões: o ciúme. Um ciúme infinito, que duraria enquanto Capitu estivesse viva na terra, e que continuaria, presumia eu, quando ela viesse fazer parte desse mundo de cá, esse aborrecido reino dos mortos e dos anjos. Bastou fechar os olhos do corpo, para os do espírito se abrirem mais, duplamente mais, desmesuradamente mais. Agora, redondamente morto, estou reduzido a um par de olhos impotentes, invisíveis, espantados de tanta luz, dois olhos mortiços sem a força de ressaca marinha que havia no olhar daquela que me enfeitiçou em vida e continua a perseguir-me na morte — olhos eternamente vagando pelo lugar em que antes viveu e sofreu o corpo, para sempre presos à minha pequena casa. Minha casa... Ainda prisioneiro das paixões mundanas, foi com supremo pesar que vi a doação de minhas roupas e meus sapatos ao marido da empregada. A primeira grande decepção, contudo, foi quando vi Capitu, mal desfeita do luto, mudar a disposição dos móveis, esforçando-se por apagar do ambiente tudo o que lembrasse o finado Bentinho. Trocou o sofá da sala, substituiu a velha tevê por outra de vinte a nove polegadas — o dinheiro do seguro foi providencial —, enfiou na parte superior do guarda-roupa as três reproduções da "Montanha de Santa Vitória", de Cézanne. Meus dois olhos de vento pingaram duas lágrimas igualmente aéreas (e nem por isso menos dolorosas). Dor profunda, nessas retinas ainda cheias de alma, senti mesmo quando Capitu começou, três semanas depois, a descer das estantes os livros que venderia ao sebo de Ribeirão. Uma, duas, três pilhas enormes, e lá distinguia os meus livros preferidos, logo mais acompanhados dos discos que mais amei. Era meu funeral que continuava, mesmo depois do caixão depositado na tumba. Era minha identidade terrena desfazendo-se aos poucos, cada vez mais, em cada coisa minha que Capitu botava fora. Acompanhava tudo com sofrimento, aquela dor impotente dos que foram privados de braços e pernas para o ataque e a defesa, ou de língua para o escárnio e a ofensa. Seria o meu purgatório? Um estágio necessário entre espinhos antes de ser recebido, enfim, ao lado direito do Pai? O pior, no entanto, ainda estava por vir. Imaginem vocês o que sentiram esses olhos infelizes e imortais quando viram entrar, pela porta da minha sala, meu amigo Escobar abraçado à minha alegre Capitu, naquela propícia noite de chuva em que meu filho estava longe da cidade. Por essa não esperava. Nunca os vi tão contentes. Os livros, os discos, as roupas — tudo bem. Que o diabo os carregasse. Mas ser obrigado a assistir, item por item, o ritual obsceno da minha melhor amiga com meu melhor amigo, começando na sala e terminando no "meu" quarto?... Minha melhor amiga e meu melhor amigo, sobrados vivos para a alegria e para o amor, agora juntos no grande festim da carne insaciada. Foi então que percebi, como se fosse partido por um raio, que não estava no purgatório. Meu lugar, depois da morte, seria mesmo o inferno. O inferno gélido do ciúme, consumindo sem nunca consumir estes dois olhos sem cabeça, tronco e membros, sem dedos que desfiram tapas ou puxem gatilhos — per omnia secula seculorum sofrendo com a pilhagem do objeto amado. |