A MORTE TAMBÉM DÁ CARONA

 

 

Já fazia algum tempo que o Roland Barthes estava na rodovia Castelo Branco, na saída de Botucatu, à espera de carona. A pequena placa improvisada, onde se lia ESTUDANTE, erguida para que os motoristas soubessem quem ele era, parecia não dar muito resultado.

Até que um gol parou no acostamento e uma porta gentil abriu-se. Roland Barthes se aproximou, perguntou ao motorista para onde ia.

— Presidente Prudente — foi o que, laconicamente, ouviu do sujeito no volante, que mal virou o rosto em sua direção.

Não precisava nada melhor:

— Vou pra Assis, estudo na Unesp. Dá licença...

Como o cara não falou nada, Roland Barthes acreditou que podia entrar e acomodar-se no banco. Em poucos segundos, o gol já estava em altíssima velocidade: no mínimo, cento e cinqüenta por hora. Ultrapassava automóveis e caminhões sem sinalizar nem diminuir, como se o dono portasse brevê de aviador em vez de carteira de motorista. Usava, indiferentemente, a segunda faixa como o acostamento.

Roland Barthes, que evita perder a elegância, não dava um pio, mas mentalmente só conseguia repetir: "Pelo amor de Deus, tio, pára com isso! Encosta que eu quero descer!" A boca, porém, nada dizia. O comentário mais crítico que ousou foi uma consideração bem genérica sobre aquela rodovia:

— O trânsito está cada vez mais perigoso na Castelo...

O sujeito, sem voltar-se, mexeu afirmativamente a cabeça. Alguns minutos depois, para completar com palavras o gesto sumário, disse-lhe secamente:

— Uma vez, quando tirava o carro na garage de casa, matei meu filho de um ano e meio. Faz três anos.

Roland Barthes gelou, antes de lamentar profundamente. Olhou de viés o motorista-acrobata, que continuava pisando e ultrapassando obstinadamente, sempre em silêncio. Foi justo aí, nessa virada de rosto, que viu o detector de radar no teto.

Indo com tanta rapidez, o trevo de Assis não demorou a aparecer no horizonte. Roland Barthes suspirou, agradeceu a todos os santos e santas de que se lembrava no momento, jurando nunca mais pegar carona enquanto fosse vivo (caso apeasse ainda com vida).

Os santos e as santas atenderam-lhe. Qinze dias depois, já esquecido da promessa feita e do próprio perigo pelo qual passara, voltou à estrada para de novo pegar carona. Medo e dinheiro passam depressa em alma e bolso de estudante.

Dessa vez, teve mais sorte. Um gol, até meio parecido com o da última carona, parou no acostamento e ele entrou. O carro era mesmo parecido com o anterior. Viu um semelhante detector de radar preso ao teto. Virou o rosto. Diabo! Parecia ser o mesmo motorista!

— Acaso foi o senhor que me deu carona há duas semanas atrás? — ousou perguntar, já trêmulo, para desfazer a dúvida.

O sujeito girou lentamente a cabeça, num quase imperceptível sorriso, e disse-lhe:

— Bem que eu estava te reconhecendo...

 

 

 

O ANJO ATRASADOJosé Carlos Zamboni                                              Contos
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